9 livros de romance que você não pode deixar de ler


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O gênero literário que estamos tratando deriva dos contos épicos e, em termos históricos, podemos situar Dom Quixote (do espanhol Miguel de Cervantes) como o precursor do romance moderno.

Essas narrativas longas fazem enorme sucesso entre o público leitor há séculos sendo, no contexto contemporâneo, dos gêneros literários mais consumidos pela cultura ocidental.

Porque acreditamos no poder transformador dos livros e nas histórias fascinantes encerradas entre a capa e a contracapa, escolhemos nove obras imperdíveis para sugerir a quem é fã do gênero.

1. Memorial do Convento (1982), de José Saramago

Memorial do convento

Publicado em 1982, o romance de José Saramago mistura ficção e História ao narrar o processo de construção do suntuoso convento de Mafra. Com um toque de literatura fantástica, o livro se mostra uma leitura repleta de imagens poéticas e líricas.

No romance dois universos correm em paralelo: o da corte (representado pelo rei D.João V e pela sua esposa, a rainha D.Maria Ana Josefa) e o da plebe (representado pelos pobres Baltazar e Blimunda).

Essas histórias se cruzam quando o rei D.João V decide fazer uma promessa para erguer um convento caso tenha filhos. Como o milagre se realiza, o edifício começa a ser levantado. Baltazar trabalhará na obra.

Então D.João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos

Além de ser uma narrativa bastante prazerosa e cheia de reviravoltas, Memorial do Convento vale a leitura porque nos faz pensar sobre as relações de poder e as injustiças que historicamente foram cometidas.

Lemos nas palavras de Saramago duras críticas sociais ao seu país, que consagrava reis e rainhas que nada fizeram, e relegava o anonimato aqueles que efetivamente trabalharam para construir o patrimônio nacional.

Os protagonistas da história são personagens ímpares que merecem ser conhecidos. Baltazar é um ex-militar que foi dispensado da tropa após perder uma mão na guerra, e Blimunda é filha de uma bruxa e tem o dom de ver o interior das pessoas quando está em jejum.

Sugerimos a leitura desse memorável romance para todos aqueles que se interessam por narrativas históricas e que se fascinam por universos fantásticos.

Memorial do Convento encontra-se disponível para download gratuito em formato pdf.

2. Em busca do tempo perdido (1913), de Marcel Proust

Proust

Um clássico que nunca perde a validade, essa poderia ser uma boa definição para caracterizar os tomos de Em busca do tempo perdido, a obra-prima do escritor francês Marcel Proust.

O romance de dimensões enormes tem um narrador em primeira pessoa que apenas rapidamente é nomeado (não por acaso chamam-o de Marcel).

O romance, que se baseia na exploração dos meandros da memória e num mergulho no passado, é capaz de provocar identificação imediata com cada um de nós.

Para se ter ideia do tom da escrita, em uma das passagens mais brilhantes do livro o protagonista dá uma mordida em uma madeleine e o sabor do bolinho transporta o narrador para a infância:

o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações

A obra, que foi escrita nos últimos quinze ou dezesseis anos de vida do autor, é de uma delicadeza ímpar e narra com detalhes a infância e a adolescência do protagonista com todas as inquietações que o amadurecimento envolve.

Vemos a maneira como o personagem se relaciona com as pessoas ao redor e observamos situações caricatas, por vezes encobertas por ciúme, raiva, mas sobretudo por afeto.

As mais de três mil páginas passam num instante e rapidamente o leitor cria um laço com o protagonista que faz com que ele se reveja nas páginas do livro.

3. Lolita (1955), de Vladimir Nabókov

Lolita

Humbert é o protagonista da história contada pelo escritor russo Vladimir Nabókov.

O romance gira principalmente em torno de duas personagens: Humbert, um intelectual mais velho que se apaixona por Lolita, uma jovem menina de doze anos filha da sua senhoria.

Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.

Apaixonado é uma palavra fraca para descrever o que Humbert sente por Lolita, talvez o termo correto seja aficcionado. Para piorar a situação, a mãe de Lolita declara-se para Humbert, que finge corresponder só para estar cada vez mais próximo da menina.

Ao longo das páginas vemos, segundo o olhar de Humbert, os personagens complexos se modificarem: para ele afinal Lolita era geniosa e não tão inocente. O protagonista sente que precisa seduzi-la. Funciona ali uma dinâmica de poder, ciúme, posse e desejo que caminha numa linha muito tênue no que se refere à sanidade.

Denso e surpreendente, embarcamos no romance e muitas vezes nos perguntamos ao lado de quem nos posicionamos. Uma literatura que nos tira do lugar e faz com que nos questionemos sobre quais são os limites saudáveis para se estabelecer uma relação amorosa.

O romance Lolita está disponível em formato pdf.

4. Terra sonâmbula (1922), de Mia Couto

Terra sonâmbula

Publicado em 1992, esse é o único título da lista do continente africano.

Escrito por Mia Couto, considerado um dos maiores autores do século XX, o romance Terra sonâmbula trata da dura realidade de Moçambique, um país assolado pela guerra civil durante cerca de 16 anos.

A trágica história do país africano serve como pano de fundo para uma narrativa profundamente delicada:

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível.

Apesar do romance de Mia Couto narrar uma história extremamente pesada, as palavras e a construção literária utilizadas são profundamente poéticas.

Os dois personagens principais são Muidinga, um sujeito que perdeu a memória, e Tuahir, um velho sábio que ajuda Muidinga a recuperar o resto do seu passado.

Se gosta do estilo do realismo mágico e tem preferências por narrativas encenadas em contextos reais esse é um romance a não perder.

5. A abadia de Northanger (1818), de Jane Austen

Northanger Abbey

O primeiro romance escrito pela inglesa Jane Austin foi concluído no ano de 1803 apesar de só ter sido publicado postumamente em 1818. Embora se passe entre o final do século XVIII e o início do século XIX, trata-se de uma obra atemporal.

O romance dá a ver, a partir do olhar da mocinha protagonista Catherine Morland, o funcionamento da sociedade burguesa britânica.

Extremamente irônica, a obra é uma sátira da literatura que vinha sendo produzida naquele período. Estando intimamente ligada ao seu tempo, vemos nas páginas de Austen duras críticas à sociedade. O machismo é uma dos pilares mais questionados pela narradora:

No casamento, espera-se que o homem provenha o sustento da mulher, e a mulher, a tornar a casa agradável ao homem. Ele deve fornecer, e a mulher, sorrir.

A vida de Catherine, que estava habituada a um cotidiano simples em meio a uma família composta por dez irmãos, muda completamente quando ela recebe um convite para passar uma temporada na região de Bath na companhia do abastado casal Allen. É nesse lugar que ela sairá da rotina modesta e passará a frequentar a alta sociedade indo a bailes e teatros.

A leitura do romance de Jane - extremamente sedutor para o leitor - fará com que se mergulhe em um universo completamente distinto, uma Inglaterra conservadora e com hábitos e valores completamente divergentes dos contemporâneos.

A abadia de Northanger encontra-se disponível para download.

6. O alienista (1882), de Machado de Assis

O alienista

Numa lista de grandes romances não poderia faltar o brilhante Machado de Assis. Muitos romances poderiam entrar aqui, mas O Alienista foi o vencedor por ter sido publicado há tanto tempo (em 1882) e continuar sendo uma história extremamente contemporânea.

O protagonista Dr.Simão Bacamarte é o centro da narrativa passada na vila de Itaguaí. Tido como um super médico, formado no exterior, o homem das ciências retorna para a sua terra e se casa com a viúva Evarista da Costa e Mascarenhas.

Aficcionado pelo estudo e pela pesquisa, ele resolve se aprofundar no estudo da medicina. O doutor prodígio começa a diagnosticar os moradores da região com uma série de doenças mentais.

São tantos os loucos afinal que ele consegue autorização para erguer um hospício, a famosa Casa Verde.

A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por alusão à cor das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí. Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a caridade cristã com que eles iam ser tratados.

O romance de Machado encanta pelo senso de humor e pela reviravolta do enredo, que faz com que todos nós nos questionemos a fronteira sutil entre a sanidade e a loucura.

Conheça uma análise aprofundada do Livro O alienista, de Machado de Assis.

7. A paixão segundo G.H. (1964), de Clarice Lispector

A paixão segundo G.H.

Densa, filosófica, profunda, esses são adjetivos geralmente usados para caracterizar a literatura de Clarice Lispector.

A paixão segundo G.H., publicado em 1964, é das suas maiores obras e nela encontramos uma narradora em primeira pessoa que devaneia a partir de uma cena a princípio corriqueira.

Tudo começa quando a protagonista, uma mulher bem sucedida, decide demitir a empregada e, diante da falta da ajudante, precisa realizar uma faxina. É durante a faxina que ela se depara com uma barata:

De encontro ao rosto que eu pusera dentro da abertura, bem próximo de meus olhos, na meia escuridão, movera-se a barata grossa. Meu grito foi tão abafado que só pelo silêncio contrastante percebi que não havia gritado, o grito ficara me batendo dentro do peito.

Sem saber o que fazer, a protagonista mata o inseto e, ao ver o corpo do animal estirado, resolve tomar uma atitude bizarra: provar as suas entranhas.

É do encontro inesperado com o inseto que surgem reflexões intensas sobre a vida e sobre a própria condição existencial da personagem.

Sem saber bem quem é e qual é o seu lugar no mundo, a protagonista divaga sobre o que foi a sua vida e sobre a relação que estabelece com o meio ao redor.

8. Memória de minhas putas tristes (2004), de Gabriel García Márquez

Memória de minhas putas tristes

O autor vencedor do prêmio Nobel costuma ser reconhecido pelo seu clássico livro Cem anos de solidão, no entanto, o colombiano Gabriel García Márquez tem outros tantos livros imperdíveis. Memória de minhas putas triste é um desses grandes romances que acaba por ser um poço de emoção.

Narrado em primeira pessoa por um jornalista de noventa anos, a história começa a se delinear quando o protagonista resolve se dar de presente de aniversário uma sessão de prazer com uma virgem. Já habituado a frequentar bordéis, ele encomenda a tal virgem:

No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. (...)
— É hoje.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite.

A dona do bordel, depois de muito procurar a tal adolescente virgem, o oferece então uma menina de apenas catorze anos.

É a partir do contato que o estabelece com ela que o protagonista começa a repensar as escolhas que tomou na vida, a se questionar sobre o processo de envelhecimento e sobre a sua condição solitária.

Não perca tempo e leia o belo Memória de minhas putas tristes.

9. Sôbolos rios que vão (2010), de António Lobo Antunes

Sobolos rios que vão

António Lobo Antunes é dos maiores escritores da literatura portuguesa contemporânea e Sôbolos rios que vão é uma das suas mais preciosas obras-primas. Nessa publicação de cerca de 200 páginas vemos um homem velho, no hospital, rememorar o passado e redescobrir aquele que algum dia foi: o menino Antoninho.

Com um tom autobiográfico, vemos como o autor português cria com maestria um espaço híbrido, onde passado e presente se misturam.

O cotidiano da doença e do desamparo é contagiado pelas cenas da juventude, tantas vezes felizes, e o leitor é transportado de um momento para o outro através das palavras:

Da janela do hospital em Lisboa não eram as pessoas que entravam nem os automóveis entre as árvores nem uma ambulância que via, era o comboio a seguir aos pinheiros, casas, mais pinheiros e a serra ao fundo com o nevoeiro afastando-a dele, (...) sentiu o cheiro das compotas na despensa, vasos em cada degrau da escada e como os vasos intactos não aconteceu fosse o que fosse, por um triz, estendido na maca à saída do exame, não perguntou ao médico

Apesar de ser escrito sob o formato de prosa, podemos dizer que a linguagem antuniana é extremamente poética e convoca todo um universo lúdico.

Se está a procura de um romance mesmo bonito, podemos apostar que Sôbolos rios que vão é a escolha certa.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).