Livro Iracema, de José de Alencar


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

No romance, a protagonista Iracema, uma índia, se apaixona por Martim, um português. Juntos eles têm um filho, Moacir, considerado o primeiro brasileiro, fruto do amor entre uma colonizada e um colonizador.

O livro Iracema é uma obra-prima que pertence ao Indianismo (fase do Romantismo Brasileiro).

Resumo

O encontro da índia com o português

Iracema é uma índia, filha do pajé Araquém, nascida e criada em uma tribo nos campos dos Tabajara. A jovem vigiava as florestas até um dia atacar aquele que pensava ser um invasor.

Quem recebeu a flechava foi Martim, um aventureiro português.

Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

Culpada por ter disparado a flecha de modo precipitado, Iracema imediatamente socorre Martim e o leva para a tribo para tratar dos ferimentos.

Martim é apresentado à tribo

Como Martim oferece ajuda à Araquém, pai de Iracema, para defender a tribo, ambos criam uma relação estreita e o pajé propõe, em troca da proteção, mulheres e hospedagem.

Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho pajé apagou o cachimbo e falou:
— Vieste?
— Vim, respondeu o desconhecido.
— Bem vieste. O estrangeiro é senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão.

Martim não aceita as mulheres que lhe são oferecidas porque só tem olhos para Iracema.

Teoricamente nada impediria o casal composto por uma índia e por um português de ficar junto, exceto o fato de Iracema deter o segredo de Jurema, o que faz com que ela precise se manter virgem.

A paixão fulminante

Martim e Iracema se apaixonam e passam a viver um amor proibido, migrando para uma cabana afastada da tribo. O resultado desse amor surge após alguns meses: nasce Moacir, longe da tribo.

A jovem mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com ele arrojou-se às águas límpidas do rio. Depois suspendeu-o à teta mimosa; seus olhos então o envolviam de tristeza e amor.
— Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento.

O romance entre o casal, no entanto, não dura muito tempo. Martim dá sinais que sente falta da sua terra e Iracema percebe que sente saudades do seu povo.

Ao final do romance, Iracema morre e Martim leva o pequeno Moacir para viver em Portugal.

Personagens principais

Iracema

É filha do pajé Araquém, nasceu e se criou nos campos dos Tabajaras. Fisicamente Iracema é descrita como "a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira". O nome Iracema é um anagrama de América. A jovem representa os nativos que viviam no Brasil antes da chegada do colonizador.

Martim

Valente, Martim Soares Moreno é um aventureiro português que vem para o Brasil ainda pouco conhecido, apenas povoado por algumas tribos indígenas. Ao conhecer a índia Iracema imediatamente se apaixona por ela. O nome dado ao protagonista faz referência a um personagem histórico real, um sujeito que teria sido o responsável pela fundação do Estado do Ceará. Martim simboliza os portugueses que migraram rumo à colônia para tentar explorar a região.

Moacir

É o filho do casal Iracema e Martim. Iracema dá a luz a Moacir sozinha, enquanto Poti e Martim saem para uma batalha. Depois da morte da mãe, Iracema, Moacir é levado pelo pai para viver em Portugal. Moacir representa a gênese do povo brasileiro: fruto da relação de um nativo com um europeu.

Poti

O guerreiro Poti é amigo fiel de Martim. A amizade entre os dois é tão forte que Poti abandona a tribo e se muda para a cabana distante a fim de viver com o casal e ajudar o amigo.

Análise do livro

Idealização

Na obra prima de José de Alencar encontramos uma protagonista altamente idealizada. Iracema é uma representante romântica do seu povo, a moça é descrita como corajosa, honesta, generosa, doadora, encantadora, bela, casta e pura. Símbolo do amor e da maternidade, Iracema não vê maldade ao seu redor.

Mas não é apenas a personagem principal feminina que é romantizada, o próprio cenário é idealizado. O Estado que abriga a história, o Ceará, aparece como um espaço paradisíaco, um cenário idílico que serve como pano de fundo para uma paixão proibida e avassaladora.

O simbolismo de Moacir

O pequeno Moacir é o simbolicamente não só o primeiro cearense, como também o primeiro brasileiro. Ele é igualmente tido como o primeiro mestiço, o primeiro indígena e ao mesmo tempo não indígena, fruto da relação de uma índia com um branco.

Produto do sofrimento, o rapaz é, ao mesmo tempo, símbolo do encontro e do desencontro. Ele é resultado de uma paixão avassaladora, mas também é a representação do destino de um amor inalcançável.

É importante sublinhar que, na narrativa, para Moacir viver a mãe precisa morrer. Iracema perde a vida logo depois de dar a luz e o pequeno bebê é levado para o velho continente onde será educado.

Em termos alegóricos, pode-se afirmar que é a partir do sacrifício (voluntário) do índio que nasce o primeiro brasileiro. É o que sublinha o intelectual Alfredo Bosi:

Nas histórias de Peri e de Iracema a entrega do índio ao branco é incondicional, faz-se de corpo e alma, implicando sacrifício e abandono da sua pertença à tribo de origem. Uma partida sem retorno. Da virgem dos lábios de mel disse Machado de Assis em artigo que escreveu logo que saiu o romance: "Não resiste, nem indaga: desde que o olhos de Martim se trocaram com os seus, a moça curvou a cabeça àquela doce escravidão".
O risco de sofrimento e morte é aceito pelo selvagem sem qualquer hesitação, como se a sua atitude devota para com o branco representasse o cumprimento de um destino, que Alencar apresenta em termos heroicos ou idílicos.

A importância da publicação

Iracema foi publicado em 1865 e inicialmente possuía o subtítulo "Lenda do Ceará". Literariamente importante para todo o país, a verdade é que o romance foi ainda mais marcante para a história do Estado. Para se ter uma ideia da importância da publicação, o nome da protagonista serviu de inspiração para uma série de monumentos da região além de ser o nome da sede do governo e de um trecho da orla de Fortaleza.

A criação literária partiu de uma tentativa do autor de criar uma ficção de fundação. Iracema pretende tecer uma construção de identidade nacional e, ao mesmo tempo, racial.

Intelectual preocupado e engajado com a política do país, José de Alencar encontrou na composição do romance uma maneira de contribuir para o estabelecimento do nosso mito de origem.

Corrente literária

O Indianismo foi uma das fases do Romantismo. Durante esse período procurou-se voltar ao passado, à gênese do povo brasileiro, evocando o nacionalismo e exaltando as belezas naturais do nosso país.

O movimento romântico preconizava uma fuga da realidade, considerada sem graça e entediante. Nesse sentido foi muito interessante a solução que o movimento encontrou: voltar os olhares para o índio como uma figura idealizada. Nesse contexto o índio se transformou em uma espécie de herói nacional.

Iracema pertence a chamada trilogia indianista de José de Alencar. Os outros dois romances que acompanham Iracema são O Guarani (1857) e Ubirajara (1874).

Sobre José de Alencar

Nascido no Ceará, o escritor bebeu muito na cultura local para escrever Iracema. José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana, atualmente zona incorporada ao município de Fortaleza, em 1º de maio de 1829. Estudou no Rio de Janeiro, onde cursou o ensino elementar e secundário, e em São Paulo, onde se formou em Direito.

Exerceu a função de advogado embora tenha transcendido os muros do direito: foi jornalista, orador, crítico teatral, escritor e político. Chegou a ser deputado e ministro da Justiça.

Ocupou a cadeira número 23 da Academia Brasileira de Letras por escolha de Machado de Assis.

Morreu jovem, com apenas quarenta e oito anos, de tuberculose, no dia 12 de dezembro de 1877.

José de Alencar
Retrato de José de Alencar.

Quer conhecer Iracema?

O romance Iracema está disponível para download gratuito através do domínio público.

Para ouvir o livro acesse o audiobook:

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).