Indicamos os 21 melhores livros para ler em 2022


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Reunimos aqui dicas de leitura bastante ecléticas com títulos de praticamente todos os gêneros.

Também não nos restringimos a um tempo histórico ou a um país específico, o nosso único critério foi recomendar livros que façam a diferença no seu ano de 2022.

1. Torto arado, de Itamar Vieira Junior

Torto arado

O primeiro romance do escritor baiano Itamar Vieira Junior arrebatou uma série de prêmios importantes como o Jabuti de Literatura e o Prêmio Leya de Livro do Ano e foi lançado em 2019.

Passado no sertão baiano em um contexto rural, conhecemos uma família de descendentes de escravos que segue sendo explorada - apesar da lei Áurea já ter sido assinada há mais de 100 anos, em 1888.

As duas protagonistas, as irmãs Bibiana e Belonísia, lidam de formas bastante distintas com a condição em que vivem ao lado da família. Enquanto Bibiana tem uma postura mais conformada com o destino, Belonísia é revoltada com a condição em que a família vive e deseja com todas as forças lutar pela terra onde trabalham.

Quando retirei a faca da mala de roupas, embrulhada em um pedaço de tecido antigo e encardido, com nódoas escuras e um nó no meio, tinha pouco mais de sete anos. Minha irmã, Belonísia, que estava comigo, era mais nova um ano. Pouco antes daquele evento estávamos no terreiro da casa antiga, brincando com bonecas feitas de espigas de milho colhidas na semana anterior.

Num contexto marcado pelo preconceito racial e de gênero, pelo conservadorismo e sobretudo pela exploração, Belonísia sente que o seu papel é lutar pela emancipação dos trabalhadores explorados e oprimidos.

Torto arado é um livro corajoso que pretende fazer um retrato da vida rural da Bahia.

2. A filha perdida, de Elena Ferrante

A filha perdida livro

Esse romance da escritora italiana Elena Ferrante foi publicado em 2006 e ganhou uma bela adaptação para o cinema no final de 2021.

A autora, que mantém sua identidade em sigilo, trabalha questões difíceis e polêmicas que permeiam o universo das mulheres.

Em A filha perdida, a protagonista é Leda, uma mulher madura que decide viajar sozinha para o litoral da Grécia. Lá se depara com uma família que acaba tirando sua paz.

Leda conhece Nina e sua filha Elena. A dinâmica entre a jovem mãe e a criança desperta memórias dolorosas em Leda e sentimentos conflituosos acerca de sua própria relação com as filhas.

Um livro corajoso, com uma narrativa potente que apresenta a ideia de maternidade e família de uma maneira realista e crua.

3. Sobre os Ossos dos Mortos, de Olga Tokarczuk

Sobre os Ossos dos Mortos

Essa autora polonesa recebeu o prêmio Nobel em 2018 e, se você ainda não a conhece, corra agora para a conhecer.

A escritora, que apesar da pouca idade já coleciona prêmios nos conta nesse romance de 2009 a história da protagonista Janina Duszejko, uma senhora de sessenta anos apaixonada por animais.

Já atingi uma idade e, além disso, um estado em que, antes de me deitar, devia lavar muito bem os pés, no caso de uma ambulância ter de me levar durante a Noite.

Janina mora em um vilarejo afastado com dois cães. Seu drama se inicia quando os cachorros desaparecem - e, para completar o mistério, na pacata região duas pessoas aparecem mortas também sem motivo.

Esse enredo cheio de questões serve de pretexto para uma autora madura refletir sobre as questões filosóficas da vida.

4. Tempos ásperos, de Mario Vargas Llosa

Tempos asperos

O escritor peruano, que é Prêmio Nobel da Literatura, dessa vez resolveu contar para o público uma história que se passou no tempo da Guerra Fria e mistura realidade e ficção.

A obra fala sobre o golpe político que aconteceu na Guatemala, nos anos 50, e sobre as consequências sociais não só para o país como para a América Latina como um todo.

Embora desconhecidos do grande público, e apesar de figurarem de maneira muito pouco ostentosa nos livros de história, provavelmente as duas pessoas que mais influenciaram o destino da Guatemala e, de certa forma, de toda a América Central no século XX foram Edward L. Bernays e Sam Zemurray, dois personagens que não podiam ser mais diferentes entre si por sua origem, seu temperamento e sua vocação.

Lançado no final de 2020, esse romance histórico é uma aposta do escritor peruano para tentar entender melhor o mundo contemporâneo em que vivemos.

Para Vargas Llosa, a queda do presidente da Guatemala (Jacobo Árbenz), eleito democraticamente, foi fundamental para a radicalização política que vigora cada vez com mais força até os dias de hoje.

O antigo presidente Árbenz caiu graças a um golpe militar cautelosamente orquestrado, deixando a Guatemala numa perigosa situação política e social.

5. Tudo sobre o amor, de bell hooks

tudo sobre o amor, livro de bell hooks

A intelectual e ativista afro-americana bell hooks é um daqueles nomes que deveriam ser conhecidos por todos. Falecida no final de 2021, ela deixou como legado uma obra potente que busca a transformação do mundo em diversos âmbitos, olhando principalmente para a questão de raça e gênero.

Tudo sobre o amor: novas perspectivas, lançado no início de 2021,traz o pensamento da autora sobre esse sentimento tão conhecido e ao mesmo tempo complexo que envolve as relações entre casais, amigos e familiares.

De maneira afirmativa e embasada, bell hooks relaciona o amor à uma atitude política que deve estar presente em nossas vidas de maneira natural.

Amor-próprio é a base de nossa prática amorosa. Sem ele, nossos outros esforços amorosos falham. Ao dar amor a nós mesmos, concedemos ao nosso ser interior a oportunidade de ter o amor incondicional que talvez tenhamos sempre desejado receber de outra pessoa.

6. O ano do pensamento mágico, de Joan Didion

O ano do pensamento mágico

O luto é dos temas mais duros que um escritor pode abordar. Joan Didion enfrenta, no entanto, com uma coragem ímpar, o desafio proposto. O ano do pensamento mágico é uma obra autobiográfica que foi lançada em 2005 e surge a partir da experiência da autora de ter perdido o marido de modo repentino.

Antes de ser um livro pesado ou deprimente, a abordagem escolhida pela escritora é a da honestidade absoluta e a da transmissão de dados recolhidos a partir de investigações científicas.

Sim, Didion foi a procura de uma série de estudos sobre o luto para ajudá-la a compreender melhor o que estava se passando no seu próprio corpo.

Generosamente esses ensinamentos foram partilhados com o leitor, que encerra a leitura do livro muito mais rico e consciente da finitude da vida:

Não tinha feito alterações naquele documento desde que escrevera as palavras, em maio de 2004, um dia ou dois ou três depois do sucedido.
A vida muda num instante.
Um instante normal.
Em algum momento, com vista a poder lembrar-me daquilo que parecia mais assinalável sobre o que se passara, considerei acrescentar aquelas palavras: «um instante normal». Vi de imediato que não havia necessidade de acrescentar a palavra «normal», porque jamais o esqueceria: a palavra nunca abandonou a minha mente. De fato, era a natureza normal de tudo o que precedera o acontecimento que me impediu de acreditar que aquilo sucedera verdadeiramente, e de o absorver, incorporar, ultrapassar.

Com uma linguagem simples, coloquial, e uma entrega total - uma honestidade avassaladora - ficamos conhecendo o sofrimento de Didion, que é igual ao de todos nós que já perdemos uma pessoa querida.

Ao invés de nos esquivarmos da morte, o livro nos faz pensar sobre o assunto de uma maneira desdramatizada e realista, dando ferramentas para melhor digerirmos esse processo terrível que é o luto.

7. A cachorra, de Pilar Quintana

Livro A cachorra de Pilar Quintana

Lançado em 2020 no Brasil, esse é um romance visceral da colombiana Pilar Quintana, voz importante na literatura contemporânea da América Latina.

Exibe a história de Damaris, uma mulher humilde que divide sua vida com Rogelio, mas sente uma profunda solidão e frustração por não ter conseguido gerar filhos.

Assim, ela resolve adotar uma cachorra, o que a colocará diante de situações e emoções intensas e contraditórias, como é comum também na maternidade.

Escrito durante o puerpério da própria autora, ou seja, pouco depois dela dar à luz, A cachorra foi recebido com muito entusiasmo pela crítica e público, ganhando o prêmio Biblioteca de Narrativa Colombiana em 2018.

O casebre em que moravam era de madeira e estava em mau estado. Quando caía uma tempestade, tremia com os trovões e balançava com o vento, a água entrava pelas goteiras do teto e pelas frestas nas tábuas das paredes, tudo ficava frio e úmido, e a cadela punha-se a choramingar.

Fazia muito tempo que Damaris e Rogelio dormiam em quartos separados, e nestas noites ela se levantava depressa, antes que ele pudesse dizer ou fazer algo.

Tirava a cachorra da caixa e ficava com ela na escuridão, acarinhando-a, morta de susto por causa das explosões dos raios e da fúria do vendaval, sentindo-se diminuta, menor e menos importante no mundo do que um grão de areia do mar, até que a cachorra se aquietava.

8. Para Viver Em Paz o Milagre da Mente Alerta, de Thich Nhat Hanh

Para viver em paz o milagre da mente alerta

Para os que se interessam por práticas meditativas e buscam desacelerar da rotina estressante, esse é um livro que certamente fará diferença.

Publicado em 1975, é considerado uma espécie de "manual" sobre meditação, a obra é do mestre zen vietnamita Thich Nhat Hanh, falecido aos 95 anos no no início de 2022.

Com exercícios práticos, o autor nos orienta pelos caminhos da mente, nos ajudando a desenvolver um olhar apurado para o momento presente, buscando despertar em nós a atenção plena de maneira objetiva e amorosa.

9. Don Juan (Narrado por Ele Mesmo), de Peter Handke

Don Juan (Narrado por Ele Mesmo)

O vencedor do último prêmio Nobel de Literatura é Peter Handke, um autor e dramaturgo austríaco que merece mesmo ser conhecido.

Uma das suas obras mais celebradas é Don Juan (Narrado por Ele Mesmo), de 2004. Conta a história de um homem solitário que faz da leitura o seu principal hobby. Cozinheiro de profissão, sempre que pode mergulha nas páginas dos livros.

De tanto gostar de ler, um dia, de súbito, o icônico personagem da literatura Don Juan aparece no seu quintal dando início a um diálogo interessante, curioso e original.

Don Juan sempre estivera à procura de um ouvinte. E foi em mim que, um belo dia, o encontrou. Sua história, não me contou em primeira pessoa, mas em terceira. Pelo menos é assim que me vem à memória agora.

10. Os da minha rua, de Ondjaki

ondjaki os da minha rua

Ondjaki é o pseudônimo do escritor Ndalu de Almeida, um dos maiores nomes da literatura contemporânea angolana.

O livro Os da minha rua, de 2007 reúne breves histórias independentes que traçam um panorama da infância vivida pelo autor em Luanda.

O Jika era o mais novo da minha rua. Assim: o Tibas era o mais velho, depois havia o Bruno Ferraz, eu e o Jika. Nós até às vezes lhe protegíamos doutros mais velhos que vinham fazer confusão na nossa rua. O almoço na minha casa era perto do meio-dia. Às vezes quase à 1h.

Com um forte teor autobiográfico, o livro consegue ser ao mesmo tempo pessoal e universal. Ele fala de uma infância específica, embora cause também muita identificação com todos nós.

11. Sapiens: História Breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari

Sapiens: História Breve da Humanidade, de Yuval Noah Harari

O autor de Sapiens: História Breve da Humanidade é Yuval Harari, um historiador (doutor em História pela Universidade de Oxford) e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Nesse best-seller de 2011 ficamos conhecendo o processo de evolução da espécie humana pelo planeta. A partir de uma perspectiva interdisciplinar e científica, descobrimos o percurso do homem na Terra.

Aprendemos o que se passou nesse período de 70.000 anos da história humana e somos apresentados as revoluções que o homem promoveu ao longo do tempo (vale sublinhar as três maiores revoluções da espécie: a Revolução Cognitiva, a Revolução Agrícola e a Revolução Científica).

Há cerca de 13,5 bilhões de anos, a matéria, a energia, o tempo e o espaço surgiram naquilo que é conhecido como o Big Bang. A história dessas características fundamentais do nosso universo é denominada física.
Por volta de 300 mil anos após seu surgimento, a matéria e a energia começaram a se aglutinar em estruturas complexas, chamadas átomos, que então se combinaram em moléculas. A história dos átomos, das moléculas e de suas interações é denominada química.
Há cerca de 3,8 bilhões de anos, em um planeta chamado Terra, certas moléculas se combinaram para formar estruturas particularmente grandes e complexas chamadas organismos. A história dos organismos é denominada biologia.

12. O dilema do porco-espinho, de Leandro Karnal

O dilema do porco-espinho, de Leandro Karnal

O livro do historiador Leandro Karnal gira em torno de uma das maiores questões contemporâneas: a solidão.

A obra não enfoca apenas na solidão literal - no estar sozinho propriamente dito - mas também na sensação de solidão que persiste mesmo quando estamos acompanhados.

Em O dilema do porco espinho, de 2018,vemos um apanhado de ensinamentos recolhidos de diversos filósofos e pensadores - retirados inclusive da própria Bíblia - e nos perguntamos: por que nos sentimos sozinhos? A solidão é necessariamente má? Como podemos processa-la de modo saudável?

A explicação do título do livro pode ser encontrada já nas primeiras páginas e é um mote que guiará toda a narrativa:

Somos uma espécie de porco-espinho, pensava o filósofo Arthur Schopenhauer. Por quê? O frio do inverno (ou da solidão) nos castiga. Para buscar o calor do corpo alheio, ficamos próximos dos outros. Efeito inevitável do movimento: os espinhos nos perfuram e causam dor (e os nossos a eles). O incômodo nos afasta. Ficamos isolados novamente. O frio aumenta, e tentamos voltar ao convívio com o mesmo resultado.
A metáfora do filósofo alemão trata do dilema do humano: solitários, somos livres, porém passamos frio. A dois ou em grupo as diferenças causam dores.

13. Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust

Um clássico que nunca perde a validade, essa talvez seja a melhor definição para caracterizar a obra-prima do escritor francês Marcel Proust.

Esse clássico da literatura francesa, publicado pela primeira vez em 1913 permite um mergulho no passado, e especialmente na infância e na juventude do protagonista.

A leitura embala o leitor e o atravessa de tal maneira que a determinado momento parece ser impossível largar o livro.

A verdade é que no passado de Marcel encontramos um pouco do passado de todos nós: as descobertas, as aventuras, as primeiras paixões, o entusiasmo juvenil.

Lembremos aqui da clássica passagem do doce madaleine, talvez a mais citada da obra, quando o protagonista é transportado no tempo de volta à infância depois de comer um biscoito:

Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleines, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madeleine. Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. (…) E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedacinho de madeleine que minha tia Léonie me dava aos domingos pela manhã em Combray (porque nesse dia eu não saía antes da hora da missa), quando ia lhe dar bom-dia no seu quarto, depois de mergulhá-lo em sua infusão de chá ou de tília.

Com uma linguagem extremamente simples e acessível somos convidados a conhecer o cotidiano desse rapazinho ingênuo que queria ser escritor.

A dica de leitura de Em Busca do Tempo Perdido para o ano a seguir provavelmente irá ocupar também os seus próximos anos: as edições de Em Busca do Tempo Perdido são compostas por sete volumes.

Acredite, vale a pena embarcar nesse teletransporte para o passado e se deliciar com as descobertas feita por ele - Marcel - e por nós mesmos ao longo do trajeto.

14. Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector

Felicidade clandestina

A reunião de contos intitulada Felicidade clandestina não é nova - na verdade foi lançada em 1971 -, mas merece ser lembrada aqui devido a sua beleza e profundidade.

A obra reúne 25 textos curtos e tem como tema o amor, a família, a solidão, a estranheza, as angústias existenciais e o descompasso com mundo.

A escrita - muitas vezes composta em estilo fluxo de consciência e com um traço autobiográfico - deixa ver a marca da autora Clarice Lispector.

Com a sua sensibilidade ímpar lemos, por exemplo, o conto Amor, narrado em terceira pessoa, que traz como protagonista Ana, uma mulher comum: mãe, esposa, dona de casa, com um cotidiano simples.

Um belo dia, andando de bonde, Ana vê um cego mascando chiclete. Dessa imagem surge um profundo questionamento existencial que a inquieta e a faz considerar todos os aspectos da sua vida pessoal. Amor é uma pequena obra-prima de Clarice Lispector.

Indicamos a leitura de Felicidade clandestina a espera que você se delicie com pérolas como os contos O ovo e a galinha, Menino a bico de pena e Restos do carnaval.

Conheça mais sobre o livro Felicidade Clandestina.

15. Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Terra sonambula

Considerado dos doze melhores livros africanos do século XX, Terra Sonâmbula talvez seja o livro mais consagrado do escritor moçambicano Mia Couto.

Vale lembrar que o autor recebeu em 2013 o Prêmio Camões, o mais importante galardão da literatura de língua portuguesa.

Publicado em 1992, Terra Sonâmbula está dividido em onze capítulos e lembra muito a escrita de Guimarães Rosa - além de ser extremamente poética, é intimamente relacionada à sua terra.

O título faz uma referência à situação política e social de Moçambique, que passou por uma dura guerra civil durante anos a fio (1977-1992). Sonâmbula é uma maneira de sublinhar como aquele território não teve descanso.

Com uma história que mescla sonho e realidade, ficamos conhecendo os protagonistas Muidinga e Tuahir. O primeiro personagem perdeu a memória e o segundo é um velho sábio da região que passa a guiar Muidinga depois da guerra.

Conhecido por compor uma prosa regionalista, que se apropria da linguagem local e das lendas e mitos da região, o romance irá conduzi-lo por horizontes inimagináveis.

16. Toda poesia, de Paulo Leminski

Toda poesia, de Paulo Leminski

Publicado em 2013, Toda poesia, do brasileiro Paulo Leminski, reúne a enorme produção do poeta em um só lugar.

Se você é amante de poesia ou pelo menos tem curiosidade acerca dos versos, vale a pena se debruçar sobre esse título que é considerado das maiores antologias já publicadas no país.

O livro abarca poemas já conhecidos do grande público como "Incenso fosse música":

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Mas também traz a tona uma série de escritos que pareciam ter se perdido no tempo em publicações pontuais e com pouca tiragem.

A lírica de Leminski é extremamente coloquial, com fortes traços de humor e descontração. Seus poemas podem servir de trilha sonora ou legenda para alguns dos momentos importantes das nossas vidas e merecem ser celebrados e partilhados com os mais chegados.

Conheça também Os 10 melhores poemas de Leminski.

17. Fim, de Fernanda Torres

Fim, de Fernanda Torres

O romance de estreia da atriz Fernanda Torres é marcado por um humor avassalador. Fim, publicado em 2013, narra a história do final de vida de cinco amigos, velhos moradores de Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro.

Já caminhando para a morte, os amigos se reúnem e lembram momentos marcantes da vida como as conquistas amorosas, as traições, as aventuras da juventude - tudo marcado com um misto de saudosismo e comicidade.

Longe de ser um romance trágico por abordar o fim da vida, o que Fim faz é encontrar graça em existências tão ricas de experiência.

Para dar uma prova ao leitor de como será essa bem humorada experiência de leitura, trazemos aqui um trechinho da fala de Álvaro, um dos protagonistas:

Morte lenta ao luso infame que inventou a calçada portuguesa. Maldito d. Manuel I e sua corja de tenentes Eusébios. Quadrados de pedregulho irregular socados à mão. À mão! É claro que ia soltar, ninguém reparou que ia soltar? Branco, preto, branco, preto, as ondas do mar de Copacabana. De que me servem as ondas do mar de Copacabana? Me deem chão liso, sem protuberâncias calcárias. Mosaico estúpido. Mania de mosaico. Joga concreto em cima e aplaina. Buraco, cratera, pedra solta, bueiro-bomba. Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos.

Ouça também um trecho de Fim, lido pela própria Fernanda Torres:

18. Nenhum olhar, de José Luís Peixoto

Nenhum olhar

Você é daqueles que adora um bom romance? Então anote na sua lista a obra-prima Nenhum olhar, de 2018, escrita pelo autor português José Luís Peixoto, vencedora do Prêmio José Saramago.

A história se passa no interior de Portugal - para ser mais precisa, em uma aldeia situada no Alentejo - e tem uma pegada extremamente poética.

A linguagem utilizada é profundamente lírica e delicada:

O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.

A narrativa se passa em um ambiente de extrema pobreza e os personagens supostamente reais se misturam com criaturas alegóricas, dando origem a um universo triste e fantasioso, repleto de silêncios e mistério.

19. A chave de casa, de Tatiana Salem Levy

A chave de casa

O romance da escritora Tatiana Salem Levy recebeu o Prêmio Portugal Telecom. O livro de 2007 é assumidamente autobiográfico, é uma procura pela sua ancestralidade:

Escrevo sem poder escrever e: por isso escrevo. De resto, não saberia o que fazer com este corpo que, desde a sua chegada ao mundo, não consegue sair do lugar. Porque eu já nasci velha, numa cadeira de rodas, com as pernas enguiçadas, os braços ressequidos. Nasci com cheiro de terra úmida, o bafo de tempos antigos sobre o meu dorso.

Existe uma tradição dos judeus sefarditas guardarem a chave da casa que precisaram abandonar, esse é o pontapé inicial da narrativa de Tatiana. A sua protagonista recebe uma chave de casa do avô, que mudou-se para o Brasil e deixou para trás um lar situado em Esmirna, na Turquia.

A missão transmitida para a neta é que a jovem reencontre não só a casa, como também os parentes que ficaram para trás e tente reconstruir parte da história da família.

O romance A chave de casa é, ao mesmo tempo, uma procura exterior - pela casa, pela família, pelas raízes - e interior - uma tentativa de ordenar o caos interno da protagonista.

20. Caim, de José Saramago

Caim José Saramago

Um dos livros mais bem humorados do premiado José Saramago é o breve romance Caim, de 2009. Laureado com o Nobel, Saramago aqui se debruça sobre um episódio específico da Biblía.

Apesar de ter sido criado em um contexto português católico e conservador, Saramago olha para a religião de maneira questionadora e reconta história de Caim, que ouviu tantas vezes, provocando uma nova leitura.

Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a Adão e Eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta

Se para muitos fiéis o romance de Saramago pode ser considerado uma heresia, para o leitor não religioso as páginas garantem uma leitura bem humorada, irônica e por vezes até debochada.

21. Elizabeth Costello, de J. M. Coetzee

Elizabeth Costello

O título do livro do sul-africano J. M. Coetzee, publicado em 2004, é o nome da sua protagonista, uma intelectual e romancista australiana cheia de ideologia.

Elizabeth Costello é uma escritora, nascida em 1928, o que lhe dá sessenta e seis anos de idade, quase sessenta e sete. Escreveu nove romances, dois livros de poemas, um livro sobre a vida dos pássaros e um corpo de trabalhos jornalísticos. É, por nascimento, australiana. Nasceu em Melbourne, onde ainda mora, embora tenha passado os anos de 1951 a 1963 no exterior, na Inglaterra e na França. Casou-se duas vezes. Tem dois filhos, um de cada
casamento.

Defensora dos animais, ela viaja o mundo proferindo uma série de palestras. A obra de Coetzee não é propriamente um romance, sendo nesse caso considerado mais uma reunião de palestras dadas pela intelectual com um pouco da sua vida pessoal, nesse caso narrado pelo filho, já com um tom ficcional.

Elizabeth Costello é uma personagem que acompanha o autor já por outros livros e é considerada por muitos críticos como uma espécie de alter ego de Coetzee.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).