25 fábulas pequenas com moral e interpretação


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

As fábulas são narrativas breves que tiveram origem na tradição popular e foram transmitidas, através das gerações, até à atualidade.

Antigas e repletas de metáforas, estas histórias carregam uma mensagem ou sabedoria universal, sob a forma de um ensinamento ou moralidade.

Entre os autores que se destacaram neste gênero literário, precisamos referir o grego Esopo e o francês Jean de La Fontaine.

1. A Cigarra e a Formiga

A cigarra passou o verão cantando, enquanto a formiga juntava seus grãos. Quando chegou o inverno, a cigarra veio à casa da formiga para pedir que lhe desse o que comer.

A formiga então perguntou a ela:

— E o que é que você fez durante todo o verão?

— Durante o verão eu cantei — disse a cigarra.

E a formiga respondeu:— Muito bem, pois agora dance!

Moral: Trabalhemos para nos livrarmos do suplício da cigarra, e não aturarmos a zombaria das formigas.

Esta é uma das fábulas mais famosas de todos os tempos e fala sobre a necessidade de nos esforçarmos e trabalharmos arduamente mesmo quando não temos vontade. De outra forma, não podemos nos precaver e construir um futuro próspero.

Enquanto a cigarra se divertia, a formiguinha recolhia comida todos os dias. Com a chegada do inverno, a primeira começou a passar necessidades e ficou dependente da outra, que tinha sido responsável e garantido o seu próprio alimento.

Leia também a nossa análise completa da fábula A Cigarra e a Formiga.

2. A Raposa e as Uvas

Uma raposa faminta, ao ver cachos de uva suspensos em uma parreira, quis pegá-los mas não conseguiu. Então, afastou-se dela, dizendo: “Estão verdes”.

Moral: Assim também, alguns homens, não conseguindo realizar seus negócios por incapacidade, acusam as circunstâncias.

Outra narrativa tradicional muito conhecida é aquela que fala de uma raposa que não soube admitir a própria derrota.

Em vez de ter a humildade de assumir que não conseguia chegar às uvas, o animal preferiu começar a desdenhá-las. Assim, passou a dizer que as frutas não estavam boas o suficiente para ele.

Leia também a nossa análise completa da fábula A Raposa e as Uvas.

3. O Estômago e os Pés

O estômago e os pés discutiam sobre sua força. Como os pés, a toda hora, dissessem que eram tão superiores em força que carregavam o próprio estômago, este respondeu: “Mas, meus caros, se eu não lhes fornecesse alimento, vocês não poderiam carregar-me”.

Moral: Assim também, nas armadas, o número de soldados nada significa, se os generais não são excelentes ao darem ordens.

Este enredo fala sobre uma discussão que acontece entre as partes do corpo. Os pés declaram a sua importância, já que são eles que transportam o ser humano. No entanto, o estômago afirma a sua liderança, porque é ele que "alimenta" os outros órgãos.

A história fala da importância do trabalho em equipe e, principalmente, da necessidade de um líder eficaz que assuma o comando das ações.

4. A Raposa e a Máscara

Uma raposa, tendo entrado na casa de um ator e mexido em cada uma de suas vestes, encontrou também uma cabeça de máscara muito bem trabalhada. Tomou-a nas patas e disse: “Oh! Que cabeça! Mas não tem cérebro”.

Moral: A fábula é para os homens esplêndidos de corpo mas pobres de espírito.

Esta é uma narrativa que alerta para o perigo de julgar alguém pelas aparências. Só porque alguém é muito belo fisicamente, isso não significa que as suas ideias e a sua alma carreguem a mesma beleza.

Quando a Raposa percebe que não existe nada dentro daquela cabeça, perde o interesse pelo objeto, por valorizar mais o cérebro do que o rosto de alguém. Ou seja, antes de nos encantarmos por uma pessoa, é bom sabermos aquilo que ela pensa.

5. Zeus e a Serpente

Como Zeus se casasse, todos os animais lhe trouxeram presentes, cada um de acordo com suas posses. Uma serpente, rastejando, subiu até ele, levando uma rosa na boca. Zeus a viu e disse: “Recebo presentes de todos os outros, mas de tua boca não aceito nada, de forma alguma”.

Moral: A fábula mostra que são dignos de medo os favores dos maus.

Embora Zeus, o pai dos deuses gregos, tenha recebido presentes de todos os animais, recusou o da cobra. Sabendo que o bicho era conhecido por ser traiçoeiro, ele preferiu se precaver e não aceitar nem uma rosa vinda dela.

A fábula nos lembra que não devemos nos aproximar, e muito menos aceitar favores, de pessoas que não merecem a nossa confiança.

6. O Mosquito e o Touro

Um mosquito, depois de permanecer por muito tempo pousado no chifre de um touro, quando estava para partir, perguntou ao touro se já desejava que ele fosse embora. O touro, tomando a palavra, disse: “Nem quando vieste eu senti, nem tampouco quando fores eu sentirei”.

Moral: Aplicar-se-ia essa fábula a um homem sem valor que, estando presente ou estando ausente, não atrapalha nem ajuda.

Esta fábula engraçada fala sobre pessoas que não fazem a sua presença ser notada nem oferecem ajuda para nada. Assim, elas acabam ganhando a nossa indiferença e, quando partem, nem deixam saudade.

7. A Lamparina

Uma lamparina cheia de óleo gabava-se de ter um brilho superior ao do Sol. Um assobio, uma rajada de vento e ela apagou-se. Acenderam-na de novo e lhe disseram:

— Ilumina e cala-te. O brilho dos astros não conhece o eclipse.


Moral: Que o brilho de uma vida gloriosa não te encha de orgulho. Nada do que adquirimos nos pertence de verdade.

A história vem sublinhar o valor da humildade. Por vezes, as conquistas podem "subir à nossa cabeça" e nos levam a perder a consciência de nossas fragilidades e limitações.

Mesmo que a chama da lamparina tenha um brilho sem igual, a sua força não se pode comparar à do sol. Da mesma forma, os seres humanos não se devem considerar superiores uns aos outros, já que todos são vulneráveis e efêmeros.

8. A Serpente e o Cabrito

Uma Cabra que andava a pastar com o filho pisou sem querer uma Serpente com os pés. Esta, assanhada, levantando-se um pouco, picou a Cabra numa teta; mas como o filho logo viesse a mamar, e chupasse com o leite o veneno da Serpente, salvou a Mãe, e ele morreu.

Moral: Em muitas situações da vida os inocentes pagam por acontecimentos alheios.

Neste caso, o erro foi da cabra que, por distração, pisou a serpente. No entanto, quem se prejudicou foi o cabrito que bebeu do seu leite e morreu envenenado. A fábula vem nos lembrar que a vida pode ser injusta e que, por vezes, são os inocentes que sofrem as consequências.

9. A Víbora e a Lima

A uma loja de um ferreiro entrou uma víbora, pedindo caridade às ferramentas. Depois de receber algo de todas, faltando só a lima, aproximou-se e lhe suplicou que lhe desse alguma coisa.

— Bem enganada estás - disse a lima - se crês que te darei algo. Eu que tenho o costume, não de dar, mas sim de tomar algo de todos!

Moral: Nunca deves esperar obter algo de quem só tem vivido de tirar dos demais.

O enredo transmite um ensinamento difícil, mas também fundamental: nem todas as pessoas são iguais. Se algumas estão sempre dispostas a ajudar os demais, outras são incapazes disso mesmo.

Assim como a lima, aqueles que vivem se aproveitando da caridade dos outros nem sempre estão dispostos a retribuir a solidariedade.

10. O Sapo e o Poço

Dois sapos viveram em um pântano até que um verão muito violento secou toda água.

Eles, então, foram obrigados a buscar um novo lugar para morar. Depois de alguns dias procurando, encontraram um velho poço, bastante profundo. Olhando para baixo, um deles disse:

— Este parece ser um lugar agradável. Vamos saltar e nos instalar nele.

Mas seu amigo respondeu:

— Não tão rápido assim. Se o poço secar, como iremos sair daí?

Moral: Observe todos os lados de uma situação antes de tomar uma decisão.

Esta versão da fábula, repleta de sabedoria, foi adaptada pelo brasileiro Paulo Coelho. A narrativa vem nos lembrar que não podemos ser precipitados quando estamos perante uma escolha.

Pelo contrário, antes de entrarmos numa nova situação, é necessário estarmos atentos às várias possibilidades e mantermos um pensamento racional.

11. O Cão e a Carne

Um Cão levava na boca um pedaç̧o de carne, e, ao atravessar um rio, vendo a carne refletida na água, pareceu-lhe esta maior e soltou a que levava nos dentes para apanhar a que via dentro de água. Porém como a corrente do rio arrastou a carne verdadeira, com ela foi também o seu reflexo, e ficou o Cão sem uma e sem outro.

Moral: A fábula do cão e da carne nos lembra o sábio ditado: "mais vale um pássaro na mão do que dois voando".

Muitas vezes, a ganância fala mais alto do que a razão. O reflexo do pedaço de carne que parecia maior capturou a atenção do cachorro, que acabou perdendo aquele que segurava entre os dentes.

A história é um lembrete para darmos valor àquilo que temos, em vez de deitar tudo a perder por uma ilusão aparentemente melhor.

12. O Leão, o Urso e a Raposa

Um leão e um urso, tendo encontrado um filhote de veado, puseram-se a disputá-lo. Enfrentaram-se de modo terrível, até que finalmente, tomados de vertigem, jaziam semimortos. Uma raposa que passava, como os visse abatidos e o filhote no meio, pegou-o e foi-se embora, passando entre os dois. E eles, não conseguindo levantar-se, diziam: “Infelizes somos nós, já que foi para uma raposa que nos desgastamos”.

Moral: A fábula mostra que com razão sofrem aqueles que veem qualquer um aproveitar-se dos frutos de seu próprio trabalho.

Outra dura lição sobre a vida, a fábula se refere a algumas situações nas quais nos desgastamos por um propósito, mas outra pessoa acaba se beneficiando.

A raposa esperou o momento certo para atacar e roubar a caça do leão e do urso, que estavam exaustos. Entre os seres humanos, este tipo de malícia também é comum, por isso precisamos ser cautelosos.

13. O Homem e o Machado

Um homem certa vez mandou forjar um machado e foi à floresta pedir às árvores que fornecessem um cabo para ele. As árvores decidiram que a oliveira deveria fornecer-lhe um bom cabo; o homem pegou nele, colocou-o no machado e começou a derrubar as árvores e a cortar os seus galhos.

Disse o o carvalho às outras árvores:

— Bem feito para nós. Somos culpadas do nosso infortúnio porque ajudámos o nosso inimigo a arranjar o cabo. Somos a causa da nossa própria ruína.

Moral: Aquele que ajuda o seu inimigo, causa infortúnios a si próprio.

A história do homem e do machado carrega um ensinamento essencial acerca das amizades que travamos e as suas consequências. Por vezes, podemos estender a mão para alguém que deseja o nosso mal e contribuir para a nossa própria ruína.

14. O Cavalo e o Asno

Um homem tinha um cavalo e um asno. Enquanto andavam por uma estrada, disse o asno ao cavalo: “Pega uma parte da minha carga, se queres que eu viva”. O outro não atendeu, e o asno caiu e morreu de fadiga.

O dono, então, colocou tudo sobre o cavalo, mesmo a pele do asno. E o cavalo, gemendo, gritava: “Ai de mim, infeliz! O que me aconteceu, miserável? Com efeito, por não querer carregar um peso leve, eis que levo tudo, até a pele do asno!”.

Moral: A fábula mostra que, se os grandes se aliarem aos pequenos, uns e outros terão sua vida salva

A fábula transporta uma antiga lição acerca da entreajuda e da união. Como o cavalo se recusa a apoiar o burro, que considera inferior, os dois acabam se dando mal.

O burro morreu de exaustão e o cavalo passou a carregar o peso todo sozinho, algo que seria evitado se ele tivesse auxiliado o seu companheiro.

15. A Lebre e a Tartaruga

Era uma vez uma lebre e uma tartaruga. A lebre vivia caçoando da lerdeza da tartaruga. Certa vez, a tartaruga já muito cansada por ser alvo de gozações, desafiou a lebre para uma corrida.

A lebre muito segura de si, aceitou prontamente. Não perdendo tempo, a tartaruga pôs-se a caminhar, com seus passinhos lentos, porém, firmes. Logo a lebre ultrapassou a adversária, e vendo que ganharia fácil, parou e resolveu cochilar.

Quando acordou, não viu a tartaruga e começou a correr. Já na reta final, viu finalmente a sua adversária cruzando a linha de chegada, toda sorridente

Moral: Devagar se vai ao longe.

Uma das histórias mais famosas de sempre, a narrativa mostra a diferença fundamental entre resiliência e excesso de confiança. A tartaruga sabe que é mais lenta e não tem grandes chances, mas nunca desiste e se esforça até à meta.

A lebre, pelo contrário, age como se já tivesse vencido e subestima totalmente a adversária. No final, a sua atitude arrogante leva à derrota.

16. O Corvo e a Raposa

Era uma vez um corvo descansando em uma árvore, tendo conseguido roubar um queijo da janela de uma casa. Uma raposa andou por perto que sentiu o cheiro forte, viu o corvo e disse:

— Olá! Que dia bom, além de sua plumagem ser muito bonita. Se encaixa muito bem.

O corvo se sentiu muito bem com o que a raposa disse a ele. Ele queria cantar para comemorar, abriu o bico, mas depois largou o queijo. A raposa, sorrindo, correu para o queijo e o pegou com a boca antes de cair no chão.

Moral: Cuidado quando alguém o elogia demais, porque pode ser interesse.

Por vezes, as palavras de simpatia podem esconder segundas intenções. Apelando ao ego do corvo, a raposa esperta consegue distraí-lo e roubar o seu alimento. Ou seja, quando alguém nos faz muitos elogios, precisamos reparar nos seus verdadeiros motivos, antes de baixarmos a nossa guarda.

17. O Lobo e a Garça

Um lobo, tendo engolido um osso, ia para todo lado procurando quem o curasse. Encontrou uma garça e combinou um preço para que ela lhe tirasse o osso. E ela, abaixando sua cabeça até a goela dele, retirou o osso e pediu o pagamento combinado.

O lobo, tomando a palavra, disse: “Ó amiga! Não estás satisfeita por teres tirado a cabeça viva da boca de um lobo? E ainda pedes pagamento?”.

Moral: A fábula mostra que o máximo que se pode esperar dos maus como reconhecimento é que, da parte deles, à ingratidão não se some a injustiça.

Quando estava correndo risco de vida, o lobo fez um acordo com a garça, prometendo uma recompensa se ela o salvasse. No entanto, já em segurança, o predador se recusa a pagar o preço, falando que o prêmio da garça é ele ter poupado a sua vida.

A fábula relembra que, apesar das suas palavras, não podemos esperar gratidão nem honestidade daqueles que não têm caráter.

18. A Galinha dos Ovos de Ouro

Certa manhã, um fazendeiro descobriu que sua galinha tinha posto um ovo de ouro. Apanhou o ovo, correu para casa, mostrou-o à mulher, dizendo: “Veja! Estamos ricos!”. Levou o ovo ao mercado e vendeu-o por um bom preço.

Na manhã seguinte, a galinha tinha posto outro ovo de ouro, que o fazendeiro vendeu a melhor preço. E assim aconteceu durante muitos dias. Mas, quanto mais rico ficava o fazendeiro, mais dinheiro queria.

Até que pensou:"Se esta galinha põe ovos de ouro, dentro dela deve haver um tesouro!". Matou a galinha e ficou admirado pois, por dentro, a galinha era igual a qualquer outra.

Moral: Quem tudo quer, tudo perde.

Se o fazendeiro soubesse dar valor à galinha mágica que tinha nas mãos, talvez pudesse ter enriquecido muito mais. Contudo, o homem resolver matar o animal e ficou sem nada por ser ganancioso e impaciente.

19. O Galo e a Pérola

Um galo, que ciscava no terreiro para encontrar alimento, fossem migalhas, ou bichinhos para comer, acabou encontrando uma pérola preciosa. Após observar sua beleza por um instante, disse:

— Ó linda e preciosa pedra, que reluz seja com o sol, seja com a lua, ainda que esteja num lugar sujo, se te encontrasse um humano, fosse ele um construtor de joias, uma dama que gostasse de enfeites, ou mesmo um mercenário, te recolherias com muita alegria, mas a mim de nada prestas pois que é mais importante uma migalha, um verme, ou um grão que sirvam para o sustento.

Dito isto, a deixou e seguiu esgravatando para buscar conveniente mantimento.

Moral: Cada um valoriza o que é mais importante para si de acordo com as suas necessidades.

Lembrada na versão do fabulista Fedro, que pertenceu ao império romano, esta história nos ensina que aquilo que valorizamos é subjetivo. Para um ser humano, que aprecia a beleza e o luxo, uma pérola pode ser especial.

Contudo, para o galo que apenas se preocupa em comer, o objeto se revela totalmente inútil e desinteressante.

20. A Raposa e o Leão

Tinha a Raposa o seu covil bem fechado e estava lá dentro a gemer, porque estava doente; chegou à porta um Leão e perguntou-lhe como estava, e que a deixasse entrar, porque a queria lamber, que tinha virtude na língua, e lambendo-a, logo havia de sarar.

Respondeu a Raposa de dentro:

— Não posso abrir, nem quero. Creio que a tua língua tem virtude; porém é tão má vizinhança a dos dentes, que lhe tenho grande medo, e portanto antes quero sofrer com o meu mal.

Moral: A fábula do leão e da raposa nos ensina a sermos precavidos por mais que estejamos em situação de sofrimento.

Mesmo num estado de grande fragilidade, a raposa não abandona a sua esperteza. O leão promete curá-la com a língua, mas ela percebe que é tudo um plano para devorá-la e consegue evitar o pior.

Com a raposa podemos aprender que não devemos aceitar ajuda de qualquer um, só porque estamos numa fase ruim.

21. Os Viajantes e o Urso

Um dia dois viajantes deram de cara com um urso. O primeiro se salvou escalando uma árvore, mas o outro, sabendo que não ia conseguir vencer sozinho o urso, se jogou no chão e fingiu-se de morto. O urso se aproximou dele e começou a cheirar as orelhas do homem, mas, convencido de que estava morto, foi embora. O amigo começou a descer da árvore e perguntou:

— O que o urso estava cochichando em seu ouvido?

— Ora, ele só me disse para pensar duas vezes antes de sair por aí viajando com gente que abandona os amigos na hora do perigo.

Moral: a desgraça põe à prova a sinceridade da amizade.

Esta fábula mostra que é nos momentos de maior adversidade que os seres humanos se revelam. Com a chegada inesperada do urso, um dos viajantes apenas se preocupa em salvar a própria pele, deixando o outro para trás, entregue à própria sorte. É necessário tomarmos cuidado com os amigos egoístas.

22. O Vento e o Sol

O vento e o sol estavam disputando qual dos dois era o mais forte. De repente, viram um viajante que vinha caminhando. - Sei como decidir nosso caso. Aquele que conseguir fazer o viajante tirar o casaco, será o mais forte. Você começa, propôs o sol, retirando-se para trás de uma nuvem.

O vento começou a soprar com toda a força. Quanto mais soprava, mais o homem ajustava o casaco ao corpo. Desesperado, então o vento retirou-se. O sol saiu de seu esconderijo e brilhou com todo o esplendor sobre o homem, que logo sentiu calor e despiu o paletó.

Moral: O amor constrói, a violência arruína.

Este enredo vem comprovar que não devemos usar a força para convencer alguém. Pelo contrário, através da doçura e da simpatia podemos conseguir aquilo que queremos de uma forma bem mais simples.

23. A Gata e Afrodite

Uma gata que se apaixonara por um fino rapaz pediu a Afrodite para transformá-la em mulher. Comovida por tal paixão, a deusa transformou o animal numa bela jovem. O rapaz a viu, apaixonou-se por ela e a desposou.

Para ver se a gata havia se transformado completamente em mulher, Afrodite colocou um camundongo no quarto nupcial. Esquecendo onde estava, a bela criatura foi logo saltando do leito e pôs-se a correr atrás do ratinho para comê-lo. Indignada, a deusa fê-la voltar ao que era.

Moral: O perverso pode mudar de aparência, mas não de hábitos.

Não adianta mudarmos o nosso exterior se permanecermos iguais por dentro. Apesar de ter uma aparência de mulher, a gata ainda tem os mesmos instintos e se comporta do jeito de antes. Assim, quando é testada pela deusa, ela acaba falhando.

24. A Assembleia dos Ratos

Um gato de nome Faro-Fino deu de fazer tal destroço na rataria de uma casa velha que os sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome.

Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembleia para o estudo da questão. Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos mios pelo telhado, fazendo sonetos à Lua.

— Acho - disse um eles - que o meio de nos defendermos de Faro-Fino é lhe atarmos um guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos ao fresco a tempo.

Palmas e bravos saudaram a luminosa ideia. O projeto foi aprovado com delírio. Só votou contra um rato casmurro, que pediu a palavra e disse:

— Está tudo muito direito. Mas quem vai amarrar o guizo no pescoço de Faro-Fino?

Silêncio geral. Um desculpou-se por não saber dar nó. Outro, porque não era tolo. Todos, porque não tinham coragem. E a assembleia dissolveu-se no meio de geral consternação.

Moral: Dizer é fácil, fazer é que são elas!

Esta fábula célebre, escrita pelo brasileiro Monteiro Lobato, narra um episódio da eterna batalha entre gatos e ratos. Ameaçados por Faro-Fino, os roedores precisam convocar uma assembleia para decidir o que fazer. No entanto, embora seja fácil propor sugestões, colocar as ideias em prática é muito mais complicado.

Confira a nossa análise completa das fábulas do autor.

25. O Touro e as Rãs

Enquanto dois touros furiosamente lutavam pela posse exclusiva de certa campina, as rãs novas, à beira do brejo, divertiram-se com a cena. Uma rã velha, porém, suspirou.

— Não se riam, que o fim da disputa vai ser doloroso para nós.

— Que tolice! - exclamaram as rãzinhas. - Você está caducando, rã velha!

A rã velha explicou-se:

— Brigam os touros. Um deles há de vencer e expulsar da pastagem o vencido. Que acontece? O animalão surrado vem meter-se aqui em nosso brejo e ai de nós!

Assim foi. O touro mais forte, à força de marradas, encurralou no brejo o mais fraco, e as rãzinhas tiveram de dizer adeus ao sossego. Inquietas sempre, sempre atropeladas, raro era o dia em que não morria alguma sob os pés do bicharoco.

Moral: É sempre assim: brigam os grandes, pagam o pato os pequenos.

Aqui, a voz da experiência parece estar correta, mais uma vez. A fábula contada pelo criador do Sítio do Picapau Amarelo dá conta de um fato bastante complexo da nossa sociedade. Por vezes, quando há discussões entre os mais poderosos, é nos que estão abaixo deles que vão recair as consequências.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.