15 histórias infantis curtas comentadas


Rebeca Fuks
Escrito por Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

1. A raposa e as uvas

Uma raposa passou embaixo de um pé carregado com lindas uvas. Ficou com muita vontade de comer aquelas uvas. Deu muitos saltos, tentou subir na parreira, mas não conseguiu. Depois de muito tentar foi-se embora, dizendo:

— Eu nem estou ligando para as uvas. Elas estão verdes, mesmo...

A breve história nos fala sobre a cobiça e sobre como algumas pessoas lidam com a frustração mascarando o sentimento de desapontamento.

Uma das mais famosas histórias infantis, A raposa e as uvas fala do comportamento de muitas pessoas que, como não conseguem aquilo que querem, desdenham do que não podem ter.

A raposa ficou encantada com as belas uvas, mas, como não as alçava, mesmo apesar de todo o esforço, precisou arranjar uma desculpa para ela mesma.

2. O cão e o osso

Um dia, um cão ia atravessando uma ponte, carregando um osso na boca.

Olhando para baixo, viu sua própria imagem refletida na água. Pensando ver outro cão, cobiçou-lhe logo o osso e pôs-se a latir. Mal, porém, abriu a boca, seu próprio osso caiu na água e se perdeu para sempre.

A breve história do cão e do osso fala sobre a ambição e as consequências de querer sempre mais. O cão poderia estar satisfeito com o osso que tinha, mas, como viu a imagem refletida na água, quis possuir também um segundo osso.

Ao não valorizar aquilo que tinha e arriscar o seu osso seguro para conseguir um outro, o cão acabou ficando sem um e sem outro.

A lição que podemos aprender com o cão da história é que mais vale um pássaro na mão que dois voando.

3. O galo e a pérola

Um galo estava ciscando, procurando o que comer no terreiro, quando encontrou uma pérola. Ele então pensou:

— Se fosse um joalheiro que te encontrasse, ia ficar feliz. Mas para mim uma pérola de nada serve; seria muito melhor encontrar algo de comer.

Deixou a pérola onde estava e se foi, para procurar alguma coisa que lhe servisse de alimento.

A história do galo e da pérola nos ensina que cada um de nós considera que algo é precioso de acordo com as suas próprias necessidades.

Ao ter encontrado uma pérola, o galo reconheceu que, no seu lugar, um joalheiro teria a sorte grande. Mas para ele, galo, a pérola não servia de nada - o que ele precisava mesmo era de alimento.

Em poucas linhas a história ensina para as crianças que somos seres diferentes e com exigências distintas.

4. A rã e o touro

Um grande touro passeava pela margem de um riacho. A rã ficou com muita inveja de seu tamanho e de sua força. Então, começou a inchar, fazendo enorme esforço, para tentar ficar tão grande quanto o touro.

Perguntou às companheiras do riacho se estava do tamanho do touro. Elas responderam que não. A rã tornou a inchar e inchar, mas, ainda assim, não alcançou o tamanho do touro.

Pela terceira vez, a rã tentou inchar. Mas fez isso com tanta força que acabou explodindo, por culpa de tanta inveja.

A história da rã e do touro nos ensina a não sermos invejosos e a não querermos ser diferentes daquilo que somos.

Ambiciosa, a rã desejava, de toda forma, se parecer com o touro - mas a sua natureza era ser rã, e não outro animal radicalmente maior.

Ao tentar com muita força parecer ser aquilo que não era, a rã acabou perdendo a própria vida.

5. A gansa dos ovos de ouro

Um homem e sua mulher tinham a sorte de possuir uma gansa que todos os dias punha um ovo de ouro. Mesmo com toda essa sorte, eles acharam que estavam enriquecendo muito devagar, que assim não dava...

Imaginando que a gansa devia ser de ouro por dentro, resolveram matá-la e pegar aquela fortuna toda de uma vez. Só que, quando abriram a barriga da gansa, viram que por dentro ela era igualzinha a todas as outras.

Foi assim que os dois não ficaram ricos de uma vez só, como tinham imaginado, nem puderam continuar recebendo o ovo de ouro que todos os dias aumentava um pouquinho sua fortuna.

Essa breve historinha nos fala da ganância humana.

O casal da história tirou a grande sorte ao ter uma gansa que entregava ovos de ouro. O marido e a mulher, privilegiados, deviam agradecer a sorte grande de terem tido a gansa. Ao invés de serem gratos, os dois chegaram à conclusão de que poderiam ficar ainda mais ricos matando o animal para ficarem com o que havia dentro da gansa.

A ambição de terem ainda mais fortuna fez com que perdessem o rendimento recorrente que já tinham. A lição que fica é que não devemos nunca tentar forçar demais a sorte.

6. Os viajantes e o urso

Dois homens viajavam juntos quando, de repente, surgiu um urso de dentro da floresta e parou diante deles, urrando.

Um dos homens tratou de subir na árvore mais próxima e agarrar-se aos ramos. O outro, vendo que não tinha tempo para esconder-se, deitou-se no chão, esticado, fingindo de morto, porque ouvira dizer que os ursos não tocam em homens mortos.

O urso aproximou-se, cheirou o homem deitado, e voltou de novo para a floresta.

Quando a fera desapareceu, o homem da árvore desceu apressadamente e disse ao companheiro:

— Vi o urso a dizer alguma coisa no teu ouvido. Que foi que ele disse?

Disse que eu nunca viajasse com um medroso.

A história dos viajantes e do urso fala de dois amigos que tiveram dois comportamentos completamente diferentes diante da situação de perigo: um subiu às pressas na árvore e o outro se fingiu de morto. Embora fossem amigos e viajassem juntos, na hora do aperto cada um correu para um lado.

Apesar do final feliz - de os dois terem se salvado -, a história registra a lição de que é na hora do perigo que conhecemos os verdadeiros amigos.

7. O leão e o javali

Num dia muito quente, um leão e um javali chegaram juntos a um poço. Estavam com muita sede e começaram a discutir para ver quem beberia primeiro.

Nenhum cedia a vez ao outro. Já iam atracar-se para brigar, quando o leão olhou para cima e viu vários urubus voando.

— Olhe lá! — disse o leão. — Aqueles urubus estão com fome e esperam para ver qual de nós dois será derrotado.

— Então, é melhor fazermos as pazes — respondeu o javali. — Prefiro ser seu amigo a ser comida de urubus.

Quantas vezes já não ouvimos casos de inimigos que afinal viraram amigos por causa de um inimigo em comum? Esse é o resumo da história do leão e javali, inimigos naturais que iam acabar tirando a vida um do outro numa briga boba, para ver quem beberia a água do poço primeiro.

Quando viram o futuro negro - os urubus que sobrevoavam a região - acharam melhor fazer as pazes do que correrem o risco de virarem carniça e serem devorados pelos urubus.

Espertos, o leão e o javali acabaram salvando a própria pele.

A historinha breve nos ensina que, diante de um perigo maior, é melhor esquecer as pequenas rivalidades.

8. A cigarra e as formigas

Num belo dia de inverno as formigas estavam tendo o maior trabalho para secar suas reservas de trigo. Depois de uma chuvarada, os grãos tinham ficado completamente molhados. De repente, apareceu uma cigarra:

— Por favor, formiguinhas, me dêem um pouco de trigo! Estou com uma fome danada, acho que vou morrer.

As formigas pararam de trabalhar, coisa que era contra os princípios delas, e perguntaram:

— Mas por quê? O que você fez durante o verão? Por acaso não se lembrou de guardar comida para o inverno?

— Para falar a verdade, não tive tempo — respondeu a cigarra. — Passei o verão cantando!

— Bom. Se você passou o verão cantando, que tal passar o inverno dançando? — disseram as formigas, e voltaram para o trabalho dando risada.

A cigarra e as formigas é das histórias infantis mais tradicionais do mundo ocidental. A breve fábula nos ensina a sermos precavidos, a pensarmos no futuro.

Com as formigas aprendemos que é preciso planejar e se prevenir para os dias mais complicados que poderão surgir.

A cigarra, irresponsável, só pensou no próprio bem-estar aproveitando o verão e não se planejou para os dias de inverno. Com fome, precisou pedir ajuda para as formigas, que souberam ser maduras e trabalhadoras, mas não foram solidárias porque escolheram não partilhar o trigo.

9. O lobo e o burro

Um burro estava comendo quando viu um lobo escondido espiando tudo que ele fazia. Percebendo que estava em perigo, o burro imaginou um plano para salvar a sua pele.

Fingiu que era aleijado e saiu mancando com a maior dificuldade. Quando o lobo apareceu, o burro todo choroso contou que tinha pisado num espinho pontudo.

— Ai, ai, ai! Por favor, tire o espinho de minha pata! Se você não tirar, ele vai espetar sua garganta quando você me engolir.

O lobo não queria se engasgar na hora de comer seu almoço, por isso quando o burro levantou a pata ele começou a procurar o espinho com todo cuidado. Nesse momento o burro deu o maior coice de sua vida e acabou com a alegria do lobo.

Enquanto o lobo se levantava todo dolorido, o burro galopava satisfeito para longe dali.

Em O lobo e o burro lemos a esperteza do burro que, sabendo da sua fraqueza diante do lobo, usou da sabedoria para conseguir salvar a própria pele.

Malandro, o burro - que não era nada ignorante - arranjou uma desculpa convincente para o lobo se colocar numa posição vulnerável.

Quando percebeu que poderia vencer o lobo com um coice, o burro não pestanejou e se livrou da situação de risco em que se encontrava.

A breve historinha nos ensina que, por um lado, podemos vencer situações adversas com perspicácia e, por outro lado, que devemos desconfiar sempre de favores inesperados.

10. O carvalho e o bambu

O carvalho, que é sólido e imponente, nunca se curva com o vento. Vendo que o bambu se inclinava todo quando o vento passava, o carvalho lhe disse:

— Não se curve, fique firme, como eu faço.

O bambu respondeu:

— Você é forte, pode ficar firme. Eu, que sou fraco, não consigo.

Veio então um furacão. O carvalho, que enfrentou a ventania, foi arrancado com raízes e tudo. Já o bambu se dobrou todo, não opôs resistência ao vento e ficou em pé.

A história do carvalho e do bambu é das poucas que não conta com a presença de animais ou do homem. Aqui os dois personagens principais são árvores muito diferentes: enquanto o carvalho é conhecido por ser forte, o bambu é lembrado por ser frágil.

O que parecia ser o ponto negativo do bambu - a sua fragilidade - foi o que garantiu que continuasse vivo depois da ventania. O poderoso carvalho, por sua vez, acabou sendo arrancado com o vento apesar de todo o seu porte.

A história nos mostra que aquilo que consideramos ser o nosso maior defeito pode, muitas vezes, ser a nossa maior qualidade.

11. O leão e o ratinho

Um leão, cansado de tanto caçar, dormia espichado à sombra de uma boa árvore. Vieram uns ratinhos passear em cima dele e ele acordou.

Todos conseguiram fugir, menos um, que o leão prendeu embaixo da pata. Tanto o ratinho pediu e implorou que o leão desistiu de esmagá-lo e deixou que fosse embora.

Algum tempo depois, o leão ficou preso na rede de uns caçadores. Não conseguia se soltar, e fazia a floresta inteira tremer com seus urros de raiva.

Nisso, apareceu o ratinho. Com seus dentes afiados, roeu as cordas e soltou o leão.

Uma boa ação ganha outra.

A história do leão e do ratinho nos fala sobre compaixão e solidariedade.

O leão capturou o ratinho que, depois de muito implorar, acabou sendo libertado. Sentindo-se em dívida com o leão, depois de algum tempo foi o próprio ratinho que salvou a vida do rei da selva depois de o ajudar a sair de uma rede de caçadores.

A fábula do animal mais forte da floresta e do mais frágil nos ensina que devemos sempre ajudar uns aos outros porque um dia somos nós a pedir ajuda e, no outro, somos nós a sermos ajudados.

12. As árvores e o machado

Havia uma vez um machado que não tinha cabo. As árvores então resolveram que uma delas lhe daria a madeira para fazer um cabo. Um lenhador, encontrando o machado de cabo novo, começou a derrubar a mata. Uma árvore disse à outra:

— Nós mesmas é que temos culpa do que está acontecendo. Se não tivéssemos dado um cabo ao machado, estaríamos agora livres dele.

Na história das árvores e do machado vemos que as árvores, solitárias, ajudaram o velho machado sem cabo e acabaram sendo vítimas de uma injustiça.

Cheias de boas intenções, elas se reuniram para resolver o problema do machado. O que não sabiam é que a consequência de ajudarem o outro era comprometer o próprio futuro delas.

A história ilustra que, às vezes, somos movidos por boas intenções, mas acabamos recebendo em troca um castigo que não merecíamos.

13. Calúnia

Uma mulher tanto falou que seu vizinho era um ladrão que o rapaz acabou sendo preso. Dias depois, descobriram que ele era inocente. O rapaz, então, foi solto e processou a mulher.

— Comentários não causam tanto mal, disse ela em sua defesa diante do tribunal.

— Escreva os comentários num papel, depois pique-o e jogue os pedaços no caminho de casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença, respondeu o juiz. A mulher obedeceu e voltou no dia seguinte.

— Antes da sentença, terá que recolher todos os pedaços de papel que espalhou ontem, disse o juiz.
— Impossível, respondeu ela. Já não sei onde estão.

— Da mesma maneira, um simples comentário pode destruir a honra de um homem, e depois você não tem como consertar o mal, respondeu o juiz, condenando a mulher à prisão.

Em Calúnia vemos como é grave fazer uma acusação sem termos prova daquilo que dizemos. A vizinha, leviana, acusou o rapaz de ser ladrão sem ter certeza daquilo que dizia.

Afinal o jogo virou, ele foi inocentado e ela percebeu o quão grave é incriminar uma pessoa sem ter as devidas evidências.

O juiz, muito didático, foi capaz de explicar de uma forma muito simples - através de uma folha de papel - como é grave fazer uma acusação.

14. Estrelas-do-mar

Havia um homem que morava numa bela praia, junto a uma colônia de pescadores. Num dos seus passeios matinais, ele viu um jovem jogando de volta ao oceano as estrelas-do-mar que estavam na areia.

— Por que você faz isso?, perguntou o homem. Porque a maré está baixa, e elas vão morrer.

— Meu jovem, existem milhares de quilômetros de praia por este mundo e centenas de milhares de estrelas-do-mar espalhadas pela areia. Que diferença você pode fazer?

O jovem pegou mais uma estrela e atirou-a no oceano. Depois virou-se para o homem respondendo:

— Para esta, eu fiz uma grande diferença.

Em Estrelas-do-mar vemos um homem idealista, que deseja salvar todas as estrelas-do-mar que conseguir mesmo sabendo que não será capaz de salvar cada uma delas.

O outro homem, que assiste à cena, não entende porque o primeiro rapaz se esforça tanto, dado que os dois sabem que salvar todas as estrelas-do-mar é uma tarefa impossível.

O jovem, sonhador, no entanto, conclui que, pelo menos para algumas delas, ele fez diferença. Apesar de não ser capaz de ajudar a todas, só de ter sido capaz de salvar algumas já valeu a pena.

A história nos ensina que devemos fazer sempre o bem, mesmo que ele pareça pequeno.

15. Os ossos do rei

Havia um rei que se orgulhava muito de sua linhagem e que era conhecido por sua crueldade com os mais fracos. Certa vez, caminhava com sua comitiva por um campo, onde, anos antes, havia perdido seu pai em uma batalha. Ali encontrou um homem santo remexendo uma enorme pilha de ossos.

O rei, então, intrigado, perguntou-lhe:

— O que fazes aí, velho?

— Honrada seja Vossa Majestade, disse o homem santo. Quando soube que o Rei vinha por aqui, resolvi recolher os ossos de vosso falecido pai para entregar-vos. Entretanto, não consigo achá-los: eles são iguais aos ossos dos camponeses, dos pobres, dos mendigos e dos escravos.

Na breve lição dada pelo homem santo somos lembrados que, todos nós - sejamos ricos ou pobres, mendigos ou reis - somos iguais.

O rei, vaidoso, se achava acima de todos os homens, e acabou aprendendo uma lição de humildade importante: as ossadas do pai eram afinal exatamente idênticas a dos camponeses, pobres, mendigos e escravos.

A moral da história aqui é que nenhum de nós é melhor que o outro apenas por ocupar um cargo superior.

Histórias adaptadas do livro Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos (Ministério da Educação, 2000) e da Coletânea de Fábulas de Botucatu, distribuída pelo Governo de São Paulo.

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Rebeca Fuks
Escrito por Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).