Livro A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo


A Moreninha é um romance de Joaquim Manuel de Macedo publicado em 1844. Foi considerado o primeiro grande romance romântico brasileiro e obteve imenso sucesso na altura do seu lançamento. O livro de Joaquim Manuel de Macedo segue todos os preceitos de um folhetim, com um romance proibido, elementos de humor e reviravoltas no final do enredo.

A figura do amor no romantismo

Além de movimento literário, o romantismo era um ideal de vida e de amor para os jovens. Na metade do século 19, o Rio de Janeiro era a capital do Império, e a Corte era o lugar central dos relacionamentos, que contavam com a crescente burguesia carioca.

Em uma época de muitas inovações na cidade, a burguesia se afirmava como uma classe dominante, e os relacionamentos envolviam, além do amor, questões mais práticas, como dotes e casamentos. O romance explora bem essa nova faceta do amor para a época.

Consultei com meus botões como devia principiar e concluí que para portar-me romanticamente deveria namorar alguma moça que estivesse na quarta ordem

Na aristocracia clássica, os casamentos eram feitos como forma de reforçar alianças, e os pais eram quem decidiam sobre os relacionamento dos filhos. O romance romântico é o romance burguês, isto é, por mais que interesses estejam envolvidos, os filhos podiam opinar sobre os seus casamentos. 

Uma das situações que o romance retrata é o das mulheres que se correspondem com mais de um namorado ao mesmo tempo. Era importante garantir o casamento, e uma moça não podia depender apenas de uma pessoa. Quanto mais namorados ela tivesse, mais chance havia de se casar.

O 1º romance romântico brasileiro

O livro de Joaquim Manuel de Macedo é considerado o primeiro romance romântico brasileiro. A fórmula novelesca do livro vai ser encontrada ao longo de sua extensa obra. O tema de um amor proibido, um romance que não pode se realizar com facilidade e a linguagem coloquial com situações de comicidade são características comuns em todas as suas obras.

Mas a desordem é hoje a moda! O bel está no desconcerto; o sublime no que se não entende; o feio é só o que podemos compreender: isto é romântico

O maior mérito do escritor foi, usando a fórmula romanesca europeia, retratar as situações, classes e ambientes nacionais. A ilha paradisíaca, onde o romance se passa, se encontra à uma pequena distância do Rio de Janeiro. A alta sociedade carioca também é representada no livro, com seus hábitos e os seus relacionamentos peculiares. 

Cenário do romance ("a ilha de...")

Boa parte do romance acontece em uma ilha que o autor não cita o nome, referindo-se a ela por meio de reticências. Porém, a descrição da ilha e alguns dados de sua biografia levam a crer que é a ilha de Paquetá. Após o lançamento do romance, a ilha de Paquetá passou a ser mais visitada pela corte carioca, e o sucesso do livro de Joaquim Manuel de Macedo serviu como propaganda para o local. A importância do romance e do escritor é tão grande para a ilha que uma de suas praias ganhou o nome de Moreninha.

Ilha de Paquetá
Ilha de Paquetá em 1909

Resumo do livro

O romance começa com a reunião de quatro amigos estudantes de Medicina, que pretendem passar o feriado de Sant'Ana na "ilha de ...", a convite de Filipe (o autor nunca escreve o nome da ilha, sempre se referindo a ela como "a ilha de ..."). A conversa dos estudantes gira em torna das mulheres que estarão presentes no evento e as possíveis paixões que poderiam surgir durante o feriado. 

Augusto é o mais inconstante dos amigos, trocando uma paixão por outra, não fica por mais de um mês com a mesma pessoa. Augusto e Filipe fazem uma aposta. Se Augusto ficar apaixonado mais de um mês pela mesma pessoa, ele terá que escrever um romance, e, se o mesmo não acontecer, é Filipe quem deverá escrever um livro.

afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou, não se ocupa, nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias.

A maior parte do romance se passa na "ilha de ..." durantes as festividades. Lá, os quatro estudantes se juntam a um grupo de pouco mais de vinte pessoas. Filipe, Augusto, Fabrício e Leopoldo se divertem juntos com a pequena sociedade formada na ilha, dando principal atenção às três mulheres mais bonitas, D. Carolina, Joaquina e Joana.

Entre as festividades, os quatro estudantes discutem sobre o amor e observam as garotas. O romance vai retratando as mudanças de perspectiva que os amigos possuem sobre as mulheres e o amor. O foco do livro é o romance que nasce entre Augusto e D. Carolina, a irmã de Filipe, uma garota sapeca de 13 anos. 

No começo, Augusto vê a menina como uma impertinente. As suas molecagens desagradam o estudante, que chega a achar as feições de Carolina desagradáveis. Porém, a vivacidade da garota começa a conquistar o estudante. A inteligência de Carolina ao responder as provocações faz com que Augusto comece a vê-la com melhores olhos. 

se perderes, escreverás a história de tua derrota, e se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstância

Enquanto a paixão dos dois surge, um outro casal começa a ter problemas. Fabrício tem um relacionamento com Joana, porém, as exigências da amada começam a levar o estudante à beira da falência, tendo de comparecer em peças, bailes e enviar cartas em papéis caros. Fabrício bola um plano para se livrar da amada e dos gastos que ela causa, mas, para não quebrar as suas promessas de amor, ele pede a ajuda de Augusto para causar o rompimento. Augusto se nega a ajudar o colega pois, por mais inconstante que seja, não concorda com o plano.

Isso causa um atrito entre os amigos, que durante o jantar travam uma guerra entre si. Como estratégia para derrubar o inimigo, Fabrício revela toda a inconstância de Augusto nos amores. Essa revelação faz com que Augusto seja afastado pelas mulheres presentes na pequena reunião, com a exceção de D. Carolina.

Augusto se junta à avó de Filipe em uma gruta, onde conta as suas decepções amorosas e a história do seu primeiro amor que foi vivido ainda na infância e do qual guarda como lembrança uma pequena esmeralda. Durante esse romance que durou apenas uma tarde, ele prometeu se casar com a jovem amada, mas não sabe nada da menina, nem o seu nome.

O final de semana na ilha termina com uma paixão cultivada por Augusto e Carolina. Nas próximas semanas, o estudante visita a menina aos domingos e o sentimentalismo começa a surgir no coração de Augusto. A sua recente paixão interfere nos estudos. Isso deixa o pai de Augusto em alerta, e ele o proíbe de sair para que possa voltar a se dedicar à faculdade. O castigo faz mal ao estudante, que cai doente. Enquanto isso, Carolina sofre com a falta da visita de seu amado. 

Os nossos amantes acabavam de chegar ao sentimental e, com o seu sentimentalismo, estavam azedando a vida dos que lhes queriam bem.

A situação se resolve quando Filipe interfere junto ao pai de Augusto, que concorda com o casamento dos dois. Após uma breve reunião entre o pai de Augusto e a avó de Filipe, o casamento é acordado, só falta os dois maiores interessados acertarem o casamento. 

Carolina e Augusto se encontram na mesma gruta onde ele estava com a avó da garota. Ela releva ter escutado a história de Augusto e protesta contra o casamento pois ele havia dado a sua palavra que iria casar com a menina que havia conhecido anos atrás. 

Augusto jura eterno amor por Carolina e diz que, se ao menos soubesse quem era a menina, iria atrás dela e pediria perdão por não cumprir a sua promessa pois o amor da vida dele é Carolina. A situação se resolve quando ela tira de um beato um camafeu que foi o presente que Augusto ofereceu a sua antiga paixão. Ele descobre que a menina que ele havia conhecido muitos anos atrás era Carolina.

Augusto então escreve o romance, chamado A Moreninha, no qual ele conta a sua história de amor.

Características centrais do livro

  • Idealização do amor puro e que resiste ao tempo;
  • Descrição dos costumes, hábitos e lugares (o romance é de fundamental importância para quem deseja perceber o espírito da época);
  • Leitura corriqueira e agradável;
  • Linguagem coloquial.

Contexto histórico

Joaquim Manuel de Macedo produziu romances de costume passados no Rio de Janeiro durante o século XIX. Seus livros mesclavam realismo espontâneo e lances folhetinescos que capturavam a atenção do escasso público leitor de então.

Ao lado de Gonçalves Dias e Araujo Porto-Alegre, Joaquim Manuel de Macedo participou da comissão da revista Guanabara, que foi publicada entre 1849 e 1855.

A revista foi de fundamental importância para a literatura brasileira porque consolidou o processo de independência e marcou o início do romantismo no país.

Sobre o autor

O escritor Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) entrou para a faculdade de Medicina e escreveu o romance A Moreninha durante os últimos anos do curso.

Jamais chegou a clinicar como médico, preferiu atuar como romancista, dramaturgo, cronista e poeta.

Alcançou a façanha de obter popularidade através da literatura e conseguiu ser dos autores mais lidos do país.

Joaquim Manuel de Macedo

Leia na íntegra

O romance A Moreninha está disponível para download gratuito através do Domínio Público.

Conheça o clássico também através do audiolivro

Se preferir entrar em contato com a obra prima de Joaquim Manuel de Macedo através da leitura em voz alta, é só apertar play.

Adaptação para o cinema

O filme A Moreninha foi lançado em 1970 e contou com a direção de Glauco Mirko Laurelli. Em relação ao elenco, Sônia Braga interpretou a moreninha, David Cardoso interpretou Augusto e Nilson Condé interpretou Filipe.

Adaptação para a TV

Exibida como telenovela no horário das 18h pela Rede Globo, A Moreninha foi pela primeira vez ao ar em outubro de 1975. A adaptação do livro para a TV foi assinada por Marcos Rey e teve Nívea Maria como protagonista representando Carolina, a moreninha. O papel da avó Ana ficou a cargo de Henriqueta Brieba e Mario Cardoso se encarregou de interpretar o par romântico Augusto.