Rapunzel: história e interpretação


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

A narrativa infantil que conquistou gerações, pelo mundo inteiro, fala sobre uma moça de cabelos muito compridos que vivia trancada numa torre, por ordem de uma bruxa malvada.

Seus primeiros registros sugiram no século XVII, mas a trama continua sendo uma das histórias favoritas de muitas crianças, ganhando novas adaptações e interpretações na atualidade.

História da Rapunzel completa

Era uma vez um casal de bom coração que sonhava ter filhos e morava perto de uma terrível bruxa. Quando a esposa conseguiu engravidar, começou a sentir vontade de comer determinados alimentos, que pedia para o seu marido. Uma noite, ela queria rabanetes, algo que eles não tinham na sua fazenda.

A única solução foi entrar nos terrenos da vizinha assustadora e roubar alguns rabanetes que estavam plantados na sua horta. Já prestes a pular o muro para fugir, o homem foi avistado pela bruxa e ela o acusou de roubo. Para deixá-lo ir embora, ela colocou uma condição: ele teria que lhe entregar a criança, assim que nascesse.

Alguns meses depois, nasceu uma bela garotinha que a bruxa levou para longe e batizou de Rapunzel. No seu aniversário de 12 anos, a malvada prendeu a menina numa enorme torre que tinha apenas uma pequena janela no topo. Com o tempo, os lindos cabelos da menina solitária foram crescendo e nunca eram cortados.

ilustração de Walter Crane
Ilustração de Walter Crane (1914) que diz: "Rapunzel, Rapunzel! Lance seus cabelos".

Para a bruxa entrar na torre, ordenava que a prisioneira lançasse suas tranças pela janela e escalava até ao topo, segurando os cabelos de Rapunzel. Um Príncipe que passeava por aquela região, escutou um canto maravilhoso e resolveu segui-lo, encontrando a menina aprisionada. Procurando um jeito de subir, ele passou a espiá-la e viu o segredo da bruxa.

Pouco depois, ele foi até à torre e chamou Rapunzel, pedindo que ela jogasse as suas tranças. A moça concordou e contou a sua história trágica ao Príncipe. Muito apaixonados, eles prometeram fugir dali e casar em seguida. O jovem voltou para visitá-la várias vezes, levando pedaços de seda para que Rapunzel criasse uma corda.

A bruxa, que era esperta, percebeu o romance dos dois e planejou a sua vingança. Ela cortou os cabelos de Rapunzel e colocou as suas tranças para fora da janela, montando uma armadilha. Naquela noite, o Príncipe subiu e tomou um susto quando viu o rosto da velha feiticeira que lhe deu um empurrão.

Ilustração de Johnny Gruelle
Ilustração de Johnny Gruelle (1922).

O apaixonado caiu lá do alto, em cima de um arbusto cheio de espinhos. Embora tenha sobrevivido, os seus olhos ficaram machucados e ele perdeu a visão. A bruxa anunciou que levaria Rapunzel para longe e que o casal nunca mais se encontraria. Contudo, o Príncipe nunca desistiu de procurar a sua amada e caminhou sem destino, por muito tempo, em busca do seu paradeiro.

Anos mais tarde, ele passou por uma casa onde reconheceu o canto de Rapunzel. Foi então que os dois se reencontraram e, percebendo que ele ficou cego, a mulher começou a chorar. Quando as suas lágrimas tocaram no rosto dele, a força do seu amor curou os olhos do Príncipe, que voltou a enxergar na mesma hora.

Finalmente unidos, Rapunzel e o Príncipe casaram e se mudaram para um castelo, onde viveram felizes para sempre.

Irmãos Grimm e origens da narrativa

A história de Rapunzel já circulava na tradição popular quando foi recolhida pelos irmãos Grimm. Os célebres escritores alemães ficaram conhecidos pela divulgação de contos de fadas que se tornaram verdadeiros clássicos da literatura e do imaginário universal.

Capa original de Contos para a Infância e para o Lar.
Capa original de Contos para a Infância e para o Lar, dos irmãos Grimm.

Uma versão inicial da narrativa foi lançada em 1812, no primeiro volume de Contos para a Infância e para o Lar, livro que mais tarde ganhou o nome de Contos de Grimm. A narrativa incluía elementos polêmicos, como uma suposta gravidez, e foi alterada mais tarde, para se adequar ao público infantil.

O enredo narrado pelos irmãos Grimm foi inspirado na obra Rapunzel (1790), de Friedrich Schulz. O livro era uma tradução do conto Persinette (1698), escrito pela francesa Charlotte-Rose de Caumont de La Force.

A versão mais antiga da história, intitulada "Petrosinella", pode ser encontrada em Pentamerone (1634), uma coletânea de contos de fadas europeus que foram reunidos pelo napolitano Giambattista Basile.

Interpretação da história

O nome da protagonista está relacionado com o termo alemão que designa os rabanetes. Assim, trata-se de uma referência aos alimentos que a mãe desejava na gravidez. Na crença popular, os destinos das crianças poderiam ser trágicos, caso os desejos das grávidas não fossem atendidos. Por isso, o seu pai correu tantos riscos e a transgressão foi punida de forma severa.

O isolamento de Rapunzel na torre parece ser uma metáfora para a clausura das moças antes do casamento, permanentemente vigiadas e afastadas dos homens. Assim, a bruxa simboliza as mulheres mais velhas, responsáveis por manter a tradição e assegurar o "bom comportamento", reprimindo a liberdade das jovens.

No entanto, o amor surge como salvação, algo que é comum nos contos de fadas. Primeiro, o Príncipe fica tão encantado pela protagonista que estuda um jeito de visitá-la e tirá-la dali. Depois, mesmo falhando e perdendo a visão, ele não desiste de buscar a sua amada. No final, como recompensa pelos enormes esforços, seus olhos são curados pelo carinho de Rapunzel.

Releitura e adaptação da Disney

A narrativa atemporal de romance e fantasia ganhou nova popularidade com o lançamento de Enrolados (2010), um filme de animação da Disney que foi aclamado pelo público de todas as idades.

Na trama, a protagonista tem cabelos mágicos e vive aprisionada por Gothel, uma bruxa que afirma ser sua mãe. Já o seu par não é um príncipe, mas um ladrão chamado Flynn, por quem ela se apaixona.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.