Bela Adormecida: história completa e outras versões


Carolina Marcello
Escrito por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes
Atualizado em

Um dos contos de fadas mais famosos de todos os tempos, Bela Adormecida é uma narrativa que teve origem na tradição popular. O enredo segue o destino de uma jovem princesa que é amaldiçoada logo após nascer.

Ofendida por não ter sido convidada para o seu batismo, uma bruxa invade a festa e anuncia que a menina será picada pelo fuso de um tear e entrará num sono profundo, parecido com a morte.

Apesar das tentativas dos pais em protegê-la, a maldição se concretiza e ela adormece. Assim, só o amor verdadeiro poderá quebrar o feitiço e trazer a princesa de volta à vida.

Bela Adormecida: a história completa

Bela Adormecida por John William Waterhouse
Bela Adormecida por John William Waterhouse

Era uma vez um rei e uma rainha que desejavam muito ter filhos. O nascimento de uma menina trouxe uma enorme alegria às suas vidas e, por isso, resolveram fazer uma festa para comemorar. Eles convidaram todas as fadas da região, para que pudessem conhecer e abençoar a pequena princesa no seu batismo.

Todos estavam sentados para jantar, quando a porta se abriu e dela surgiu uma velha bruxa que não tinha sido convidada. O rei ordenou que colocassem mais um prato na mesa, mas uma das fadas desconfiou daquela visita e resolveu se esconder.

Depois da refeição, as fadas se aproximaram da garotinha, uma de cada vez, e foram entregando as suas bênçãos: seria bonita, meiga, com talento para o canto, a música e a dança. Até que a bruxa, que estava no final da fila, declarou: "Quando completar dezasseis anos, vai ferir o dedo num fuso e morrerá!".

O salão foi invadido por uma onda de choque, com gritos e choros por todo lado. Aí, a fada que estava escondida se revelou, mostrando que ainda faltava o seu presente. Sem poderes suficientes para desfazer a maldição, a fada conseguiu alterá-la: "Ela não vai morrer, mas cair num sono que durará cem anos. Após esse tempo, o filho de um rei aparecerá para acordá-la".

O pais da princesa mandaram destruir todos os fusos, para evitar que a desgraça acontecesse. Até que um dia, quando completou dezesseis anos, a jovem encontrou uma velhinha que estava fiando no topo de uma torre e pediu para experimentar. Logo ela se feriu no dedo e caiu num profundo sono.

Uma das fadas se compadeceu e agitou sua varinha de condão, fazendo com que todos do reino adormecessem também. Com o tempo, o local começou a ser cercado por uma floresta escura e repleta de espinhos que ninguém ousava atravessar.

Um século mais tarde, um príncipe passava na região e ficou intrigado por aquele bosque. Um homem que ia na estrada contou a antiga lenda que tinha ouvido pai, sobre uma princesa que dormia do outro lado, eternamente amaldiçoada.

Para descobrir se a história era verdade, ele cruzou todos os espinhos e descobriu o reino adormecido. Chegando lá, ele viu a bela princesa que dormia numa cama de ouro. Apaixonado no mesmo segundo, ele se ajoelhou e beijou os seus lábios.

Foi aí que moça acordou e disse: "É você, meu príncipe? Eu te esperei por muito tempo!". Graças ao amor dos dois, todos voltaram à vida; no dia seguinte, o príncipe e a princesa celebraram o seu casamento.

(Adaptação do conto dos irmãos Grimm)

A moral da trama parece residir na dualidade da magia que pode ser usada para fazer o bem ou o mal. Enquanto as fadas madrinhas batalham para que a vida da menina seja repleta de alegrias, a bruxa é egoísta e encontra satisfação no ato de prejudicá-la.

O final vem reforçar uma mensagem sábia, que está bastante presente no jeito mais romântico de ver o mundo: o poder do amor supera tudo. Mesmo diante dos maiores obstáculos, um coração apaixonado e decidido sempre sai vitorioso.

A verdadeira história da Bela Adormecida

Fruto da tradição oral europeia, a história da Bela Adormecida foi sendo transmitida de geração em geração, através dos séculos, em vários lugares do mundo.

Muitos elementos resistiram à passagem do tempo, mas vários pontos do enredo foram alterados, dependendo da versão que consultarmos, suas origens e influências.

Versão de Basile

Livro Pentamerão de Basile

A primeira versão a que temos acesso foi escrita em 1634 pelo napolitano Giambattista Basile e publicada na obra O Conto dos Contos, que reunia fábulas e histórias populares da região.

A narrativa intitulada "Sol, Lua e Tália" é muito mais sombria e arrepiante do que aquela que conhecemos atualmente. Aqui, a princesa se chama Tália e não desperta com um beijo do príncipe. Pelo contrário, ela é abusada por ele e engravida de um casal de gêmeos, dando à luz enquanto dorme.

Mais tarde, os bebês são colocados ao lado da mãe e um deles suga o veneno que estava no dedo onde a princesa foi picada. Ela desperta e acaba casando com o príncipe; seus filhos recebem os nomes "Sol" e "Lua".

Versão de Charles Perrault

Livros Contos da Mamãe Gansa de Charles Perrault

Embora influenciada pelo conto de Basile, a história do francês Charles Perrault foi adaptada para o público infantil, ganhando contornos mais suaves. Com o título "A Bela Adormecida no Bosque", a narrativa foi publicada em 1697, no livro Contos da Mamãe Gansa.

Segundo este autor, a princesa ficou adormecida durante um século inteiro e acordou quando foi beijada pelo príncipe. Depois eles se casaram e tiveram dois filhos, mas encontraram um novo obstáculo, porque a mãe do príncipe não aceitava a união.

A mulher malvada chama os netos para junto de um poço com a intenção de afogá-los, mas perde o equilíbrio e morre. Só aí é que a família encontra o seu final feliz. Também é interessante reparar que "Aurora" é o nome da sua filha; contudo, com o tempo, a princesa passou a ser chamada assim.

Versão dos Irmãos Grimm

Livro Contos de Grimm

Tomando como base as versões anteriores, os alemães Jacob e Wilhelm Grimm escreveram "A Rosa dos Espinhos", parte da obra Contos de Grimm (1812). Das narrativas antigas, esta é a que mais se aproxima da história que se popularizou e que conhecemos hoje.

O conto termina com a Bela Adormecida sendo resgatada pelo amor verdadeiro do seu príncipe e a promessa de que eles viveriam "felizes para sempre".

O título original representa a princesa como uma flor delicada que está rodeada de espinhos, numa alusão à floresta densa e perigosa que se formou em volta do reino.

Maiores adaptações para o cinema

Ao longo dos séculos, a história tem recebido incontáveis adaptações e releituras, inspirando obras dos mais variados campos artísticos. O cinema, no entanto, se destacou bastante e apresentou o conto de fadas para várias gerações de espectadores.

A Bela Adormecida, Disney (1959)

Em 1959, a Disney lançou o clássico A Bela Adormecida, o filme animado que marcou muitas infâncias e entrou para as referências do nosso imaginário coletivo.

Inspirado principalmente na célebre versão de Charles Perrault, o longa-metragem foi dirigido por Clyde Geronimi, Eric Larson, Wolfgang Reitherman e Les Clark.

Nele, encontramos a forma mais conhecida desta narrativa, que é contada desde o primeiro aniversário de Aurora e termina com um final feliz, depois do príncipe beijá-la e ela despertar.

Mais tarde, a Walt Disney Pictures lançou o live-action Malévola (2014), com direção de Robert Stromberg e roteiro de Linda Woolverton.

No filme de fantasia, a história é contada a partir do ponto de vista da bruxa, que afinal teria sido traída pelo pai de Aurora e caído em desgraça. A sequência do longa, Malévola: Dona do Mal, foi dirigida por Joachim Rønning e lançada em 2019.

Personagens principais do conto

Princesa / Bela Adormecida

Amaldiçoada desde a infância, a princesa é uma jovem doce e inocente que vive protegida pelos pais, que tentam evitar seu destino trágico. No entanto, quando ela faz 16 anos, a profecia se cumpre e todos entram num sono imperturbável. No final, ela é acordada por um príncipe com o qual se casa e tudo volta ao normal.

Bruxa / Malévola

Movida por emoções negativas como a inveja e a crueldade, a bruxa fica muito ofendida por não receber um convite para a festa da princesa e decide destruir o evento. Entregando um "presente envenenado", ela lança uma maldição e promete que a menina irá morrer quando completar 16 anos. Felizmente, o plano não corre do jeito que ela esperava.

Fadas Madrinhas

As convidadas especiais da festa representam o outro lado da magia, presenteando a menina com beleza e talentos. Uma delas ainda não tinha proferido as suas palavras quando a bruxa lançou a maldição. Assim, para tentar aliviar o mal, ela alterou o seu destino: a princesa não iria morrer, apenas ficaria dormindo.

Príncipe

Mesmo que não tenhamos muitas informações sobre a identidade deste príncipe ou o seu passado, trata-se de uma peça fundamental para a narrativa. Guiado pela coragem, ele segue o coração e ultrapassa a floresta de espinhos até encontrar a princesa e quebrar a maldição.

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Carolina Marcello
Escrito por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.