Música Redemption song


Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Composta por Bob Marley em 1979, a música Redemption song é a última faixa do disco Uprising, lançado no ano a seguir.

A letra, de autoria do artista jamaicano, foi criada durante um período difícil da vida do artista, pouco depois de Marley descobrir que estava doente e que teria pouco tempo de vida. 

Letra

Old pirates, yes, they rob I
Sold I to the merchant ships
Minutes after they took I
From the bottomless pit
But my hand was made strong
By the hand of the Almighty
We forward in this generation
Triumphantly
Won't you help to sing
These songs of freedom?
'Cause all I ever have
Redemption songs
Redemption songs

Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Have no fear for atomic energy
'Cause none of them can stop the time
How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look? Ooh
Some say it's just a part of it
We've got to fulfill the Book

Won't you help to sing
These songs of freedom?
'Cause all I ever have
Redemption songs
Redemption songs
Redemption songs

Emancipate yourselves from mental slavery
None but ourselves can free our minds
Wo! Have no fear for atomic energy
'Cause none of them-a can-a stop-a the time
How long shall they kill our prophets
While we stand aside and look?
Yes, some say it's just a part of it
We've got to fulfill the book
Won't you have to sing
These songs of freedom?
'Cause all I ever had
Redemption songs
All I ever had
Redemption songs
These songs of freedom
Songs of freedom

Traduzida como Canção da redenção, a música criada pelo cantor jamaicano é, antes de tudo, um hino à liberdade. Em diversos trechos da letra, Marley celebra o privilégio de ser uma criatura absolutamente livre e desprovida de amarras.

A letra da música contém bastante influência do discurso do ativista jamaicano Marcus Garvey, um dos nome-chave do movimento negro por quem Bob nutria profunda admiração. A criação do jamaicano é rica porque aborda, em pouquíssimo espaço, diversos aspectos da vida. Se por um lado o cantor usa a música como forma de louvar suas crenças religiosas e ideológicas

But my hand was made strong (Mas, minha mão foi fortalecida)
By the hand of the Almighty (Pela mão do Todo-Poderoso)

por outro lado, Marley sublinha a sua relação com os irmãos que habitam o mesmo tempo e o mesmo espaço, aqueles que comungam consigo a crença em uma entidade superior:

We forward in this generation triumphantly (Nós avançamos nessa geração triunfantemente)

Em Redemption song, o compositor sublinha diversas vezes suas devoções, seja pelo divino a que chama Todo-Poderoso, seja pelas doutrinas do livro da religião rastafari.

Redemption song é uma criação bastante peculiar, a primeira versão gravada continha apenas a voz e o violão do artista, sem a participação de uma banda como era usual.

Durante diversos trechos da canção, o compositor se dirige ao ouvinte e pede que ele o ajude a cantar

Won't you help to sing (Ajude-me a cantar)
These songs of freedom? (Estas canções de liberdade?)

Embora a versão inicial da letra fosse bastante intimista e só contemplasse a presença do artista, versões posteriores já continham a participação do grupo de músicos que o acompanhava regularmente.

Bastidores da criação

A música Redemption song foi escrita quando Bob Marley já havia descoberto o câncer que carregava, doença que o mataria em pouco tempo. Em julho de 1977, o cantor percebeu que estava com um machucado no dedão do pé direito. A princípio, achou que se tratava de um ferimento feito durante um jogo de futebol na Inglaterra, mas a verdade é que se tratava de um melanoma maligno. 

Devido as filosofias de vida de Bob Marley, o músico não acatou as sugestões médicas de amputar o dedo doente. Como consequência, o câncer se espalhou e foi parar no cérebro, no pulmão e no estômago rapidamente. O cantor morreu no dia 11 de maio de 1981, em Miami, na Flórida, aos apenas 36 anos, por conta de uma metástase.

Quando escreveu Redemption song, Marley já estava deprimido porque sabia da doença que o corroía. Segundo Rita Marley, mulher do artista, 

"ele já estava secretamente em grande dor e a lidar com a sua mortalidade, uma característica que é evidente no álbum, mas especialmente nesta canção"

Tradução

Velhos piratas, sim, eles me roubaram
Me venderam para navios mercantes
Minutos depois de eles terem me tirado
Do poço sem fundo
Mas, minha mão foi fortalecida
Pela mão do Todo-Poderoso
Nós avançamos nessa geração
Triunfantemente

Você não vai me ajudar a cantar
Estas canções de liberdade?
Pois, tudo que eu sempre tenho
Canções de redenção
Canções de redenção

Libertem-se da escravidão mental
Ninguém além de nós mesmos pode libertar nossas mentes
Não tenha medo da energia atômica
Porque nenhum deles pode parar o tempo
Até quando vão matar nossos profetas
Enquanto nós permanecemos de lado, olhando?
Alguns dizem que isso faz parte
Nós temos que cumprir o Livro

Ajude-me a cantar
Estas canções de liberdade?
Pois, tudo que eu sempre tenho
Canções de redenção
Canções de redenção
Canções de redenção

Álbum Uprising

Lançado em 1980, Uprising é o último disco da carreira de Bob Marley, gravado um ano antes da sua morte ao lado da banda que o acompanhava, os The Wailers.

O álbum reúne dez faixas, Redemption song é a última da lista. 

Capa do álbum Uprising.
Capa do álbum Uprising.

Faixas do disco:

1. Coming in from the cold
2. Real situation
3. Bad card
4. We and them
5. Work
6. Zion train
7. Pimper's paradise
8. Could you be loved
9. Forever loving jah
10. Redemption song

Versões da música

A canção Redemption song já teve inúmeras regravações de outros artistas, confira abaixo algumas das versões mais celebradas:

Lauryn Hill

Ashley Lilinoe

Matisyahu

Sobre Bob Marley

Robert Nesta Marley, conhecido apenas pelo nome artístico Bob Marley, nasceu no dia 6 de fevereiro de 1945 na cidade de Saint Ann, no interior da Jamaica. Foi fruto de um casal bastante incomum: a mãe era Cedella Booker, uma jovem negra de apenas 18 anos, e o pai era Norval Sinclair Marley, um militar de 50 anos a serviço do governo britânico. 

O pai morreu quando a criança ainda era pequena. Criado pela mãe, Marley mudou-se, em 1955, para a favela Trenchtown, uma das maiores de Kingston, capital da Jamaica.

Enquanto artista, foi um dos grandes porta-vozes do terceiro mundo e um dos maiores responsáveis pela difusão da religião rastafari e da cultura do reggae, ritmo até então não tão difundido.

O ídolo usou a música como instrumento político e de denúncia contra o racismo. Durante a sua breve vida, defendeu valores como a libertação nacional, o empoderamento dos negros e a universalização dos direitos civis.

O compositor acreditava que a sua arte deveria ter forte compromisso social e em entrevista concedida no Brasil, durante uma turnê, afirmou:

“Músicos devem ser porta-vozes para as massas oprimidas. No nosso caso, a responsabilidade é ainda maior por causa de nossas crenças religiosas. A filosofia do reggae explica tudo isso. O reggae se propagou a partir dos guetos, e tem sido sempre fiel a suas origens, trazendo ao mundo uma mensagem de revolta, protesto e luta pelos direitos humanos”.

Adepto do Rastafari, movimento nascido na Etiópia, Marley espalhou a sua filosofia pelos quatro cantos do mundo:

“Enquanto imperar a filosofia de que há uma raça inferior e outra superior o mundo estará permanentemente em guerra. É uma profecia, mas todo mundo sabe que isso é verdade."

O músico casou-se com a cubana Alfarita (Rita) Constantia Anderson, em 1966, e teve onze filhos - entre adotivos e biológicos - reconhecidos oficialmente.

Bob e Rita.
Casamento de Bob e Rita.

Em dezembro de 1976, Marley foi vítima de um atentado junto com a mulher e o empresário, Don Taylor, em Kingston. Felizmente não houve qualquer consequência mais grave.

O cantor morreu de metástase aos 36 anos, no dia 11 de maio de 1981, nos Estados Unidos. Foi enterrado, como era o seu desejo, na Jamaica, perto da cidade onde nasceu, com uma guitarra (uma Fender Stratocaster vermelha).

Conheça também

Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.