Música Heroes de David Bowie


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

A música Heroes de David Bowie foi lançada no disco homônimo em 1977, o segundo da chamada trilogia de Berlim. Com a colaboração de Brian Eno na letra e com produção de Tony Visconti, é um dos temas mais célebres do cantor.

Embora não tenha obtido grande sucesso quando foi lançada, a canção se tornou um hino e até um lema para várias gerações de ouvintes pelo mundo a fora. 

Capa do disco Heroes de David Bowie (1977).
Capa do disco Heroes de David Bowie (1977).

Durante as gravações, Visconti foi afastando o microfone de Bowie gradualmente, fazendo com que seu tom de voz fosse subindo até que ele gritasse. O efeito provocado foi esse grito, a denúncia corajosa do sistema opressivo e o laivo de esperança que o acompanha apesar de todos os obstáculos. 

Bowie estava morando em Berlim e produzindo música durante o período em que a Alemanha estava dividida em duas partes. O músico vivia na primeira fila dos acontecimentos e do clima de repressão instituído. 

Música completa

Letra original

Heroes

I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing, will drive them away
We can beat them, just for one day
We can be heroes, just for one day

And you, you can be mean
And I, I'll drink all the time
'Cause we're lovers, and that is a fact
Yes we're lovers, and that is that

Though nothing, will keep us together
We could steal time, just for one day
We can be heroes, forever and ever
What d'you say?

I, I wish you could swim
Like the dolphins, like dolphins can swim
Though nothing, nothing will keep us together
We can beat them, forever and ever
Oh we can be heroes, just for one day

I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing, will drive them away
We can be heroes, just for one day
We can be us, just for one day

I, I can remember (I remember)
Standing, by the wall (by the wall)
And the guns, shot above our heads (over our heads)
And we kissed, as though nothing could fall (nothing could fall)

And the shame, was on the other side
Oh we can beat them, forever and ever
Then we could be heroes, just for one day
We can be heroes
We can be heroes
We can be heroes, just for one day
We can be heroes

We're nothing, and nothing will help us
Maybe we're lying, then you better not stay
But we could be safer, just for one day
Oh-oh-oh-ohh, oh-oh-oh-ohh, just for one day

Tradução

Heróis

Eu, eu serei rei
E você, você será rainha
Embora nada os afaste de nós
Nós podemos vencê-los, ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis, ao menos por um dia

E você, você pode ser ruim
E eu, eu beberei o tempo todo
Por que somos amantes, isso é um fato
Sim, somos amantes, é isso e pronto

Embora nada venha a nos manter juntos
Nós poderíamos enganar o tempo, apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, para todo o sempre
O que você acha?

Eu, eu gostaria que você pudesse nadar
Como os golfinhos,
como os golfinhos nadam
Embora nada, nada nos mantenha juntos
Nós podemos vencê-los,
para todo o sempre
Oh! nós podemos ser heróis
ao menos por um dia

Eu, eu serei rei
E você,
você será rainha
Embora
nada os afaste de nós
Nós podemos ser heróis,
apenas por um dia
Nós podemos ser nós mesmos,
ao menos por um dia

Eu, eu me lembro (eu me lembro)
De estar parado
encostado na parede (na parede)
As armas atiravam sobre nossas cabeças (sobre nossas cabeças)
E nos beijávamos,
como se nada pudesse cair (pudesse cair)


E a vergonha, estava do lado de lá
Oh nós podemos vencê-los
para todo o sempre
Então poderíamos ser heróis
ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Ao menos por um dia

Nós podemos ser heróis
Não somos nada,
e nada nos ajudará
Talvez estejamos mentindo,
Então é melhor você não ficar
Mas nós poderíamos estar mais a salvo
Ao menos por um dia

Análise da letra

Refrão

Eu, eu serei rei
E você, você será rainha
Embora nada os afaste de nós
Nós podemos vencê-los, ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis, ao menos por um dia

A letra começa com uma mensagem positiva, um cenário futuro que seria favorável, onde tudo estaria bem. Como no final de um conto de fadas, o sujeito seria rei e sua amada seria a rainha. Desde os primeiros versos, percebemos o seu desejo quase infantil de que tudo dê certo, de que possam acabar sendo felizes, contra tudo e contra todos.

Paradoxalmente a esse sentimento de amor, existe um clima de repressão, a ameaça iminente que pesa nos ombros do casal. Mesmo assim, o sujeito acredita que a sua paixão vai triunfar, que serão capazes de superar as probabilidades, ainda que temporariamente. 

Essa fantasia do sujeito é o refrão da música, a estrofe que vai repetindo para dar alento à amada, como se usasse essa mensagem de esperança para convencer a si mesmo. 

Estrofe 1

E você, você pode ser ruim
E eu, eu beberei o tempo todo
Por que somos amantes, isso é um fato
Sim, somos amantes, é isso e pronto

Longe de ser uma relação idílica, um amor perfeito, o sujeito descreve o envolvimento com sinceridade, demonstrando que são pessoas falhas e continuarão sendo.

Não precisam fingir, ambos têm defeitos e a paixão parece estar destinada ao fracasso, mas o sentimento que os une é incondicional, "é um fato" consumado. 

Estrofe 2

Embora nada venha a nos manter juntos
Nós poderíamos enganar o tempo, apenas por um dia
Nós podemos ser heróis, para todo o sempre
O que você acha?

Nesta estrofe, é assumida de forma mais explícita a impossibilidade de durarem, a consciência do caráter instável da relação. O sujeito sabe que devem "enganar o tempo", esquecer a efemeridade e aproveitar aquilo que estão vivendo no momento

Desafiando o próprio destino, podem ser heróis "para todo o sempre", criar algum tipo de mudança ou impacto que possa influenciar o curso da história. Estes versos sugerem que a canção não fala apenas de um amor proibido mas também, e principalmente, carrega em si uma visão política e social. 

Sugerindo que permaneçam juntos, faz uma proposta à mulher que ama, como se a chamasse para desafiar todas as chances, a lutando por uma realidade diferente que pode não chegar nunca. Mesmo consciente de tudo que está errado e os separa, continua alimentando a possibilidade de vencerem no final, como heróis. 

Estrofe 3

Eu, eu gostaria que você pudesse nadar
Como os golfinhos,
como os golfinhos nadam
Embora nada, nada nos mantenha juntos
Nós podemos vencê-los,
para todo o sempre
Oh! nós podemos ser heróis
ao menos por um dia

Contrariando as regras que confinavam os humanos, o eu lírico exprime a sua vontade de poder levar sua namorada para "nadar como os golfinhos", vivendo em uma liberdade sem barreiras nem restrições. Na natureza, vivendo como dois animais, poderiam ter uma vida mais simples e feliz, lado a lado. 

De um verso para o outro, existe uma passagem brusca: primeiro uma imagem de paz e, logo depois, a lembrança de que continuam travando uma batalha. Insiste que mesmo que não fiquem juntos, podem vencer "para todo o sempre", fazer parte da mudança mesmo que ela acabe sendo esquecida.  

Refrão

Eu, eu serei rei
E você,
você será rainha
Embora
nada os afaste de nós
Nós podemos ser heróis,
apenas por um dia
Nós podemos ser nós mesmos,
ao menos por um dia

Nesta repetição, o eu lírico acrescenta que um dia poderão "ser nós mesmos", vivendo suas identidades de forma autônoma, sem a imposição de doutrinas ou comportamentos. Mesmo que continuem sendo perseguidos, ainda sonham com um mundo onde possam circular e se expressar da maneira que quiserem. 

Estrofe 4

Eu, eu me lembro (eu me lembro)
De estar parado
encostado na parede (na parede)
As armas atiravam sobre nossas cabeças (sobre nossas cabeças)
E nos beijávamos,
como se nada pudesse cair (pudesse cair)

Nesta estrofe surge a imagem que inspirou a composição, um casal de namorados que se abraçava perto do muro de Berlim. Aqui, o sujeito relembra o momento em que ele e a amada se beijavam encostados no muro, apesar dos disparos que surgiam na sua direção.

Com o contraste gritante entre a violência e o amor, o par parece quase intocável, invencível, como se nada pudesse machucá-los. A postura tem um caráter grandioso, heroico, como se a paixão lhes conferisse superpoderes e tivessem deixado de temer.

Esse momento em que desafiaram a autoridade e seguiram o seu coração foi marcante, como uma lufada de ar fresco que veio renovar a esperança. A recordação é um símbolo da sua rebeldia e da possibilidade de viver de uma forma que desafie todas as regras.

Estrofe 5

E a vergonha estava do lado de lá
Oh nós podemos vencê-los
para todo o sempre
Então poderíamos ser heróis
ao menos por um dia
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Ao menos por um dia

A pureza e a força do momento levou os namorados a quebrar a ordem vigente, deixando a vergonha "do lado de lá". O sujeito pretende demonstrar que o erro não é o seu amor mas a violência dos soldados, metáfora para a repressão e o clima social instável. 

Consciente de que estão do lado certo da luta, porque apenas quererem liberdade, o sujeito continua repetindo que vão sair vitoriosos. 

Estrofe 6 

Nós podemos ser heróis
Não somos nada,
e nada nos ajudará
Talvez estejamos mentindo,
Então é melhor você não ficar
Mas nós poderíamos estar mais a salvo
Ao menos por um dia

A estrofe final tem uma carga disfórica evidente, sobretudo no segundo e no terceiro verso. Aqui, assume seu desespero, a noção que são insignificantes perante o resto do mundo, a sensação de estarem abandonados e entregues à própria sorte. 

Os versos, no entanto, podem ter um duplo sentido. Com "nada nos ajudará", parece querer dizer que precisam se libertar sozinhos, mesmo que ninguém acredite no valor deles. 

Por outro lado, coloca a possibilidade de que toda a esperança seja ilusão, considerando que o relacionamento pode ser um engano e que deveriam se separar. Demonstra que tem consciência de que estão destinados a se separar, e que provavelmente o relacionamento não dará certo, mas insiste. 

Como se voltasse a si e reencontrasse o rumo, logo depois continua sonhando com um mundo onde poderão ter mais segurança e estabilidade, mesmo se for por pouco tempo. 

Significado da música

Heroes fala sobre um relacionamento amoroso durante um regime repressor. A paixão do casal e seu desejo de autonomia surgem como valores essenciais, um antídoto para a repressão, superando barreiras políticas e sociais.

Assim, é um elogio ao poder transformador do amor, à importância de aproveitar o momento presente, já que as coisas não precisam ser eternas para serem mágicas ou fazerem a diferença. 

Retrato de David Bowie no Muro de Berlim (1987)
Retrato de David Bowie no Muro de Berlim (1987).

Um hino de esperança, a música traz em si a promessa de um futuro melhor, realçando que todos os indivíduos podem se tornar heróis e até mesmo mudar o curso da história.

Acima de tudo, afirma a urgência de cada um ser o protagonista de sua vida. Bowie vem lembrar os seus ouvintes que é necessário ser rebelde face ao que é injusto, batalhar para ser dono de si mesmo, confiando nas próprias capacidades e convicções. 

Desta forma, é um convite a encarar a vida sem medo, sem baixar a cabeça para ninguém e lutando por aquilo em que acreditamos, mesmo se parecer impossível.

Face a todos os cenários distópicos de opressão é necessário sempre, e cada vez mais, continuar sonhando com um final feliz, contra tudo e contra todos, até que ele se realize.

Inspiração e contexto sociopolítico

A composição traça um retrato do contexto social e político da época, através do olhar de um homem apaixonado. Em plena Guerra Fria, o mundo estava fragmentado pelos conflitos travados entre os Estados Unidos da América e a União Soviética.

Durante o braço de ferro entre o socialismo e a máquina capitalista, a ameaça nuclear surgia como uma garantia de destruição mútua que impedia que declarassem guerra diretamente. Em vez disso, lutavam por influência política e monopólio internacional, interferindo nas Guerras da Coreia e do Vietnã. 

A Alemanha estava no centro da disputa, dividida entre a República Democrática Alemã socialista e a República Federal da Alemanha, apoiada pelos Estados Unidos.

Imagem da construção do muro em 1961.
Soldados construindo o muro em 1961. 

Na madrugada de 13 de Agosto de 1961, o lado soviético construiu um enorme muro na cidade de Berlim, demarcando o lado Oriental e o lado Ocidental.

Na tentativa de isolar o seu território de todas as interferências e estímulos norte-americanos, a fronteira começou a ser patrulhada por soldados com ordem para matar todos que tentassem escapar. 

O Muro de Berlim, símbolo da cisão da Alemanha (e do mundo) em dois lados oponentes, separou inúmeras famílias e impossibilitou a livre circulação durante mais duas décadas. Bowie vivia em Berlim ocidental e gravava suas músicas em um estúdio que ficava a escassos metros do muro. O espírito da época se atravessava no trabalho do músico, inspirando suas composições. 

Embora os nomes tenham sido escondidos para preservar o sigilo, sabemos que a inspiração chegou quando Bowie viu Tony Visconti e Antonia Maass, uma vocalista que atuava com a banda, abraçados junto do muro. Era um romance proibido, porque ele era casado, mas serviu de inspiração para o compositor. 

Vinte e oito anos depois da sua construção, o muro começou a ser derrubado dia 9 de Novembro de 1989, na sequência de várias manifestações que visavam o direito de viajar.

Quando a RDA decidiu que iria abrir a fronteira, a notícia foi anunciada e atraiu milhares de pessoas que acabaram conseguindo passar.

Fotografia de Carol Guzy para o The Washington Post (1989).
Fotografia de Carol Guzy para o The Washington Post (1989).

O momento histórico, que ficou conhecido como a Queda do Muro, foi recebido com um grande entusiasmo pelo povo alemão. Sua relevância internacional também foi enorme, já que assinalou o final da "Cortina de Ferro" que dividia o mundo e, segundo vários especialistas, o princípio do fim da Guerra Fria. 

Curiosidades

O tema foi inspirado na música Hero (1975) da banda alemã Neu!, da qual Bowie revelou ser fã inúmeras vezes. Na música original, escrita por Michael Rother e Klaus Dinger, o sujeito fala diretamente com o ouvinte, reconhecendo o seu sofrimento diário e repetindo, vezes sem conta "vocé é apenas mais um herói atravessando a noite". 

Em 1980, John Lenon afirmou durante uma entrevista que Heroes foi uma grande inspiração para a composição de Double Fantasy, o disco que lançou nesse ano em colaboração com Yoko Ono.

Capa do disco Double Fantasy (1980)
Capa do disco Double Fantasy (1980) de John Lennon e Yoko Ono. 

A música surge no filme norte-americano As Vantagens de Ser Invisível (2012), dirigido por Stephen Chbosky com base no seu romance homônimo. O trio de amigos está passeando de carro quando Bowie começa a tocar no rádio. Sam diz que "essa canção é perfeita" e vai para a capota do carro, estendendo os braços e rindo enquanto atravessam um túnel. Estão felizes, como se vivessem um momento de redenção e o protagonista declara: "Eu me sinto infinito". 

A cena é uma das mais célebres do filme e apresentou a música e a mensagem de Bowie a uma nova geração, mostrando como o artista permanece atual e inspirador através dos tempos. 

Sobre David Bowie 

David Bowie por Masayoshi Sukita (1973).
Fotografia de Masayoshi Sukita.

David Bowie, nascido David Robert Jones (8 de janeiro de 1947 — 10 de janeiro de 2016), foi um cantor, compositor e ator inglês. Uma das vozes mais famosas da sua geração, conquistou a atenção do público não só pela qualidade das suas canções, mas também pela sua imagem andrógina e inovadora, que desafiava os padrões estéticos da época. Bowie ficou conhecido como o "Camaleão do Rock" porque estava sempre se reinventando, tanto musicalmente como na sua aparência. 

O show de junho de 1987, quando tocou Heroes em Berlim Oeste, foi considerado um dos elementos que motivaram a queda. Depois da morte do artista, o Governo alemão agradeceu publicamente o contributo de Bowie para "ajudar a derrubar o Muro". 

Conheça também

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.