Livro O Banquete, de Platão


Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O banquete (também conhecido como Simpósio, no grego Sympósion) é um diálogo fundamental na obra de Platão que traz como tema principal o amor e a amizade. Supõe-se que o trabalho tenha sido escrito entre os anos 385 a.C. e 380 a.C.

Durante O banquete, Platão não estava presente para assistir o diálogo, apenas tendo ouvido relatos de terceiros que testemunharam o evento. Por este motivo imagina-se que algumas passagens da obra tenham sido inventadas ou até mesmo desvirtuadas. 

Resumo e análise da obra

O relato se inicia com Apolodoro e um companheiro. Apolodoro deseja saber como ocorreu o encontro na casa de Ágaton, o banquete reuniu uma série de figuras ilustres da sociedade grega e, por isso, despertou tamanha curiosidade.

Ágaton sai vencedor de um concurso de tragédias. No dia da entrega do resultado, as cerimônias da vitória reuniram uma multidão, por isso, na noite a seguir, Ágaton decidiu oferecer um jantar com os mais próximos para celebrar a ocasião. 

O banquete acaba por se tornar uma espécie de competição onde cada intelectual presente tece um discurso para elogiar o amor. "O banquete" é, ao mesmo tempo, um elogio à filosofia e uma homenagem à Sócrates, mentor de Platão.

Durante a noite serão apresentados seis discursos definidores sobre o amor. São eles:

1. Discurso proferido por Fedro

O primeiro discurso da noite é realizado por Fedro e trata da natureza do amor e dos seus benefícios. Para Fedro, Eros (Deus do amor) é o mais antigo dos deuses e a causa dos maiores bens que se veem na terra. Ele dá ao amor um lugar central, de protagonismo absoluto.

Segundo o intelectual, o amor é um sentimento que desperta o que há de melhor no ser humano, as suas virtudes. Seu discurso nada mais é do que um enorme elogio ao amor, como se pode perceber a partir do trecho abaixo:

"eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte"

2. Discurso proferido por Pausânias

Quem o segue é Pausânias, amante de Ágaton, que afirma que a fala de Fedro foi uma simples prescrição de um elogio ao Amor. E tenta, através do seu discurso, corrigir a falta do companheiro.

Para Pausânias não existe um Eros, mas na realidade dois. Ou seja, segundo o amante de Ágaton existem duas formas de amor: a etérea e a carnal. A etérea conduz as ideias e é, por isso, a mais bela. 

Se portanto uma só fosse esta, um só seria o Amor; como porém são duas, é forçoso que dois sejam também os Amores. E como não são duas deusas? Uma, a mais velha sem dúvida, não tem mãe e é filha de Urano, e a ela é que chamamos de Urânia, a Celestial; a mais nova, filha de Zeus e de Dione, chamamo-la de Pandêmia, a Popular. É forçoso então que também o Amor, coadjuvante de uma, se chame corretamente Pandêmio, o Popular, e o outro Urânio, o Celestial.

3. Discurso proferido por Erixímaco

A terceira fala é a do médico Erixímaco que, devido à sua profissão, defende o amor saudável, com equilíbrio e moderação. Ele afirma estar de acordo com as ideias de Pausânias sobre a dualidade do amor, mas acha que este arrematou mal a ideia e, por este motivo, as suas palavras são uma tentativa de pôr um remate. Seu discurso parte da seguinte reflexão:

Ora, eu começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arte. A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; o sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o dessemelhante deseja e ama o dessemelhante. Um portanto é o amor no que é sadio, e outro no que é mórbido.

Para Erixímaco, portanto, a arte do amor é a arte do equilíbrio e da manutenção saudável das forças do bem e do mau.

4. Discurso proferido por Aristófanes

Quem toma a palavra após o médico é o dramaturgo Aristófanes.

Seu relato conta uma breve história, segundo o escritor na humanidade haviam três gêneros: o masculino, o feminino e um terceiro, andrógino. Esses seres eram inteiramente autossuficientes, até que os deuses resolveram parti-los ao meio, dessa forma eles estariam condenados a infelicidade eterna por não serem mais completos. Zeus proferiu as seguintes palavras:

“Acho que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito, continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e também mais úteis para nós, pelo fato de se terem tomado mais numerosos; e andarão eretos, sobre duas pernas. Se ainda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse ele, eu os cortarei em dois, e assim sobre uma só perna eles andarão, saltitando.”

O resultado foi trágico: desde a condenação que a nossa natureza mutilada em duas ansiava por sua outra metade.

5. Discurso proferido por Ágaton

O quinto discurso é o do poeta trágico Ágaton, o vencedor do concurso e dono da casa, que usa seu discurso para fazer belos jogos de palavras. Segundo o poeta, Eros, o amor, seria o mais jovem entre todos os deuses e seria marcado pela sua beleza, pela sua virtude e pela sua superioridade em relação aos seus pares.

Digo eu então que de todos os deuses, que são felizes, é o Amor, se é lícito dizê-lo sem incorrer em vingança, o mais feliz, porque é o mais belo deles e o melhor. Ora, ele é o mais belo por ser tal como se segue. Primeiramente, é o mais jovem dos deuses, ó Fedro.

5. Discurso proferido por Sócrates

O discurso a seguir, o mais aguardado da noite, é o de Sócrates, considerado o mais sábio dos homens. Logo a partida Sócrates desbanca todas as falas que o antecederam e afirma que, na sua percepção, o amor é desejo e nós só desejamos aquilo que não possuímos.

Observa bem, continuou Sócrates, se em vez de uma probabilidade não é uma necessidade que seja assim, o que deseja deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente. É espantoso como me parece, Agatão, ser uma necessidade; e a ti?

Por esse motivo o amor é, antes de tudo, carência e procura, busca por aquilo que não temos. Ao contrário daqueles que omitiram as suas opiniões anteriormente, para Sócrates o amor não seria um deus e sim uma entidade intermediaria entre os homens e os deuses.

5. Discurso proferido por Alcibíades

Quem por último intervém é Alcibíades, que dedica as suas palavras única e exclusivamente para louvar Sócrates e o discurso feito anteriormente:

"Tu porém dele diferes apenas nesse pequeno ponto, que sem instrumentos, com simples palavras, fazes o mesmo. Nós pelo menos, quando algum outro ouvimos mesmo que seja um perfeito orador, a falar de outros assuntos, absolutamente por assim dizer ninguém se interessa; quando porém é a ti que alguém ouve, ou palavras tuas referidas por outro, ainda que seja inteiramente vulgar o que está falando, mulher, homem ou adolescente, ficamos aturdidos e somos empolgados. Eu pelo menos, senhores, se não fosse de todo parecer que estou embriagado, eu vos contaria, sob juramento, o que é que eu sofri sob o efeito dos discursos deste homem, e sofro ainda agora. Quando com efeito os escuto, muito mais do que aos coribantes em seus transportes bate-me o coração, e lágrimas me escorrem sob o efeito dos seus discursos, enquanto que outros muitíssimos eu vejo que experimentam o mesmo sentimento; ao ouvir Péricles porém, e outros bons oradores, eu achava que falavam bem sem dúvida, mas nada de semelhante eu sentia"

Após a fala de Alcibíades se encerra o diálogo presente no O banquete, que reúne seis inteiramente distintas versões sobre as propriedades e características do amor.

Pano de fundo de O Banquete

Sete são os intelectuais reunidos na casa de Ágaton (Agathon), discípulo de Sócrates, para celebrar a vitória em um concurso de tragédias. São eles:  Fedro, Pausânias (amante de Ágaton), o médico Erixímaco, o comediógrafo Aristófanes, o político Alcibíades, Aristodemo e, o mais importante de todos, Sócrates.

Enquanto estão reunidos, comendo e bebendo em excesso, os temas do amor e da amizade (philia) são colocados em pauta. Cada participante então defende a sua tese particular.

Como Platão não esteve presente no encontro, Apolodoro relata o que se passou na casa de Ágaton. É através do seu clássico estilo de diálogo que ficamos conhecendo o que se passou durante o encontro. 

As intervenções são feitas na seguinte ordem:

  1. Fedro
  2. Pausânias
  3. Erixímaco
  4. Aristófanes
  5. Ágaton
  6. Sócrates
  7. Alcibíades
Pintura O Banquete de Platão, de Anselm Feuerbach.
Pintura O Banquete de Platão, de Anselm Feuerbach.

Nessa altura, Platão já possuía a sua própria academia em Atenas (ela fora fundada em 387 a.C.) e recebia todo tipo de aspirantes a intelectuais. A instituição de ensino foi um marco na cultura ocidental e por lá passaram grandes nomes da filosofia.

A maior diferença no projeto de ensino de Platão dizia respeito à metodologia de apreensão do conhecimento.

Enquanto a didática de outrora estimulava que o conteúdo fosse decorado, os ensinamentos de Platão tinham como objetivo transmitir a ideia de que o conhecimento era algo vivo e mutável e que deveria ser absorvido pela compreensão e não pela mera repetição. 

Quem foi Platão?

Platão nasceu com o nome de Arístocles em aproximadamente 427 a.C.

Platão foi um apelido dado possivelmente em referência a uma característica física (dizia-se que ele tinha uma fronte extensa).

Era filho de uma família nobre de Atenas, foi filho de Aríston. O período em que Platão nascera fora marcado pela democracia. Quando o intelectual veio ao mundo o país estava em guerra. Na Carta Sete, um dos poucos registros da sua vida, Platão afirma que nasceu para ser um político.

Entretanto na juventude conheceu Sócrates, de quem veio a ser discípulo. Indignado com a morte do mestre, Platão seguiu em frente honrando o seu nome e os seus ensinamentos. Praticou durante muitos anos os diálogos e tornou-se, acima de tudo, um grande intelectual.

Platão
Busto de Platão.

Leia O banquete 

O banquete encontra-se disponível na íntegra em português em formato PDF:

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Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.