Mito da Caverna, de Platão


Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e artista visual

O Mito da Caverna - ou a Alegoria da Caverna - é um texto escrito pelo antigo filósofo grego Platão.

Essa é uma metáfora de caráter filosófico-pedagógico que exibe um diálogo entre o pensador e mestre de Platão, Sócrates, e a personagem Glauco, um jovem aprendiz.

A partir de um conto cheio de simbologias, Platão nos apresenta conceitos e situações que versam sobre a busca pelo conhecimento, em contraste com a ignorância e a manipulação.

A história integra o livro VII de A República, obra em que o autor debruça-se sobre a vida política ateniense, escrito aproximadamente no século IV a.C.

Resumo do Mito da Caverna

Nesse mito, Sócrates pede que Glauco imagine uma situação hipotética em que várias pessoas são mantidas acorrentadas no fundo de uma escura caverna subterrânea.

ilustração de Mito da caverna
Ilustração de Jan Sanraedam (1604) representando o Mito da Caverna

À frente dos prisioneiros havia apenas uma parede, onde eram projetadas sombras de figuras representando seres, animais e outros elementos.

Essas projeções eram feitas por outras pessoas (que podem ser denominadas como "amos da caverna") com o auxílio da luz de uma fogueira, que encontrava-se atrás da população acorrentada.

Os amos da caverna elaboraram esse esquema, acorrentando as pessoas desde o nascimento, levando-as a acreditar que são livres. Assim, eles os estimulam a trocarem ideias entre si e, inclusive, a escolherem um líder.

Como a única realidade que os prisioneiros conheciam era aquela, eles acreditavam que as sombras exibiam o mundo real, que tudo o que havia para ser explorado no universo eram as projeções. Então contentavam-se com aquele espetáculo e não tinham outras aspirações.

Entretanto, contrariando as expectativas, um dos prisioneiros começa a refletir sobre sua condição e percebe que existe algo de muito errado. Assim, um dia ele consegue se libertar e caminhar pela caverna, percebendo a fogueira, os amos e as silhuetas.

mito da caverna
Esquema explicando o Mito da Caverna

Ao olhar a luz da fogueira seus olhos ficam ofuscados, pois ele nunca tinha visto a luminosidade. Ele caminha mais e com dificuldade chega à saída da caverna, deparando-se com uma luz ainda mais intensa: a luz do sol.

O homem liberto, à princípio, sente um enorme desconforto, não consegue enxergar nada, pois a vida inteira esteve preso e seus olhos não estão acostumados com a luminosidade. Entretanto, aos poucos desenvolve um olhar capaz de lidar com o mundo exterior.

A partir de então passa a ver a realidade e viver outras experiências que não eram possíveis dentro da escura caverna.

Após um tempo explorando o novo mundo, o homem sente a necessidade de contar aos seus pares o que havia descoberto.

Então, no diálogo proposto por Platão, Sócrates diz para Glauco supor o que aconteceria se tal homem retornasse à caverna a fim de "abrir os olhos" de seus irmãos.

Eles chegam à conclusão de que o homem seria rechaçado por muitos dos prisioneiros, que não acreditariam nele e o tomariam como louco.

Interpretação e análise do mito

O conto nos apresenta alguns ensinamentos através da simbologia. Dessa forma, a caverna pode representar nosso mundo interior, nossas limitações e "zona de conforto". Já os prisioneiros são todos os indivíduos, que na realidade vivem em um tipo de "escravidão inconsciente".

As projeções, ou sombras, são alegorias que simbolizam as ilusões a que os seres humanos estão presos. Essas ilusões são, para Platão, o mundo material, pois na antiguidade valorizava-se muito mais o que é eterno. Podemos também interpretá-las como as ideias ignorantes e preconceituosas que nutrimos ao logo da vida.

A fogueira, que fornece a luminosidade capaz de fazer com que as silhuetas sejam exibidas na parede, é vista como uma espécie de "fogo dos desejos". Assim, esse elemento entra no mito para caracterizar a vontade do ser humano de consumir coisas materiais e experiências superficiais.

Os amos da caverna são as pessoas que manipulam os prisioneiros, ou seja, são as pessoas que, pensando que obterão benefícios, controlam e alienam o povo.

Diferente dos prisioneiros, eles não estão acorrentados e conseguem enxergar a saída da caverna, mas assim como eles, também estão enclausurados, pois temem que no mundo externo não tenham os mesmos privilégios que adquirem por meio da "cegueira" da população que dominam.

O último símbolo que aparece no mito é a luz do sol, que significa a "ideia do Bem", conceito trazido por Platão que nos diz sobre a luz da sabedoria, do conhecimento e da verdade.

Nesse sentido, a luminosidade natural é a consciência que nos direciona a um posicionamento benéfico no mundo, nos colocando de forma a servir ao bem e não tirar proveito próprio das pessoas e situações.

Como relacionar a Alegoria da Caverna com o mundo atual?

Esse diálogo proposto por Platão é realmente muito antigo, escrito cerca de 400 anos antes do nascimento de Cristo. Ainda assim, nos traz conceitos valiosos para entender o comportamento e anseios dos seres humanos até hoje.

Podemos traçar um paralelo com essa alegoria e a realidade atual no que diz respeito, por exemplo, à ânsia de adquirir bens de consumo, acreditando que assim será possível o preenchimento de um vazio existencial.

Os amos da caverna podem hoje simbolizar os políticos e grandes empresários, donos de verdadeiras fortunas que conquistam com a manipulação das pessoas e a venda de produtos e mais produtos. Seguindo esse raciocínio, é possível relacionar a publicidade e os modismos às sombras projetadas na caverna.

A busca pelo conhecimento, continua sendo, portanto, essencial para que um dia os seres humanos consigam alcançar a verdade e a libertação.

Releituras de Mito da caverna

A história da caverna serviu de inspiração para algumas produções artísticas, dentre elas destacamos dois filmes que fizeram enorme sucesso.

Filme The Matrix, das irmãs Wachowski

The Matrix foi lançado em 1999 e tornou-se um ícone do cinema de ficção científica.

Matrix e mito da caverna
O personagem Neo, interpretado por Keanu Reaves, em Matrix

Dirigido pelas irmãs Lilly e Lana Wachowski, o enredo exibe uma história onde Neo (interpretado por Keanu Reaves), é convidado a conhecer os "bastidores" do mundo, onde a realidade material que conhecemos não passa de ilusão.

Assim, o protagonista embarca em uma luta contra as máquinas que dominam os seres humanos.

Para saber mais sobre o filme, leia: The Matrix

O show de Truman

Em O show de Truman, dirigido por Peter Weir e lançado em 1998, o protagonista é Truman Burbank (Jim Carrey).

show de truman mito da caverna
O show de Truman, que tem como protagonista Jim Carrey, pode ser relacionado ao Mito da Caverna

Sua vida foi, desde o nascimento, controlada e gravada, de modo a passar na televisão para que milhares de espectadores acompanhassem sua rotina.

Truman vive até a fase adulta sem nunca desconfiar, mas chega um determinado momento em que ele passa a perceber que vivia uma grande farsa, então ele busca de toda forma conhecer a verdade.

Quem foi Platão?

Platão é considerado um dos maiores nomes da filosofia ocidental clássica. Ele provavelmente viveu entre os anos 427-347 a.C. e foi discípulo de Sócrates, outro grande mestre da filosofia.

Suas ideias baseavam-se no entendimento de que a vida sensorial e material é ilusória e que a verdade está na busca da verdade e da razão, que conduzem ao conhecimento.

escultura Platão
Escultura grega representando o filósofo Platão

O verdadeiro nome do pensador era Arístocles, que veio de uma família abastada de Atenas. Recebeu a alcunha de Platão por conta de seu tipo físico, já que a palavra significa "ombros largos".

Aos 40 anos, concebeu uma escola destinada ao conhecimento, que recebeu o nome de Academia. Lá se reuniam diversos pensadores.

A partir dos ensinamentos e reflexões junto a Sócrates, desenvolveu suas próprias teorias. Além disso, escreveu diversos textos que traziam diálogos com Sócrates, o que possibilitou que o mundo conhecesse o pensamento de seu mestre.

Platão viveu muito considerando seu momento histórico, morrendo no ano de 347 a.C., aos 80 anos.

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Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007 e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, localizada em São Paulo, em 2010.