Livro A Viuvinha, de José de Alencar


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Publicado pela primeira vez em 1860, o breve livro A Viuvinha, de José de Alencar, é um romance urbano encenado no Rio de Janeiro em meados do século XIX.

A história tem como protagonista o bem nascido Jorge que, após a orfandade, dá cabo da fortuna deixada pelo pai e, afundado em dívidas, não vê outra saída além de simular o próprio suicídio. 

Resumo da obra 

O protagonista da narrativa é Jorge, um rapaz nascido e criado no Rio de Janeiro, filho de boa família, que com a morte prematura do pai herda enorme fortuna. É ele que conta a história da sua vida através de uma carta, dirigida a prima. 

Julgando-se financeiramente confortável, Jorge passa os três anos a seguir a morte do pai fazendo todas as loucuras que podia. Seu cotidiano era marcado por cortejar mulheres, gastar fortunas em festas, com comidas e bebidas, e estar em companhia de amigos também afortunados.

Após esse período de esbórnia, Jorge recebe um sinal do destino:

Levantou-se um dia depois de uma noite de insônia, em que todas as recordações de sua vida desregrada, todas as imagens das mulheres que o haviam seduzido perpassaram como fantasmas pela sua imaginação, atirando-lhe um sorriso de zombaria e de escárnio.
Abriu a janela para aspirar o ar puro e fresco da manhã, que vinha rompendo.
Daí a pouco o sino da igrejinha da Glória começou a repicar alegremente; esse toque argentino, essa voz prazenteira do sino, causou-lhe uma impressão agradável.
Vieram-lhe tentações de ir à missa.

A insônia inesperada fez com que Jorge ouvisse o sino da missa e se sentisse imediatamente convocado para a igreja, em busca de uma nova vida. A ida à igreja rendeu-lhe imenso bem estar, era como se a alma estivesse apaziguada das desmedidas de outrora. 

É nesta manhã, durante a missa, que o rapaz percebe a presença de uma menina de quinze anos chamada Carolina, de perfil suave e delicado, longos cílios e tranças. Foi paixão a primeira vista. A garota estava acompanhada da mãe, D. Maria. 

O amor fez com que o rapaz mudasse da água para o vinho durante esse breve período que sucedeu ao encontro na igreja. Jorge abandonou de vez a vida frugal e se mostrava cada mais vez mais humilde e modesto nos hábitos, vivendo apenas do seu trabalho e ignorando a farta herança que havia recebido. 

Dois meses após o encontro casual na igreja e visitas a casa de Carolina, o par casa-se. A festa foi uma celebração simples, com poucos amigos e festejo modesto.

O casamento acontece cinco anos após o falecimento do pai. Nos dois primeiros anos de orfandade, a fortuna fora administrada pelo senhor Almeida, o tutor amigo de longa data da família. Assim que Jorge completou a maioridade, no entanto, passou a ser responsável pelos próprios bens.

Pouco antes do casamento, o senhor Almeida, o antigo tutor, pede que Jorge lhe faça uma visita e, durante o encontro, faz uma inesperada revelação:

- Os seus desvarios de três anos arruinaram a sua fortuna.
- Eu o sei.
- As suas apólices voaram umas após outras e foram consumidas em jantares, prazeres e jogos.
- Resta-me, porém, a minha casa comercial.
- Resta-lhe, continuou o velho, carregando sobre esta palavra, a sua casa comercial, mas três anos de má administração deviam naturalmente ter influído no estado dessa casa. (...) O senhor está pobre!

É de se imaginar o espanto do rapaz, que se casaria em breve com Carolina e desejava deixar a vida de excessos para trás, embora esperasse que a herança lhe conferisse algum conforto conjugal.

Desesperado com a sua recente condição de falido e sem saber o que fazer a um dia do casamento, Jorge cogita desmarcar o evento para não desgraçar a vida da futura noiva. Contudo, percebe que deixá-la pouco antes de subir ao altar seria péssimo para a reputação da jovem. 

Enquanto escreve uma carta para D.Maria, mãe de Carolina, o rapaz tem uma ideia que decide levar a cabo e que promete resolver o seu futuro sem macular a honra da noiva. 

Chega, enfim, o casamento. O evento reúne quatro pessoas além dos noivos: sr. Almeida, D.Maria, um sacerdote respeitável e uma encantadora menina. O casamento transcorre como era suposto, embora o marido carregue feições tristes durante todo o dia. 

Na noite de núpcias, Jorge oferece a Carolina uma bebida e a moça imediatamente adormece. Enquanto a moça mergulha nos braços de Morfeu, Jorge deixa uma carta para a amada e escapa da casa, às quatro da manhã, rumo ao seu trágico destino. Ele se dirige ao centro do Rio de Janeiro, ao templo do suicídio, um lugar chamado Obras da Misericórdia, onde diversas pessoas tiravam a própria vida com um tiro deixando apenas uma carta ou um bilhete para alguém querido. 

Após a chegada de Jorge ao trágico local, ouve-se barulhos de pistola e, quando os funcionários da obra chegam, deparam-se com um cadáver com o rosto esfacelado pelas balas. A descoberta que se segue é a seguinte:

Um dos guardas meteu a mão no bolso da sobrecasaca e achou uma carteira, contendo algumas notas pequenas, e uma carta apenas dobrada, que ele abriu e leu:

"Peço a quem achar o meu corpo o faça enterrar imediatamente, a fim de poupar à minha mulher e aos meus amigos esse horrível espetáculo. Para isso achará na minha carteira o dinheiro que possuo."
Jorge da Silva
5 de setembro de 1844.

A narrativa faz um corte abrupto e avança cinco anos. Já agora Carolina é conhecida como A Viuvinha, uma moça que casou-se em um dia e no dia seguinte viu suicidado o próprio marido. Jorge, supostamente morto, na verdade permanece vivo e adquire uma nova identidade. Ele agora chama-se Carlos e é um negociante estrangeiro.

O plano do rapaz é pagar a dívida para então retornar aos braços da amada. Carlos passa a seguir Carolina para saber se a antiga esposa, de fato, o amava e comprova que sim, a jovem nunca deixou de ser fiel a Jorge. Uma das provas é que, apesar da juventude, Carolina jamais deixou de vestir a cor preta. 

Carlos toma coragem e revela seu amor a Carolina, que permanece sendo fiel ao marido, embora se sinta um pouco dividida com a declaração do novo homem que a corteja. Por fim, Carlos assume que é Jorge e transparece seus planos e últimos anos de vida. Carolina imediatamente o perdoa e o casal se une outra vez.

O que torna o livro tão interessante?

Várias são as características que convocam o leitor para essa obra, listamos abaixo apenas alguns dos fatores que provavelmente também irão te cativar:

O humor

José de Alencar é conhecido pelo senso de humor que transparece em todas as suas obras e A viuvinha não foge à regra. Um dos exemplos pode ser encontrado quando o narrador descreve a profissão de Carlos:

Há uma profissão, cujo nome é tão vago, tão genérico, que pode abranger tudo. Falo da profissão de negociante.
Quando um moço não quer abraçar alguma profissão trabalhosa, diz-se negociante, isto é, ocupado em tratar dos seus negócios.

Outro exemplo possível encontra-se presente na cena que se segue a revelação da proeza de Jorge torrar a fortuna do pai em apenas três anos. O narrador, a respeito do assunto, tece um comentário ácido e mordaz sobre a nova condição do rapaz: 

Para um homem habituado aos cômodos da vida, a essa existência da gente rica, que tem a chave de ouro que abre todas as portas, o talismã que vence todos os impossíveis, essa palavra pobre é a desgraça, é mais do que a desgraça, é uma fatalidade.

O fato do narrador por vezes se dirigir diretamente ao leitor

Em algumas passagens do romance, o narrador demonstra ter conhecimento de que há um leitor do outro lado da página e dirige-se diretamente a ele:

Mas eu não escrevo um romance, conto-lhe uma história. A verdade dispensa a verossimilhança.

As reviravoltas no enredo

O protagonista Jorge é inicialmente apresentado como um bon vivant, um sujeito que torra a fortuna deixada pelo pai em festas, jogos e mulheres. Por um lapso praticamente inexplicável, ele resolve mudar de vida e tornar-se um bom homem. No entanto, quando a mudança definitiva está quase a acontecer, Jorge descobre que está pobre e sente-se obrigado a abandonar seus planos. Após simular o próprio suicídio, reinventa-se como Carlos, um negociante estrangeiro. Carlos consegue após cinco anos de trabalho árduo reconquistar a vida que tinha e a esposa que tanto desejava.

O livro faz referência a outro romance de José de Alencar (Cinco minutos)

Na última página de A viuvinha, lemos um parágrafo nada fortuito:

Carlota é amiga íntima de Carolina. Elas acham ambas um ponto de semelhança na sua vida; é a felicidade depois de cruéis e terríveis provanças. As nossas famílias se visitam com muita frequência; e posso dizer-lhe que somos uns para os outros a única sociedade.

Carlota, supostamente vizinha e amiga íntima de Carolina, é a protagonista do romance de intitulado Cinco Minutos. Já a primeira edição de A viuvinha continha Cinco minutos como a narrativa a seguir. 

Personagens principais

Jorge

Filho de um senhor respeitável da sociedade que falece, deixando para o filho único uma boa herança. Quando perde o pai, Jorge tem 16 anos e quem cuida da sua fortuna com zelo é o sr.Almeida, tutor e antigo amigo da família. A partir do momento em que alcança a maioridade, Jorge dá cabo do vasto montante esbanjando com mulheres, jogos e festas. A vida muda após um lampejo de responsabilidade, quando o rapaz resolve ir a missa e lá encontra a sua grande paixão, a menina Carolina.

Jorge é um típico representante do Romantismo: um sujeito solitário, mergulhado nas suas próprias subjetividades e apaixonado por Carolina, uma moça altamente idealizada. Jorge é mais uma vítima do amor romântico puro, eterno e que supera todas as barreiras e dificuldades.

Sr. Almeida

Antigo tutor de Jorge, amigo do seu falecido pai. Faz uma forte crítica à conduta social de Jorge que, antes de conhecer Carolina, acabou com a verba que herdou do pai após duros anos de trabalho. 

Carolina

Uma jovem de 15 anos, fruto de uma família humilde, filha de D.Maria. A moça conhece Jorge durante uma missa matinal e logo engatam uma relação que desemboca em casamento. Carolina é claramente uma personagem pertencente ao Romantismo: a jovem é idealizada tanto pela sua beleza angelical e pura como pela sua fidelidade. Carolina mantém-se fiel à Jorge mesmo na viuvez. Quando descobre que o marido afinal está vivo perdoa-o imediatamente mostrando que o amor supera toda e qualquer barreira. 

D. Maria

Mãe zelosa de Carolina, confia no bom partido Jorge a quem entrega o futuro da filha. Protetora, D.Maria permanece ao lado da filha nos bons e nos maus momentos.

Contexto histórico: o Romantismo no Brasil

O Romantismo mobilizou a Europa entre os séculos XVIII e XIX.

No Brasil, o movimento teve três fases: a primeira (Nacionalismo), a segunda (Geração o mal do século) e a terceira (Condoreirismo). Durante a fase nacionalista houve uma valorização da cultura nacional, uma necessidade de se libertar de Portugal para adquirir independência, uma identidade própria autônoma. Essa fase foi marcada pelo indianismo. 

A segunda fase do Romantismo brasileiro data de 1850, quando o eu-lírico se volta para o próprio interior e as questões íntimas e subjetivas ganham protagonismo. É um período marcado pelo pessimismo, pela melancolia e pela solidão. Essa geração também é conhecida por escritos com alto grau de idealização do amor.

A terceira fase do Romantismo, por sua vez, encontrou o poeta francês Victor Hugo como maior inspiração. A preocupação política volta a ser cara à literatura e os escritores românticos procuram defender ideologias libertárias. 

José de Alencar foi um dos grandes nomes do Romantismo brasileiro. Foi autor de títulos indianistas, mas também centrou a sua prosa no romance urbano. A Viuvinha é um título que se enquadra na última categoria. 

A viuvinha e o Romantismo: características principais

No Brasil o Romantismo teve como marco dois lançamentos de Gonçalves de Magalhães, ambos no ano de 1836 (foram eles: a Revista Niterói e antologia de poemas Suspiros poéticos e saudades).

O Romantismo tinha como uma das características centrais a idealização da mulher, basta notar como José de Alencar escolhe compor a sua protagonista: Carolina é pura, casta, bela, jovem e mantem-se fiel ao amor mesmo após a suposta morte do marido.

Os romances românticos também eram caracterizados por apresentarem personagens planas, previsíveis, com pouca complexidade psicológica. Carolina é um exemplo desse tipo de personagem, sempre devota ao amor e ao marido, firme nos seus ideais. 

O movimento literário fomentava um sentimentalismo exacerbado, sob esse ponto de vista A viuvinha também é um clássico exemplar romântico. A linguagem escolhida por José de Alencar também era simples e direta, como pregavam os românticos da sua geração. 

Outro ponto chave é para os adeptos do movimento é a presença de um notável grau de egocentrismo. Jorge é um personagem claramente romântico, repare como os seus dramas pessoais fazem girar a narrativa. 

Publicação de A viuvinha

A história de A viuvinha foi inicialmente a público através de passagens publicadas em folhetins de janeiro a fevereiro de 1857 no Diário do Rio de Janeiro. 

A edição em formato de livro que reúne A viuvinha e Cinco minutos foi publicada somente três anos mais tarde, em 1860, no Rio de Janeiro, pela Typ. do Correio Mercantil. Cinco minutos, por sua vez, já é uma segunda edição.

O obra contém 157 páginas. A edição original de A viuvinha e Cinco minutos encontra-se disponível para download gratuito em formato PDF. 

Prefere ouvir A viuvinha?

O audiobook do romance de José de Alencar encontra-se disponível:

Leia na íntegra

O livro A viuvinha está disponível para download em formato PDF.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Graduada em Letras, mestre em Literatura e doutora em Estudos de Cultura, trabalhou durante dez anos como editora assistente e executiva em editoras no Brasil e em Portugal.