Livro Capitães da Areia, de Jorge Amado


Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes
Atualizado em

Capitães da Areia é um romance de 1937 do escritor brasileiro Jorge Amado. O livro retrata a vida de um grupo de crianças abandonadas. Elas lutam e roubam para sobreviver na cidade de Salvador, na Bahia.

A obra está inserida na segunda fase do modernismo, quando a literatura passa a focar nas questões sociais.

Resumo de Capitães da Areia

O enredo segue as ações de um grupo de menores abandonados que se chama Capitães da Areia e reage ao meio em que está exposto. Diante da fome e do abandono, eles roubam e, devido à repressão e à tortura policial, se organizam em uma gangue violenta pelas ruas de Salvador.

Liderados por Pedro Bala, aquilo que os une é um forte instinto de sobrevivência, assim como os laços de camaradagem, amizade e partilha. Com personalidades e formas de ver o mundo diferentes, todos eles vão crescendo e traçando seus próprios destinos, seguindo caminhos bastante diversos.

Se alguns garotos têm finais trágicos, como a morte e a cadeia, outros continuam no mundo do crime. Existem ainda aqueles que conseguem mudar suas vidas, seguindo outros ofícios como a política, a arte e até o sacerdócio.

Análise e interpretação da obra

O princípio do romance: as cartas

O romance começa com várias cartas publicadas no Jornal da Tarde sobre o grupo dos Capitães da Areia que assolam a cidade de Salvador com seus furtos. A linguagem utilizada denota o modo como os menores abandonados eram tratados pelos órgãos oficiais.

Capitães da Areia - filme

O jornal descreve um assalto e pede uma ação da polícia e do Juizado de Menores; ambos respondem, empurrando as responsabilidades um para o outro.

Depois surge a carta da mãe de um menino internado no reformatório, contando os abusos que as crianças vivem dentro da instituição. Um padre manda outra carta reafirmando o péssimo tratamento, mas nenhuma delas recebe destaque na publicação.

A carta que se segue é do diretor do reformatório, que se defende das acusações e acaba ganhando uma matéria que elogia o seu trabalho. Assim, percebemos que embora a violência seja denunciada, as autoridades mantêm sua postura negligente e não estão dispostas a resolver o problema.

O cenário do romance: Bahia de Omolu

Omolu é o orixá associado às doenças contagiosas, também responsável pela cura e a saúde. Segundo a obra, ele teria enviado a maleita para castigar as classes privilegiadas da região, porque não aprovava seus comportamentos. Esta é uma das várias instâncias em que o enredo menciona figuras das religiões de matriz africana.

Cena do filme Capitães da Areia

O cenário do romance é uma Bahia dividida entre pobres da cidade baixa e ricos da cidade alta. O contraste social está presente em todo o livro, porém um dos mais marcantes é a epidemia de varíola que varreu a cidade.

Omolu tinha mandado a bexiga negra para a Cidade Alta, para a cidade dos ricos.

Enquanto os ricos se vacinam e se protegem da doença, os pobres doentes são levados para o lazareto, onde o abandono e a falta de higiene são praticamente sentenças de morte. No romance de Jorge Amado, as instituições públicas destinadas aos pobres são descritas com horror.

O reformatório para crianças abandonadas ou pequenos delinquentes é um ambiente insalubre, onde se passa fome e se sofre com diversas punições. O orfanato é descrito como um lugar onde a felicidade não existe e a polícia como um órgão dedicado à repressão e tortura dos pobres.

O destino enquanto fator social

Um dos aspectos mais interessantes da obra é o jeito como o futuro dos menores vai sendo traçado ao longo do enredo. O meio não serve somente para explicar como se tornaram delinquentes, mas para traçar o futuro que os espera.

Isso não significa que todas as crianças terão o mesmo destino. O autor sabe explorar as nuances da vida de cada personagem, criando um futuro para cada um, como se tudo já estivesse tratado e acertado, somente à espera de acontecer.

Capitães da Areia reunidos

O fato de cada garoto ter as suas peculiaridades, que os diferenciam um dos outros, torna o livro de Jorge Amado uma obra literária de grande valor e não apenas um romance panfletário. Todas essas características estão ligadas ao meio social das crianças e ao seu passado.

Como eles vivem na rua desde muito cedo, sem pais, sem cuidado e sem carinho, são tratados como adultos pelo narrador. Desta forma, as suas escolhas tem um impacto real na narrativa e no seu destino, do mesmo modo que acontece com os adultos.

Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.

Jorge Amado e o romance social

De posição assumidamente de esquerda e membro do Partido Comunista Brasileiro, Jorge Amado sempre se engajou em questões sociais. A sua literatura é um reflexo da sua atitude política e Capitães da Areia é um grande exemplo disso.

A questão da falta de oportunidades e da desigualdade como motor da violência é abordada em todo o romance. Outras lutas sociais, como o direito à greve, também aparecem pontualmente ao longo da narrativa.

A greve é a festa dos pobres.

O tema político é tão presente no romance que ele chegou a ser proibido e queimado em praça pública durante o Regime Novo e ainda hoje alguns críticos consideram o livro panfletário.

Personagens principais

Pedro Bala

Pedro Bala - filme Capitães da Areia

O líder dos Capitães de Areia é um dos personagens mais complexos do romance. Ao contrário dos outros, que parecem ter o destino traçado, Pedro Bala vai construindo o seu próprio destino.

O que se mantém em toda a narrativa é o seu caráter e espírito nato de liderança. Justo e sábio, mesmo sendo ainda uma criança, consegue manter o grupo unido e organizado. Sua autoridade é resultado do respeito que as crianças têm por ele.

Sua vocação começa a ser descortinada quando descobrimos que seu pai é o Louro, um famoso sindicalista das docas que foi morto pela polícia durante uma greve. Bala começa a se interessar por aquilo tudo.

A vida de menino abandonado, mas organizado em um grupo, lhe deu consciência do quanto os pobres sofrem enquanto os ricos parecem aproveitar o dia a dia. Os atos de violência dos Capitães da Areia nada mais são do que uma luta por melhores condições de vida.

Sua consciência de classe vai aumentando conforme o tempo e o convívio com outras pessoas. Durante uma greve de motoristas de bondes, ele sai à rua e descobre o poder da reivindicação coletiva.

A revolução chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche.

Sua ligação com os movimentos sociais se torna oficial quando um estudante, membro de uma organização, procura Pedro Bala e o seu grupo para fazer um piquete e evitar que os fura-greves assumam os bondes.

A ação dos Capitães da Areia é um sucesso e Bala começa a se envolver cada vez. No final, é escalado para organizar diversos movimentos de menores abandonados no país, deixando o grupo muito próximo das lutas sociais.

João Grande

João Grande - filme Capitães da Areia

É o braço direito de Pedro Bala, com um coração enorme e bom. João Grande é uma espécie de protetor e guarda-costas dos outros Capitães da Areia.

Seu senso de proteção e de justiça é muito grande, sempre intervindo para ajudar os mais fracos. Todo o seu percurso acontece ao lado de Bala, sendo difícil separar o caminho dos dois personagens.

Quem for bom é igual a João Grande, melhor não é...

Professor

Professor - filme Capitães da Areia

Um dos mais inteligentes, ele tem esse apelido porque passa as noites lendo. É o Professor quem ajuda Pedro Bala a planejar as ações do grupo. Ele também tem um grande talento para o desenho, geralmente feito com giz na calçada.

A sua percepção das coisas é grande. Ele se apaixona por Dora, a noiva do Pedro Bala. A chegada dela no trapiche é um momento marcante para o Professor. Graças a sua esperteza consegue descobrir qual o tipo de relação que ela tem com os garotos, qual a carência que ela preenche em cada um dos meninos abandonados.

Depois da morte de Dora, sente um vazio muito grande no trapiche, como se ele se tornasse uma moldura vazia. O Professor percebe que, na realidade, o trapiche é uma moldura com inúmeros quadros dentro, inúmeras histórias e vivências, que precisam ser retratadas.

Ele vai então para o Rio de Janeiro aprender pintura, a convite de um poeta que ele desenhou uma vez na rua. Suas obras retratam a vivência dos pobres e abandonados.

Volta-Seca

Volta Seca - filme Capitães da Areia

É um caboclo, filho de uma pequena fazendeira comadre de Lampião que, ao perder as terras, resolve ir para a Bahia tentar justiça. Contudo, ela morre no caminho, deixando o seu filho sozinho na cidade. Seu maior ídolo é Lampião e ele sempre pede para o Professor ler as notícias dele que saem no jornal.

Um dia, é pego e torturado pela polícia. Seu ódio pelos soldados aumenta. Marcado pelas autoridades, ele tem que sair de Salvador. A solução é ir até outro grupo de menores, amigos dos Capitães da Areia, em Aracaju.

No meio do caminho o trem que leva Volta-Seca é parado pelo grupo de Lampião. Ele se junta aos cangaceiros, seu ódio pela polícia faz com que já mate dois soldados que estavam no trem. Mesmo sendo um garoto, é um dos mais temidos do grupo de Lampião. Mais tarde acaba por ser preso e condenado em Salvador.

Sem-Pernas

É um garoto coxo que nunca teve amor ou afeto, nem de mãe nem de nenhuma mulher. Seu papel principal no grupo era se infiltrar nas casas dos ricos para depois os Capitães da Areia assaltarem.

Sem-Pernas vive com ódio e tem um pesadelo constante de quando foi para o reformatório - o chicoteavam e riam enquanto o mandavam correr em círculos.

Muita gente o tinha odiado. E ele odiara a todos.

O desprezo que a sociedade sente por ele e os abusos que ele sofre são os relatos mais constantes sobre a sua pessoa. Muito novo, Sem-Pernas só conhecia o ódio e vivia dele.

Em um assalto que dá errado, ele se vê perseguido por muitos guardas. Sem conseguir correr muito, está perto de ser capturado. Como não pretende voltar para o reformatório e, sem muita escapatória, ele se joga de um penhasco para morrer.

Pirulito

Pirulito - filme Capitães da Areia

Ele é um dos mais influenciados pela visita de José Pedro, um humilde padre que tenta sempre ajudar os Capitães da Areia, mesmo que as suas ações não sejam aceitas pela igreja. Ambos os personagens sentem o chamado de Deus, porém também entendem a miséria e a vida dos pobres.

A dualidade entre uma igreja, que é sustentada e trabalha para os ricos, e uma doutrina católica, que prega a humildade e o amor ao próximo, é amplamente explorada no romance por meio destas duas figuras. Pirulito acaba se tornando frade e catequiza menores abandonados.

Gato

Gato - filme Capitães da Areia

É a figura do golpista que sempre anda arrumado e busca imitar os galãs que vê no cinema. Ainda menino arranja uma prostituta como amante e lhe arranca dinheiro como um pequeno cafetão.

Joga baralho marcado e faz todo tipo de golpe. Acaba indo para Ilhéus com a sua amante, onde se torna conhecido por diversos golpes aplicados em fazendeiros ricos.

Boa-Vida

Boa Vida - filme Capitães da Areia

É o menino malandro que adora violão, capoeira e as ruas de Salvador. A malandragem anda junto com o seu bom coração. Ele cumpre sem muitas dificuldades o seu destino de se tornar um do grandes malandros da cidade.

Contexto histórico da obra

O romance de Jorge Amado foi escrito no final da década de 1930, uma época conturbada no mundo, com grandes polarizações políticas. No Brasil, o Estado Novo flertava com o regime nazista, enquanto nascia em meio à população uma consciência de classe.

O Estado Novo ficou marcado pelo nacionalismo, o anticomunismo e o autoritarismo. Jorge Amado foi preso duas vezes durante o governo de Getúlio Vargas e escreveu um livro sobre as torturas praticadas pela polícia durante esse período.

No sertão baiano, Lampião e seu bando representavam uma força social que lutava contra o latifúndio e contra a figura do fazendeiro-coronel. A admiração dos menores abandonados, no romance de Jorge Amado, pelo grupo de Lampião é marcante. No livro, chegam a ser descritos como "o braço armado dos pobres no sertão".

A Segunda Guerra divide o mundo em duas partes e, mesmo tendo relações diretas com o governo nazista Alemão, o Estado Novo se alinha aos EUA.

Filme Capitães da Areia (2011)

Em 2011, o romance foi adaptado para o cinema por Cecília Amado, neta do escritor, marcando o início das comemorações do seu centenário.

O elenco conta com as atuações de Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Paulo Abade, Israel Gouvêa, Ana Cecília Costa, Marinho Gonçalves e Jussilene Santana.

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Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.