Livro Capitães da Areia de Jorge Amado


Capitães da Areia é um romance de 1937 do escritor brasileiro Jorge Amado. O livro retrata a vida de um grupo de crianças abandonadas. Elas lutam e roubam para sobreviver na cidade de Salvador, na Bahia. A obra está inserida na segunda fase do modernismo, quando a literatura passa a focar nas questões sociais.

O grupo de menores abandonados se chama Capitães da Areia e reage ao meio em que está exposto. Diante da fome e do abandono, eles roubam e, diante da repressão e da tortura policial, se organizam em uma gangue violenta pelas ruas de Salvador.

Jorge Amado e o romance social

De posição assumidamente de esquerda e membro do Partido Comunista Brasileiro, Jorge Amado sempre se engajou em questões sociais. A sua literatura é um reflexo de seu atitude política e Capitães da Areia é um grande exemplo disso. 

A questão da falta de oportunidades e da desigualdade social como motor da violência é abordada em todo o romance. Outras lutas sociais, como o direito à greve, também aparecem pontualmente ao longo da narrativa. O tema político é tão presente no romance que ele chegou a ser proibido e queimado em praça pública durante o Regime Novo e ainda hoje alguns críticos consideram o livro panfletário.

"a greve é a festa dos pobres"

Contexto histórico

O romance de Jorge Amado foi escrito no final da década de 1930, uma época conturbada no mundo, com grandes divisões entre a direita e a esquerda. No Brasil, o Estado Novo flertava com o regime nazista, enquanto nascia em meio à população uma consciência de classe

O Estado Novo ficou marcado pelo nacionalismo, o anticomunismo e o autoritarismo. Jorge Amado foi preso duas vezes durante o governo de Getúlio Vargas e escreveu um livro sobre as torturas praticadas pela polícia durante esse período. 

No sertão baiano, Lampião e seu bando representavam uma força social que lutava contra o latifúndio e contra a figura do fazendeiro-coronel. A admiração dos menores abandonados no romance de Jorge Amado pelo grupo de Lampião é marcante. No livro o grupo de Lampião chega a ser descrito como "o braço armado dos pobres no sertão".

A Segunda Guerra divide o mundo em duas partes e, mesmo tendo relações diretas com o governo nazista Alemão, o Estado Novo se alinha aos EUA.

Bahia de Omolu

Omolu é o orixá da varíola e de outras doenças contagiosas. O cenário do romance é uma Bahia dividida entre pobres da cidade baixa e ricos da cidade alta. O contraste social está presente em todo o livro, porém um dos mais marcantes é a epidemia de varíola que varreu a cidade.

"Omolu tinha mandado a bexiga negra para a Cidade Alta, para a cidade dos ricos."

Enquanto os ricos se vacinam e se protegem da doença, os pobres doentes são levados para o lazareto, onde o abandono e a falta de higiene são praticamente sentenças de morte. No romance de Jorge Amado, as instituições públicas destinadas aos pobres são descritas com horror.

O reformatório destinado às crianças abandonadas ou pequenos delinquentes é um ambiente insalubre, onde se passa fome e se sofre diversas torturas. O orfanato é descrito como um lugar onde a felicidade não existe, e a polícia como um órgão dedicado à repressão e tortura dos pobres.

Cartas 

O romance começa com várias cartas publicadas no Jornal da Tarde sobre o grupo dos Capitães da Areia que assolam a cidade de Salvador com seus furtos. A linguagem das cartas e a descrição de como eles são publicadas no jornal já dão mostras de como os menores abandonados eram tratados pelos órgãos oficiais.

O jornal descreve um assalto praticado pelos Capitães da Areia e pede uma ação da polícia e do Juizado de Menores. A polícia responde que espera a ordem do Juizado, e o Juizado responde dizendo que cabe a ele levar os meninos à Justiça e ao reformatório depois da ação da polícia.

Em seguida, segue a carta da mãe de um menino internado no reformatório, contando os abusos que as crianças vivem dentro da instituição. Um padre manda outra carta reafirmando o péssimo tratamento no reformatório. Ambas as cartas recebem pouco destaque na publicação do jornal. A carta que se segue é do diretor do reformatório, que se defende das acusações e convida o jornal a enviar um repórter para visitar a instituição. A carta do diretor recebe um bom destaque no jornal, que depois publica uma matéria elogiando o trabalho do diretor no reformatório.

O destino enquanto fator social

Um dos aspectos mais interessantes da obra de Jorge Amado é como o futuro dos menores abandonados vai sendo traçado ao longo do enredo do romance. O meio não serve somente para explicar como eles se tornaram delinquentes, mas para traçar o futuro que os espera. Isso não significa que todas as crianças terão o mesmo destino. O autor sabe explorar as nuances da vida de cada personagem para criar um futuro para cada um, como se tudo já estivesse tratado e acertado, somente à espera de acontecer.

O fato de cada garoto ter as suas peculiaridades, que os diferenciam um dos outros, torna o livro de Jorge Amado uma obra literária de grande valor e não apenas um romance social panfletário. Todas essas características estão ligadas ao meio social das crianças e ao seu passado. Como eles vivem na rua desde muito cedo, sem pais, sem cuidado e sem carinho, eles são tratados como adultos pelo narrador/escritor. Desta forma as suas escolhas tem um impacto real na narrativa e no seu destino, do mesmo modo que acontece com os adultos. 

Pedro Bala

É o líder dos Capitães de Areia e um dos personagens mais complexos do romance de Jorge Amado. A contrário dos outros personagens que parecem ter o destino traçado, Pedro Bala vai construindo seu próprio destino ao longo do romance. O que se mantém em toda a narrativa é o caráter de Pedro e o seu espírito nato de liderança. Justo e sábio, mesmo sendo ainda uma criança, Bala consegue manter o grupo dos Capitães da Areia unido e organizado. Sua autoridade é resultado do respeito que as crianças têm por ele.

O seu destino começa a ser descortinado na metade do romance, quando descobrimos que seu pai é o Louro, um famoso sindicalista das docas que foi morto pela polícia durante uma greve. Pedro Bala começa a se interessar por aquilo tudo. A vida de menino abandonado, mas organizado em um grupo, lhe deu consciência de muitas das malezas que os pobres sofrem enquanto os ricos parecem aproveitar o dia a dia. Os atos de violência dos Capitães da Areia nada mais são do que uma luta por melhores condições de vida.

Pedro Bala entende as greves como algo semelhante, porém mais ampla. Sua consciência de classe vai aumentando conforme o tempo e o convívio com outras pessoas. Durante uma greve de motoristas de bondes ele sai à rua e descobre que a greve é a festa dos pobres.

"A revolução chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche."

Sua ligação com os movimentos sociais se torna "oficial" quando em estudante, membro de uma organização, procura Pedro Bala e o seu grupo para fazer um piquete e evitar que os fura-greves assumam os bondes. A ação dos Capitães da Areia é um sucesso e Pedro Bala começa a ser envolver cada vez mais na organização. No final ele é escalado para organizar diversos movimentos de menores abandonados no país, deixando o grupo dos Capitães da Areia muito próximo dos movimentos sociais.

João Grande

É o braço direito de Pedro Bala. Não muito inteligente, mas com um coração enorme e bom. Ele é uma espécie de protetor e guarda-costas dos Capitães da Areia. Seu senso de proteção e de justiça é muito grande, sempre intervindo para ajudar os mais fracos. Todo o seu percurso acontece ao lado de Pedro Bala, sendo difícil separar o caminho dos dois personagens.

"Este negro é João Grande, um negro bom. Quem for bom é igual a João Grande, melhor não é..."

Professor

Professor é um dos mais inteligentes dos Capitães da Areia. Ele tem esse apelido porque passa as noites "gastando" os olhos lendo livros, quase todos furtados por ele. Professor é quem ajuda Pedro Bala a planejar as ações do grupo. Ele também tem um grande talento para o desenho, geralmente feito de giz na calçada.

A sua percepção das coisas é grande. Ele também se apaixona por Dora, a noiva do Pedro Bala. A chegada dela no trapiche é um momento marcante para o Professor. Ele consegue descobrir qual o tipo de relação que ela tem com os garotos, qual a carência que ela preenche em cada um dos meninos abandonados.

Depois da morte de Dora, ele sente um vazio muito grande no trapiche, como se ele se tornasse uma moldura vazia. O Professor percebe que, na realidade, o trapiche é uma moldura com inúmeros quadros dentro, inúmeras histórias e vivências, que precisam ser retratadas. Ele vai então para o Rio de Janeiro aprender pintura, a convite de um poeta que ele desenhou o retrato uma vez na rua. Suas obras retratam a vivência dos pobres e abandonados.

Volta-Seca

É um caboclo, filho de uma pequena fazendeira comadre de Lampião que, ao perder as terras para um fazendeiro, resolve ir para a Bahia tentar justiça. Mas ela morre no caminho, deixando seu filho sozinho na cidade. O maior ídolo de Volta-Seca é Lampião e ele sempre pede para o professor ler as notícias dele que saem no jornal.

Um dia, ele é pego e torturado pela polícia. Seu ódio pelos soldados aumenta. Marcado pelas autoridades, ele tem que sair de Salvador. A solução é ir até outro grupo de menores, amigos dos Capitães da Areia em Aracaju. No meio do caminho o trem que leva Volta-Seca é parado pelo grupo de Lampião. Ele se junta aos cangaceiros, seu ódio pela polícia faz com que ele já mate dois soldados que estavam no trem. Mesmo sendo um garoto, ele é um dos mais temidos do grupo de Lampião. Mais tarde ele é preso e condenado em Salvador.

Sem-Pernas

É um garoto coxo que nunca teve amor algum ou afeto, nem de mãe nem de nenhuma mulher. Seu papel principal no grupo era se infiltrar nas casas dos ricos para depois os Capitães da Areia assaltarem. Ele vive com ódio e tem um pesadelo constante de quando foi para o reformatório e o chicoteavam e riam enquanto o mandavam correr em círculos.

"Muita gente o tinha odiado. E ele odiara a todos."

O desprezo que a sociedade sente por ele e os abusos que ele sofre são os relatos mais constantes sobre a sua pessoa. Muito novo, ele só conhecia o ódio e vive dele. Em um assalto que deu errado ele se vê perseguido por muitos guardas. Sem conseguir correr muito, ele está perto de ser capturado. Sem-Pernas não pretende voltar para o reformatório e, sem muita escapatória, se joga de um penhasco para morrer. 

Pirulito

É um dos mais influenciados pela visita de José Pedro, um humilde padre que tenta sempre ajudar os Capitães da Areia, mesmo que as suas ações não sejam aceitas pela igreja. Ambos os personagens sentem o chamado de Deus, porém também entendem a miséria e a vida dos pobres.

A dualidade entre uma igreja, que é sustentada e trabalha para os ricos, e uma doutrina católica, que prega a humildade e o amor ao próximo, é amplamente explorada no romance por meio destas duas figuras. Pirulito acaba se tornando frade e catequiza menores abandonados.

Gato

É a figura do golpista, sempre anda arrumado e busca imitar os galãs que vê no cinema. Ainda menino arranja uma prostituta como amante e lhe arranca dinheiro como um pequeno cafetão. Joga baralho marcado e faz todo tipo de golpe. Acaba indo para Ilhéus com a sua amante, onde se torna conhecido por diversos golpes aplicados em fazendeiros ricos.

Boa-Vida

É o menino malandro, adora violão, capoeira e as ruas de Salvador. A malandragem anda junto com o seu bom coração. Ele cumpre sem muitas dificuldades o seu destino de se tornar um do grandes malandros da cidade de Salvador.