Filme O Poço, da Netflix


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O Poço (El Hoyo, no original) é um filme espanhol de terror e ficção científica, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia. O longa-metragem de 2019 é uma produção original da Netflix que tem alcançado um enorme sucesso no Brasil, assim como em outros pontos do mundo.

Extremamente angustiante, com passagens violentas que beiram o gore, o filme é uma distopia que provoca muitas reflexões sobre a nossa realidade.

Taxado tanto de "genial" quanto de "perturbador" pelo público, O Poço tem um final surpreendente e deixa várias questões no ar. Confira o trailer dublado abaixo:

Atenção: a partir deste ponto, você vai encontrar spoilers sobre o final do filme!

O Poço: final do filme explicado

Neste caso, vamos ter que começar pelo final, já que todo mundo ficou meio confuso acerca do desenlace da narrativa. Encarcerado na prisão distópica onde todos pertencem a um nível e não podem sair dele, Goreng conhece uma figura que quebra as regras: Miharu.

A mulher é uma espécie de assassina selvagem que utiliza a plataforma para se locomover na prisão e procurar o filho, que estaria perdido no edifício. Goreng tenta ajudá-la e ela repete o gesto, salvando a sua vida das mãos sedentas de Trimagasi.

Frame: Miharu na plataforma.

Durante muito tempo, o espectador é levado a crer que a mulher é louca e não existe nenhuma criança por ali, até porque nenhuma conseguiria sobreviver.

No entanto, quando o protagonista e seu companheiro, Baharat, estão chegando no final do Poço, conseguem ver uma menina escondida e param para acudir. Depois que o parceiro morre, na sequência dos ferimentos, Goreng continua a viagem até ao fundo com a filha de Miharu.

Frame: final do filme.

Quando a plataforma bate no fundo, ele finalmente percebe: a mensagem que precisava mandar para o topo não era um doce intacto, nem mesmo palavras de revolta sobre o que assistiu no Poço.

A verdadeira mensagem, aquela que realmente pode mudar tudo, é a mera existência da menina que ele acaba de salvar. Uma vida que nasceu e prosperou naquele local de morte é um símbolo de esperança e uma possível semente para a transformação.

Não precisando já de ser o portador da mensagem, que fala por si mesma, Goreng vê o espirito de Trimagasi declarando que a sua missão acabou. Os dois partem juntos enquanto a plataforma ascende, carregando a garota.

Podemos depreender que o herói morreu, depois de cumprir o seu papel, mas nunca saberemos se a chegada da menina ao topo mudou, ou não, alguma coisa.

Análise do filme O Poço: temas principais

Pesado, denso e de difícil compreensão, O Poço vai deixando alguns indícios e questionamentos que o espectador precisa seguir atentamente.

A premissa é simples e aterradora: o protagonista, Goreng, está no "Poço", uma prisão vertical com dois reclusos por andar e um enorme buraco no centro. É por lá que, todos os dias, desce uma mesa que contem um luxuoso banquete com as melhores iguarias.

Os que estão no nível 1 são os primeiros a comer; alguns minutos depois, a plataforma passa ao nível seguinte, que pode se alimentar também. O ritual se repete por incontáveis andares e os indivíduos são forçados a comer os restos de quem estava acima.

Goreng e Trimagasi comendo.

Ali, a comida é tudo o que importa, já que dela depende a sobrevivência de cada um. É engraçado reparar que até alguns nomes remetem para o mundo da culinária. Por exemplo, "Goreng" é uma receita tipicamente indiana e "Baharat" designa uma mistura de temperos.

Enquanto acompanhamos o protagonista na sua luta pela vida, também podemos perceber várias simbologias e críticas sociopolíticas.

Uma metáfora extrema para a divisão de classes

"Comer ou ser comido"

O primeiro companheiro de Goreng é Trimagasi, um homem idoso que já está no Poço há bastante tempo e explica como o local funciona. Ele não permite que os dois se aproximem demais, deixando claro que cada um depende apenas de si mesmo: é "comer ou ser comido".

Trimagasi comendo.

O homem, que enlouqueceu por causa da sociedade de consumo, encara tudo aquilo com normalidade (para ele "é óbvio"). Como objeto escolhido para levar para o local, Trimagasi pegou uma faca que se afia sozinha, pronto para atacar e se defender a todo o custo.

Ele vai tornando evidente, pela forma como trata os que estão abaixo, que ali todos estão sozinhos e uns contra os outros.

Comer pode ser muito fácil ou muito difícil, depende da sua classe...

Devido à hierarquia que se estabelece, fica implícito que cada nível não comunica nem colabora com os demais: não falam com os de baixo e os de cima não respondem. Assim, o sistema parece ter sido feito para isolar os indivíduos, não permitindo uma ação organizada e coletiva.

Desde o começo do filme, o espectador vai sendo lembrado do choque de realidades, com cenas que passam da cozinha extremamente limpa e suntuosa à vida miserável do Poço.

A passagem na qual assistimos, lentamente, à mesa do banquete sendo consumida e depredada, à medida que vai passando pelos níveis, é um exemplo da falta de recursos causada pela ganância de quem está no topo.

Frame: mesa no começo, cheia de comida.

O desespero é tanto que transforma estas pessoas em assassinas, obrigando quem está na base a matar e a se converter ao canibalismo como último recurso de sobrevivência.

"Solidariedade espontânea"

Depois de quase ser devorado por Trimagasi, quando acordam no nivel 171, Goreng acaba tendo que comer a carne do antigo companheiro. É a sua nova parceira de nível, Imoguiri, que traz uma reviravolta na narrativa.

A mulher, que trabalhou para a Administração e se voluntariou para participar da "experiência", tenta alterar o modo de funcionamento do local, dividindo a refeição em porções. Embora acredite na "solidariedade espontânea", os seus apelos são recebidos com risadas e insultos dos demais por 15 dias.

Irritado, é Goreng que obriga os níveis que estão abaixo a acatar a ordem, ameaçando que iria espalhar fezes em toda a comida, sempre que a plataforma parasse no seu nível: "Solidariedade ou merda!".

"Descer para depois subir..."

Frame: Baharat e Goreng.

No entanto, é a chegada do terceiro parceiro de cela, Baharat, que muda todo o cenário. O homem, crente em Deus e cheio de esperança de sair dali, aceita o plano de Goreng para dominar a plataforma e redistribuir a comida.

É através da união, da ação conjunta, que os prisioneiros conseguem alterar a ordem dos acontecimentos e passar uma mensagem para quem está no topo.

Temática e simbologia religiosa

Não é só Baharat que fala em religião durante o filme e afirma que aquele local é o Inferno. Se prestarmos atenção, existem várias referências bíblicas que atravessam a narrativa. Na verdade, quase no desenlace do filme podemos ver representações dos pecados capitais nos reclusos, como o homem que joga notas para o ar.

Logo no começo da narrativa, Trimagasi questiona o protagonista: "Você acredita em Deus?". Mais para a frente, Imoguiri insinua que ele pode estar ali com uma missão. Depois de ela se suicidar, Goreng vê (ou alucina com) o seu espírito, que o aponta como "o Messias", "o Salvador" que vai libertá-los.

Goreng

A personagem também faz uma referência ao sacrifício de Jesus e aos textos bíblicos, pedindo que o companheiro coma a sua carne e beba o seu sangue. Baharat, o prisioneiro que embarca com o protagonista na "missão suicida" também é extremamente religioso e está procurando a salvação.

Os números dos níveis também não parecem ser um acaso. Por exemplo, o número 333, onde os dois "heróis" param porque encontram uma criança, pode ser uma referência à idade de Jesus quando morreu. Por outro lado, com esse número de andares, o Poço teria 666 reclusos, número associado ao Diabo.

Relação com o livro Dom Quixote

Quando teve a oportunidade de escolher um objeto para levar para o Poço, Goreng optou por um exemplar do livro Dom Quixote de la Mancha, uma das obras mais notórias da língua espanhola.

Apaixonado por romances de cavalaria, o famoso personagem vivia obcecado com derrotar vilões e fazer justiça. Com seus delírios de mudar o mundo, Quixote se tornou um símbolo para os sonhadores e os loucos que, de alguma forma, parece inspirar o protagonista.

Quando apresenta o seu plano a Baharat pela primeira vez, ele lhe responde que "só um louco faria isso". O desespero, talvez regado por uma dose de loucura, foi o que os levou a fazer aquilo que ninguém conseguiu antes.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.