Documentário Democracia em vertigem


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O documentário Democracia em vertigem, produzido pela Netflix e lançado em 2019, foi realizado pela cineasta Petra Costa. O longa metragem narra o processo de crise política vivido durante o período final do governo PT e o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff.

Com um olhar pessoal, Petra narra a sua visão sobre o momento delicado que vivia o país e registra a realidade polarizada que se instaurou.

O filme foi indicado ao Óscar 2020 na categoria melhor documentário e marcou presença na lista dos melhores filmes do ano do New York Times.

Indicação ao Óscar

O filme brasileiro Democracia em vertigem, lançado no Festival de Sundance - ocasião em que abriu o evento e foi aclamado pela plateia - concorre para levar a estatueta com os seguintes documentários:

  • American factory
  • The cave
  • For Sama
  • Honeyland

O resultado será conhecido no dia 9 de fevereiro em cerimônia realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles.

O New York Times classificou a produção de Petra como um dos melhores filmes de 2019 e o descreveu como "um documentário absolutamente vital". Segundo o jornal, Democracia em vertigem faz uma

Análise cuidadosa dos eventos que levaram à eleição de Jair Bolsonaro, o presidente populista do Brasil, este documentário angustiante é o filme mais assustador do ano.

Análise do documentário Democracia em vertigem

Com um tom intimista e pessoal, o filme de Petra Costa utiliza imagens poderosas que resumem um dos períodos de maior turbulência política do Brasil.

Ao longo da produção vemos a fragilidade de uma democracia relativamente recente e a polarização política entre a direita e a esquerda que proporciona um ambiente para a ascensão da extrema-direita no Brasil.

A construção do documentário

Para contar essa história, Petra traz para a tela desde eventos públicos como a votação do processo de destituição de Dilma Rousseff até as marchas nas ruas pró e contra o impeachment ocorridos entre 2013 e 2016.

Além dessas imagens de arquivo, a cineasta recorre a registros de bastidores políticos, trechos de reportagens de televisão, entrevistas e gravações pessoais.

Ao longo de todo o filme a narração em off de Petra conduz a história. De acordo com o jornal inglês The Guardian:

Durante todo o processo, a voz de Petra acrescenta forma, mas não se intromete excessivamente de modo a permitir que a história seja contada pela poderosa compilação de material original e de arquivo, imagens gravadas em meio a tumultos ou capturadas por drones a centenas de metros de altura sobre Brasília.

Esse contraste contínuo entre estar perto e na luta, mas ao mesmo tempo estar no alto, é espelhado ao longo da perspectiva da cineasta, sempre simultaneamente parte da história e observadora distante.

Uma visita ao passado

A fim de tentar compreender como chegamos onde chegamos, Pedra Costa propõe um mergulho na história política do país das últimas décadas e retrata especialmente os duros momentos vividos durante a ditadura militar.

Seu recorte temporal começa nos anos setenta com as perseguições políticas e avança até a prisão do ex-presidente Lula e a tomada de posse de Sérgio Moro como ministro da Justiça de Jair Bolsonaro.

Petra tem acesso privilegiado aos então presidentes e consegue uma série de entrevistas e depoimentos que ajudam a compor a narrativa de um país fraturado.

Um relato pessoal

O filme não é nada imparcial. É através das declarações da própria Petra, que faz uma narração em primeira pessoa, que percebemos o impacto dos eventos políticos nos brasileiros.

Nos primeiros minutos do filme temos uma pista da relação de proximidade afetiva que a cineasta mantém com o tema que escolheu tratar, sua voz off conclui:

A democracia brasileira e eu temos quase a mesma idade, e achei que nos nossos 30 estaríamos ambas em terra firme.

Logo no princípio da história percebemos o alinhamento de Petra e dos seus pais com a ala mais a esquerda tornando o filme não só um registro político como também um relato pessoal.

O documentário deixa entrever, por sinal, a biografia não só da cineasta como também da sua família próxima: pais, avós, tios e primos.

As polêmicas levantadas pelo documentário

Em Democracia em vertigem as instituições de poder parecem ser colocadas a prova enquanto há um aparente desmonte de instituições públicas consideradas antes sólidas.

Petra critica os ataques à imprensa e testemunha a ameaça do retorno da censura além dos retrocessos em termos de ciência e cultura.

Os últimos dias de Dilma no poder

A cineasta sublinha igualmente na tela o isolamento político de Dilma Rousseff, que se vê acuada e sem aliados durante o processo de cassação do seu mandato.

A ex-presidenta divulgou recentemente uma nota após o anúncio da indicação ao Óscar afirmando que

O filme mostra o meu afastamento do poder e como a mídia venal, a elite política e econômica brasileira atentaram contra a democracia no país, resultando na ascensão de um candidato da extrema-direita em 2018.

O filme ao afirmar ter havido um golpe de estado também questiona o papel parcial do então juiz Sérgio Moro a frente das investigações da operação Lava Jato.

Do local para o universal

Apesar de retratar um momento político e histórico local, de certa forma o registo de Petra testemunha uma democracia se encontra em vertigem em uma série de países no mundo.

Assistimos de modo bastante evidente em diversas partes do globo a ascensão da extrema-direita e do populismo levando a uma crescente polarização política.

Um sucesso de público e a dualidade da crítica

Apesar de ter recebido uma série de críticas em meio a um mar de elogios, de acordo com a plataforma de streaming Netflix, Democracia em vertigem foi um sucesso de público.

A produção ficou em segundo lugar como o documentário mais assistido pelos brasileiros durante o ano de 2019. O filme de Petra esteve atrás somente do título Nosso planeta.

Entre os críticos da produção as principais acusações estão o fato da narrativa ser maniqueísta (elegendo com simplicidade mocinhas e vilões), parcial (enviesada para os ideias de Petra e dos seus pais) e fantasiosa.

Quem é Petra Costa?

Ana Petra Costa é filha de pais militantes. O político Manoel Costa Júnior e a socióloga e jornalista Marília Andrade fizeram parte do PCdoB durante a ditadura militar.

A cineasta é também neta de Gabriel Donato de Andrade, um dos fundadores da construtora multinacional Andrade Gutierrez.

Nascida em Belo Horizonte em 1983, Petra já havia feito dois longas-metragens antes do documentário Democracia em vertigem.

Petra Costa

A cineasta é o nome a frente do filme Elena (2012) - seu primeiro longa-metragem - e Olmo e a gaivota (2014).

Com Elena Petra recebeu os prêmios de melhor documentário nos festivais de Brasília e Havana. Com o seu segundo filme levou para casa o prêmio de melhor documentário do Festival do Rio.

A jovem de 36 anos foi indicada pela primeira vez ao Óscar com o seu mais recente documentário Democracia em vertigem.

O desejo de criar uma obra que tratasse da história recente do Brasil surgiu da inspiração do documentário A Batalha do Chile, onde o cineasta Patricio Guzmán narra os eventos que antecederam o golpe militar no seu país.

Ficha técnica

Título original Democracia em vertigem (The edge of democracy)
Lançamento 19 de junho de 2019
Diretor Petra Costa
Roteirista

Petra Costa

Co-roteiristas: Carol Pires, David Barker, Moara Passoni

Gênero Documentário
Duração 121 minutos
Prêmios

Indicado ao prêmio de melhor documentário no Festival de Sundance

Indicado ao Óscar 2020 de melhor documentário

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).