17 músicas famosas sobre a ditadura militar brasileira


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Mesmo com o Brasil subjugado pelo autoritarismo e a censura, os artistas nacionais se recusaram a ficar em silêncio. Durante o período da ditadura militar brasileira, compreendido entre os anos de 1964 e 1985, foram inúmeras as formas de resistência na cultura nacional.

Artistas contra a ditadura

A MPB (Música Popular Brasileira) foi uma das principais ferramentas de denúncia usadas para combater o controle ideológico do sistema. Sem liberdade de expressão, tiveram que inventar códigos, metáforas e jogos de palavras para comunicar com o público. 

Apesar dos incontáveis casos de censura, perseguição e exílio que esses músicos tiveram que encarar, suas criações continuam sendo marcos na história e na cultura nacional. 

Conheça, abaixo, 17 músicas famosas sobre a ditadura brasileira que nos inspiram a resistir todos os dias. 

1. Cálice de Chico Buarque e Milton Nascimento

Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Cálice é um dos temas mais famosos de Chico Buarque e um dos hinos panfletários mais importantes do período da ditadura militar. Embora tenha sido escrito em 1973, foi alvo de censura e só foi lançado 5 anos depois, em 1978. 

Com metáforas e duplos sentidos, Chico traça duras críticas ao governo autoritário. Citando a passagem bíblica (Marcos 14:36), parece comparar o sofrimento de Jesus no calvário com o do povo brasileiro. 

Assim, o cálice estaria repleto do sangue daqueles que foram torturados e mortos, nas mãos do Estado violento. Por outro lado, devido à semelhança entre as palavras "cálice" e "cale-se", refere a opressão e o silenciamento que viraram rotina.

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

O "monstro" da ditadura era uma ameaça sempre presente, que parecia se aproximar aos poucos, deixando o sujeito em estado de alerta permanente.

Teme ser o próximo alvo de uma prática comum da época: a polícia militar invadia as casas durante as noite e levava as pessoas, muitas sumiam para sempre.

Leia também a análise completa da música Cálice

2. Alegria, Alegria de Caetano Veloso

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento

Uma referência no movimento Tropicalista, Alegria, Alegria foi apresentada, em 1967, no Festival da Record. Apesar de ter ficado em quarto lugar na competição, a música era a favorita do público e fez um enorme sucesso. 

Durante um tempo de estagnação e falta de liberdade, a canção propunha movimento e resistência. Caetano falava em caminhar "contra o vento", ou seja, contra a direção para a qual estava sendo empurrado. 

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não

Como Caetano explicou posteriormente, a música é um relato, na primeira pessoa, de um jovem que passeia pela cidade.

Citando elementos da cultura popular, traça um retrato do seu tempo, representando uma juventude que se sentia perdida e queria fugir mas não sabia para onde. 

Leia também a análise completa da música Alegria, Alegria

3. Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pra não dizer que não falei das flores, tema escrito e cantado por Geraldo Vandré, é um dos mais célebres hinos contra a ditadura militar brasileira.

Também conhecida como "Caminhando", a música foi apresentada no Festival Internacional da Canção de 1968 e ficou em segundo lugar. A letra, altamente politizada, chamou a atenção do regime e o músico acabou tendo que abandonar o país. 

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Com elementos que lembravam os cânticos usados em passeatas, protestos e manifestações, a música é um apelo à união e à ação coletiva. Vandré fala da miséria e exploração do povo brasileiro, mostrando que todos os extratos sociais devem lutar juntos pela liberdade. 

A música evidencia que todos os que estão conscientes da realidade opressiva têm a responsabilidade de agir, não podem esperar passivamente que as coisas melhorem. 

Leia também a análise completa da música Pra não dizer que não falei das flores

4. O Bêbado e o Equilibrista, Elis Regina

Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil

O Bêbado e o Equilibrista é um tema escrito em 1979, por Aldir Blanc e João Bosco, que foi gravado pela cantora Elis Regina. O bêbado, "trajando luto", parece refletir a confusão e a tristeza do povo brasileiro, que sofria com o final da liberdade. 

A própria Pátria chora junto com todas as mães, esposas, filhas e companheiras daqueles que estavam sendo levados pela polícia militar. Ao mencionar as nuvens como "manchas torturadas", a letra denuncia os casos de tortura e morte que se multiplicavam pelo país inteiro. 

Desabafando sobre o "sufoco" diário da "noite do Brasil" (metáfora para a ditadura), lembra de "tanta gente que partiu", os exilados que fugiram para sobreviver. 

Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar

Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar

Apesar do tom disfórico da composição, as últimas estrofes trazem uma mensagem de encorajamento para os companheiros e contemporâneos de Elis. 

Mesmo com tanto sofrimento, a esperança é "equilibrista" e se mantém de pé. Os brasileiros, principalmente os artistas, precisam seguir com a sua vida, acreditando que dias melhores virão. 

5. Eu quero é botar meu bloco na rua, Sérgio Sampaio 

Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

Eu quero é botar meu bloco na rua é uma música de 1973, na qual Sérgio Sampaio exprime os seus sentimentos de angústia perante a ditadura militar. Assustado, este sujeito parece falar em nome do brasileiro comum, mostrando a insatisfação geral e o terror constante. 

Trata-se também de uma crítica ao governo Médici e ao suposto "milagre econômico" que estava sendo anunciado pela propaganda política. 

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar, pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos disso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval

Sampaio, como muitos da sua geração, apenas quer ver o seu "bloco na rua", ou seja, a juventude unida, se divertindo. O Carnaval, conhecido por ser uma época de alegria e libertação, aparece como um antídoto para a repressão constante. 

Assim, através desta canção, o músico deu voz a outra forma de resistir: o "desbunde" que desafiava o conservadorismo vigente. 

6. Aquele Abraço, Gilberto Gil

Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele Abraço!

Aquele Abraço é uma música de 1969, escrita e cantada por Gilberto Gil. Concebida quando o artista precisou se exilar em Londres, nos anos de chumbo da ditadura, trata-se de uma mensagem de despedida

Perante toda a censura e perseguição, percebe que tem que ir embora para traçar seu "caminho pelo mundo", do jeito que quiser. Gil mostra que é dono de si mesmo, da sua vida e da sua vontade, planejando recuperar a liberdade e autonomia que perdera. 

Alô Rio de Janeiro
Aquele Abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele Abraço!

Dizendo adeus a vários locais célebres da cidade carioca, incluindo Realengo, onde esteve preso, se prepara para partir. As suas palavras parecem sugerir que se trata de algo temporário: Gil sabia que um dia ia regressar. 

7. Apesar de você, Chico Buarque

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão

Dirigida ao governo militar, Apesar de você é uma evidente e corajosa provocação. Escrita e gravada por Chico Buarque em 1970, a canção foi censurada na época, sendo liberada apenas em 1978. 

Com a repetição do verso inicial, "Amanhã vai ser outro dia", Chico demonstrava que a esperança não tinha morrido, que o povo continuava aguardando a queda do regime. 

Se, no presente, o povo enfrentava o autoritarismo e a repressão com um "grito contido", o músico sabia que no futuro as coisas mudariam. Assim, como forma de alento, se atrevia a sonhar com a liberdade.

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar

O raiar do sol simbolizava o nascer de um novo tempo, o final da tristeza e escuridão que dominavam o país. Mesmo sendo censurado e perseguido pela polícia, o músico insistia em desafiar o poder instituído e encorajar os seus ouvintes.

A canção transmite a resiliência de um povo que, apesar de tudo, não desistia. Cansado e já sem medo, Chico Buarque ameaçou o regime autoritário, anunciando que o seu final estava chegando. 

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa

8. É proibido proibir, Caetano Veloso

E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo:
É proibido proibir
É proibido proibir

Caetano Veloso compôs É proibido proibir em 1968, um ano terrível na história do Brasil que culminou com Ato Institucional Número Cinco. Entre várias medidas autoritárias, o AI-5 determinava a censura prévia da cultura e da imprensa, a ilegalidade de reuniões públicas não autorizadas e a suspensão de direitos dos cidadãos vistos como inimigos do sistema. 

No ano seguinte, acompanhado pelos Mutantes, o cantor apresentou o tema no III Festival Internacional da Canção. Vaiado, sem condições de continuar a apresentação, se dirigiu ao público: "Vocês não estão entendendo nada!". 

É o que me sonhei, que eterno dura
É esse que regressarei.

Em maio de 1968, em Paris, os universitários começaram um movimento que deu origem a uma greve geral e vários dias de conflitos entre os cidadãos e a polícia. Entre outras coisas, a juventude exigia uma mudança de paradigmas, no ensino e em toda a sociedade, combatendo o conservadorismo. 

Inspirado pelas movimentações sociais francesas, Caetano usou uma de suas frases de ordem como mote "É proibido proibir!". No contexto brasileiro, as palavras faziam mais sentido do que nunca, com proibições súbitas que se multiplicavam

 Recusando tudo isso, se revoltando e resistindo, o cantor lembrava o seu público que todos devemos ser como sonhamos, não como nos obrigam. Mais que uma música de denúncia, trata-se de um hino à desobediência

9. Que país é este, de Legião Urbana

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

A canção foi escrita por Renato Russo em 1978, embora só tenha sido gravada 9 anos depois, dando título ao terceiro disco da banda Legião Urbana.

O cantor confessou que adiou o lançamento porque tinha esperança que as coisas melhorassem e a música deixasse de fazer sentido. No entanto, quase uma década depois, tudo se mantinha igual. 

O tema lança fortes críticas sociais, mostrando o Brasil como um país atravessado pela impunidade, a falta de regras e a corrupção generalizada. 

Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

Em 1987, o país vivia um período complexo: apesar de já não estar na mão dos militares, não existiam ainda eleições diretas. Tancredo Neves, eleito por um colégio eleitoral em 1985, morreu antes de assumir o poder. 

Seu vice, José Sarney, ficou à frente da nação e instaurou o Plano Cruzado, um conjunto de medidas econômicas que traziam uma nova moeda e  acabaram fracassando. 

 Renato Russo demonstra todo o seu espanto, o seu choque e a sua tristeza, questionando as motivações de uma nação que ignora o sofrimento do próprio povo e apenas se preocupa com dinheiro. 

Leia também a análise detalhada da música Que país é este

10. Como nossos pais, Elis Regina

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens...

Como nossos pais é uma canção de Belchior, composta e gravada em 1976, que ficou mais conhecida na versão de Elis Regina, lançada no mesmo ano.

O tema dá voz a uma geração de jovens que viram a sua liberdade confiscada, que foram obrigados a mudar o seu modo de viver por causa instauração da ditadura. 

Marcados pelos questionamentos, a experimentação e o lema "paz e amor" do movimento hippie, seus quotidianos se transformaram em medo, perseguição e ameaça constante. 

O retrocesso cultural e social gerou sentimentos de angústia e frustração nestes jovens, como se o seu tempo tivesse sido roubado, a sua vez nunca tivesse chegado. 

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Assim, a música ilustra o conflito geracional da época. Embora pensassem de forma diferente e tivessem batalhado pela liberdade, esses jovens acabaram condenados a viver segundo a mesma moral conservadora que a geração anterior. 

11. Comportamento geral, Gonzaguinha

Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado

Gonzaguinha foi um dos músicos que mais criticou a ditadura militar, tendo mais de 50 canções censuradas pelo regime. Entre elas se destaca o seu primeiro sucesso, Comportamento Geral, de 1972. 

A música, pela sua crueza, provocou o choque no público e Gonzaguinha foi taxado de terrorista e apelidado de "cantor rancor". Na letra, o músico fala com o cidadão brasileiro, comentando a precariedade atual do país. 

Apesar de toda a opressão, da fome e da pobreza disfarçada de "milagre econômico", o brasileiro comum continuava agindo como se tudo estivesse bem. Esse seria, então, o comportamento geral: não reclamar, se alienar, fingir que está feliz. 

Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: "Muito obrigado"
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado

O medo e a passividade de seus contemporâneos revoltava o artista, que sentia que todos estavam vivendo uma farsa. Como uma provocação, pergunta a "Zé", nome comum no Brasil, o que fará se roubarem o Carnaval, que parece ser o último reduto de alegria e liberdade coletiva. 

Acima de tudo, a música questiona essa obediência cega que fazia os cidadãos viverem e morrerem segundo as regras arbitrárias que foram impostas. 

12. Sinal Fechado, Paulinho da Viola

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...

Sinal fechado é uma música escrita e cantada por Paulinho da Viola, com a qual venceu o V Festival da Música Popular Brasileira, em 1969. A música, bastante diferente do registro habitual do cantor, provocou estranheza e conquistou a atenção do público. 

Na canção, duas pessoas se encontram no trânsito e conversam pela janela do carro, enquanto o sinal está fechado. O diálogo, no entanto, esconde mensagens mais profundas do que pode parecer à primeira vista. Mais importantes que suas palavras, são os seus silêncios, as coisas que queriam dizer mas não podem. 

Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...

O próprio título parece ser uma metáfora para a opressão e a falta de liberdade na qual viviam. Nesse sentido, podemos assumir que os sujeitos não estão falando de forma vaga porque estão com pressa mas porque não podem falar livremente, porque temem represálias. 

Embora não fizesse nenhuma referência direta ao governo, tratava-se de uma música de protesto. O público, que escutava e partilhava o mesmo contexto social, conseguia completar os espaços vazios da canção e compreender a sua mensagem. 

13. Acorda amor, Chico Buarque

Acorda, amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão

Em 1973, Chico Buarque já tinha sido censurado tantas vezes que não podia mais assinar composições. No ano seguinte, lançou o disco Sinal Fechado com músicas escritas por amigos, entre as quais consta Acorda Amor, assinada por Julinho da Adelaide, um de seus pseudônimos. 

Na música, o sujeito acorda a companheira para lhe contar que sonhou que estava sendo levado pela polícia durante a noite. Não se preocupando mais em disfarçar, Chico aponta o dedo ao inimigo, "a dura". O nome funciona como uma abreviação de "ditadura" e também como um adjetivo para a sua inflexibilidade e violência. 

"Chame o ladrão" é um dos versos mais famosos da música: quando a polícia que deveria nos proteger, nos ataca, quem podemos chamar para nos defender? Chico sugere que a autoridade da época era mais criminosa que os próprios bandidos. 

Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer

Antes de ser levado, este sujeito se despede da mulher e pede para ela seguir com a sua vida, se ele não regressar. A passagem refere o destino de muitos "inimigos do regime": arrastados das suas camas durante a noite pelos agentes, simplesmente desapareciam, ou seja, eram mortos. 

14. Domingo no parque, Gilberto Gil e Os Mutantes

O sorvete é morango
É vermelho!
Oi, girando e a rosa
É vermelha!
Oi girando, girando
É vermelha!
Oi, girando, girando...

Domingo no parque é uma música de 1967, escrita e cantada por Gilberto Gil. No mesmo ano, o cantor apresentou o tema no III Festival de Música Popular, acompanhado pela banda Mutantes, e ficou em segundo lugar. Trata-se de uma narrativa que conta a história de dois homens: José, "o rei da brincadeira" e João, "o rei da confusão". 

No domingo, João decidiu não lutar e ir namorar Juliana no parque. José, vendo o amigo acompanhado da moça de quem ele gostava, deixa de ser brincalhão e fica furioso. Durante um ataque de ciúmes, mata o casal com uma faca. 

Olha a faca! (Olha a faca!)
Olha o sangue na mão
Ê, José!
Juliana no chão
Ê, José!
Outro corpo caído
Ê, José!
Seu amigo João
Ê, José!...

Amanhã não tem feira
Ê, José!
Não tem mais construção
Ê, João!
Não tem mais brincadeira
Ê, José!
Não tem mais confusão
Ê, João!...

A canção, que começa como uma inocente história de um domingo no parque, logo toma contornos violentos e sinistros. Perturbadora, a música transmite a sensação de um perigo iminente, da violência que irrompe na vida dos indivíduos e acaba sendo a sua ruína. 

15. Mosca na sopa, Raul Seixas

Eu sou a mosca
Que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca
Que pintou pra lhe abusar

Eu sou a mosca
Que perturba o seu sono
Eu sou a mosca
No seu quarto a zumbizar

Mosca na Sopa é um célebre tema de Raul Seixas, parte de seu primeiro álbum Krig-Ha, Bandolo!, de 1973. Aparentemente sem sentido, a música guarda uma forte mensagem de resistência. Nela, o sujeito lírico se identifica com uma mosca, um pequeno inseto que parece existir para incomodar os outros. 

Falando com os militares, se anuncia como um pequeno ser alado que está ali para perturbar o sossego. Apesar de toda a repressão, Raul e seus contemporâneos continuavam combatendo o conservadorismo, mesmo sabendo que a luta ainda estava longe de terminar. 

E não adianta
Vir me dedetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar

No entanto, se a ditadura durava, a resistência também. Raul Seixas chama a atenção para os "subversivos" que estavam se multiplicando, deixando evidente que matar um não valia a pena, pois sempre surgiram mais.

Com uma metáfora como a da mosca na sopa, o cantor resumiu, de forma genial, uma forma de viver "do contra", de fazer contracultura, de reagir e sobreviver em tempos de caos. 

16. Jorge Maravilha, Chico Buarque

E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando

A música Jorge Maravilha foi lançada por Chico Buarque em 1973, com letra assinada por Julinho da Adelaide, seu pseudônimo. O tema passa uma mensagem de força, lembrando que tudo é passageiro e que não vale a pena se resignar e ficar lamentando. Então Chico foi à luta, o que no seu caso significava criar músicas de protesto contra a ditadura. 

Embora incomodasse as camadas mais velhas e conservadoras da sociedade brasileira, Chico estava conquistando os corações das gerações mais novas.

Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Quando foi descoberto que Julinho da Adelaide e Chico Buarque eram a mesma pessoa, começaram as suspeitas. O público achava que a música era direcionada ao geral e presidente Ernesto Geisel, cuja filha tinha declarado ser fã do cantor.

Chico, no entanto, desmentiu e contou a história verdadeira: uma vez, quando foi preso pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), um dos agentes aproveitou para pedir um autógrafo para a filha. 

17. Primavera nos Dentes, Secos & Molhados

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa contra a mola que resiste

Primavera nos dentes é uma música do grupo Secos & Molhados, gravada em 1973, com letra de João Apolinário. Apolinário era um poeta português que se exilou no Brasil durante a ditadura de Salazar e combateu o fascismo. Era também pai de João Ricardo, que musicou os seus poemas para a banda.

A letra, inspiradora, lembra que para resistir é necessário sermos fortes, corajosos e estarmos conscientes daquilo que nos rodeia. Mesmo perante a pior derrota ou "tempestade", temos que sobreviver, conservar um pouco de esperança, segurar a "primavera entre os dentes". 

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera

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Escute essas e outras músicas sobre a ditadura militar na playlist que preparamos para você:

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.