Disco Bluesman, de Baco Exu do Blues


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Bluesman é um disco do rapper Baco Exu do Blues, lançado em novembro de 2018. Entre os pensadores contemporâneos que estão usando o rap brasileiro como veículo de transformação social, o nome de Baco Exu do Blues se destaca. Bluesman vem confirmar o seu talento e deixar evidentes as pautas políticas e sociais que promove.

Bluesman capa
Capa do disco Bluesman de Baco Exu do Blues (2018).

Ao analisarmos apenas algumas músicas do disco, estaríamos perdendo suas nuances mais singulares e a forma como os temas dialogam entre si. Por isso, optamos por escutar e analisar o álbum como um todo, procurando interpretar suas principais mensagens.

Já escutou Baco Exu do Blues, a nova promessa do rap nacional? Venha conhecer!

Análise do álbum Bluesman

Como podemos perceber com suas letras, Baco Exu do Blues tem uma perspectiva interartística da música, combinando elementos musicais com influências das outras áreas da cultura, como a pintura, o cinema e a literatura.

Acompanhando cada tema do disco, surge uma fotografia da artista e poetisa baiana Helen Salomão. Embora as imagens não tenham sido produzidas para o álbum, foram selecionadas cuidadosamente, e parecem expressar as mesmas emoções que são transmitidas em cada uma das músicas.

Assim como várias estrelas internacionais têm feito, Baco também lançou o seu disco em formato de curta-metragem. Assista, abaixo, ao curta dirigido por Douglas Ratzlaff Bernardt:

O disco se assemelha a um puzzle, combinando referências diversas e emoções aparentemente contraditórias, como raiva, esperança, orgulho e paixão.

Da combinação de todos esses elementos, nasce algo novo, um outro porta-voz para juventude brasileira, consciente do poder de suas palavras.

1. Bluesman

A faixa de abertura é aquela que dá nome ao disco, funcionando como uma espécie de introdução à narrativa musical que Baco está construindo. A música começa com um sample de Muddy Waters, considerado o pai do blues de Chicago, lembrando a sua mensagem positiva: "Tudo vai ficar bem esta manhã".

Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos
O primeiro ritmo que tornou pretos livres
Anel no dedo em cada um dos cinco
Vento na minha cara eu me sinto vivo

Neste tema, Baco fala sobre a música blues enquanto marco na história do movimento civil negro. Nos Estados Unidos, depois da Guerra Civil, a escravidão foi abolida mas os cidadãos negros continuavam sendo discriminados com leis de segregação. A propaganda política racista alimentava estereótipos negativos, perpetuando falsas imagens dos afro-americanos como violentos ou menos capazes.

Contudo, existia um campo onde a cultura negra estava ganhando cada vez mais reconhecimento: a música. No cenário musical norte-americano, o surgimento do blues foi como um momento de viragem: eis "o primeiro ritmo a formar pretos ricos".

A partir de agora considero tudo blues
O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues
O funk é blues, o soul é blues
Eu sou Exu do Blues
Tudo que quando era preto era do demônio
E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues
É isso, entenda
Jesus é blues

Nesta passagem, Baco explica o que significa "blues", no contexto do seu disco. Mais que um ritmo musical, uma forma de libertação, um símbolo da criatividade como veículo para vencer barreiras e preconceitos sociais.

Convocando várias imagens que foram tornadas brancas pela História, como a figura de Jesus Cristo, afirma que é preciso reconhecermos o valor (e os verdadeiros autores) de toda essa herança cultural.

Assim, o rapper parece se encarar como um bluesman que procurar transformar a realidade como sua arte, se afirmando enquanto "jovem Basquiat". A referência, que surge ao longo do disco, é ao pintor norte-americano que começou como grafiteiro e acabou ocupando os museus e virando um ícone da cultura pop.

Basquiat
Retrato de Jean-Michel Basquiat.

Refletindo sobre a sua forma de estar na vida, o sujeito afirma que não aceita a prisão mental onde a sociedade pretende coloca-lo, anunciando que tem "pressa do urgente". Com a impressão de que está vivendo em um ritmo mais acelerado que o dos seus contemporâneos, se recusa a esperar que o mundo mude sozinho.

Então, Baco vai à luta, usando o seu trabalho como forma de promover o empoderamento e combater o racismo que continua presente nas mentalidades e na cultura brasileira e mundial. Está na linha da frente de um novo tempo em que os negros podem criar suas próprias narrativas e falar de si mesmos.

Eles querem um preto com arma pra cima
Num clipe na favela gritando: "cocaína"
Querem que nossa pele seja a pele do crime
Que Pantera Negra só seja um filme

2. Queima Minha Pele

"Queima Minha Pele" fala sobre o final de um relacionamento e o modo como o sujeito está lidando com a separação. Tendo perdido a mulher que amava, a compara com o próprio sol, algo essencial para a nossa vida mas que pode nos machucar, se não tivermos cuidado.

Amor, você é como o sol
Ilumina meu dia, mas queima minha pele

Desde o começo ficam patentes os sentimentos contraditórios do sujeito em relação a essa mulher. Mesmo estando consciente dos efeitos nocivos do relacionamento, não consegue se libertar dele e a tristeza toma conta da sua alma.

Sobre este tema, o artista declarou ao site Genious : "Quando escuto essa música sinto a dor do blues sem necessariamente estar ouvindo blues". Assim, "Queima Minha Pele" parece transmitir a melancolia do gênero musical, como se capturasse a sua essência mas fizesse de um jeito diferente, atual e brasileiro.

Eu engoli minha vaidade pra dizer: "volta pra mim"
Mesmo sabendo que você me faz tão mal
Tão mal, tão mal, tão mal
Fotografar o silêncio é tão difícil
Fotografar o meu medo é tão difícil
Fotografar a insegurança é tão difícil
Eu disfarço tudo com cigarro, cerveja e sorriso

Fica também evidente o momento depressivo pelo qual está passando, marcado pela solidão, a ansiedade e o medo. Confessando a dificuldade de exprimir tudo isso, assume que tenta esconder as suas emoções e que a vida boêmia serve apenas de escape e de esconderijo.

3. Me Desculpa Jay Z

A terceira faixa do disco parece continuar o discurso da canção anterior, falando sobre um relacionamento amoroso conturbado. Inicialmente intitulado "Blues da Bipolaridade", o tema reflete os pensamentos de um sujeito dividido entre a vontade de se afastar de uma pessoa e de voltar para ela.

Eu não gosto de você, não quero mais te ver
Por favor não me ligue mais
Eu amo tanto você, sorrio ao te ver
Não me esqueça jamais

Revelando um estado mental confuso, o sujeito declara que "a vida tá meio difícil" e não sabe o que fazer em seguida. Cansado da realidade, volta a sua atenção para a fantasia, sonhando com Beyoncé e desejando levar a vida de Jay Z.

Beyoncé e JayZ
Retrato de Beyoncé e Jay Z.

Me desculpa, Jay-Z, queria ser você
Minha vida tá chata, quero enriquecer

O casal, um dos mais badalados do panorama atual, vive os altos e baixos da sua relação diante do olhar atento do público. Mesmo assim, virou sinônimo de sucesso, riqueza e estatuto social.

De volta à vida real, o sujeito reflete sobre suas fraquezas e inseguranças, simbolizadas pela dúvida entre tirar a roupa da mulher que ama ou tirar a própria vida. Desmotivado com aquilo que o rodeia, procura um caminho por onde avançar e deseja bens materiais para suprir o vazio que está sentindo.

Procuro um motivo pra sair da cama e melhorar meu auto-estima
Quero Balenciaga estampada na minha camisa
Faculdade ou seguir meu sonho
O que é que eu faço da vida?

A passagem relembra o ouvinte que Diogo, a mente por trás de Baco Exu do Blues, é ainda bastante jovem e enfrenta dilemas comuns da idade. Deste modo, surge a dualidade entre estudar e procurar um emprego estável ou correr atrás do sonho de ser um músico de sucesso.

Deambulando entre seus próprios sentimentos e as ruas da cidade, o sujeito tem a noção de que está perdido.

Amo você de verdade
Amo você de mentira
Amo andar na cidade
Linda, eu não tenho saída

4. Minotauro de Borges

Eis a primeira de várias referências literárias que surgem no disco: o conto A Casa de Astérion, de Jorge Luis Borges. A obra do grande escritor argentino recupera o mito grego do Minotauro, colocando a criatura no papel de narrador, que reflete sobre o modo como vive e como irá morrer.

Tipo Usain Bolt de Puma não paro
Correndo mais que os carros
Eu não fui feito do barro
Pisando no céu enquanto eles se perguntam: "como esse negro não cai?"
Dizem que o céu é o limite
Eles se perguntam: "porque esse negro não cai?"

Logo no começo do conto, o protagonista fala de seu isolamento, declarando que é encarado como fruto da soberba e da loucura. Na música de Baco, o sujeito lírico também é o Minotauro, que não esconde seu sentimento de superioridade face aos demais. Deste modo, desafia a fé do catolicismo, afirmando que não foi criado por Deus a partir do barro, como dita a Bíblia.

Quadro Minotaur, de Justin Sweet
Ilustração Minotaur de Justin Sweet.

Na mesma linha de pensamento, afirma ser responsável por pintar "o Éden de preto" e também por ajudar Deus com suas próprias crises depressivas.

Cita ainda o nome de Beethoven, declarando que foi seu "ghost rider", trocadilho que evoca o filme Motoqueiro Fantasma e insinua que é o compositor de as suas obras (ghost writer, "escritor fantasma").

Presente em tantos pontos cruciais do imaginário coletivo, anuncia a sua própria morte como um dado adquirido, algo que já aconteceu. Acredita que vai virar um mártir, um símbolo do empoderamento negro, mesmo que isso acabe com a sua vida.

Depois que eu morri com um tiro na cabeça
Sempre que um preto faz dinheiro grita: "Baco vive, Baco vive"

Sozinho, confessa que se sente "meio incompreendido", "como Britney em 2007". Trata-se de uma referência ao ano em que a cantora pop Britney Spears estava com sua saúde mental debilitada e fez várias aparições públicas que causaram escândalo.

Museus estão a procura de mármore negro
Pra fazer uma estátua minha

Ainda assim, ou por isso mesmo, sabe que vai entrar para a história. Se intitulando "rei da poesia de escória", avisa que seu rosto vai entrar nos museus. Denuncia também que a cultura popular está começando a ser valorizada, ou assimilada, pela "alta cultura".

Bebo da depressão
Até que isso me transborde
Vencer me fez vilão
Eu sou Minotauro de Borges

Com estes versos, Baco torna explícita a sua identificação com a figura do Minotauro, que vive em total isolamento. Segundo Borges, o ser mitológico é visitado, a cada nove anos, por um grupo de homens que tentam mata-lo e acabam morrendo.

O fato de vencer as lutas em nome da sobrevivência fez do Minotauro um famoso inimigo público, um vilão que precisava ser vencido. Uma profecia anunciava a chegada de um homem capaz de derrota-lo, que ele espera ansiosamente, como um "redentor".

Tou me acabando por inteiro
Você me mata ou eu me mato primeiro

Quando mata o Minotauro, o herói Teseu comenta, estranhando, que ele nem tentou se defender. Não se tratava de um ser perigoso mas sim rejeitado pelos demais, vilanizado por ser diferente.

A música ilustra o sofrimento de tantos indivíduos que são marginalizados pela sociedade, com base em preconceitos ou aparências. Comentando o significado deste tema, Baco declarou: "Você não sabe a história por trás dos vilões que sua mente cria".

5. Kanye West da Bahia


Na sequência de Minotauro de Borges, Baco continua explorando temas como o preconceito, o sucesso e a incompreensão. É evidente a sua postura combativa, de desafio e provocação. Respondendo a comentários discriminatórios, demonstra conhecimento e orgulho na sua herança cultural.

Olha bem pra minha cara, filho engole o choro
Meus ancestrais se banhavam com ouro
Olhe bem pra minha pele, ela reluz, seu tolo

Sabe que é polêmico por ser confiante, ter sucesso, estar consciente do próprio poder e contrariar os discursos dominantes. Por essas razões, percebe que suscita a raiva alheia, repetindo que é "o preto mais odiado que você vai ver". Sua conduta é de resistência, de recusa e insubmissão.

Eu não abaixo a cabeça, não vou te obedecer
Ser preto de estimação não, eu prefiro morrer
Sinhozinho eu troco soco, nunca fui de correr

Lembrando o passado de escravidão do seu povo, garante que isso nunca voltará a se repetir e que está disposto a lutar até à morte para se defender. Apesar de tudo, é livre, faz e fala o que quiser, declarando: "suas palavras não vão me ofender". Baco deixa explícito que aqueles que o discriminam não conseguem entender a realidade do cidadão negro no Brasil e os modos como racismo mata.

Todo líder negro é morto, cê consegue entender?
Tenho recebido cartas falando:
"O próximo é você, o próximo é você, o próximo é você"

Surge então a figura de Kanye West, rapper norte-americano e ídolo de Baco Exu do Blues. Mais do que poder, fama e dinheiro, West personifica um gênio criativo que mudou a cena musical do hip hop e tem influenciado incontáveis músicos.

Retrato de Kanye West
Retrato de Kanye West.

Outro aspeto incontornável da sua imagem é o comportamento errático que tem demonstrado nos últimos anos, marcado por declarações controversas que beiram a megalomania.

O rapper brasileiro, que está sendo projetado para o estrelato, parece se identificar cada vez mais com os processos mentais de West: "agora eu te entendo, Kanye". Assim como ele, faz afirmações bombásticas, entendidas por muitos como loucura ou até sacrilégio. Exemplos disso surgem logo abaixo, quando Baco afirma que viu Deus nascer e que espancou Jesus.

Jesus, eu espanquei Jesus
Quando vi ele chorando, gritando, falando
Que queria ser branco, alisar o cabelo
E botar uma lente pra ficar igual
A imagem que vocês criaram

Embora o primeiro verso da estrofe provoque uma sensação inevitável de choque, logo em seguida surge uma explicação. Jesus estava tentando ser branco, para corresponder à imagem que tem sido representada durante séculos e que não corresponde à verdade.

Seu objetivo é resgatar a autoestima negra, mas confessa que acaba sendo odiado até por seus semelhantes e sentindo que seu comportamento está se modificando por causa de toda a inveja. Assim, explicita que as discriminações raciais permanecem apesar de todo o sucesso e fama, mas que nada disso vai afetar a sua arte.

Não me chame de preto bonito
Preto inteligente
Preto educado
Só de pessoa importante
Seu rótulo não toca na minha poesia
Eu sou o Kanye West da Bahia

6. Flamingos

Flamingos é outra canção do álbum que fala sobre amor, hesitação e dependência, narrando episódios de um relacionamento inconstante. No tema, se cruzam múltiplas influências, evidenciando sobretudo as referências norte-americanas presentes no imaginário de Baco.

Me deixe viver ou viva comigo
Me mande embora ou me faça de abrigo
California dream com uma dream girl
Mas não sou gringo
Camisa suada estampada de flamingo

Berço do rap e do hip hop, os Estados Unidos surgem como um lugar onde o sujeito poderia ter um futuro feliz com a mulher que ama. Assim, a Califórnia com suas belas praias, aparece como um cenário idílico para suas ilusões românticas.

Flamingos
Casal de flamingos no rio.

O estampado da camisa com flamingos pode ser uma metáfora para a união do casal, já que se tratam de animais monogâmicos. Na verdade, seja na Califórnia ou no "Louvre em Paris", a atenção do sujeito está sempre virada para essa mulher.

A música termina, no entanto, com algo bem conhecido do público brasileiro: o grupo de pagode Exaltasamba e seu hino sobre amores falhados.

Ouvindo Exalta na quebrada
Gritando: "eu me apaixonei pela pessoa errada"

7. Girassóis de Van Gogh

Este tema, segundo o artista, foi inspirado nas emoções que sentiu ao observar o célebre quadro Doze Girassóis Numa Jarra, do pintor holandês Vincent van Gogh.

Doze Girassois Van Gogh
Quadro Doze Girassóis Numa Jarra (1888).

A obra o levou a refletir sobre a efemeridade da vida e a necessidade de representar, através da sua arte, a beleza do momento presente. Na letra, o sujeito declara uma paixão que desafia as leis da lógica, cheia de desejo, juventude e boemia.

Na rua ouvindo A$AP Rocky
Pelados no bairro como se fosse Woodstock
Outro bar, outro porre
Somos livres como girassóis de Van Gogh

Aqui, amor, arte, excesso e liberdade surgem relacionados. Existe também um cruzamento de referências espalhadas pelo tempo: o pintor pós-impressionista, o famoso festival de música que foi um marco na cultura hippie e o badalado rapper contemporâneo.

8. Preto e Prata

Esta é uma música sobre as desigualdades raciais que continuam espalhadas pelo mundo inteiro. Assim, o começo da letra se foca no modo como a população afrodescendente tem que lutar pela própria sobrevivência.

Nós vive pela prata tá-tá-tá tá-tá-tá
Nós mata pela prata tá-tá-tá tá-tá-tá
Protegemos a prata tá-tá-tá tá-tá-tá
Nós negros somos prata tá-tá-tá tá-tá-tá

Baco parece usar uma metáfora, classificando os brancos como ouro e os negros como prata, porque socialmente os primeiros continuam sendo mais valorizados que os segundos.

Basquiat fazendo grafiti
O artista Basquiat (SAMO) escrevendo nas paredes.

Procurando inspiração em figuras como Basquiat, afirma que tem dois quadros do antigo grafiteiro na parede e não esconde a sua ambição: "bebendo tudo, esse preto tem sede".

Assim como o pintor e artista urbano, Baco quer usar o seu trabalho para passar mensagens de crítica social e também de empoderamento. O sucesso do rapper traz esperança para todos aqueles que se identificam com ele e o músico aproveita sua plataforma para para promover o amor próprio e a autoaceitação.

Autoestima pra cima, meu cabelo pra cima
Olha bem pro meu olho e me diz quem domina

Sua música vem para quebrar os preconceitos e os padrões impostos pela cultura racista e pós colonial, rejeitando crenças e tentativas de dominação ou silenciamento. Mais uma vez, tece críticas à religião cristã, que foi imposta no Brasil e continua, até hoje, sendo encarada como a única (ou a melhor) fé.

Eu não acredito no seu deus branco
Eu acredito em Exu do blues, eu acredito em Baco
Querer o ouro só me fez mais fraco
O rap game e cocaína branca, vicia e nos mata
Virei imortal ao aceitar minha pele é prata

Em vez disso, este sujeito acredita em si mesmo, confia nas suas capacidades. Consciente de que está em um mundo perigoso, repleto de ódio e ganância, quer vencer na vida do seu jeito. Para isso, teve que enxergar sua pele como prata, ou seja, descobrir sua beleza, valor e poder enquanto cidadão negro em um país racista.

9. BB King

Na última música do álbum, o rapper parece se apresentar ao mundo, refletindo sobre si mesmo e sobre a sua arte. Fruto de influências bastante distintas, se revela como herdeiro de um legado de pensadores e agitadores sociais.

Eu sou eterno
Da geração dos iluminados
Dos raivosos incompreendidos
Dos que nasceram pra liberdade

Assim, convoca Jack Kerouac, o pai dos beatniks, anunciando que suas rimas podiam pertencer ao movimento literário norte-americano conhecido por sua boemia e hedonismo.

Contando suas conquistas na cena musical brasileira, se compara ao craque do futebol Cristiano Ronaldo e refere que seu talento se assemelha ao de BB King.

Cê entrou duas vezes pra história em dois anos
Só com 22 dois anos
Você rima como se fosse o BB King solando
Autoestima, eu te amo

Riley Ben King ficou conhecido como BB King: as duas letras iniciais de seu representavam Blues Boy. Considerado um dos melhores guitarristas do mundo, era também cantor e compositor de blues, sendo apontado como um dos artistas mais importantes do gênero musical.

B. B King
Retrato de BB King.

Referencia também o escritor brasileiro Roberto Piva, considerado um "poeta maldito" por ter rimado sobre consumo de substâncias psicoativas e deambulações pela cidade. Falando com Piva, como se respondesse à sua poesia, afirma que também sente o encanto da rua e a capacidade transformadora da vida.

Piva, nessas ruas eu me sinto rei
Eu vivi, eu caí, eu me consertei

No final do tema, é lido um texto que explicita a relação da cultura negra com a música blues e a sua importância para a construção de uma identidade coletiva. O blues representa, assim, um momento de viragem na História, o primeiro passo de uma longa caminhada.

1903. A primeira vez que um homem branco observou um homem negro, não como um um "animal" agressivo ou força braçal desprovida de inteligência. Desta vez percebe-se o talento, a criatividade, a música! O mundo branco nunca havia sentido algo como o blues.

A música surge como forma de comunicar com o outro, como veículo para dar a conhecer a sua criatividade, o seu mundo interior.

Principais temas e mensagens do álbum

Em suma, Bluesman é um disco que reflete profundamente sobre racismo e cotidianos marcados pela discriminação. Procurando a representatividade, Baco mostra que tem direito ao discurso, exige espaço para falar de suas experiências, sublinhando a importância da autodeterminação.

Depois de séculos de opressão, os negros exigem falar de si mesmos, definir a si mesmos, contar as usas próprias narrativas, ser protagonistas da própria História.

A arte e música surgem como formas de discurso, de expressão e expansão da própria identidade. Desde os tempos do blues até aos dias de hoje, a música continua sendo uma das áreas da cultura onde indivíduos negros podem se expressar livremente e fazer sucesso e fortuna, apesar de todo o racismo institucional.

Na última faixa do disco, deixa uma explicação para o título, demonstrando que se trata de uma forma de estar na vida. Ser bluesman é resistir, manter uma postura de combate contra os estereótipos racistas e as crenças ignorantes que continuam na nossa cultura.

O que é ser bluesman? É ser o inverso do que os outros pensam. É ser contra corrente, ser a própria força, a sua própria raiz. É saber que nunca fomos uma reprodução automática da imagem submissa que foi criada por eles. Foda-se a imagem que vocês criaram. Não sou legível. Não sou entendível. Sou meu próprio deus; sou meu próprio santo; meu próprio poeta. Me olhe como uma tela preta, de um único pintor. Só eu posso fazer minha arte. Só eu posso me descrever. Vocês não têm esse direito. Não sou obrigado a ser o que vocês esperam! Somos muito mais! Se você não se enquadra ao que esperam… Você é um bluesman.

Se identificando como uma "tela negra", garante que sua obra está apenas começando. Promete que será o que quiser, consciente de que é o criador do seu próprio destino e não precisa se render a preconceitos ou determinismos.

Sobre Baco Exu do Blues

Dono de uma bagagem cultural invejável, Diogo Moncorvo é um dos jovens brasileiros que merecem a nossa atenção. Com ritmo, estilo e sentido de humor, mistura influências do cânone artístico e literário mundial com elementos populares da cultura brasileira, criando um universo só seu.

Seu próprio nome de rapper é uma mescla de referências e identidades: Baco, o deus grego do vinho, Exu, entidade do candomblé e Blues, a música negra por excelência.

Confira, abaixo, o bate papo entre Baco Exu do Blues e Caetano Veloso.

Cultura Genial no Spotify

Escute estes e outros sucessos do rapper Baco Exu do Blues na lista que preparamos para você:

Conheça também

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.