Nouvelle Vague


Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora e pesquisadora

Nouvelle vague é o nome de um importante movimento estético do cinema que começou no final da década de 50 na França.

Era uma nova maneira de pensar o audiovisual, questionando muitos elementos do cinema tradicional francês e trazendo frescor e inovação tanto na forma quanto no conteúdo abordado. Assim, ela acaba influenciando grandemente a produção audiovisual em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

François Truffaut e Jean-Luc Godard são considerados grandes nomes dessa vertente, mas não se pode esquecer da cineasta Agnès Varda, que anos antes do movimento despontar já produzia um cinema autoral na mesma linha do que viria depois.

História da Nouvelle Vague

Nos anos 50, foi fundada na França a importante revista Cahiers du Cinéma, dedicada à crítica cinematográfica. A publicação tinha em seu corpo de redatores nomes como Eric Rohmer, Jacques Rivette, Claude Chabrol, François Truffaut e Jean-Luc Godard.

Esses jovens críticos eram quase sempre bastante duros em suas análises, julgando as produções da época antiquadas, padronizadas e sem criatividade.

Assim, André Bazin, um dos fundadores da revista, lança um desafio a eles: produzir seus próprios filmes. É nesse contexto que Claude Chabrol produz Nas garras do vício (1958), considerado um marco na época.

nas garras do vício nouvelle vague
Cena de Nas garras do vício (1958), de Claude Chabrol

A partir de então ganha força um movimento de renovação do cinema, com produções ousadas e cheias de energia. Tal movimento levou o nome de nouvelle vague, que em francês significa "nova onda".

É importante ressaltar a importância e ineditismo da cineasta Agnès Varda, que anteriormente, em 1954, produziu La Pointe Courte, considerado precursor da nouvelle vague.

Em 1959, outros dois filmes ganham destaque e se tornam ícones do movimento, são eles Acossado, de Godard e Os incompreendidos, de Truffaut.

Características do cinema Nouvelle Vague

Valorização do "cinema de autor"

Foram muitas as novidades propostas por essa "nova onda". Os artistas estavam interessados em fazer um cinema autoral, em que o roteiro e a direção fossem, de fato, valorizados, assim como a atuação.

Foi nesse contexto que a expressão "cinema da autor" foi criada.

Quebra da linearidade narrativa

Um dos elementos que a nouvelle vague subverte é a linearidade. Não havia a preocupação de contar a história respeitando o tempo cronológico dos acontecimentos, dessa forma houve uma ruptura da estrutura narrativa.

Certa vez Jean-Luz Godard declarou sobre isso:

Uma história deve ter um começo, um meio e um fim, mas não necessariamente nessa ordem.

Valorização de ambientes externos

Locações externas também foram muito utilizadas. A luz natural e ambientes do cotidiano passam a ser valorizados, diferente do que era feito até então, onde as cenas eram gravadas em estúdios e em espaços controlados.

Os cineastas queriam mostrar a vida pulsante das ruas, os transeuntes e o cotidiano como pano de fundo das histórias propostas.

Temas do cotidiano

Os temas abordados traziam questionamentos comuns, dificuldades do dia a dia e reflexões banais sobre a vida. Por conta disso, a atuação era muito importante, sendo inclusive ressaltado o improviso e espontaneidade.

Além disso, outros assuntos como a liberdade amorosa e sexual e a pacificação no pós-guerra também aparecem com frequência.

Inovação na maneira de filmar

Já no que diz respeito à parte técnica, a nouvelle vague experimentou outras maneiras de enquadramentos e movimentos de câmera, além de inovar na montagem das cenas.

Filmes icônicos e cineastas da Nouvelle vague

La Pointe Courte (1954), de Agnès Varda

Esse foi o primeiro filme da fotógrafa Agnès Varda (1928-2019). Misturando documentário e ficção, a cineasta ousou em uma produção cheia de elementos peculiares, considerada como precursora do nouvelle vague.

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Cena de La Pointe Courte

Pointe Courte é o nome de uma vila de pescadores na França e foi o local escolhido para as gravações. Agnès, que além de diretora também criou o roteiro do longa, quis registar o ambiente, seus personagens reais e suas nuances.

A história fictícia de um casal também faz parte da trama, criando um filme que ultrapassa as barreiras do convencional.

Nas garras do vício (1958), de Claude Chabrol

Nas garras do vício (Le beau Serge, no título original, que significa "O belo Serge") é considerado por muitos como o primeiro filme, de fato, do movimento nouvelle vague.

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Cartaz de Nas garras do vício (título original Le beau Serge)

Realizado por Claude Chabrol (1930-2010), foi a estreia do diretor, que até então escrevia críticas de cinema para a revista Cahiers du Cinéma.

A trama conta sobre um jovem que retorna a sua cidade natal em busca de descanso, mas depara-se com uma realidade bem diferente. Um filme sobre as mudanças que ocorrem nas pessoas e nos lugares à medida que o tempo passa.

Acossado (1959) de Jean-Luc Godard

Um filme de destaque de Jean-Luc Godard (1930-) é Acossado, realizado em 1959. O primeiro filme do diretor é considerado uma obra-prima cinematográfica, causando ainda hoje surpresa por conta de sua inovação.

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Acossado, de Godard, no título original é À bout de souffle

A montagem do longa conta com recursos impensados para a época, como cortes e enquadramentos com finalidade puramente estética.

A atuação do casal protagonista é também incomum, exibindo uma história que mistura romance e perseguição, diálogos banais e a agitação das ruas.

Os incompreendidos (1959) de François Truffaut

Produção de estreia de François Truffaut (1932-1984), Os incompreendidos entrou também para a lista de filmes icônicos da nouvelle vague. Recebeu o prêmio de melhor diretor em Cannes e nomeação à Palma de Ouro.

O enredo aborda a difícil relação familiar de um adolescente com seus pais, mostrando o ator Jean-Pierre Léaud interpretando, aos 15 anos, um garoto que é expulso de casa. Veja abaixo o trailer do longa.

A religiosa (1966), de Jacques Rivette

Jacques Rivette (1928-2016), que também veio da revista Cahiers du Cinéma, não fez tanto sucesso quanto Godard e Truffaut.

a religiosa de jacques rivette
Cena de A religiosa (1966), de Rivette

Um de seus filmes mais conhecidos é A religiosa, romance adaptado de Diderot, no qual traça uma narrativa experimental e quebra tabus da sociedade.

A obra causou escândalo e foi censurada em outros países. Anos mais tarde, o diretor passa a trabalhar na televisão.

Influência da Nouvelle vague

A nouvelle vague realmente abalou as estruturas dentro do universo cinematográfico, trazendo um novo ânimo e soluções criativas na forma de contar as histórias. Por conta disso, muitos artistas do audiovisual beberam na fonte dessa "nova onda".

No Brasil, por exemplo, o movimento intitulado "Cinema Novo" foi bastante impactado tanto pela nouvelle vague quanto pelo neo-realismo italiano. Podemos citar Cacá Diegues e Glauber Rocha como diretores brasileiros de destaque dessa vertente.

Nos EUA houve também grande inspiração na corrente francesa. Cineastas como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Steven Spielrberg e Brian de Palma tiveram na vertente uma referência para muitos filmes.

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Laura Aidar
Laura Aidar
Arte-educadora, pesquisadora e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007 e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, localizada em São Paulo, em 2010.