Modernismo: contexto histórico e principais nomes do movimento


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O Modernismo foi, sem dúvida, um dos movimentos culturais e artísticos que mais impactaram as formas de criar. No Brasil, assim como em outros pontos do mundo, o movimento trouxe várias transformações na cultura e na arte, sobretudo no campo da literatura.

O seu valor é incalculável, uma vez que artistas de diversos contextos continuam tendo os modernistas como referência.

Conheça mais sobre o movimento modernista e suas várias manifestações.

Modernismo no Brasil

No Brasil, o Modernismo foi um movimento de enorme impacto, que veio abalar as estruturas tradicionais e transformar a arte e a cultura nacionais.

Embora já existissem agitações anteriores, o marco inicial do movimento foi a Semana de Arte Moderna, que aconteceu nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal, em São Paulo.

O evento englobou uma série de palestras, leituras, exposições e recitais de música, combinando várias modalidades artísticas.

Entre alguns dos nomes presentes neste "ponto de partida" do modernismo brasileiro, se destacam Oswald de Andrade, Graça Aranha, Anita Malfatti, Mário de Andrade, Di Cavalcanti e Villa-Lobos.

Comissão organizadora da Semana da Arte Moderna, com Oswald de Andrade em destaque (na frente).
Comissão organizadora da Semana da Arte Moderna, com Oswald de Andrade em destaque (na frente).

Na data que celebrava o centenário da Independência Brasileira, artistas e intelectuais de diversas áreas se reuniram para refletir acerca do novo rumo que queriam seguir para reconstruir o país.

Verificando que as produções artísticas nacionais ainda refletiam a herança colonial e os modelos europeus, os modernistas desejavam romper com as tradições.O seu objetivo último era valorizar, celebrar e promover a cultura e a realidade brasileira.

Fases do modernismo brasileiro

Na literatura brasileira, o Modernismo assumiu três fases, com características e princípios bastante distintos.

1ª Fase: Fase Heroica (1922 — 1930)

A primeira fase do Modernismo no Brasil foi também a mais incendiária e disposta a romper com os padrões, as formas e as temáticas tradicionais. Esta geração ficou conhecida pela revalorização da cultura indígena e a busca de uma identidade nacional.

O nome de Oswald de Andrade é incontornável neste período. Além de fazer parte da comissão organizadora da Semana de Arte Moderna, foi também o autor de duas publicações essenciais: Manifesto da Poesia Pau-Brasil e Manifesto Antropófago.

2ª Fase: Fase da Consolidação ou Geração de 30 (1930 —1945)

Conhecida por ter sido uma geração de continuidade, esta fase manteve alguns princípios dos primeiros modernistas, como a liberdade formal e a experimentação. Debruçados sobre questões sociopolíticas e filosóficas, estes escritores começaram a perceber e a registrar as desigualdades do Brasil.

Ganha força, assim, o regionalismo, com obras como A Bagaceira, de José Américo de Almeida, e Macunaíma, de Mário de Andrade.

3ª Fase: Fase Pós-Modernista ou Geração de 45 (1945 — 1960)

A última geração, também conhecida como Pós-Modernista, rejeita os parâmetros das gerações anteriores. Influenciada por acontecimentos políticos como a Guerra Fria e a instauração da ditadura brasileira, esta fase é mais introspectiva, séria, individualista.

Na prosa, o regionalismo continua proliferando, desta vez focado na realidade sertaneja; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, é apontado como um dos maiores clássicos desse período.

Conheça mais sobre o Modernismo no Brasil, suas fases e características.

Resumo: O que foi o Modernismo?

Podemos definir "Modernismo" como um conjunto de movimentos culturais e escolas artísticas que surgiram na primeira metade do século XX.

É importante sublinhar que dentro deste rótulo cabem várias correntes de pensamento e nem todas concordavam entre si; na verdade, algumas eram antagônicas.

Aquilo que tinham em comum era a noção de que a cultura tradicional estava ultrapassada e que, por isso, era necessário encontrar novas ideias e conceitos. Estas vanguardas partiram, então, em busca do novo, do "moderno". Assim, são fortemente marcadas por valores de experimentalismo e transgressão.

Aquilo que desejavam era a ruptura com os padrões, as normas, não só nos modos de criar, mas também de pensar e agir em sociedade.

O movimento modernista se manifestou nas várias áreas da cultura (pintura, arquitetura, escultura, teatro, música), especialmente no campo literário.

Características do Modernismo

Embora o modernismo tenha se configurado de várias maneiras, através de diversas formas de expressão artística e em diferentes pontos do mundo, podemos identificar algumas características transversais:

  • A ruptura com a tradição;
  • A postura experimentalista;
  • A valorização do cotidiano;
  • A busca / reconstrução da identidade.

Com espíritos repletos de desejo pela novidade, os artistas e escritores modernistas não hesitavam em descartar os modelos e as regras tradicionais.

Em vez de seguir ou copiar, procuravam a inovação, a criatividade, explorando, experimentando e tentando acessar novos conhecimentos e técnicas.

Confira também uma explicação detalhada das características do modernismo.

Modernismo na literatura

Na literatura, o legado dos modernistas foi valioso. Cansados de ver sempre os mesmos temas e as mesmas formas no fazer literário, eles queriam quebrar com as tradições, promovendo uma liberdade formal e estética (por exemplo, no verso livre, no uso da pontuação).

Outro traço marcante do movimento é o modo como valoriza os temas do cotidiano e os traz para a prosa e a poesia. Muitas vezes, essas temáticas são acompanhadas por um tom humorístico e / ou um registro de linguagem próximo da oralidade.

Principais autores modernistas

No Brasil

  • Oswald de Andrade (1890 — 1954)
  • Mário de Andrade (1893 — 1945)
  • Manuel Bandeira (1886 — 1968)
  • Cassiano Ricardo (1894 — 1974)
  • Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987)
  • Murilo Mendes (1901 — 1975)
  • Cecília Meireles (1901 — 1964)
  • João Guimarães Rosa (1908 — 1967)

Na Europa

  • Virginia Woolf (1882 — 1941)
  • James Joyce (1882 — 1941)
  • Luigi Pirandello (1867 — 1936)
  • Rainer Maria Rilke (1875 — 1926)
  • Guillaume Apollinaire (1880 — 1918)
  • Franz Kafka (1883 — 1924)
  • Fernando Pessoa (1888 — 1935)
  • Mário de Sá Carneiro (1890 — 1915)
  • Almada Negreiros (1893 — 1970)
  • José Régio (1901 — 1969)
  • Alves Redol (1911 — 1969)

Modernismo no cinema

Podemos afirmar que o cinema, enquanto “imagem-movimento” surgiu no final do século XIX, com a criação do cinetoscópio (1889) e do cinematógrafo (1892). A arte cinematográfica, no entanto, só começou a ganhar formar nas primeiras décadas do século XIX.

Assim, é fácil compreender que o cinema influenciou o movimento modernista e também foi influenciado por ele. Entre as principais referências, se destaca o expressionismo alemão, representado, por exemplo, pelo filme Metrópolis (1927) de Fritz Lang.

Outro marco do modernismo no cinema foi o surrealismo espanhol, conhecido sobretudo através de Un chien andalou (1928), filme dirigido por Luis Buñuel e Salvador Dalí.

O cinema soviético também foi extremamente importante, com obras que entraram para a história da sétima arte, como O Encouraçado Potemkin (1925) de Serguei Eisenstein e Um Homem com uma Câmera (1929) de Dziga Vertov.

No panorama brasileiro, o Cinema Novo foi um movimento que repercutiu internacionalmente, promovendo a transformação do país.

Alguns dos filmes mais famosos dessa época ecoavam também influências modernistas. É o caso de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha ou Macunaíma (1969) de Joaquim Pedro de Andrade.

Modernismo na pintura

Influenciados também pelo aparecimento do cinema, a imagem em movimento, os pintores deste período começaram a inventar as suas próprias formas de criar e fugir do realismo tradicional.

Nasceram, assim, os vários "ismos" que marcaram profundamente o nosso panorama artístico: o Expressionismo, o Cubismo, o Dadaísmo, o Surrealismo, o Futurismo, etc.

As vanguardas artísticas se caracterizaram pelo radicalismo e também pela exploração da mente, com o objetivo de expressar sentimentos e emoções.

No Brasil, os pintores foram influenciados por essas vanguardas europeias, marcando presença no movimento brasileiro desde o começo, na Semana de Arte Moderna.

Abaporu (1928), Tarsila do Amaral
Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral

Buscando uma renovação estética, estes artistas prestaram atenção à cultura nacional, aos cenários urbanos, à industrialização, entre outros temas marcantes na época.

Tarsila do Amaral é apontada como expoente máximo da pintura modernista brasileira. A obra Abaporu (1928), da artista, inspirou a criação do Movimento Antropofágico.

Grandes pintores modernistas

No Brasil

  • Anita Malfatti (1889 — 1964)
  • Di Cavalcanti (1897— 1976),
  • Tarsila do Amaral (1886 — 1973)
  • Candido Portinari (1903 — 1962)
  • Vicente do Rego Monteiro (1899 — 1970)
  • Inácio da Costa Ferreira (1892 —1958)

Na Europa

  • Wassily Kandinsky (1866 — 1944)
  • Henri Matisse (1869 — 1954)
  • Pablo Picasso (1881 — 1973)
  • Salvador Dalí (1904 — 1989)
  • Piet Mondrian (1872 — 1944)
  • Georges Braque (1882 — 1963)
  • Umberto Boccioni (1882 — 1916)

Contexto histórico do Modernismo

O Modernismo surgiu no período temporal que separou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Segunda (1939-1945). A sua origem se situa, portanto, numa época atravessada por conflitos, revoluções e transformações sociais profundas.

Importa também lembrar que o contexto histórico do movimento modernista foi largamente influenciado pelo processo de industrialização em curso e os vários avanços tecnológicos que estavam surgindo.

Fruto de um tempo que se caracterizava pela busca do progresso, estes artistas procuravam outras formas e técnicas para criar. Por isso, se inspiravam em correntes artísticas dissidentes, como o Impressionismo e o Simbolismo.

A partir de 1890, o Modernismo começou a tomar forma enquanto movimento cultural. Um dos marcos fundadores foi a abertura da loja Art Nouveau, de Siegfried Bing, em Paris. A partir do nome do local, foram aparecendo algumas traduções e "modernismo" se estabeleceu como rótulo mais usado.

Modernismo europeu

Depois desse fôlego inicial, o Modernismo começou a se espalhar por diversos pontos da Europa, apresentando distinções e singularidades provenientes do seu contexto.

Com o tempo, o movimento conseguiu tomar conta das várias formas de expressão cultural e artística: a pintura, a arquitetura, a literatura, a música, etc.

Quadro de Kandinsky (1925)

Amarelo-Vermelho-Azul (1925), de Kandinsky

O Expressionismo surgiu na Alemanha e teve em Wassily Kandinsky um dos seus principais representantes. O Cubismo teve como seu co-fundador e representante máximo o pintor espanhol Pablo Picasso.

Na Itália, o Futurismo ganhou força na literatura, devido ao Manifesto Futurista, do poeta Filippo Marinetti. Seus preceitos ecoavam na pintura de artistas como Umberto Boccioni, Carlo Carrá e do português Almada Negreiros.

Liderado pelo poeta Tristan Tzara, o movimento dadaísta surgiu na Suíça, na cidade de Zurique. Já em Paris, estava nascendo uma das mais notáveis vanguardas modernistas: o Surrealismo.

Com o escritor André Breton como mentor e o poeta Guillaume Apollinaire como criador do termo, o Surrealismo foi uma corrente estética altamente prolífica. Entre os grandes nomes da época, se destaca o de Salvador Dalí, que se mantém como um ícone até aos dias de hoje.

Quadro A Persistência da Memória, de Salvador Dalí
A Persistência da Memória (1931), de Salvador Dalí.

Todas estas escolas vanguardistas procuravam não só a inovação, mas também a experiência. Dispostos a explorar tudo o que havia por descobrir, se preocupavam em conhecer a mente humana e alterar os modos de pensar e de viver. A sua influência foi, por isso, determinante no panorama literário.

Em Portugal, por exemplo, o movimento modernista chegou através da literatura, com a publicação da Revista Orpheu, em 1915. Assim como aconteceu no caso brasileiro, o Modernismo português se dividiu em três fases distintas: Geração Orpheu (1915-1927), Presencismo (1927-1940) e Neorrealismo (a partir de 1940).

Esta fase final assumiu uma enorme relevância no corpo literário português, já que se tornou num dos principais veículos de denúncia das injustiças e opressões vividas durante o governo ditatorial.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.