Surrealismo: características e principais artistas


Sónia Cunha
Sónia Cunha

Em 1924, em Paris, André Breton (1896-1966), escritor e poeta francês, escreveu um manifesto depois de cortar relações com Tristan Tzara, líder do movimento Dadaísta, e assim nasce o Surrealismo, para muitos a última das grandes vanguardas. 

Manifesto Surrealista - André Breton - 1924
Manifesto Surrealista - André Breton - 1924
Imagem: versão de Le Viol (Violação) - óleo sobre tela, 1934 - René Magritte, MoMa, NY 

O Surrealismo emerge assim em Paris, em 1924, e espalha-se por uma Europa saída da I Guerra Mundial estendendo-se até à II Guerra Mundial. Porém, a influência deste movimento chegou, na verdade, até aos nossos dias.

Apesar de o termo surrealismo estar associado a Breton e seu manifesto, este é anterior e foi primeiramente usado por Guillaume Apollinaire (1880-1918), escritor e crítico de arte francês, em 1917 no prólogo da sua peça "As Tetas de Tirésias".

Características

O inconsciente e o automatismo

Le Guéridon dans l'atelier
Le Guéridon dans l'atelier (Mesa de Pedestal no Estúdio) - óleo sobre tela, 1922 - André Masson 
(1896-1987, pintor, escultor, ilustrador, designer e escritor francês), Tate, UK

O manifesto que Breton escreveu foi inspirado no livro de Freud, "A Interpretação dos Sonhos", onde se explora a ideia de que a mente humana possui um nível escondido, o inconsciente, assim chamado por a maior parte do tempo não termos noção da sua existência.

Assim, o Surrealismo desejava ultrapassar essa limitação do consciente, permitindo que o subconsciente se expressasse através da arte.

Dessa forma o automatismo tornou-se em uma das características do Surrealismo, sendo este a defesa da expressão artística sem as limitações ou o controle da razão.

Para alcançar esse objetivo, os artistas fizeram inclusive criações artísticas em transe e hipnose.

“La mer se retire” (O mar se recolhe, 1941) André Masson,
Exemplo de automatismo no desenho - La mer se retire (O mar se retira) 1941 - André Masson

Na prática o automatismo consistia em transpor para o papel, tela ou qualquer outro modo de expressão artística, um pesamento ou sonho diretamente do subconsciente, sem controle estético ou preocupação moral.

O objetivo era que a criação artística passasse a ser automática (automatismo), assim como respiramos ou pestanejamos sem pensar. Era uma tentativa de revolta contra as normas estabelecidas, não só na arte, como também na esfera social.

Os surrealistas acreditavam que a criatividade que nascia no subconsciente de um artista era mais autêntica e poderosa que a do consciente. E também estavam interessados em explorar a linguagem dos sonhos que acreditavam revelava sentimentos e desejos ocultos.

De uma forma geral, a ideia era ser o mais espontâneo possível, algo que em desenho ou na escrita se revelou mais ou menos fácil, mas nem tanto com a pintura, pois sendo uma técnica mais complexa não permite tanta espontaneidade.  

Outras técnicas e processos criativos

L'Évadé
Exemplo de frottage - L'Évadé (o Fugitivo) 1926 - Max Ernst

Como na pintura o automatismo não funcionava tão bem como em outras formas de expressão artística, outras técnicas foram usadas para alcançar essa espontaneidade da criação.

Um desses exemplos foi o frottage, que consistia em passar um lápis, por exemplo, sobre uma superfície rugosa, criando assim formas no suporte e a partir daí se criava então a obra.

Outro exemplo é a decalcomania, que basicamente pode ser resumida como uma técnica na qual uma quantidade de tinta era atirada contra uma tela ou papel que depois era dobrado ao meio. Desse processo resultava um padrão de tinta que depois os artistas usavam para criar a obra.

Outras formas de expressão artística foram usadas e experimentadas, sempre em uma tentativa de explorar ao máximo a liberdade criativa.

Exemplo de um Cadavre Exquis dos artistas Yves Tanguy, Joan Miró, Max Morise e Man Ray.
Exemplo de um Cadavre Exquis dos artistas Yves Tanguy,
Joan Miró, Max Morise e Man Ray.

O cadavre exquis era um processo criativo baseado em um jogo, no qual diferentes artistas criavam desenhos ou poemas em conjunto.

Para isso a obra ia passando de uns para outros, e cada artista ia acrescentado um pedaço novo até alcançarem o resultado final.

Téléphone - Homard (Telefone-lagosta) - metal, gesso, borracha, resina e papel, 1936 - Salvador Dalí, MoMa, NY
Exemplo de objet trouvé - Téléphone-Homard (Telefone-lagosta) - metal, gesso, borracha, resina e papel, 1936 - Salvador Dalí, MoMa, NY

Outro processo de construção artística alternativa era o objet trouvé (objeto encontrado) inventado por Marcel Duchamp (1887-968) que foi um pintor, escultor e poeta francês, e um dos principais nomes do Dadaísmo.

De uma forma simplificada, objet trouvé significava a utilização de objetos cotidianos e criados para um propósito específico, que seriam retirados do seu ambiente e propósito, sendos-lhe dado um novo.

No Surrealismo a essa premissa é acrescentado o toque do absurdo, da sobreposição do improvável e bizarro, como é o caso de juntar uma lagosta a um telefone, ou no caso de Meret Oppenheim que cobriu uma xícara e uma colher com pelo.

Meret Oppenheim Object Paris, 1936
Exemplo de objet trouvé - Object (objeto) 1936 - Meret  Oppenheim 
(1913-1985, artista plástica e fotógrafa suiça), MoMa, NY

Esta forma de construção artística colocava assim objetos do cotidiano que normalmente não se encontrariam juntos, e juntava-os, provocando perturbação e dessa forma ajudando a estimular o inconsciente.

Era a justaposição entre o familiar (o objeto comum encontrado) com o improvável e absurdo (um novo propósito, cenário ou sobreposição que era imposta ao objeto).

Os artistas do Surrealismo frequentemente incorporavam também imagens e objetos de outras culturas, sobretudo das mais primitivas. Essa atitude tinha acima de tudo intenções anti-colonialistas e anti-racistas.

Principais artistas e obras

Max Ernst 

Les Hommes n'en sauront rien - óleo sobre tela, 1923 - Max Ernst, Tate
Les Hommes n'en sauront rien (os homens não sabem nada) - óleo sobre tela, 1923 - Max Ernst, Tate, UK

Max Ernst (1891, Brühl, Alemanha - 1976, Paris, França) foi um dos pioneiros do Dadaísmo primeiro e depois do Surrealismo, destacando-se através da pintura, mas também da poesia. 

Ainda na Alemanha, Ernst participou ativamente na I Guerra Mundial, algo que deixou marcas profundas no homem e eventualmente influenciou grandemente o artista. 

The Virgin Spanking the Christ Child Before Three Witnesses: Andre Breton, Paul Eluard, and the Painter (1926)
A Virgem Abençoada Castigando o Menino Jesus Perante Três Testemunhas: Andre Breton, Paul Eluard, e o Pintor - óleo sobre tela, 1926 - Max Ernst, Museum Ludwig, Köln, Alemanha

A exposição que ele sofreu aos horrores da guerra fizeram com que ainda com maior veemência se revoltasse contra a sociedade e valores da época.

A sua obra caracteriza-se sobretudo pela exploração do absurdo, cenários de fantasia e do mundo dos sonhos.

Ao longo da vida artística experimentou várias técnicas, como colagem ou frottage, e foi bastante influenciado pela arte das tribos nativas americanas. 

Salvador Dalí

La persistència de la memòria
La persistència de la memòria (A persistência da memória) -
óleo sobre tela, 1931 - Salvador Dalí, MoMa, NY

Salvador Dalí (1904-1989, Figueres, Espanha) é o mais famoso dos surrealistas e o seu nome passou a ser, com o tempo, sinônimo do movimento.

Porém, por volta de 1937, devido a uma alteração no estilo e também devido às crenças políticas de Dalí, Breton acabou expulsando o artista do movimento surrealista. 

Dalí é também o mais controverso e na sua obra é notória a influência do mundo dos sonhos.

A expressão da sua arte foi feita predominantemente através da pintura e da escultura, mas ao longo da sua vida foi experimentando também outras formas e técnicas. 

Sua marca foi deixada inclusive no cinema, dada sua colaboração em dois filmes com Luis Buñuel (1900-1983, realizador de cinema espanhol): Un Chien andalou (Um Cão Andaluz) em 1929 e L'Age d'or (A Idade do Ouro) em 1930.

A Girafa
Girafa em Chamas - óleo sobre madeira, 1937 - Salvador Dalí, Kunstmuseum Basel, Basileia, Suiça

Além de um artista revolucionário, Dalí foi também um gênio na hora de se auto-promover e um verdadeiro homem do espetáculo.

Tematicamente as suas pinturas rondam três temas principais: o universo e as sensações do homem, simbologia sexual e imagens ideográficas.

A maioria do seu trabalho consiste na representação sequencial de um sonho, algo que ele conseguiu exercitando sua mente para aceitar o subconsciente como parte do consciente e assim de lá tirar sua inspiração. 

Para Dalí os sonhos e a imaginação eram fundamentais para o processo criativo, assim como defendia uma variante do automatismo, uma espécie de paranoia.

Neste processo de paranoia o artista deveria embarcar em um estado de alucinação para criar, suspendendo sua racionalidade apesar de no fundo estar consciente disso.

Veja a análise completa da pintura A Persistência da Memória de Salvador Dalí

Joan Miró 

O Caçador (Paisagem Catalã) - óleo sobre tela, 1924 - Joan Miró, MoMa, NY
O Caçador (Paisagem Catalã) - óleo sobre tela, 1924 - Joan Miró, MoMa, NY

Joan Miró (1893, Barcelona, Espanha - 1983, Palma de Maiorca, Espanha) é um dos artistas mas influentes do século XX. As obras mais conhecidas do artista são pinturas, mas Miró produziu também como escultor, designer, ceramista, etc.

Tal como outros artistas, Miró passou por, foi influenciado e deixou sua marca em vários movimentos, tendo começado pelo Fauvismo, depois pelo Dadaísmo, Surrealismo e Abstracionismo.

Na sua vida artística praticou o automatismo e na pintura procurou afastar-se o mais possível do convencional, e com isso também atacar os princípios burgueses instituídos.

Joan Miró – Harlequin’s Carnival, 1924. Albright-Knox Art Gallery
Carnaval d'Arlequin (Carnaval do Arlequim) - óleo sobre tela, 1925 - Joan Miró, 
Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, US

As suas pinturas representam sobretudo formas biomórficas, sem contraste, e tematicamente são composições que remetem para um cruzamento entre o mundo fantasmagórico e dos sonhos.

Com  suas inovativas composições, Miró influenciou seus contemporâneos e incontáveis artistas de gerações posteriores.  

René Magritte 

Les amants (os amantes) - óleo sobre tela, 1928 - René Magritte, MoMa, NY
Les amants (os amantes) - óleo sobre tela, 1928 - René Magritte, MoMa, NY

René Magritte (1898, Lessines, Bélgica - 1967, Bruxelas, Bélgica) foi um artista belga e um dos nomes mais aclamados internacionalmente do Surrealismo, apesar que a sua fama chegaria apenas por volta dos anos 50 do século XX.

Apesar de ser um dos artistas mais associados ao Surrealismo, as obras de Magritte distanciam-se bastante do ilusionismo das de Dalí e das obras fortemente influenciadas pelo automatismo de Miró.

Para Magritte o importante não era tanto o que a obra mostrava, mas aquilo que ela ocultava, ou suas segundas intenções.

Para ele o importante era representar o mistério e assim muitas das suas composições pictóricas apresentam figuras humanas com a cara coberta por tecidos, deixando o espetador eternamente curioso e insatisfeito por nunca podermos desvendar quem está debaixo desses panos.

Durante a sua vida artística, Magritte recorreu várias vezes ao mesmo tema e também por várias vezes utilizou obras famosas de artistas anteriores criando ele uma versão surrealista das mesmas.

Ceci N'est Pas une Pipe (A Traição das Imagens) - óleo sobre tela, 1929 - René Magritte, LACMA, LA
Ceci N'est Pas une Pipe (A Traição das Imagens) - óleo sobre tela, 1929 - René Magritte, LACMA, LA

O humor também representou um papel importante na obra de Magritte, e um exemplo disso é a Traição das Imagens, em que um cachimbo é pintado com extraordinário realismo, para depois o artista colocar em baixo deste a descrição "Isto não é um cachimbo".

Na verdade poderá argumentar-se que nem a imagem nem a palavra, que a descreve com uma negativa, são um cachimbo. Elas são apenas representações abstratas do objeto que se encontra ausente. 

Assim, de forma aparentemente simples, Magritte obriga o espetador a pensar, questionar. Sendo que o próprio artista não se considerava um pintor, mas um pensador que se expressava através de imagens.

Sónia Cunha
Sónia Cunha
Licenciada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2003, e em Conservação e Restauro pelo Instituto Politécnico de Tomar em 2006.