Modernismo no Brasil


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O modernismo brasileiro foi um movimento cultural e artístico que teve um grande impacto na cultura nacional, sobretudo nas áreas da literatura e das artes plásticas.

Alguns autores, artistas e músicos que pertenceram ao movimento continuam sendo populares e influenciando as gerações atuais. Conheça mais sobre o modernismo brasileiro, suas fases e características principais.

Modernismo brasileiro: contexto histórico e influências

Marcando profundamente a primeira metade do século XX, o modernismo no Brasil surgiu a partir da influência das vanguardas europeias, como o futurismo, o cubismo e o Surrealismo.

Sempre ligado ao contexto social e político da época, o modernismo brasileiro surge na ressaca da Primeira Guerra Mundial, que ocorreu entre os anos de 1914 e 1918. No Brasil, o período ficou também marcado pelo aumento da inflação, que estava gerando insatisfação popular.

Os modernistas procuravam a liberdade e queriam inovar. Para isso, buscavam novas ideias, novas formas de criar, rompendo com as tradições literárias e artísticas dos antecessores.

Conheça mais sobre o Modernismo: características e contexto histórico.

Semana de Arte Moderna (1922): o começo

A Semana de Arte Moderna é apontada como o marco inicial do movimento, embora também tenha contado com a participação de criadores de outras correntes.

Comissão organizadora da Semana da Arte Moderna, com Oswald de Andrade em destaque (na frente).
Comissão organizadora da Semana de Arte Moderna, com Oswald de Andrade em destaque (na frente).

O evento aconteceu em São Paulo, no Theatro Municipal, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922.

Na data que celebrava o centenário da Independência do Brasil, os modernistas pretendiam reconstruir o país e seu panorama cultural.

Confira tudo sobre a Semana de Arte Moderna.

Características do modernismo na literatura brasileira

A princípio, a crítica foi feroz contra os modernistas, chegando a insinuar que eram loucos, devido às suas propostas e concepções artísticas. Mesmo assim, o modernismo influenciou amplamente nossa literatura, arte e cultura, se repercutindo em publicações, obras, manifestos e movimentos.

Dividido em três fases, o modernismo no Brasil assumiu várias facetas e características, ao longo dos tempos. Em traços gerais, se distingue a ideia de ruptura com as tradições, se instaurando novas estruturas, como o verso livre.

Há também a atenção ao cotidiano, que se reflete numa linguagem mais simples e próxima do registro oral.

Fase Heroica (1922 — 1930)

A primeira fase, conhecida como Heroica, é apontada como a mais radical de todas, já que reclamava o abandono de todas as convenções e a total renovação de paradigmas.

Irreverente e iconoclasta, esta geração decidiu destruir todos os modelos, partindo em busca de algo original e verdadeiramente brasileiro. Esse processo também passou por uma revalorização da cultura indígena, tantas vezes relegada para segundo plano.

O nacionalismo foi um dos traços marcantes dessa fase, assumindo contornos diametralmente opostos. De um lado estava o nacionalismo crítico, que denunciava as violências da realidade brasileira. Do outro, estavam os ufanistas, com o seu patriotismo exacerbado e ideais extremistas.

Capa da Revista de Antropofagia.
Capa da Revista de Antropofagia (1929).

Entre as publicações da época, se destacam a Revista Klaxon (1922 — 1923), o Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924 — 1925) e a Revista de Antropofagia (1928 — 1929).

O Manifesto da Poesia Pau-Brasil, redigido por Oswald de Andrade, reclama um fazer poético centrado no contexto nacional e também na cultura popular, propondo uma "redescoberta do Brasil".

Na sequência, surgiu a Revista de Antropofagia e o movimento antropofágico, também com Andrade na linha da frente. O Manifesto Antropófago (1928) propõe que o brasileiro "engula" as influências europeias para "digeri-las", ou seja, recriá-las num outro contexto.

Conheça mais sobre o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

Fase da Consolidação ou Geração de 30 (1930 —1945)

Mais ponderada que a anterior, esta é uma geração de continuidade, que mantém alguns princípios fundamentais do modernismo de 22, como o verso livre e a linguagem coloquial.

A segunda onda modernista se afasta do desejo de destruição da primeira fase. Dedicada principalmente à poesia e ao romance, a Geração de 30 começou a se debruçar sobre questões sociopolíticas e filosóficas. Adotando uma postura mais solene e consciente, buscava o lugar do homem no mundo e refletia sobre o cidadão brasileiro.

Prestando atenção às diferentes realidades nacionais, em vários pontos do país, esta fase de consolidação começou a perceber as desigualdades que existiam no Brasil.

Capa da obra A Bagaceira, de José Américo de Almeida
Capa da obra A Bagaceira, de José Américo de Almeida.

Assim, o regionalismo da época (enfatizado principalmente no Nordeste) denunciava práticas como o coronelismo, a exploração da classe trabalhadora, as consequências da escravidão, a precariedade dos retirantes, entre outras.

Além das temáticas, a literatura começou a estar atenta às próprias linguagens locais, reproduzindo expressões regionais e gírias.

O ano de 1928 marcou a ascensão do romance regionalista, com A Bagaceira, de José Américo de Almeida, e Macunaíma, de Mário de Andrade.

Fase Pós-Modernista ou Geração de 45 (1945 — 1960)

A Geração de 45 também ficou conhecida como Pós-Modernista, já que ela se opunha aos parâmetros estéticos da fase inicial, como a liberdade formal e a sátira, entre outras.

A literatura da época deu primazia à poesia, que era amplamente influenciada pelas agitações políticas nacionais e internacionais. O mundo começava a ser assombrando pela Guerra Fria, uma série de conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética (1945 — 1991).

Durante esse período, o Brasil enfrentou o final da Era Vargas, o Populismo e também os movimentos que prepararam a instauração da Ditadura. A poesia produzida nesta fase se caracteriza por ser grave, séria e focada na reflexão e no indivíduo.

Capa do livro Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa.
Capa do livro Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa.

Na prosa, no entanto, se mantem a tradição do regionalismo, desta vez focado na realidade sertaneja. Guimarães Rosa foi um dos maiores nomes dessa dimensão do modernismo brasileiro, publicando um de seus maiores clássicos, Grande Sertão: Veredas, em 1956.

Existem algumas controvérsias acerca do final deste período; embora seja apontado o ano de 1960, alguns críticos acreditam que se estendeu até à década de 80.

Alguns autores do modernismo brasileiro

  • Oswald de Andrade (1890 — 1954)
  • Mário de Andrade (1893 — 1945)
  • Manuel Bandeira (1886 — 1968)
  • Cassiano Ricardo (1894 — 1974)
  • Plínio Salgado (1895 — 1975)
  • Menotti del Picchia (1892 — 1988)
  • Guilherme de Almeida (1890 — 1969)
  • Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987)
  • Vinícius de Morais (1913 — 1980)
  • Cecília Meireles (1901 — 1964)
  • Murilo Mendes (1901— 1975)
  • João Guimarães Rosa (1908— 1967)
  • Clarice Lispector (1920 — 1977)
  • Rachel de Queiroz (1910 — 2003)
  • José Lins do Rego (1901—1957
  • Graciliano Ramos (1892 — 1953)
  • Lygia Fagundes Telles (1923)

Conheça também

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.