Modernismo no Brasil


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O modernismo brasileiro foi um movimento cultural e artístico que teve um grande impacto na cultura nacional, sobretudo nas áreas da literatura e das artes plásticas.

Alguns dos seus traços principais reformularam profundamente o modo de pensar a criação e de encarar a sociedade, influenciando as gerações futuras.

Modernismo brasileiro: resumo

O modernismo brasileiro surgiu na primeira metade do século XX e foi uma corrente artística e cultural que revolucionou o panorama nacional.

O movimento chegou ao território brasileiro através do eco das vanguardas europeias, como o futurismo, o cubismo e o Surrealismo. Desafiando e contrariando as tradições e os modelos das gerações anteriores, o movimento procurava a liberdade e a inovação.

Assim como em outras partes do mundo, o modernismo brasileiro estava buscando novas ideias e formas de criar. Aqui, no entanto, o movimento foi mais além, já que coincidiu com uma fase em que o país procurava a sua identidade.

Depois de séculos em que os artistas e escritores apenas reproduziam e importavam referências europeias, o modernismo trouxe a atenção para o solo nacional. Começa a existir uma maior valorização da cultura e do povo brasileiro: seu modo de falar, sua realidade, seus problemas.

A princípio, a crítica foi feroz contra os modernistas, chegando a insinuar que eram loucos, devido às suas propostas e concepções artísticas. Mesmo assim, influenciaram amplamente nossa literatura, arte e cultura.

Conheça mais sobre o Modernismo: características e contexto histórico.

Características do modernismo brasileiro

Ruptura com a tradição

Ao contrário das escolas e tradições anteriores, que prescreveram modelos, técnicas e temas restritos para a criação artística, o modernismo queria subverter as regras. Na literatura, por exemplo, os modernistas estavam abandonando as formas fixas e os esquemas rimáticos.

Postura experimentalista

Com influências das correntes vanguardistas, o modernismo buscava outros modos de explorar a mente humana, outras metodologias e práticas para conhecer e criar. Por isso, estava sempre disposto a inovar, a experimentar, a arriscar técnicas novas.

Valorização do cotidiano

As mudanças não vieram apenas ao nível da forma e da estética, mas também nas temáticas que passaram a ser abordadas na literatura e nas artes plásticas. A criação passa a abranger e refletir os pequenos detalhes da vida cotidiana, até então desvalorizados.

Busca e reconstrução da identidade

O modernismo foi também o motor para a busca e reconstrução de uma identidade nacional, depois de séculos de dominação portuguesa e mera reprodução das influências europeias. A arte e a literatura do modernismo contrariam essas tradições, se focando no sujeito brasileiro.

Assim, procura refletir sua cultura, seus costumes e sua linguagem, entre outras características nacionais. Demonstra também a pluralidade e diversidade que existe no nosso território, os vários "Brasis" possíveis.

Revalorização da cultura e herança indígena

Na busca dessa identidade, o modernismo brasileiro se focou em algo que vinha sendo apagado e menosprezado até então: a vasta cultura indígena. Assim, os modernistas decidiram explorá-la nas suas obras..

Lembremos, por exemplo, os quadros de Tarsila do Amaral, um dos principais nomes da pintura modernista brasileira:

Quadro Abaporu de Tarsila do Amaral
Quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral.

Descubra mais sobre o quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral.

Fases do modernismo brasileiro na literatura

Dividido em três fases, o modernismo no Brasil assumiu várias facetas e características, ao longo dos tempos.

Em traços gerais, se distingue a ideia de ruptura com as tradições, se instaurando novas estruturas, como o verso livre. Há também a atenção ao cotidiano, que se reflete numa linguagem mais simples e próxima do registro oral.

1ª Fase: Fase Heroica (1922 — 1930)

Renovação

A primeira fase, conhecida como Heroica, é apontada como a mais radical de todas, já que reclamava o abandono de todas as convenções e a total renovação de paradigmas.

Irreverente e iconoclasta, esta geração decidiu destruir todos os modelos, partindo em busca de algo original e verdadeiramente brasileiro. Esse processo também passou por uma revalorização da cultura indígena, tantas vezes relegada para segundo plano.

Nacionalismo

O nacionalismo foi um dos traços marcantes dessa fase, assumindo contornos diametralmente opostos. De um lado estava o nacionalismo crítico, que denunciava as violências da realidade brasileira. Do outro, estavam os ufanistas, com o seu patriotismo exacerbado e ideais extremistas.

Revistas e manifestos

Entre as publicações da época, se destacam a Revista Klaxon (1922 — 1923), o Manifesto da Poesia Pau-Brasil (1924 — 1925) e a Revista de Antropofagia (1928 — 1929).

Capa da Revista de Antropofagia.
Capa da Revista de Antropofagia (1929).

Conheça mais sobre o Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade.

2ª Fase: Fase da Consolidação ou Geração de 30 (1930 —1945)

Mais ponderada que a anterior, esta é uma geração de continuidade, que mantém alguns princípios fundamentais do modernismo de 22, como o verso livre e a linguagem coloquial.

Olhar sociopolítico

A segunda onda modernista se afasta do desejo de destruição da primeira fase. Dedicada principalmente à poesia e ao romance, a Geração de 30 começou a se debruçar sobre questões sociopolíticas e filosóficas. Adotando uma postura mais solene e consciente, buscava o lugar do homem no mundo e refletia sobre o cidadão brasileiro.

Regionalismo

Prestando atenção às diferentes realidades nacionais, em vários pontos do país, esta fase de consolidação começou a perceber as desigualdades que existiam no Brasil.

Assim, o regionalismo da época (enfatizado principalmente no Nordeste) denunciava práticas como o coronelismo, a exploração da classe trabalhadora, as consequências da escravidão, a precariedade dos retirantes, entre outras.

Além das temáticas, a literatura começou a estar atenta às próprias linguagens locais, reproduzindo expressões regionais e gírias.

O ano de 1928 marcou a ascensão do romance regionalista, com A Bagaceira, de José Américo de Almeida, e Macunaíma, de Mário de Andrade.

3ª Fase: Fase Pós-Modernista ou Geração de 45 (1945 — 1960)

A Geração de 45 também ficou conhecida como Pós-Modernista, já que ela se opunha aos parâmetros estéticos da fase inicial, como a liberdade formal e a sátira, entre outras.

Existem algumas controvérsias acerca do final deste período; embora seja apontado o ano de 1960, alguns críticos acreditam que se estendeu até à década de 80.

Intimismo

A literatura da época deu primazia à poesia, que era amplamente influenciada pelas agitações políticas nacionais e internacionais. O mundo começava a ser assombrando pela Guerra Fria, uma série de conflitos indiretos entre os Estados Unidos e a União Soviética (1945 — 1991).

Durante esse período, o Brasil enfrentou o final da Era Vargas, o Populismo e também os movimentos que prepararam a instauração da Ditadura. A poesia produzida nesta fase se caracteriza por ser grave, séria e focada na reflexão e no indivíduo.

Regionalismo focado no Sertão

Na prosa, no entanto, se mantem a tradição do regionalismo, desta vez atento à realidade sertaneja. Um dos maiores exemplos é o clássico da literatura brasileira Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa.

Capa do livro Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa.
Capa do livro Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa.

Modernismo no Brasil: principais autores e obras

Quando falamos do modernismo no Brasil, o nome de Oswald de Andrade (1890 — 1954) é inesquecível. O autor foi o pioneiro do movimento em território nacional, liderando as agitações da Semana de Arte Moderna.

Com O Manifesto da Poesia Pau-Brasil, reclamou um fazer poético centrado no contexto nacional e também na cultura popular, propondo uma "redescoberta do Brasil".

Retrato do escritor Oswald de Andrade.
Retrato do escritor Oswald de Andrade.

Já no Manifesto Antropófago (1928), propõe que o brasileiro "engula" as influências europeias para "digeri-las", ou seja, recriá-las num outro contexto.

Quem também estava no movimento desde o começo e se destacou foi Mário de Andrade (1893 — 1945) que, em 1928, publicou Macunaíma, uma das maiores obras da nossa literatura.

Capa do livro Macunaíma, de Mário de Andrade.
Capa do livro Macunaíma (1928), de Mário de Andrade.

Narrando a história do índio Macunaíma desde o seu nascimento, o livro surgiu a partir das pesquisas que o autor estava fazendo acerca da cultura brasileira e suas origens.

Em 1969, o romance foi adaptado para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade, com Grande Otelo no papel principal.

Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987), um dos maiores poetas nacionais, foi também um grande representante da segunda geração do Modernismo no Brasil.

Retrato do escritor Carlos Drummond de Andrade.
Retrato do escritor Carlos Drummond de Andrade.

Os seus versos se focavam nas grandes questões sociopolíticas da época, não deixando de refletir sobre o lugar do indivíduo no mundo.

Com uma linguagem próxima da oralidade e temas do cotidiano, o poeta conquistou várias gerações de leitores e influenciou amplamente o fazer poético brasileiro.

Finalmente, precisamos mencionar um autor que, junto com Guimarães Rosa (1908— 1967), representou o regionalismo e os romances modernistas brasileiros: Graciliano Ramos (1892 — 1953).

Capa do livro Vidas Secas e retrato do seu autor, Graciliano Ramos.
Capa do livro Vidas Secas e retrato do seu autor, Graciliano Ramos.

Vidas Secas (1938) é considerada a sua obra-prima, traçando um retrato comovente das experiências de vida no sertão. O livro mostra a pobreza, a fome e as lutas diárias de uma família nordestina que tenta sobreviver.

Outros autores de destaque

  • Manuel Bandeira (1886 — 1968)
  • Cassiano Ricardo (1894 — 1974)
  • Plínio Salgado (1895 — 1975)
  • Menotti del Picchia (1892 — 1988)
  • Guilherme de Almeida (1890 — 1969)
  • Vinícius de Morais (1913 — 1980)
  • Cecília Meireles (1901 — 1964)
  • Murilo Mendes (1901— 1975)
  • Clarice Lispector (1920 — 1977)
  • Rachel de Queiroz (1910 — 2003)
  • José Lins do Rego (1901—1957
  • Lygia Fagundes Telles (1923)

Contexto histórico: a origem do modernismo no Brasil

Sempre ligado ao contexto social e político da época, o modernismo brasileiro surge na ressaca da Primeira Guerra Mundial, que ocorreu entre os anos de 1914 e 1918.

No território nacional, o período ficou também marcado pelo aumento da inflação, que estava gerando um sentimento de insatisfação popular.

Apesar de já existirem expressões anteriores do modernismo no Brasil, o movimento ficou eternamente associado a um ano em específico: 1922.

O que foi a Semana de Arte Moderna de 1922?

A Semana de Arte Moderna é apontada como o marco inicial do modernismo no Brasil, embora também tenha contado com a participação de criadores de outras correntes.

Cartaz da última noite da Semana de Arte Moderna (17 de fevereiro de 1922).
Cartaz da última noite da Semana de Arte Moderna (17 de fevereiro de 1922).

O evento aconteceu em São Paulo, no Theatro Municipal, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922.

Na data que celebrava o centenário da Independência do Brasil, os modernistas pretendiam reconstruir o país e seu panorama cultural através da arte, da música e da literatura.

Comissão organizadora da Semana da Arte Moderna, com Oswald de Andrade em destaque (na frente).
Comissão organizadora da Semana de Arte Moderna, com Oswald de Andrade em destaque (na frente).

Confira tudo sobre a Semana de Arte Moderna.

Como surgiu o Modernismo?

O modernismo se configurou como movimento cultural e artístico numa época que se caracterizou por grandes conflitos e mudanças: o período temporal que separou a Primeira Guerra Mundial (1914 — 1918) e a Segunda (1939 — 1945).

Esse tempo também foi definido pelo processo rápido de industrialização, que se traduzia na busca do progresso e da inovação.

Em 1890, Siegfried Bing abriu a loja Art Nouveau, em Paris,que reunia peças que estavam sendo produzidas no momento e seguiam uma determinada estética. A partir daí, começou a se estabelecer o rótulo de "modernismo".

Na Europa, o movimento foi se multiplicando em inúmeras correntes vanguardistas como o Surrealismo, o Futurismo, o Expressionismo, entre outras que ecoaram pelo mundo todo.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.