Naturalismo: características, principais nomes e obras do movimento


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O Naturalismo foi uma corrente artística e literária que provocou o choque mas também conquistou a atenção do público.

O movimento colocava em evidência temáticas e personagens marginalizadas que costumavam ser deixadas de fora da arte. Com o intuito de analisar a sociedade, expunha vários assuntos que ainda eram tabus.

Quer conhecer mais sobre o Naturalismo, suas características e principais artistas? Acompanhe a nossa análise!

Resumo: que foi o Naturalismo?

O Naturalismo foi um movimento literário e artístico que surgiu na Europa, durante a metade do século XIX. Podemos entendê-lo como uma ramificação ou continuação do Realismo que extrapola algumas das suas características e paradigmas.

Fortemente ligado ao pensamento científico da época e influenciado por Darwin, o Naturalismo procurava estudar o indivíduo enquanto produto da sua hereditariedade (herança genética) e também do meio onde cresceu.

O movimento se manifestou através de várias expressões artísticas como a literatura, a pintura e o teatro. Na literatura, se tornou um instrumento de denúncia e crítica social. Na pintura, trouxe quadros realistas passados em cenários naturais.

No teatro, também instaurou grandes mudanças como o surgimento do diretor, da sonoplastia, dos figurinistas, entre outros elementos.

Uma das maiores inovações dos naturalistas foi o modo como colocaram o foco da arte e da literatura nas classes mais desfavorecidas e também nos grupos sociais mais estigmatizados, algo que não acontecia até aí.

Naturalismo na literatura

O começo, na França, com Émile Zola

O escritor francês Émile Zola (1840 — 1902) foi o maior nome e principal impulsionador da literatura naturalista. Em 1867, publicou a obra O romance experimental , encarada como um manifesto do movimento.

O Naturalismo favoreceu a ficção, sob a forma do romance naturalista, que se propunha a estudar e expôr a sociedade naquilo que ela tinha de mais primário ou até animalesco.

Nestas obras, o ser humano se torna o objeto de estudo, a partir de um olhar focado na sua fisiologia, nas suas compulsões e patologias.

Também conhecidos como romances de tese, pretendiam fazer uma análise científica através da literatura, tentando provar ou validar uma teoria filosófica ou social.

Capa da primeira edição de Nana, de Emile Zola (1880).
Capa da primeira edição de Nana, de Émile Zola (1880).

Publicada em 1880, Nana é uma das maiores obras de Zola, sendo também considerada uma das obras-primas da literatura naturalista. O livro segue a protagonista com o mesmo nome, uma jovem atriz que nasceu em uma família pobre, filha de um homem alcoólatra.

Bonita e sensual, Nana acaba usando os seus atributos físicos para sobreviver e se torna uma prostituta de luxo. A mulher consegue subir na vida e enriquece, passando a pertencer à "alta roda" da sociedade francesa.

O romance, assim como outros do seu tempo, é marcado pelo erotismo e pelos discursos sobre a sexualidade, sobretudo aquela que era considerada imoral ou fora dos padrões. Nos papéis de protagonismo estavam aqueles que eram rejeitados socialmente.

Émile Zola também escreveu Germinal (1881), uma obra que retratava a vida dos mineiros de carvão. Para fazer uma descrição mais próxima da realidade, o autor chegou a viver entre os homens que desempenhavam a profissão.

Em Portugal: o naturalismo de Eça de Queirós

Na língua portuguesa, um dos nomes mais importantes neste contexto é o de Eça de Queirós, que marcou profundamente o panorama literário do seu país com obras pertencentes ao Naturalismo-Realismo.

Capa do livro O Primo Basílio, de Eça de Queirós.
Capa do livro O Primo Basílio (1878), de Eça de Queirós.

O Primo Basílio (1878) criticava a burguesia do século XIX, apontando os seus vícios e segredos. Luísa, a protagonista, é uma mulher casada que comete adultério quando conhece o seu primo, Basílio, por quem se apaixona perdidamente.

Já em O Crime do Padre Amaro (1875), o alvo da denúncia de Eça é o clero e a sua hipocrisia, exemplificada pelo modo como quebrava seus votos.

Características do Naturalismo na literatura

  • Utiliza uma linguagem simples, bastante próxima daquela usada no cotidiano;
  • Tem uma forte componente de denúncia e crítica social, fazendo um retrato do seu tempo;
  • Analisa o comportamento humano através de um olhar objetivo e impessoal;
  • O narrador é onisciente e não se envolve nos acontecimentos, funcionando como um mero observador da situação;
  • Aborta temas considerados chocantes, principalmente ligados à sexualidade e à saúde mental;
  • Retrata os seres humanos como animalescos, criaturas governadas pelos seus impulsos e desejos primitivos;
  • Toma a ciência como prioridade, assumindo uma postura positivista;
  • As obras defendem uma teoria, que o narrador tenta provar, observando os sujeitos como um cientista fazendo uma experiência ou investigação;
  • O narrador é engajado e tenta, ativamente, convencer os leitores acerca da sua tese;
  • É amplamente marcado pelo Determinismo, defendendo que cada indivíduo seria o produto direto do meio onde estava;
  • É também caracterizado pelo fatalismo, com narrativas que acabam de forma trágica, principalmente para os personagens que vêm de meios mais desfavorecidos (como se estivessem destinados à ruína);
  • Relata a luta do ser humano contra as forças da Natureza;
  • Influenciado por Darwin e o evolucionismo, pretende demonstrar que apenas os mais aptos prosperam;
  • Retrata grupos marginalizados e ambientes coletivos;
  • Valoriza aspectos estéticos como as descrições extremamente pormenorizadas que permitem ao leitor imaginar com alguma exatidão;

Naturalismo no Brasil

No Brasil, o Naturalismo surgiu no final do século XIX, influenciado por autores europeus como Émile Zola e Eça de Queirós. No território nacional, o maior representante do estilo foi o maranhense Aluísio Azevedo, com obras incontornáveis como O Mulato (1881) e O Cortiço (1890).

Os livros, seguindo a lógica naturalista, não se limitavam a distrair os leitores, tal como acontecia, por exemplo, com a literatura do Romantismo. Aqui, a preocupação era narrar e analisar a realidade do país, encarando as obras literárias enquanto instrumentos de denúncia.

Importa, assim, lembrar que aquela foi uma época de agitações sociais e políticas que antecederam enormes mudanças, como a abolição da escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889).

Capa do livro O Mulato de Aluíso de Azevedo
Capa do livro O Mulato (1881), de Aluísio de Azevedo.

Em O Mulato, Azevedo conta a história de Raimundo, um homem que é filho de um escravo mas rejeita a sua negritude, dando conta dos preconceitos raciais que se faziam sentir naquela sociedade.

Já na obra O Cortiço, o autor se foca na vida de uma habitação comunitária, o cortiço São Romão, seguindo os destinos dos seus moradores. Os personagens pertencem às classes mais pobres da sociedade e também às mais marginalizadas.

A narrativa é marcada por um forte determinismo: retratando o que considerava serem fraquezas e vícios daqueles indivíduos, defende que todos foram corrompidos pelo meio onde vivem e cairão forçosamente em ruína.

Apesar da importância de Aluísio Azevedo, outros nomes se destacam no naturalismo brasileiro, como Adolfo Caminha, Inglês de Souza, Horácio de Carvalho, Emília Bandeira de Melo e Raul Pompeia.

Conheça mais sobre o Naturalismo no Brasil.

Principais obras e artistas do Naturalismo

Na pintura, assim como na literatura, os naturalistas queriam contrariar tendências românticas, como o idealismo e a subjetividade. O foco passava a estar nas classes mais baixas, com retratos dos seus cotidianos, muitas vezes em meios rurais.

O termo "naturalista" era usado desde o século XVII para descrever obras apresentavam uma visão realista do que retratavam. No século XIX, no entanto, o Naturalismo se manifestou enquanto movimento nas artes plásticas.

Quadro Hay Making, de Jules Bastien Lepage.
Quadro Os fabricantes de feno (1877), de Jules Bastien-Lepage.

Os quadros se caracterizavam, sobretudo, por conterem imagens realistas que aconteciam em cenários ligados à natureza.

Essas características começaram a surgir principalmente na França, com artistas como Jules Bastien-Lepage (1848 — 1884), um maiores dos impulsionadores do movimento.

A pintura naturalista também estava despontando em outras partes do mundo, como a Inglaterra e os Estados Unidos da América.

William Bliss Baker, Early Summer.
Quadro Início do Verão, de William Bliss Baker.

Entre os pintores norte-americanos, William Bliss Baker (1859 — 1886) chamou a atenção com suas paisagens naturais, antes de morrer prematuramente, aos 26 anos.

Em Inglaterra, a artista botânica Marianne North (1830 — 1890) marcou o Naturalismo, retratando nas suas telas a fauna e a flora de vários países.

A pintora viajou pelo globo, passando por locais como o Brasil, o Canadá, os Estados Unidos, a Jamaica, o Japão e a Índia, pintando suas flores e frutos.

Quadro Flores Japonesas, de Marianne North.
Quadro Flores Japonesas, de Marianne North.

Outros artistas do Naturalismo:

  • John James Audubon (França, 1785 — 1851)
  • Edward Lear (Inglaterra, 1812 — 1888)
  • August Friedrich Schenck (Alemanha, 1828 — 1901)
  • Marie Bashkirtseff (Ucrânia, 1858 — 1884)

Contexto histórico do Naturalismo

Sendo uma radicalização ou continuação do Realismo, o Naturalismo surgiu em um contexto similar.

Em 1859, o biólogo inglês Charles Darwin (1809 – 1882) lançou uma obra que viria influenciar amplamente as perspectivas da época: A Origem das Espécies.

A sua teoria, conhecida como teoria evolucionista, explicava a diversidade e a evolução das espécies através de critérios de seleção natural.

A valorização da ciência e a ideia de que apenas os melhores e mais fortes sobreviveriam, conduziu a uma visão determinista e positivista do mundo.

Por outro lado, o movimento artístico também estava sendo influenciado pelo pensamento socialista, que ganhava força com a luta pelos direitos dos trabalhadores depois da Revolução Industrial.

As obras do Naturalismo mostravam o cotidiano dos pobres, que viviam em condições difíceis, e eram explorados pelos seus patrões.

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.