A Persistência da Memória, de Salvador Dalí


Rebeca Fuks
Revisão por Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A Persistência da Memória é um quadro do pintor surrealista Salvador Dalí. A tela foi produzida em 1931 em menos de cinco horas e tem dimensões pequenas (24cm x 33cm).

Dalí estava indisposto para ir ao cinema com a sua mulher e os amigos e, nesse tempo que ficou em casa, pintou um dos quadros mais famosos da história da arte. A obra está exposta no Museu de Arte Moderna (MoMa), em Nova York, desde 1934.

A persistencia da memoria

O surrealismo é uma escola artística que nasce na literatura e que prega uma grande liberdade na criação. Os artistas procuravam se afastar do formalismo e buscar no inconsciente, no que foge à realidade, a sua matéria-prima.

O termo surrealismo foi cunhado por André Breton e se encontra no contexto dos movimentos modernistas europeus. Com forte influência das teorias psicanalíticas de Freud, o surrealismo tenta se afastar da lógica e da razão nas produções artísticas.

O resultado é uma arte simbólica, cheia de elementos que saem da racionalidade, despindo objetos cotidianos da sua lógica convencional.

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Interpretação e significado de A Persistência da Memóri

As obras de cunho surrealista dão margem à diversas interpretações já que são carregadas de simbolismos e possuem poucas representações diretas da realidade. A Persistência da Memória nos fala sobre a noção da temporalidade e da memória.

Os relógios "derretidos"

relogio

Os relógios que se derretem representam um tempo que passa de forma diferente. Ao contrário dos relógios normais, que marcam com precisão a passagem dos segundos, estes relógios de Dalí possuem marcações distintas pois os seus ponteiros estão derretidos e trazem uma noção distorcida dos segundos.

Quando olhamos para os relógios reconhecemos este objeto, porém, ele nos causa estranheza, pois está destituído do seu formato e uso convencionais. Essa estranheza gera uma reflexão sobre o próprio objeto e a sua função.

As formigas no relógio

formiga

O único relógio que não está deformado é o que está virado para baixo e tem formigas sobre ele. Salvador Dalí não gostava muito de formigas e esses insetos estão relacionados à putrefação nas suas obras. Isso mostra como o objeto cotidiano é desprezado por Dalí e pela vanguarda surrealista. Muitos acreditavam que a arte representativa estava decadente e que a fotografia havia tomado o lugar de uma pintura realista.

A pintura abstrata é uma forma de superar e de dar sentido para as artes plásticas. A saída encontrada foi deslocar o objeto, deformá-lo, buscar modos novos de representá-lo. Esse recurso, além de ser uma outra forma de representar o objeto, promove a meditação e a reflexão sobre coisas que passam despercebidas no nosso cotidiano.

O relógio é um objeto banal que todos já vimos e provavelmente usamos. Geralmente não prestamos muita atenção nele, mesmo que seja responsável por marcar, dar o passo do nosso dia e dos nossos compromissos. Quando Dalí transfigura o relógio, ele nos faz perceber como esse pequeno objeto tem uma importância tão grande em nossa vida.

O tempo real e o tempo do inconsciente

A memória é uma forma de marcar o tempo, uma forma interna e subjetiva.

O tempo da memória não é o mesmo do relógio comum: um momento que passou há muito pode ser lembrado como algo recente e o dia anterior pode parecer como algo que aconteceu anos atrás.

Caricatura do pintor

Dali

A noção subjetiva do tempo é explorada por Dalí neste quadro. A própria figura do pintor aparece dormindo em baixo de um relógio derretido. O lugar do sonho, da vigília, é também um lugar onde a temporalidade assume outras realidades.

O tempo do quadro A Persistência da Memória não é o tempo real, e sim o tempo do inconsciente. Sabe-se que Dalí foi influenciado por algumas das teorias da psicanálise de Freud, segundo o qual "o sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente".

A busca de Dalí pelo inconsciente está refletida no quadro pela sua caricatura que dorme. A temporalidade está em outro plano.

A paisagem e o resto do real

fundo

Em meio a todas as figurações e representações surreais, o quadro de Salvador Dalí nos apresenta ao fundo uma paisagem. Este horizonte ao fundo do quadro era a vista de sua casa em Barcelona. É a estrada do real, o que resta da realidade neste quadro onírico.

A obra também leva ao questionamento metalinguístico. Como a arte pode fazer parte da memória e não ser esquecida? E como isso leva o sujeito que produz a obra a procurar um pouco da imortalidade em seus quadros?

A Persistência da Memória é uma visão subjetiva da temporalidade e das suas implicações, seja na obra de arte ou nas lembranças. É também uma homenagem ao tempo interior e inconsciente, que tem sua própria forma de ser contado e que foge à racionalidade.

O inconsciente é matéria essencial para Salvador Dalí e sua atemporalidade está expressa na obras com o uso de relógios que derretem ao serem expostos à persistência da memória.

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Rebeca Fuks
Revisão por Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).