Características do Modernismo


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O Modernismo foi um movimento cultural artístico e literário que vigorou na primeira metade do século XX.

Ele vigorou mais especificamente entre o espaço de tempo que separou a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em termos estéticos podemos situar essa geração entre o simbolismo e o pós-modernismo.

Apesar de sob o rótulo do modernismo estarem reunidas produções muito diferentes, procuramos sublinhar aqui algumas das principais características norteadoras que moveram os artistas desse período.

1. Desejo de romper com o tradicionalismo

Os artistas da geração modernista partilhavam de modo geral a ideia de que a cultura tradicional estava ultrapassada. Era preciso pensar - e realizar - uma nova arte visto que o que se fazia até então já não os representava.

Querendo abalar as estruturas tradicionais e romper com os padrões e paradigmas que já não faziam sentido, os artistas tinham como objetivo ultrapassar a arte embotada e sem vida que vinha se fazendo.

Com ânsia de deixar o passado para trás, os modernistas investiam no presente procurando criar uma nova linguagem artística.

Repare, por exemplo, no investimento do pintor português Amadeo de Souza-Cardoso para encontrar uma nova linguagem:

Pintura (1917), Amadeo de Souza-Cardoso
Pintura (1917), Amadeo de Souza-Cardoso

2. Impulso por explorar o novo

Entre os modernistas imperava uma vontade de implantar mudanças artísticas significativas aspirando por uma liberdade estética e formal.

Havia um impulso para a experimentação e para o improviso que se fazia notar pelo emprego de novas técnicas. O experimentalismo podia ser observado no desejo de transgredir e inovar e levava os artistas a buscarem experiências inéditas.

O anseio aqui era alcançar tanto uma liberdade em termos de formato quanto em termos de conteúdo.

No Brasil o Modernismo se iniciou com a Semana de Arte Moderna em 1922 dando novos ares a nossa arte. Os principais artistas desse período foram Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti e Anita Malfatti. Todos eles - cada um a sua maneira - investiam em trilhar um caminho artístico inovador.

Um exemplo dessa motivação renovadora pode ser encontrado na leitura do poema Os Sapos, de Manuel Bandeira.

Apresentado durante a Semana de Arte Moderna, os versos pretendiam fazer uma crítica ao passado - mais especificamente parnasianismo - com humor:

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.

O grupo de modernistas (brasileiros e estrangeiros) procurava não só refletir sobre a vida e a arte como também alterar os modos de pensar e de viver reavaliando as identidades individuais e coletivas.

3. Emprego de uma linguagem simples

A geração modernista valorizava as experiências banais e procurava utilizar uma linguagem usual - coloquial - muitas vezes anárquica e irreverente.

Esse desejo de se aproximar do público fez com que muitas vezes os artistas fossem beber no registro da oralidade, fazendo inclusive o emprego do humor.

Um exemplo dessa característica pode ser conferido em Macunaíma, uma clássica obra modernista de Mário de Andrade:

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: - Ai! Que preguiça!... e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros

4.Valorização do cotidiano

Os modernistas de modo geral repudiavam a concepção do artista como alguém afastado do público, isolado em uma espécie de torre de marfim, que produzisse arte estando de fora.

Os artistas queriam falar de dentro da sociedade sobre os dramas cotidianos com uma linguagem que fosse extremamente acessível a qualquer pessoa. A matéria-prima desses artistas era o dia-a-dia, os encontros e desencontros vividos dentro de uma coletividade que passava por profundas transformações.

Modernismo
Os modernistas se alimentavam das situações cotidianas e procuravam produzir um material acessível para todos. Para isso empregavam uma linguagem coloquial, com um vocabulário vulgar e sem grandes elaborações formais.
(Fotografia de Lisboa tirada em meados do século XX)

5. Valorização da identidade

Especialmente no contexto do modernismo brasileiro havia um investimento em valorizar, celebrar e promover a cultura local. Nesse movimento estava inserido o processo de revalorização da cultura indígena e de celebração da miscigenação que fez com que resultássemos em um povo tão heterogêneo e multifacetado.

Esse mergulho nas nossas raízes tinha como principal objetivo a construção de uma identidade nacional.

Apesar de terem um claro orgulho nacional (lê-se um patriotismo evidente em uma série de produções artísticas modernistas), essa geração não deixou de registrar as desigualdades do Brasil fazendo uma severa crítica social.

Abaporu
Quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).