O que foi o Cubismo? Saiba mais sobre o movimento artístico


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O Cubismo foi um movimento artístico de vanguarda que surgiu na França entre 1907 e 1914. Ele marcou o circuito europeu fundando uma nova estética e teve como membros grandes nomes como Pablo Picasso (1881 - 1973), Georges Braque (1882 - 1963), Juan Gris (1887 - 1927), Fernand Léger (1881 - 1955) e o escritor Guillaume Apollinaire (1880 - 1918).

O Cubismo se caracterizou por almejar um objetivismo, passando a geometrizar a realidade, abandonando a tradicional representação de apenas um ângulo.

Dividido em três fases (o Cubismo Cezaneano, o Analítico e o Sintético), o grupo revolucionou a arte que vinha sendo produzida até então.

Les demoiselles d'Avignon

As fases do cubismo

O Cubismo passou basicamente por três fases: o Cezaneano, o Analítico e o Sintético.

Cubismo Cezaneano (1907 a 1909)

A primeira fase do movimento, o Cezaneano, como alude o próprio nome, foi profundamente influenciada pela obra do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906).

Admirado por aqueles que viriam a ser chamados de cubistas, Paul Cézanne inovou ao apresentar telas com múltiplos pontos de vista - esse gênero passou a ser trabalhado por Picasso e seus companheiros de vanguarda.

Os principais temas explorados nessa altura foram a natureza-morta e a paisagem a partir de uma geometrização relativamente suave.

O desejo de fragmentação foi o norte que orientou os pintores nesta fase do cubismo, o impulso aqui foi produzir obras com múltiplas facetas explorando ângulos distintos.

Durante esse período os artistas investiram no sentido de simplificarem a forma.

Observe a tela Fruteira Fruteira com Peras, que data desse período:

Fruteira com Peras
Fruteira com Peras (1909), de Pablo Picasso.

Cubismo analítico (1909 a 1912)

O cubismo analítico, por sua vez, passou a se debruçar sobre a fragmentação mais intensa a partir de um estudo aprofundado e radical de novos ângulos.

Uma peculiaridade: as obras dessa época foram feitas com um número bastante reduzido de cores, os artistas fizeram basicamente uso das tonalidades marrom, cinza e preta.

A palavra chave dessa fase foi desestruturação: os pintores pretendiam desestruturar cada elemento da tela, decompondo as imagens em fragmentos muitas vezes sobrepostos - foi um período marcado portanto por uma geometrização bastante explícita e intensa. A ideia era, através dos múltiplos ângulos, oferecer uma visão mais particular do elemento que se estava tentando representar.

No cubismo analítico os artistas se radicalizaram tanto que algumas obras são dificilmente identificáveis, é o caso da tela Ma Jolie, pintada por Picasso, o pai do movimento, entre 1911-1912.

Ma Jolie
Ma Jolie (1911-1912), de Pablo Picasso.

Cubismo sintético (1911)

Nessa terceira fase os artistas passaram a incluir elementos da vida real na pintura como, por exemplo, pedaços de papel de embrulho, de parede, cartões, cartolina, parafusos, areia e cordas.

Materiais do dia-a-dia foram incorporados nas peças provocando uma verdadeira revolução estética. Essa inovação veio no sentido de provocar novas sensações no espectador (fossem elas táteis ou visuais).

Depois da radicalização presente na fase anterior (o Cubismo analítico), os artistas na fase sintética procuraram criar figuras mais reconhecíveis pelo grande público, tentando rematerializar a representação. Houve um investimento também no sentido de se voltar a usar uma gama mais variada de cores.

Há quem considere o cubismo sintético como uma fusão das duas fases anteriores.

Um exemplo de peça dessa época é a escultura de um violão feito de cartolina por Picasso entre 1912 e 1914.

Guitar Picasso
Guitar (1912-1914), de Picasso.

Resumo da origem do movimento cubista

O Cubismo foi um movimento pioneiro nascido na França entre 1907 e 1914 que é considerado por muitos como o ponto de partida da arte moderna.

Os fundadores do Cubismo pretendiam encontrar uma nova abordagem visual através de uma nova linguagem. Os precursores do movimento foram os pintores Pablo Picasso (1881 - 1973), Georges Braque (1882 - 1963) e o escritor Guillaume Apollinaire (1880 - 1918). Esse último, o autor literário do grupo, proferiu a célebre frase:

"Sem ignorar os talentos de todos os tipos que se manifestam no Salon d'Automne, eu sei que o cubismo é o mais alto da arte francesa hoje."

Também se juntaram ao movimento anos mais tarde nomes ilustres como os de Juan Gris (1887 - 1927) e Fernand Léger (1881 - 1955).

O marco inicial do Cubismo foi a pintura do quadro Les Demoiselles d'Avignon, idealizado por Pablo Picasso em 1907.

Picasso, por sua vez, foi muito inspirado pelo artista Paul Cézanne, que pintava muitas cenas ao ar livre e investiu em pinturas que carregavam uma multiplicidade de pontos de vista.

paul cézanne mont sainte-victoire seen from bellevue
Mont Sainte-Victoire Seen From Bellevue (1885-87), de Paul Cézanne. O pintor francês influenciou muito o movimento cubista especialmente nos primeiros tempos do grupo.

O movimento liderado por Pablo Picasso pretendia suprimir o sentimentalismo e apresentar as imagens a partir de ângulos diferentes (com múltiplos planos e perspectivas). O exercício já havia sido levado a cabo pelo precursor Paul Cézanne, considerado o pai da arte moderna.

O investimento dos artistas era no sentido de desmembrar as formas e reagrupa-las posteriormente, um exercício inovador e ousado que foi corajosamente levado a frente.

Características do cubismo

Representação a partir de múltiplos ângulos

Durante o Cubismo houve o abandono da representação de apenas um ângulo.

As obras artísticas tornaram-se mais ricas com a absorção das mais variadas perspectivas e formas geométricas (majoritariamente cubos e cilindros). Esses múltiplos ângulos constituíam uma figura em três dimensões dando a sensação de haver uma espécie de pintura escultórica.

Não só há uma inclusão de ângulos diferentes dentro da própria pintura como a própria pintura passa a poder ser vista por ângulos diferentes.

Exploração de novos materiais

Fazendo uso de recortes e colagens, os artistas também davam vida a uma crescente criação de pinturas-esculturas.

Os polêmicos artistas, incompatibilizados com a arte que vinha sendo criada até então, tinham como objetivo maior conceber uma nova forma de arte e, para isso, também fizeram uso de materiais distintos para alcançar efeitos sensoriais no espectador.

Perspectiva

Os artistas do grupo faziam uma série de exercícios de geometrização da realidade renunciando ideologicamente a uma única perspectiva. Passou a ser frequente também entre os cubistas a sobreposição de planos

Outra característica importante era o fato das obras cubistas pretenderem se afastar ao máximo de um sentimentalismo piegas almejando ao máximo um objetivismo.

Principais artistas do cubista

Pablo Picasso (1881 - 1973)

Pablo Picasso

Ao lado de Georges Braque, Picasso foi o fundador do movimento Cubista. Desejoso de procurar e fundar uma nova estética, Pablo explorou o estudo das formas e criou telas inovadoras.

O pintor queria se afastar da noção de que a obra de arte deveria representar aquilo que os olhos veem e se aproximava muito mais de uma criação que explorava os múltiplos ângulos de determinado elemento.

A carreira de Picasso foi multifacetada e as suas obras muito diversas foram divididas pelos críticos em diferentes fases. Aproveite para conhecer as 13 obras essenciais para compreender Pablo Picasso.

Mulher com leque
Mulher com leque (1907)
Retrato de Ambroise Vollard
Retrato de Ambroise Vollard (1910)

Georges Braque (1882 - 1963)

Georges Braque

Atuando na pintura e na escultura, Georges foi um precursor do grupo cubista ao ter apresentado em 1906 no Salão Independentes obras de arte com formas simples e cores primárias, sendo um dos primeiros representantes do Fauvismo.

Braque foi considerado um dos fundadores do cubismo ao lado de Picasso, ambos ficaram fascinados com a exposição de Cézanne exibida em 1907 e começaram a trabalhar em sintonia a partir de então.

Picasso e Braque trabalharam juntos até 1914, a parceria só foi interrompida devido à Primeira Guerra Mundial, onde Braque foi lutar.

Observe alguma das criações de Braque:

Fruteira e copo
Fruteira e copo (1912)
Violino e candelabro
Violino e candelabro (1910)

Juan Gris (1887 - 1927)

Juan Gris

Juan Gris (1887 - 1927) não se afiliou ao movimento logo a princípio, tendo aderido ao cubismo somente em 1912.

Ao contrário dos companheiros, Juan tinha certa dificuldade em criar elementos muito descolados da realidade, dificilmente identificáveis, tendo mantido a sua composição mais formal e rígida.

A sua maior contribuição ao grupo foi a introdução de uma inovadora visão espacial.

Retrato de Picasso
Retrato de Picasso (1912)
Still Life with Flowers
Still Life with Flowers (1912)

Fernand Léger (1881 - 1955)

Fernand Léger

Participou do Salão dos Independentes expondo algumas das suas inovadoras obras como a tela Nus na floresta (abaixo). Depois de participar do evento ficou conhecido ao lado de alguns amigos (como Fernand Léger) como cubista.

Léger ficou especialmente famoso por usar formas curvilíneas criando contornos até então nunca experimentados. Ele foi na contramão dos fundadores do cubismo - Braque e Picasso - que investiam em formas retas.

Seu trabalho foi interrompido em 1914 quando foi convocado para participar no fronte da batalha durante a Primeira Guerra Mundial.

Depois de regressar a sua vida cotidiana usou uma série de imagens e vivências ocorridas que testemunhou durante o confronto.

Nus no floresta
Nus no floresta (1911)
Chimneys on Rooftops
Chimneys on Rooftops (1911)

Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)

Guillaume Apollinaire

Escritor e crítico de arte, Guillaume Apollinaire ajudou a divulgar o movimento desde o princípio levando as produções dos cubistas aos grandes eventos públicos.

Ao contrário de Picasso e Braques que inicialmente não se expuseram tanto (ambos não quiseram participar, por exemplo, do Salão dos Independentes), Apollinaire escolheu levar a mensagem dos cubistas espalhando-a para o resto do mundo.

Naquela época Guillaume era crítico de arte de importantes jornais e revistas em Paris, como por exemplo o L’Intransigeant, Le Temps e Les Jornal.

Foi ele que escreveu o primeiro artigo acerca do trabalho de Picasso, elogiando a sua inovadora produção. O material escrito por Guillaume Apollinaire sobre o grupo foi reunido em formato de livro e publicado em 1913 com o título Les Peintres Cubistes.

Obras mais famosas do Cubismo

Guernica (1937), de Pablo Picasso

Guernica
Guernica (1937), de Picasso.

A obra mais reconhecida do cubismo talvez seja Guernica, pintada por Pablo Picasso para representar os efeitos da guerra na cidade de Guernica no dia 26 de abril de 1937.

O mural mostra a atuação dos aviões alemães que bombardearam a cidade espanhola e faz um registro da guerra civil que começou em 1936. O quadro de dimensões enormes é todo feito a preto e branco composto a partir de formas geométricas.

Conheça uma análise aprofundada de Guernica, de Picasso.

Guitarra diante do mar (1925), de Juan Gris

Guitarra diante do mar, de Juan Gris (1925)
Guitarra diante do mar (1925), de Juan Gris.

Em Guitarra diante do mar vemos formas geometrizadas em toda a tela. Juan Gris foi um dos expoentes do cubismo e ilustra aqui uma paisagem que contém elementos reais (sobressai especialmente um pedaço de papel e a guitarra) a frente da pintura, dividindo a atenção com o horizonte.

Les Demoiselles d'Avignon (1907), de Pablo Picasso

Les demoiselles d'Avignon
Les Demoiselles d'Avignon (1907), de Pablo Picasso.

Na tela estão presentes cinco prostitutas de um bordel da rua de Avignon em Barcelona. Os corpos nus são todos angulosos (como se estivessem estilhaçados) e aparecem em um único plano, deixando-as mais próximas do espectador.

Vemos também na tela o uso de máscaras africanas e uma natureza morta na parte inferior do quadro (que seria uma homenagem à Paul Cézanne).

Em relação ao quadro, o teórico Allan de Botton afirma:

Essa obra, além de quebrar as leis da perspectiva, instaura algo nunca antes pensado na pintura que seria a multiplicidade de pontos de vista, processo em que se pode perceber o objeto simultaneamente de lado, de frente e de costas.

O viaduto de estaque (1908), de Georges Braque

O viaduto de estaque (1908), de Georges Braque
O viaduto de estaque (1908), de Georges Braque

Na criação de Georges Braque observamos uma paisagem bucólica e pastoril realizada basicamente a partir de dois tons.

A tela é marcada pela geometria, observe o delineado do telhado das casas e do próprio viaduto. As formas parecem ser as grandes protagonistas em O viaduto de estaque.

As imagens da pintura aparentam estar sobrepostas e são concebidas de modo a valorizar os diferentes ângulos da paisagem. A criação é um típico exemplar da estética cubista.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).