Cubismo


Laura Aidar
Revisão técnica por Laura Aidar • Arte-educadora e artista visual
Escrito por Rebeca Fuks

O Cubismo foi um movimento artístico de vanguarda que surgiu na França entre 1907 e 1914.

Ele marcou o circuito europeu, fundando uma nova estética, e teve como membros grandes nomes como Pablo Picasso, Georges Braque, Juan Gris, Fernand Léger, e o escritor Guillaume Apollinaire.

O Cubismo se caracterizou por almejar um objetivismo, passando a geometrizar a realidade, abandonando a tradicional representação de apenas um ângulo.

Dividido em três fases (o Cubismo Cezaneano, o Analítico e o Sintético), o grupo revolucionou a arte que vinha sendo produzida até então.

Origem do movimento cubista

O marco inicial do Cubismo foi a pintura do quadro Les Demoiselles d'Avignon, idealizado por Pablo Picasso em 1907.

Les demoiselles d'Avignon
Les Demoiselles d'Avignon, de Picasso, mostra novas maneiras de observar a realidade e torna-se um marco cubista

Na tela estão presentes cinco prostitutas de um bordel da rua de Avignon em Barcelona. Os corpos nus são todos angulosos (como se estivessem estilhaçados) e aparecem em um único plano, deixando-as mais próximas do espectador.

Vemos também na tela o uso de máscaras africanas e uma natureza morta na parte inferior do quadro (que seria uma homenagem à Paul Cézanne).

A arte africana foi uma das inspirações para vanguarda cubista. Os artistas buscavam em culturas distantes uma estética “primitiva” e incomum, mesclando elementos.

Em relação ao quadro, o teórico Allan de Botton afirma:

Essa obra, além de quebrar as leis da perspectiva, instaura algo nunca antes pensado na pintura que seria a multiplicidade de pontos de vista, processo em que se pode perceber o objeto simultaneamente de lado, de frente e de costas.

Além de Pablo Picasso, foram nomes importantes Georges Braque e o escritor Guillaume Apollinaire. Esse último, o autor literário do grupo, certa vez declarou:

Sem ignorar os talentos de todos os tipos que se manifestam no Salon d'Automne, eu sei que o cubismo é o mais alto da arte francesa hoje.

Também se juntaram ao movimento anos mais tarde nomes ilustres como os de Juan Gris e Fernand Léger.

Picasso foi inspirado pelo artista Paul Cézanne (1839-1906), que pintava muitas cenas ao ar livre e investiu em imagens pinturas que carregavam uma multiplicidade de pontos de vista, como é o caso da tela Mont Sainte-Victoire Seen From Bellevue.

paul cézanne mont sainte-victoire seen from bellevue
Mont Sainte-Victoire Seen From Bellevue (1885-87), de Paul Cézanne. O pintor francês influenciou o movimento cubista especialmente em sua primeira fase

O movimento liderado por Pablo Picasso pretendia suprimir o sentimentalismo e apresentar as imagens a partir de ângulos diferentes (com múltiplos planos e perspectivas).

O exercício já havia sido levado a cabo pelo precursor Paul Cézanne, considerado o pai da arte moderna.

O investimento dos artistas era no sentido de desmembrar as formas e reagrupa-las posteriormente, um exercício ousado que foi corajosamente levado a frente.

Características do cubismo

Representação a partir de múltiplos ângulos

Durante o Cubismo houve o abandono da representação de apenas um ângulo.

As obras artísticas tornaram-se mais ricas com a absorção das mais variadas perspectivas e formas geométricas (majoritariamente cubos e cilindros).

Esses múltiplos ângulos constituíam uma figura em três dimensões dando a sensação de haver uma espécie de pintura escultórica.

Não só há uma inclusão de ângulos diferentes dentro da própria pintura, como a cena passa a ser vista por ângulos diferentes.

Podemos observar esse aspecto ainda na obra Les Demoseilles D’Avignon. Note que na parte destacada a mulher aparece como se estivesse de frente e, ao mesmo tempo, de costas, não sendo possível dizer claramente qual a sua posição.

quadro As senhoritas de Avignon, de Picasso, exibe grupo de mulheres nuas em composição cubista

Exploração de novos materiais

Fazendo uso de recortes e colagens, os artistas também davam vida a criação de pinturas-esculturas.

Assim, os artistas, incompatibilizados com a arte que vinha sendo criada até então, tinham como objetivo maior conceber uma nova forma de arte e, para isso, fizeram uso de materiais distintos para alcançar efeitos sensoriais no espectador.

colagem cubista de Picasso exibindo recortes de jornal e desenho de garrafa
Garrafa de Vinho Marc, Copo, Guitarra e Jornal, de 1913

Na obra de Picasso Garrafa de Vinho Marc, Copo, Guitarra e Jornal, de 1913, vemos que o artista se utiliza de papéis e pedaços de jornal como elementos criativos.

Perspectiva

Os artistas do grupo faziam uma série de exercícios de geometrização da realidade renunciando ideologicamente a uma única perspectiva. Passou a ser frequente também entre os cubistas a sobreposição de planos

Outra característica importante era o fato das obras cubistas pretenderem se afastar ao máximo de um sentimentalismo piegas, almejando ao máximo um objetivismo.

Um exemplo do uso da perspectiva fragmentada é a tela Garrafa e peixes (1910), de Georges Braque. Aqui os objetos são apresentados de maneira fracionada, através de múltiplos pontos de vista.

quadro cubista de Braque em tons de marrom e ocre exibindo garrafa e peixes
Garrafa e peixes (1910)

As fases do cubismo

O Cubismo passou basicamente por três fases: o Cezaneano, o Analítico e o Sintético.

Cubismo Cezaneano (1907 a 1909)

A primeira fase do movimento, o Cezaneano, como alude o próprio nome, foi profundamente influenciada pela obra do pintor francês Paul Cézanne (1839-1906).

Admirado por aqueles que viriam a ser chamados de cubistas, Paul Cézanne inovou ao apresentar telas com múltiplos pontos de vista - esse gênero passou a ser trabalhado por Pablo Picasso (1881 - 1973) e seus companheiros de vanguarda.

Os principais temas explorados nessa altura foram a natureza-morta e a paisagem a partir de uma geometrização relativamente suave.

O desejo de fragmentação foi o norte que orientou os pintores nesta fase do cubismo, o impulso foi produzir obras com múltiplas facetas explorando ângulos distintos.

Durante esse período os artistas investiram no sentido de simplificarem a forma.

Observe a tela Fruteira com Peras, que data desse período:

Fruteira com Peras
Fruteira com Peras (1909), de Pablo Picasso.

Cubismo analítico (1909 a 1912)

O cubismo analítico, por sua vez, passou a se debruçar sobre a fragmentação mais intensa a partir de um estudo aprofundado e radical de novos ângulos.

As obras dessa época foram feitas com um número bastante reduzido de cores, os artistas fizeram basicamente uso das tonalidades marrom, cinza e preta.

A palavra-chave dessa fase foi desestruturação: os pintores pretendiam desestruturar cada elemento da tela, decompondo as imagens em fragmentos muitas vezes sobrepostos.

Foi um período marcado por uma geometrização bastante explícita e intensa. A ideia era, através dos múltiplos ângulos, oferecer uma visão mais particular do elemento que se estava tentando representar.

No cubismo analítico os artistas se radicalizaram tanto que algumas obras são dificilmente identificáveis, é o caso da tela Ma Jolie, pintada por Picasso, o pai do movimento, entre 1911-1912.

Ma Jolie
Ma Jolie (1911-1912), de Pablo Picasso.

Cubismo sintético (1911)

Nessa terceira fase os artistas passaram a incluir elementos da vida real na pintura como, por exemplo, pedaços de papel de embrulho, de parede, cartões, cartolina, parafusos, areia e cordas.

Materiais do dia-a-dia foram incorporados nas peças provocando uma verdadeira revolução estética. Essa inovação veio no sentido de provocar novas sensações no espectador (fossem elas táteis ou visuais).

Depois da radicalização presente na fase anterior (o Cubismo analítico), os artistas no período sintético a procuraram criar figuras mais reconhecíveis pelo grande público, tentando rematerializar a representação. Houve um investimento também no sentido de se voltar a usar uma gama mais variada de cores.

Há quem considere o cubismo sintético como uma fusão das duas fases anteriores.

Um exemplo de peça dessa época é a escultura de um violão feito de cartolina por Picasso entre 1912 e 1914.

Guitar Picasso
Guitar (1912-1914), de Picasso.

Principais artistas cubistas e suas obras importantes

Pablo Picasso (1881 - 1973)

Ao lado de Georges Braque, Picasso foi o fundador do movimento Cubista. Desejoso de procurar e fundar uma nova estética, Pablo explorou o estudo das formas e criou telas inovadoras.

O pintor queria se afastar da noção de que a obra de arte deveria representar aquilo que os olhos veem e se aproximava muito mais de uma criação que explorava os múltiplos ângulos de determinado elemento.

A carreira de Picasso foi multifacetada e as suas obras, muito diversas, foram divididas pelos críticos em diferentes fases.

Guernica (1937), de Pablo Picasso

guernica picasso

A obra mais reconhecida do cubismo talvez seja Guernica, pintada por Pablo Picasso para representar os efeitos da guerra na cidade de Guernica no dia 26 de abril de 1937.

O mural mostra a atuação dos aviões alemães que bombardearam a cidade espanhola e faz um registro da guerra civil que começou em 1936. O quadro de dimensões enormes é todo feito a preto e branco, composto a partir de formas geométricas.

A carreira de Picasso foi multifacetada e as suas obras muito diversas foram divididas pelos críticos em diferentes fases. Aproveite para conhecer as 13 obras essenciais para compreender Pablo Picasso.

Georges Braque (1882 - 1963)

Atuando na pintura e na escultura, Braque foi um precursor do grupo cubista ao ter apresentado em 1906 no Salão Independentes obras de arte com formas simples e cores primárias, sendo um dos primeiros representantes do Fauvismo.

Braque foi considerado um dos fundadores do cubismo ao lado de Picasso, ambos ficaram fascinados com a exposição de Cézanne, exibida em 1907, e começaram a trabalhar em sintonia a partir de então.

Picasso e Braque trabalharam juntos até 1914, a parceria só foi interrompida devido à Primeira Guerra Mundial, onde Braque foi lutar.

O viaduto de estaque (1908), de Georges Braque

O viaduto de estaque (1908), de Georges Braque
O viaduto de estaque (1908), de Georges Braque

Nessa criação de Georges Braque observamos uma paisagem bucólica e pastoril realizada basicamente a partir de dois tons.

A tela é marcada pela geometria, observe o delineado do telhado das casas e do próprio viaduto. As formas parecem ser as grandes protagonistas em O viaduto de estaque.

As imagens da pintura aparentam estar sobrepostas e são concebidas de modo a valorizar os diferentes ângulos da paisagem. A criação é um típico exemplar da estética cubista.

Juan Gris (1887 - 1927)

Juan Gris não se afiliou ao movimento logo a princípio, tendo aderido ao cubismo somente em 1912.

Ao contrário dos companheiros, Juan tinha certa dificuldade em criar elementos muito descolados da realidade, dificilmente identificáveis, tendo mantido a sua composição mais formal e rígida.

A sua maior contribuição ao grupo foi a introdução de uma inovadora visão espacial.

Guitarra diante do mar (1925), de Juan Gris

Guitarra diante do mar, de Juan Gris (1925)
Guitarra diante do mar (1925), de Juan Gris.

Em Guitarra diante do mar vemos formas geometrizadas em toda a tela. Juan Gris foi um dos expoentes do cubismo e ilustra aqui uma paisagem que contém elementos reais a frente da pintura(sobressai especialmente um pedaço de papel e a guitarra) a frente da pintura, dividindo a atenção com o horizonte.

Fernand Léger (1881 - 1955)

Participou do Salão dos Independentes expondo algumas das suas inovadoras obras, como a tela Nus na floresta. Depois de participar do evento ficou conhecido ao lado de alguns amigos como cubista.

Seu trabalho foi interrompido em 1914 quando foi convocado para participar no fronte da batalha durante a Primeira Guerra Mundial.

Depois de regressar à sua vida cotidiana, usou uma série de imagens e vivências ocorridas que testemunhou durante o confronto.

Nus na floresta (1911), de Fernand Léger

Nus no floresta
Nus na floresta (1911)

Como é possível observar nessa composição, Léger ficou especialmente famoso por usar formas curvilíneas, criando contornos até então nunca experimentados.

Ele foi na contramão dos fundadores do cubismo - Braque e Picasso - que investiam em formas retas.

Guillaume Apollinaire (1880 - 1918)

Escritor e crítico de arte, Guillaume Apollinaire ajudou a divulgar o movimento desde o princípio levando as produções dos cubistas aos grandes eventos públicos.

Ao contrário de Picasso e Braques que inicialmente não se expuseram tanto (ambos não quiseram participar, por exemplo, do Salão dos Independentes), Apollinaire escolheu levar a mensagem dos cubistas, espalhando-a para o resto do mundo.

Naquela época Guillaume era crítico de arte de importantes jornais e revistas em Paris, como por exemplo o L’Intransigeant, Le Temps e Les Jornal.

Foi ele que escreveu o primeiro artigo acerca do trabalho de Picasso, elogiando a sua inovadora produção. O material escrito por Guillaume Apollinaire sobre o grupo foi reunido em formato de livro e publicado em 1913 com o título Les Peintres Cubistes.

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Laura Aidar
Revisão técnica por Laura Aidar
Arte-educadora, artista visual e fotógrafa. Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007 e formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design, localizada em São Paulo, em 2010.