A fascinante história da origem do samba


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O samba, um dos principais gêneros musicais da cultura brasileira, tem uma história rica e interessante que remete para uma mistura de influências.

O ritmo é resultado de uma fusão entre estilos musicais africanos e brasileiros e surgiu na Bahia, tendo sido levado para o Rio de Janeiro no final do século XIX, onde se desenvolveu.

Os escravos trouxeram a semente do samba para o Brasil

As primeiras manifestações que dariam origem ao samba datam do século XVI com negros de Angola e do Congo que chegaram no Brasil como escravos. Eles trouxeram a semente daquele que viria a se tornar um dos mais importantes ritmos do nosso país.

Um dos antecessores mais importantes do samba foi o lundu, que era feito nas senzalas. As senzalas eram os alojamentos onde os escravos viviam durante o período da escravatura.

O ritmo era dado pela batida com os pés e com as mãos no chão ou no próprio corpo porque não havia tambor ou qualquer outro instrumento musical disponível.

O lundu, o antecessor mais remoto do samba, acabou com o tempo sendo absorvido pela casa-grande - local onde vivia o proprietário da terra e a sua família.

O lundu veio da África, mais precisamente de Angola, e era uma manifestação que misturava dança e canto. Com movimentos corporais muito parecidos com o que conhecemos como samba, e com uma cadência rítmica também semelhante, o lundu é considerado por uma série de estudiosos como o principal ancestral do samba.

Outro embrião do samba foi a chula, que veio para o Rio de Janeiro da Bahia com a mudança de um grupo de pessoas mais humildes. Na chula se dançava em forma de roda, se improvisava e se cantava em grupo.

O samba saiu da Bahia e foi parar no Rio de Janeiro

Com a assinatura da Lei Áurea em 1888, muitos escravos libertos se dirigiram para a capital do país, que estava situada no Rio de Janeiro, em busca de oportunidades de trabalho. Foram essas pessoas, antigos escravos agora livres, que levaram o ritmo embrionário da Bahia para o Rio de Janeiro. Foi na casa nova, na capital do país, portanto, que o samba se desenvolveu no final do século XIX.

Esse samba que despontou na cidade é uma forma musical basicamente urbana, que ganhou corpo e voz principalmente nos morros cariocas entre a população originalmente mais carenciada.

O ritmo animado e espontâneo - muitas vezes acompanhado com palmas - que era cantado nas festas, acabou sendo incorporado mais tarde nos carnavais, que era composto inicialmente por cordões.

Onde aconteciam os sambas?

Os sambas geralmente ocorriam nas casas e terreiros das negras mais velhas, que vinham da Bahia (chamadas popularmente de tias), e contavam com muita bebida, comida e música.

Os sambas - as festas - duravam a noite inteira e eram, em geral, frequentados por boêmios, operários do cais do porto, ex-cativos, capoeiristas, descendentes de escravos, um grupo bastante variado.

Os sambas tinham, portanto, uma função social de interação entre grupos marginalizados e eram altamente vigiados pela polícia, que pretendia manter um controle da situação.

A casa da Tia Ciata foi o berço do samba

A casa mais importante da região, que reuniu a nata do samba da sua geração, foi a da Tia Ciata. Nela passaram grandes nomes como Pixinguinha e Donga.

Na casa de outra baiana negra importante - Tia Perciliana, de Santo Amaro - alguns instrumentos começaram a ser introduzidos na roda de samba como o pandeiro, que passou a ser usado em 1889.

Com um papel importante na cultura do samba, essas mulheres baianas serviram de abrigo. Era nessas casas que aqueles que eram, de certa forma, excluídos, encontravam os seus pares num espaço que servia de porto-seguro para se divertirem e se relacionarem com outras pessoas em condições semelhantes. Em muitos desses encontros havia também a prática do candomblé e outros rituais religiosos.

A popularização do samba

Com as reformas urbanísticas que aconteceram na cidade, essa população mais pobre foi empurrada para locais na periferia, mais distantes do centro, e acabaram levando essa cultura para as novas regiões espalhando as festas.

O samba, nesse momento, era visto ainda como uma cultura do “morro”. Pela conjuntura política do momento o samba foi profundamente marginalizado inclusive com muita perseguição da polícia.

O samba formalmente foi passando com o tempo a ser visto com outros olhos. Um dos fatores que ajudou a popularizar a cultura do samba foram os primeiros desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro, que aconteceram no princípio da década de 1930.

O cenário mudou também com a participação de Getúlio Vargas, então presidente da República, que permitiu que o samba existisse desde que ele louvasse os atributos da nossa terra, que fosse patriótico.

Foi, portanto, a partir da década de 30, que o samba passou a ter uma abrangência mais comunitária, deixando de ficar restrita a um grupo menor de pessoas.

Em 2005, a Unesco reconheceu o samba como patrimônio imaterial da humanidade.

Quem foram os primeiros sambistas

Os músicos dessa primeira geração não viviam da música, todos tinham trabalhos principais que os sustentavam - o samba era um mero hobby pouco ou nada remunerado.

Foi em 1916 que o então compositor Donga registrou pela primeira vez na Biblioteca Nacional um samba - foi a canção Pelo telefone. Esse passo foi importantíssimo para legitimar o gênero musical e aqueles que criavam as canções.

A batucada, por sua vez, entrou numa gravação de samba somente treze anos mais tarde, em 1929, quando o Bando dos Tangarás gravou Na Pavuna.

Sobre a origem do nome samba

Samba era uma palavra de origem africana usada para se referir as festas que aconteciam nas regiões mais pobres do Rio de Janeiro. Esses encontros animados, com homens e mulheres, eram chamados popularmente de sambas. Samba, por isso, não era originalmente o nome de um gênero musical, mas era usado para designar um tipo de evento.

A primeira vez que a palavra samba foi usada formalmente, segundo consta nos registros, foi em 1838. Na ocasião, o Padre Lopes Gama escreveu no jornal O Carapuceiro ao comparar musicalmente estilos distintos: “tão agradável é um samba d’almocreves, como Semiramis, a Gaza-ladra, o Tancredi”. O padre usou a palavra samba nesse contexto para generalizar e se referir a uma série de danças de origem africana.

O primeiro samba gravado foi Pelo telefone, em 1916

Donga (Ernesto dos Santos) gravou e registrou na Biblioteca Nacional a música Pelo telefone, em 1916, feita com o seu parceiro Mauro de Almeida.

Pioneiro, Donga, que fazia parte da turma de Pixinguinha, ajudou a mudar a forma como a sociedade via o samba - foi muito graças à música Pelo telefone que o samba passou a ser reconhecido como um gênero musical.

A música Pelo telefone ficou conhecida pelo grande público no carnaval do ano seguinte.

As primeiras gravações do ritmo samba foram bastante conservadoras: nelas não havia palmas nem objetos de percussão que apareciam com frequências nas festas das casas e terreiros das tias.

As pessoas mais importantes na origem do samba

Tia Ciata (1854-1924), uma baiana nascida em Santo Amaro da Purificação, foi um nome importantíssimo na história do samba. A moça se mudou para o Rio de Janeiro aos 22 anos. Em 1890, Tia Ciata foi viver na Praça XI, que era conhecida como Pequena África por abrigar muitos escravos libertos. Cozinheira e filha de santo, ela se casou com um negro bem-sucedido (funcionário público) e, com uma grande casa, abria frequentemente os portões para convidados que faziam música e festa. A casa da Tia Ciata foi um dos berços do samba no Brasil.

Entre as primeiras figuras importantes desse samba urbano carioca, que frequentaram a casa de Tia Ciata, estavam Hilário Jovino Ferreira, Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres e Donga.

Estudiosos dizem que a ala das baianas, das escolas de samba, surgiram justamente como uma homenagem à Tia Ciata e as primeiras baianas responsáveis por trazerem o ritmo contagiante da Bahia para o Rio de Janeiro e por abrirem as suas casas e terreiros para abrigarem os encontros.

Além de Tia Ciata uma série de outras baianas negras - como Tia Carmem, Tia Perciliana e Tia Amélia - abriram as suas casas e acabaram se tornando matriarcas do samba.

Noel Rosa (1910-1937), um branco de classe média carioca, foi um dos mais importantes nomes da primeira geração do samba urbano carioca. Com as suas letras, ele fazia uma espécie de crônica do seu tempo, com muito humor.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).