8 músicas geniais de Raul Seixas


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Raul Seixas foi uma figura incontornável da música e da cultura brasileira. Apontado como o Pai do Rock nacional, o cantor e compositor se destacou pela sua postura de contestação e suas letras profundas, com reflexões místicas, sociais e filosóficas.

O sucesso de Raul superou a própria morte e, atualmente, ele é considerado um artista de culto, que continua ganhando novos admiradores e ouvintes.

Todos conhecemos os refrões dos seus êxitos, mas vale a pena analisarmos os versos com atenção e considerar suas principais mensagens. Relembre, abaixo, 8 músicas geniais de Raul Seixas.

1. Metamorfose Ambulante (1973)

Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Metamorfose Ambulante é um dos temas mais conhecidos do artista, fazendo parte do seu primeiro disco a solo, Krig-Ha, Bandolo!.

O título do álbum era uma referência ao grito de guerra de Tarzan, personagem das histórias em quadrinhos da Editora Brasil-América Limitada (EBAL). A frase pode ser traduzida por "Cuidado, aí vem o inimigo".

Assumindo essa postura "do contra", a canção explica um pouco acerca do modo como o artista pensava e vivia. Num tempo marcado pela repressão, ele pregava a liberdade de pensamento e de conduta.

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Assim, estamos perante um sujeito que recusa aquilo que a sociedade determinava como certo, apropriado, aceitável. Pelo contrário, o eu-lírico acredita que existem inúmeras formas de viver e encarar o mundo.

Este é um hino à mudança, à transformação constante. O sujeito não aceita "aquela velha opinião formada sobre tudo"; tem uma mente aberta e sabe que pode aprender e mudar de ideias a cada nova experiência.

Por isso, escolhe ser uma "metamorfose ambulante", ou seja, alguém que não está estagnado, mas que vai caminhando e se transformando durante o processo.

2. Mosca na Sopa (1973)

Eu sou a mosca que pousou em sua sopa
Eu sou a mosca que pintou pra lhe abusar
Eu sou a mosca que perturba o seu sono
Eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar

Lançada em plena ditadura militar, Mosca na Sopa denunciava o clima de opressão vivenciado pelo povo brasileiro. Através do seu lirismo genial, com metáforas bem criativas, Raul conseguiu driblar a censura.

Na música, a mosca parece representar as forças militares, que estavam em todo o lugar, ameaçando, rondando, perseguindo.

Aqui, elas não são propriamente apontadas como algo perigoso, assustador, mas algo chato, que perturba o tempo todo. No entanto, essa mosca parece invencível, não é possível combatê-la: "você mata uma e vem outra em meu lugar".

Eu tô sempre junto de você
Água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura
Quem, quem é?
A mosca, meu irmão

Não podendo falar abertamente, o sujeito vai insinuando cada vez mais que está se referindo ao governo repressor. A letra insiste na ideia de perseguição: o músico quer que o ouvinte entenda a mensagem que ele está tentando transmitir.

A "mosca na sopa" também pode ser entendida como a resistência, os artistas como Raul que continuavam se arriscando e contestando.

Mesmo sendo perseguidos, censurados e exilados, eles continuavam sendo uma "pedra no sapato" do autoritarismo, em nome da liberdade.

3. Ouro de Tolo (1973)

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Os sombrios "anos de chumbo" da ditadura militar foram acompanhados por um crescimento econômico, que veio aumentar a acumulação de riqueza e as desigualdades entre a população.

O suposto "milagre econômico" era anunciado aos sete ventos pelo governo autoritário, que queria vender a imagem do Brasil enquanto potência mundial. Enquanto isso, a classe média era aliciada por um estilo de vida ligeiramente superior e a possibilidade de adquirir bens como carros e apartamentos.

Logo nos versos iniciais, o sujeito declara que não se satisfaz com aquilo que estão oferecendo, que não se contenta com tão pouco. Questionando o cotidiano de um cidadão comum, o eu-lírico parece tentar chamá-lo à razão: tem "coisas grandes / para conquistar".

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah, mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

Deste modo, Raul Seixas está tentando despertar o cidadão brasileiro para a necessidade de lutar pela democracia.

Ouro de Tolo parece ser uma referência aos falsos alquimistas que tentavam transformar chumbo no metal precioso.

Na letra, o sujeito se demarca dessa postura apática e conformista. Ele sublinha que os bens materiais e os pequenos momentos de conforto não podem valer mais que a própria vida.

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

O tema foi lançado em rede nacional, em junho de 1973, quando o cantor e o amigo Paulo Coelho convocaram a imprensa para promover a Sociedade Alternativa (da qual falaremos mais adiante).

Apesar dos comentários políticos e sociais presentes na letra, a música conseguiu escapar da censura e acabou fazendo um grande sucesso.

4. Medo da Chuva (1974)

É pena que você pense que eu sou seu escravo
Dizendo que eu sou seu marido e não posso partir
Como as pedras imóveis na praia eu fico ao teu lado
Sem saber
Dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver

Medo da Chuva foi composta por Raul Seixas e Paulo Coelho. Fruto de uma época conservadora, é uma canção que reflete sobre um dos principais alicerces daquela sociedade: o casamento.

Na letra, o sujeito fala diretamente com a esposa, exprimindo os seus sentimentos sobre a relação. Logo nos primeiros versos, ele deixa claro que se sente preso ao lado dela, subjugado à sua vontade.

Isso o leva a questionar a própria ideia de monogamia, socialmente imposta como a única forma válida de amar. Aqui, o eu-lírico imagina todos os envolvimentos amorosos que teve que rejeitar para ficar com a mesma pessoa "para sempre".

Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar
Aprendi o segredo, o segredo, o segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar

No refrão, o sujeito declara que perdeu o "medo da chuva", o que podemos interpretar como medo da tristeza, da nostalgia, da solidão.

Apesar de se tratar de um processo doloroso, o eu-lírico consegue trilhar um caminho de libertação. Ele precisa levar a vida do jeito que quer, se permitir, mas isso também exige que aprenda a manter o equilíbrio sozinho.

5. Sociedade Alternativa (1974)

Se eu quero e você quer
Tomar banho de chapéu
Ou esperar Papai Noel
Ou discutir Carlos Gardel
Então, vá
Faze o que tu queres
Pois é tudo da lei, da lei

Sociedade Alternativa é uma música escrita por Raul Seixas e Paulo Coelho, na qual constroem o projeto de uma comunidade utópica.

Em contraste direto com os modos de vida ditados pela opressão da ditadura, ali todos teriam liberdade e poderiam fazer suas próprias escolhas.

Na base desta criação estavam os ensinamentos do mago e ocultista inglês Aleister Crowley. Entre eles, se destacava a lei de Thelema: "Fazes o que tu queres, há de ser o todo da Lei".

Essa é a nossa lei e a alegria do mundo
(Viva a Sociedade Alternativa!)
Viva, viva, viva!

Mais do que uma canção, Sociedade Alternativa foi um movimento de consciencialização que chamou a atenção para a possibilidade de viver fora do sistema opressor.

Parceiros na arte, Seixas e Coelho partilhavam a fé em comunidades alternativas e esotéricas, chegando a registrar a sua Sociedade no cartório (1972 - 1976).

6. Tente outra vez (1975)


Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez

Uma das canções mais emocionantes de Raul Seixas, Tente outra vez é uma lição de resiliência. O artista escreveu o tema em colaboração com Marcelo Motta e Paulo Coelho; trata-se de uma homenagem ao amigo Geraldo Vandré.

Em 1968, ano que marcou o auge da repressão, o músico concorreu ao Festival da Canção com Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores, um dos maiores hinos da resistência. Embora o tema fosse o favorito do público, o poder ditatorial interferiu no resultado e impediu a vitória de Vandré.

Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo, vai
Tente outra vez,
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez

Na letra, o sujeito se dirige ao ouvinte, carregando uma mensagem de força e motivação. Ele lembra o outro (Vandré e quem mais estiver escutando) que não pode desistir mesmo perante as maiores perdas ou injustiças.

É preciso continuar lutando e não perder de vista os seus objetivos: "Levante sua mão sedenta e recomece a andar". A música serve para nos lembrar que, mesmo no cenário mais disfórico, é necessário manter a esperança e o pensamento positivo.

7. Eu nasci há 10 mil anos atrás (1976)

Eu vi um velhinho sentado na calçada
Com uma cuia de esmola
E uma viola na mão
O povo parou para ouvir
Ele agradeceu as moedas
E cantou essa música
Que contava uma história
Que era mais ou menos assim

Um dos clássicos de Raul Seixas, mais uma vez em parceria com Paulo Coelho, a música é baseada num tema norte-americano com o mesmo título, I Was Born About Ten Thousand Years Ago.

Trata-se de uma canção antiga de country que Elvis Presley, um de seus ídolos, adaptou e gravou em 1972. Nela temos a imagem de um homem que canta na rua, pedindo dinheiro em troca. Nos versos, esse sujeito enumera todas as coisas que testemunhou neste mundo.

Assim como na versão original, a letra é atravessada por inúmeras referências bíblicas: Cristo, Moisés, Maomé, etc. A canção de Raul Seixas, no entanto, não se fica por aí.

Eu nasci
Há dez mil anos atrás
E não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais

O sujeito fala das bruxas queimadas na fogueira pela Inquisição e também dos símbolos da umbanda, religião brasileira que continua sendo encarada com desconfiança.

São também mencionados acontecimentos marcantes da História do Brasil e do mundo, como o Quilombo dos Palmares e o domínio de Hitler na Europa.

Representando um indivíduo que assiste a tudo de fora, desde o início dos tempos, Raul alimenta a imagem de guru, de mago que carrega uma sabedoria ancestral.

8. Maluco Beleza (1977)

Enquanto você se esforça pra ser
Um sujeito normal e fazer tudo igual
Eu do meu lado, aprendendo a ser louco
Um maluco total, na loucura real

Maluco Beleza é, sem dúvida, um dos maiores êxitos de Raul Seixas. O título da canção virou um dos apelidos carinhosos pelos quais o artista é conhecido junto do seu público.

Com uma letra aparentemente simples, a música carrega uma mensagem revolucionária sobre a nossa forma de estar no mundo. Numa sociedade que vive de padrões e aparências, o sujeito afirma ter rejeitado tudo isso.

Deste modo, ele se demarca do ouvinte, "um sujeito normal", que se esforça para seguir tudo que foi imposto. Ele, por outro lado, prefere viver do seu jeito, mesmo se for taxado de louco.

E esse caminho que eu mesmo escolhi
É tão fácil seguir por não ter onde ir

Para fazê-lo, o eu-lírico explica que precisa misturar a "maluquez" com a "lucidez", ou seja, desafiar aquilo que os outros esperam de um homem são. Talvez por isso, esta seja a música mais escutada do artista, nos dias que correm.

Perante uma sociedade que está doente, Raul questiona e redefine conceitos de sanidade mental. E o que é, então, um Maluco Beleza? Não temos uma definição exata, mas propomos esta: alguém que não se importa de ser "estranho" para ser feliz.

Sobre Raul Seixas

Raul Seixas (28 de junho de 1945 - 21 de agosto de 1989) foi um notório cantor, compositor, produtor musical e instrumentista, nascido em Salvador.

O seu legado no mundo da música é inegável, assim como a sua influência nos artistas que surgiram depois. Muitos apontam Raul Seixas como o Pai do Rock Brasileiro. Misturando influências internacionais com ritmos tipicamente brasileiros, o músico criou uma sonoridade singular.

Retrato de Raul Seixas.
Retrato de Raul Seixas.

Também conhecido como "Raulzito" ou "Maluco Beleza", acabou virando um ícone da nossa cultura, com letras complexas e questionamentos radicais, para a época.

Em plena ditadura militar, o artista tinha a ousadia de lançar temas de contestação como Ouro de Tolo, Mosca na Sopa e Sociedade Alternativa.

A Sociedade Alternativa que projetou e fundou com Paulo Coelho acabou sendo encarada como uma ameaça ao governo e ambos foram presos, torturados e exilados.

Um dos grandes nomes da resistência, Raul Seixas consegue ser mais que isso: ele é porta-voz da liberdade, como poucos foram.

Cultura Genial no Spotify

Escute estas e outras canções de sucesso do artista na playlist que preparamos para você:

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.