As 12 melhores fábulas com moral


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

As fábulas são narrativas curtas seguidas de uma moral. Em geral, são protagonizadas por animais inteligentes e falantes que nos ensinam como nos devemos comportar em diferentes situações ao longo da vida.

1. A raposa e o leão

Tinha a Raposa o seu covil bem fechado e estava lá dentro a gemer, porque estava doente; chegou à porta um Leão e perguntou-lhe como estava, e que a deixasse entrar, porque a queria lamber, que tinha virtude na língua, e lambendo-a, logo havia de sarar.

Respondeu a Raposa de dentro:

— Não posso abrir, nem quero. Creio que a tua língua tem virtude; porém é tão má vizinhança a dos dentes, que lhe tenho grande medo, e portanto antes quero sofrer com o meu mal.

Moral da história

A fábula do leão e da raposa nos ensina a sermos precavidos por mais que estejamos em situação de sofrimento.

A raposa da história estava padecendo do corpo quando recebeu a oferta de ajuda por parte do leão. Nós, leitores, não ficamos sabendo se o desejo de ajudar do leão era genuíno ou se o rei da selva viu naquela situação apenas uma oportunidade de conseguir uma presa fácil.

De toda forma, também sem saber a intenção do leão e sem confiar no seu discurso, a raposa adotou uma postura de defesa. Por mais que fosse tentador receber a cura da língua do leão, ela achou que não valia a pena correr o risco de ser devorada por ele.

2. O burro e a cobra

Como recompensa por um serviço prestado, os homens pediram a Júpiter a eterna juventude, o que ele concedeu. Pegou na juventude, pô-la em cima de um Burro e mandou que a levasse aos homens.

Indo o Burro no seu caminho, chega a um ribeiro com sede, onde estava uma Cobra que disse que não o deixaria beber daquela água se não lhe desse o que levava às costas. O Burro, que não sabia o valor do que transportava, deu-lhe a juventude a troco da água. E assim os homens continuaram a envelhecer, e as Cobras renovando-se a cada ano.

Moral da história

A sucinta fábula do burro e da cobra nos ensina que devemos ser sempre precavidos e informados, nunca oferecendo aquilo que temos sem sabermos a sua real importância.

O burro foi encarregado de carregar um material precioso, embora desconhecesse a real importância dele. Caindo na chantagem de uma cobra mais malandra, o burro facilmente entregou aquilo que carregava - porque não tinha qualquer noção do quão valiosa era a juventude. A fábula fala também, portanto, da ignorância e das consequências do desconhecimento.

A cobra, nesse caso, levou a melhor, e com a eterna juventude enviada pelos deuses ganhou o privilégio de se renovar a cada ano - ao contrário dos homens, que ficaram condenados ao envelhecimento permanente.

3. A andorinha e as outras aves

Estavam os homens a semear linho, e, ao vê-los, disse a Andorinha aos outros pássaros:

— Para nosso mal fazem os homens esta seara, que desta semente nascerá linho, e dele farão redes e laços para nos prenderem. Melhor será destruirmos a linhaça e a erva que dali nascer, para estarmos seguras.

As outras Aves riram-se muito deste conselho e não quiseram segui-lo. Vendo isto, a Andorinha fez as pazes com os homens e foi viver em suas casas. Algum tempo depois, os homens fizeram redes e instrumentos de caça, com os quais apanharam e prenderam todas as outras aves, poupando apenas a Andorinha.

Moral da história

A fábula nos ensina que devemos sempre pensar no dia de amanhã e nos planejarmos para situações distintas, antecipando futuros cenários.

As andorinhas viram que o futuro mudaria ao perceberem que os homens andavam a fazer redes. Diante dessa previsão, tentaram avisar os pássaros, que não lhes deram bola.

Sem ter a ajuda das outras aves, as andorinhas resolveram travar amizade com o homem - assim garantiriam que os fortes estariam ao seu lado. No final das contas, os outros pássaros foram capturados e só as andorinhas foram poupadas.

4. O rato e a rã

Um Rato desejava atravessar um rio, mas tinha medo, pois não sabia nadar. Pediu então ajuda a uma Rã, que se ofereceu para o levar para o outro lado desde que se prendesse a uma das suas patas.

O Rato concordou e, encontrando um pedaço de fio, prendeu uma das suas pernas à Rã. Mas, mal entraram no rio, a Rã mergulhou, tentando afogar o Rato. Este, por sua vez, debatia-se com a Rã para se manter à superfície. Estavam os dois nestes trabalhos e canseiras quando passou por cima um Milhafre que, vendo o Rato sobre a água, baixou sobre ele e levou-o nas garras juntamente com Rã. Ainda no ar, comeu-os a ambos.

Moral da história

Pela leitura da fábula concluímos que, ainda que tenha custado a vida de um inocente (o rato), o mau (a rã) teve o seu castigo merecido, por isso aprendemos que há justiça no mundo.

O rato, precisando atravessar o rio, não encontrou outra solução senão pedir ajuda a um animal que tivesse capacidade de fazê-lo. A rã prontamente se ofereceu para ajudá-lo mas, na verdade, o altruísmo não era bem a sua verdadeira intenção.

Vendo uma oportunidade de matar o rato afogado, a rã mergulha no rio. Enquanto esse processo decorria passou um milhafre que, observando a chance de conseguir duas presas ao invés de uma, faz um mergulho e captura tanto o rato quanto a rã.

5. A serpente e o cabrito

Uma Cabra que andava a pastar com o filho pisou sem querer uma Serpente com os pés. Esta, assanhada, levantando-se um pouco, picou a Cabra numa teta; mas como o filho logo viesse a mamar, e chupasse com o leite o veneno da Serpente, salvou a Mãe, e ele morreu.

serpente e cabrito

Moral da história

Em muitas situações da vida os inocentes pagam por acontecimentos alheios, e essa breve fábula registra um desses eventos.

A triste história da serpente e do cabrito nos ensina sobre a injustiça: o filho - o cabrito - não teve culpa nenhuma da mãe ter sido picada pela serpente, entretanto é ele que paga pelo ocorrido.

A cabra também não teve culpa do acidente porque pisou na serpente por estar distraída. E, se pensarmos bem, nem mesmo a serpente é propriamente culpada porque ela estava agindo de acordo com a sua natureza. De toda forma, essa triste conjunção de eventos culminou na fatalidade da morte do animal mais novo.

6. O cão e a carne

Um Cão levava na boca um pedaço de carne, e, ao atravessar um rio, vendo a carne refletida na água, pareceu-lhe esta maior e soltou a que levava nos dentes para apanhar a que via dentro de água. Porém como a corrente do rio arrastou a carne verdadeira, com ela foi também o seu reflexo, e ficou o Cão sem uma e sem outro.

Moral da história

A fábula do cão e da carne nos lembra o sábio ditado: "mais vale um pássaro na mão do que dois voando" e aborda a questão da ambição ensinando a não sermos gananciosos.

A breve fábula do cão e da carne pode ser considerada uma pérola de ensinamento concentrado. Em tempos de crise o pedaço de carne garantiria a subsistência, mas não satisfeito de possuir o que tem, o cão vê a possibilidade de alcançar um pedaço de carne ainda maior.

O rio, reproduzindo como um espelho a imagem da carne que o cão carregava, apresenta ao animal a ilusão de que, ao seu alcance, está uma oportunidade de conseguir algo melhor. Arriscando perder aquilo que já tinha em nome de algo que ambiciona, o cão larga a carne e acaba, afinal, sem nada.

7. O ladrão e o cão de guarda

Um ladrão, desejando entrar à noite numa casa para a roubar, deparou-se com um cão que com os seus latidos o impedia. O cauteloso ladrão, para apaziguar o Cão, lançou-lhe um bocado de pão. Mas o Cão disse:

— Bem sei que me dás este pão para que eu me cale e te deixe roubar a casa, não porque gostes de mim. Mas já que é o dono da casa que me sustenta toda a vida, não vou deixar de ladrar enquanto não te fores embora ou até que ele acorde e te venha afugentar. Não quero que este bocado de pão me custe morrer de fome o resto da vida.

Moral da história

A lição que fica é que devemos pensar no longo prazo, não nos deixando enganar pelo prazer imediato.

Na história do cão e do ladrão vemos o animal afinal ser mais esperto do que o homem. O ladrão, querendo assaltar a casa, pensa em uma maneira fácil e rápida de afugentar o cão. Esperto, no entanto, o cão percebe que aquele pedaço de pão oferecido se trata de uma armadilha.

Procurando defender o seu dono, o cão abdica do prazer imediato - o pedaço de pão - reconhecendo que uma alegria passageira irá custar um furto a casa que habita e, consequentemente, o seu futuro.

ladrão e cão de guarda

8. O lobo e o cordeiro

Estava um Lobo bebendo água num ribeiro, quando avistou um Cordeiro que também bebia da mesma água, um pouco mais abaixo. Mal viu o Cordeiro, o Lobo foi falar com ele de cara feia, mostrando os dentes.

Como tem a ousadia de turvar a água onde eu estou bebendo?

Respondeu o cordeiro humildemente:

Eu estou bebendo mais abaixo, por isso não posso turvar a água que você bebe.

Ainda respondes, insolente! - retorquiu o lobo cada vez mais colérico. - Já há seis meses o teu pai me fez o mesmo.

Respondeu o Cordeiro:

Nesse tempo, Senhor, ainda eu não era nascido, não tenho culpa.

Sim, tens - replicou o Lobo -, que estragaste todo o pasto do meu campo.

Mas isso não pode ser - disse o Cordeiro -, porque ainda não tenho dentes.

O Lobo, sem mais uma palavra, saltou sobre ele e logo o degolou e comeu.

Moral da história

A fábula do Lobo e do Cordeiro retrata as injustiças do mundo e nos ensina um pouco do funcionamento perverso da sociedade.

Na história acima o Cordeiro, sem qualquer culpa, se torna vítima do desalmado Lobo, que usa argumentos sem sentido para acusá-lo de forma arbitrária e injusta.

Aqui os animais personificam uma série de situações onde o lado mais fraco acaba sendo punido pelos mais poderosos.

9. O cão e a ovelha

O Cão pediu à Ovelha uma certa quantidade de pão, que dizia haver-lhe emprestado. A Ovelha negou ter recebido tal coisa. O Cão apresentou então três testemunhas a seu favor, as quais havia subornado: um Lobo, um Abutre e um Milhafre. Estes juraram ter visto a Ovelha receber o pão que o Cão reclamava. Perante isso, o Juiz condenou a Ovelha a pagar, mas não tendo ela meios de o fazer, foi forçada a ser tosquiada antes do tempo para que a lã fosse vendida como pagamento ao Cão. Pagou então a Ovelha pelo que não comera e ainda ficou nua, padecendo as neves e frios do inverno.

Moral da história

Os bons e inocentes muitas vezes pagam o preço por um crime que não cometeram.

Na história do cão e da ovelha os poderosos - o cão, o milhafre, o lobo e o abutre - fazem um complô para extorquir a vítima, a pobre ovelha, que devido a uma mentira leviana precisou pagar pela situação com o seu próprio sofrimento.

10. A macaca e a raposa

Uma Macaca sem rabo pediu a uma Raposa que cortasse metade do seu rabo e lho desse, dizendo:

Bem vês que o teu rabo é demasiado grande, pois que até se arrasta e varre a terra; o que dele sobeja podes-mo dar a mim para cobrir estas partes que vergonhosamente trago descobertas.

Antes quero que se arraste - disse a Raposa - e varra o chão, e me seja pesado, que aproveitares-te tu dele. Por isso não to darei, nem quero que coisa minha te faça proveito.

E assim ficou a Macaca sem o rabo da Raposa.

Moral da história

A Raposa nos ensina que vamos nos cruzar ao longo da vida com criaturas de comportamento mesquinho, que, tendo recursos para fazer o bem, escolhem se omitir ou fazer o mal.

A Macaca pede um pedaço do rabo a Raposa porque sabe que ela tem para oferecer e que não lhe faria falta. A Raposa, por sua vez, tem um comportamento avarento, se negando a partilhar ao recusar contribuir para tornar a vida da Macaca melhor.

11. O lobo e as ovelhas

Havia uma guerra entre os Lobos e as Ovelhas; estas, embora fossem mais fracas, como tinham a ajuda dos cães levavam sempre a melhor. Os Lobos então pediram paz, com a condição de que dariam de penhor os seus filhos, se as Ovelhas também lhes entregassem os cães.

As ovelhas aceitaram estas condições e foi feita a paz. Contudo, os filhos dos Lobos, quando se viram na casa das ovelhas, começaram a uivar muito alto. Acudiram logo os pais, a pensar que isso significava que a paz havia sido quebrada, e recomeçaram a guerra.

Bem quiseram defender-se as Ovelhas; mas como a sua principal força consistia nos cães, que havia entregado aos Lobos, foram facilmente vencidas por eles e acabaram degoladas.

Moral da história

A fábula do lobo e das ovelhas carrega a moral de que nunca devemos entregar nossas armas ao inimigo quando se trata de um acordo de paz recente e suspeito.

Devemos sempre desconfiar dos novos tempos e ser precavidos. A narrativa também nos alerta para o perigo de meter em casa inimigos, ou filhos de inimigos, como fizeram as ovelhas de espírito leve.

12. O burro e o leão

Um Burro simplório cruzou-se com um Leão no caminho e, altivo e presunçoso, atreveu-se a falar-lhe, dizendo:

Sai do meu caminho!

Vendo este desatino e ousadia, o Leão deteve-se por um instante; mas prosseguiu logo o seu caminho, dizendo:

Pouco me custaria matar e desfazer este Burro agora mesmo; porém não quer sujar os meus dentes nem as fortes unhas em carne tão ordinária e fraca.

E seguiu caminho sem fazer caso dele.

Moral da história

Não devemos jamais adotar uma postura arrogante e perigosa - como a do Burro - e sim agirmos de modo ponderado e maduro, como fez o Leão.

Apesar de se sentir desafiado, o rei da selva agiu de modo pensado e escolheu não fazer mal ao Burro que, esnobe, adotou uma postura desdenhosa e desafiadora.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).