Realismo Fantástico


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

O Realismo Fantástico, ou Realismo Mágico, surgiu no início do século XX e continua arrebatando o público até os dias de hoje.

Quer conhecer mais sobre a corrente artística, suas principais características e o contexto histórico no qual apareceu? Confira abaixo.

Resumo: O que é o Realismo Fantástico?

O Realismo Fantástico é um estilo artístico que se manifesta sobretudo na literatura, embora também esteja presente em outros campos da cultura, como a pintura e o cinema.

Como o nome indica, o Realismo Fantástico combina uma visão realista do mundo com elementos mágicos que são inseridos em cenários cotidianos.

Também conhecido, em espanhol, como Realismo Maravilhoso, o movimento começou a despontar na América Latina durante a década de 40, chegando ao seu apogeu nos anos 60 e 70.

Intimamente ligado ao contexto sociopolítico da época, o estilo marcou profundamente a literatura latino-americana, embora não tenha tido o mesmo impacto no Brasil.

Em meio a cenários distópicos, o Realismo Fantástico veio normalizar a magia como parte integrante da vida.

Assim, enquanto soma de possibilidades fantasiosas capazes de romper a rotina melancólica, estas expressões artísticas têm a ver com o modo como encaramos a vida e realidade.

Características do Realismo Fantástico

Embora o Realismo Fantástico assuma diferentes configurações, nos vários contextos, e através de diversas formas de expressão artística, existem algumas características fundamentais que podemos apontar.

  • Alguns elementos da ordem do fantástico são inseridos em cenários realistas e cotidianos, como se fossem comuns;
  • Esses elementos são encarados com alguma naturalidade, sem provocarem grande surpresa, choque ou apreensão;
  • Não existe uma explicação racional para os acontecimentos fantásticos, que apenas ficam abertos a interpretações subjetivas;
  • O tempo não é tratado de forma linear, podendo estabelecer ligações entre o presente e o passado, como se os eventos ecoassem entre si;
  • Está relacionado com temas ou figuras que fazem parte do imaginário comum de um determinado local, muitas vezes integrando suas crenças e mitos;

Realismo Fantástico na literatura

O termo "Realismo Fantástico" ou "Realismo Mágico" surgiu no início do século XX, ligado à pintura alemã, como veremos mais adiante.

Em 1949, no entanto, o escritor cubano Alejo Carpentier recuperou o termo para se referir a uma tendência que se verificava na literatura da América Latina.

Passou, assim, a designar uma escola literária e também um estilo de ficção que combinava fantasia e realismo.

Encarada como uma resposta às obras da literatura fantástica europeia, a corrente artística brincava com as superstições dos povos da América Latina, reproduzindo seus mitos e lendas.

Na verdade, o objeto ou acontecimento mais banal poderia representar um lugar de transição entre a realidade e a fantasia.

Por tudo isto, o Realismo Mágico se foca no aspecto estilístico da escrita, lidando com as emoções e os sentidos e mantendo uma capa de verossimilhança sobre os eventos mais inusitados.

Com o tempo, a corrente literária foi se espalhando pelo mundo, influenciando as obras de grandes escritores europeus como Franz Kafka e Milan Kundera.

Cem Anos de Solidão: maior obra do Realismo Fantástico

Entre os nomes que se destacam no Realismo Fantástico, o colombiano Gabriel García Márquez é, sem dúvida, um dos mais célebres.

A obra Cem Anos de Solidão, publicada em 1967, é apontada como um dos maiores livros da literatura hispânica, assim como o expoente máximo do Realismo Mágico.

Capa do livro Cem Anos de Solidão
Capa do livro Cem Anos de Solidão.

A narrativa segue os passos de sete gerações da família Buendía, que vive numa povoação fictícia chamada Macondo. A primeira geração é composta por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, mulher que vive mais de 115 anos e testemunha os percursos de todos os seus descendentes.

O seu olhar permite uma noção cíclica do tempo, estabelecendo relações de similaridade entre membros de várias gerações que partilham o mesmo nome e diversas características psicológicas.

O livro combina momentos históricos da Colômbia, acontecimentos cotidianos da família e eventos sobrenaturais: personagens que morrem e regressam à vida, reencarnação, esquecimento e insônia coletivos.

Contexto histórico

Não era por acaso que os países da América Latina se sentiam cada vez mais atraídos pelas narrativas mágicas.

A partir da década de 50, estes povos enfrentavam um momento histórico difícil, com várias nações oprimidas por regimes ditatoriais.

Foi o caso da Guatemala, do Paraguai, da Argentina, do Brasil, do Peru, do Uruguai e do Chile, entre outros países. Durante uma época de medo e repressão, esta literatura surgiu como uma resposta, uma forma de reação.

Talvez por isso, o estilo seja carregado de esperança e ofereça ao leitor uma visão otimista e meio mágica da vida: a impressão de que algo maravilhoso pode acontecer a qualquer momento e mudar tudo.

Principais autores do Realismo Fantástico

  • Arturo Uslar Pietri (Venezuela, 1906 — 2001)
  • Alejo Carpentier (Cuba, 1904 — 1980)
  • Gabriel García Márquez (Colômbia, 1927 — 2014)
  • Isabel Allende (Chile, 1942)
  • Julio Cortázar (Argentina, 1914 — 1984)
  • Jorge Luis Borges (Argentina, 1899 — 1986)
  • Manuel Scorza (Peru, 1928 — 1983)
  • Mario Vargas Llosa (Peru, 1936)
  • Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1899 — 1974)
  • Carlos Fuentes (México, 1928 — 2012)
  • Laura Esquivel (México, 1950)

Realismo fantástico no Brasil

Mesmo não tendo tido tanta força no Brasil como em outros países da América Latina, o Realismo Fantástico também contou com alguns representantes nacionais.

O escritor e jornalista Murilo Rubião (1916 — 1991) introduziu o estilo no país, através de contos que se serviam de elementos fantásticos para questionar a realidade. O autor lançou o seu primeiro livro, O Ex-Mágico, em 1947.

Primeira página da obra Ex Mágico
Primeira página da obra Ex-Mágico, de Murilo Rubião.

José J. Veiga (1915 — 1999), escritor nascido em Goiás, foi outro nome marcante no realismo fantástico de língua portuguesa.

Suas obras de ficção, como Os Cavalinhos de Platiplanto (1959), ficaram conhecidas por combinarem preocupações estilísticas com críticas sociais e políticas.

Realismo Fantástico na pintura

O termo "Realismo Fantástico" ou "Realismo Mágico" surgiu em 1925, quando o crítico de arte Franz Roh o usou para falar de uma tendência ou corrente na pintura alemã.

Ainda antes do domínio fascista de Hitler, alguns artistas estavam pintando telas que misturavam elementos fantásticos e realistas. Normalmente, representavam cenários corriqueiros que eram atravessados por, pelo menos, uma imagem inusitada ou fantástica.

A sua influência se espalhou pelo resto da Europa e pelas Américas, inspirando vários artistas contemporâneos.

caspar walter
Quadro de Caspar Walter Rauh.

Os quadros se demarcavam por incorporarem o fantástico sem nenhum tipo de explicação, como se fizesse mesmo parte do real. Os efeitos de surpresa e estranhamento conquistaram a atenção do público, como se o encantassem ou intrigassem.

Eventualmente, o termo acabou sendo preterido face a outros rótulos como a Nova Objetividade, dificultando a identificação dos artistas que pertenceram ao movimento.

The beggar
Quadro The Beggar of Prachatice (1924), de Conrad Felixmüller.

Mesmo assim, podemos apontar alguns pintores como Caspar Walter Rauh, Wojtek Siudmak e Conrad Felixmüller enquanto representantes do Realismo Fantástico nas artes visuais.

Pintores do Realismo Fantástico

  • Alexander Kanoldt (Alemanha, 1881 — 1939)
  • Carl Grossberg (Alemanha, 1894 — 1940)
  • Christian Schad (Alemanha, 1894 — 1982)
  • Franz Radziwill (Alemanha, 1895 — 1983)
  • Georg Schiriptf (Alemanha, 1889 — 1938)
  • Conrad Felixmüller (Alemanha,1897 — 1977)
  • Caspar Walter Rauh (Alemanha,1912 — 1983)
  • Pyke Koch (Holanda, 1901 — 1991)
  • Dick Ket (Holanda,1902 — 1940)
  • Carel Willink (Holanda,1900 — 1983)
  • Wojtek Siudmak (Polônia, 1942)

Realismo Mágico no cinema

O cinema tem sido um dos campos artísticos nos quais o Realismo Fantástico continua sendo representado.

O gênero ainda conquista os corações do público, com filmes capazes de trazer a magia para o mundo cinzento e por vezes triste em que vivemos.

Cena do filme O Grande Peixe (2003).
Cena do filme Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (2003).

Um exemplo é o filme Peixe Grande e suas Histórias Maravilhosas (2003), dirigido por Tim Burton. No longa-metragem, o protagonista possui uma perspectiva encantada perante a vida comum, com muita fantasia e imaginação.

O trabalho do diretor mexicano Guillermo del Toro também tem contribuído largamente para a divulgação deste tipo de cinema, com sucessos internacionais como O Labirinto do Fauno (2006).

Cena do filme A Forma da Água (2017).
Cena do filme A Forma da Água (2017).

Uma de suas películas mais recentes, A Forma da Água (2017), conta a história de uma mulher que encontra e se apaixonada por um ser aquático. Confira o trailer do filme abaixo:

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Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.