Pintura corporal: da ancestralidade aos dias de hoje


Laura Aidar
Laura Aidar
Professora de Artes

As pinturas corporais são manifestações artísticas utilizadas pelos seres humanos desde os tempos mais remotos. O corpo constitui um suporte para a expressão em diversas civilizações, de diferentes lugares do planetas e em tempos distintos.

Desde as tribos indígenas e africanas até os dias de hoje, esse tipo de arte faz parte do processo dos seres humanos como indivíduos e como parte da coletividade.

Pintura corporal indígena

pintura corporal indígena
À esquerda, mulher Kadiwéu adornada com pintura corporal. À direita, criança Kaiapó com o corpo pintado

A pintura corporal é uma expressão de grande importância para a maioria das tribos indígenas brasileiras.

Essas populações pintam seus corpos como forma de exercer sua espiritualidade e senso de coletividade. Geralmente, as pinturas são feitas para serem usadas em momentos de celebrações e rituais, seja de luto, casamentos, caça, preparações para a guerra ou cura de doenças.

Existem muitos povos indígenas e diversas maneiras de adornar o corpo com tintas, sendo esses pigmentos extraídos de elementos naturais. Para obtenção do vermelho geralmente é usada a semente de urucum, já o preto é feito através da maceração da polpa do jenipapo verde. Há ainda alguns povos que utilizam o calcário para produzir a cor branca.

A aplicação desses pigmentos é feita utilizando vários instrumentos, como varetas, madeiras, pedaços de algodão, pincéis variados e, principalmente, as mãos.

Uma das tribos que se destaca na pintura corporal pelo seu caráter delicado e minucioso, é o povo Kadiwéu, presente no Mato Grosso do Sul. Antigamente, essa arte era mais praticada, hoje em dia, infelizmente ela foi perdendo espaço e é aplicada em cerâmicas que são vendidas para turistas.

Para saber mais sobre o assunto, leia: Arte indígena: tipos de arte e características

Pintura corporal africana

pintura corporal africana
Pintura corporal tradicional de uma das tribos do Vale do Rio Omo, na Etiópia

Da mesma forma que as civilizações indígenas no Brasil, as populações tribais africanas também lançam mão de pinturas no corpo como uma importante expressão cultural ligada geralmente à religiosidade e posições hierárquicas no grupo.

Cada povo utiliza determinados tipos de pintura dependendo da ocasião e dos diversos rituais que realizam.

Os povos do Vale do Rio Omo, localizado no sul da Etiópia, são conhecidos como mestres da pintura corporal. Essas populações ainda conseguem preservar essa tradição pois se mantém resguardados do contato com as civilizações ocidentais. Dessa forma, seus costumes são ainda hoje muito parecidos com os dos seus antepassados.

Normalmente, os povos africanos utilizam como tintas pigmentos extraídos de seivas de plantas, rochas vulcânicas, argilas de cores variadas, entre outros elementos naturais.

No Ocidente, a arte africana foi usada como referência e inspiração no modernismo europeu, sobretudo no cubismo. Para saber mais, leia: Obras essenciais para compreender Pablo Picasso.

Pintura corporal hindu

pintura corporal hindu

Nas tradições hindus há também o costume de adornar os corpos com pinturas. Especialmente nos casamentos, as mulheres são enfeitadas com delicados desenhos.

Esses desenhos são símbolos de bom presságio e de um ritual de passagem. A partir daquele momento a moça passa a fazer parte da família de seu marido. Outro elemento que simboliza essa ligação é a marca vermelha feita na testa da mulher.

A henna é pigmento escolhido para os adornos. Essa tinta é feita a partir de uma planta chamada mehendi. O arbusto é comum em regiões quentes e suas folhas são desidratadas e moídas para fazer a tinta, que dura alguns dias na pele.

Tatuagem: a pintura corporal permanente

tatuagem pintura corporal

A tatuagem é um tipo de pintura corporal que está presente em nossa civilização, como é o caso da maquiagem também. As pessoas costumam marcar seus corpos permanentemente em busca de se diferenciar de outros indivíduos, mostrando autenticidade. Há também tatuagens feitas como homenagens a pessoas ou momentos importantes.

Seja como for, essa é uma prática bastante comum nos dias de hoje. Mas, assim como outras formas de pintura de corporal, ela não é recente. A primeira tatuagem que se tem notícia foi encontrada em 1991 no corpo de um homem que viveu há cerca de 5.300 a.C. na região dos Alpes.

Provavelmente, esses povos desenvolveram as pinturas permanentes com o intuito de fixar na pele sua história, diante da vida nômade e frequentes mudanças de local.

Com o tempo, a tatuagem foi ganhando cada vez mais espaço em diversas populações e tendo diferentes propósitos, como diferenciação de grupos sociais, sinalização de pessoas escravizadas e prisioneiros, ornamentação e como elemento em rituais. Há registros antigos dessa expressão em diferentes partes do mundo, como o Taiti, Japão, Nova Zelândia, Índia e África.

Confira também: Pop art: características, principais obras e artistas.

Body painting

Atualmente, há também artistas que se servem do corpo como suporte para pinturas que surpreendem e emocionam.

É o caso da artista sérvia Mirjana Milosevic, chamada de Kika. Ela produz pinturas em si própria a fim de criar ilusões impressionantes, como você pode conferir no vídeo abaixo.

Body art: o corpo como matéria da arte

A partir dos anos 60, surgiu nos EUA e na Europa um tipo de arte contemporânea chamada de body art. O conceito de body art, nesse sentido, não se relaciona necessariamente à pintura do corpo, mas sim no uso dele como instrumento e matéria para a realização de obras de arte.

body art
A artista cubana Ana Mendieta em performance que utiliza a body art

Normalmente, nessa vertente os artistas buscam impactar o público, associando-se muitas vezes à performance e o happennig. Além disso, eles tiveram a preocupação de criar oposições ao mercado da arte e trazer à tona outros protagonismos, como o de mulheres, negros e homossexuais, por exemplo.

Laura Aidar
Laura Aidar
Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007. Formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design de São Paulo (2010).