10 obras-primas pintadas por mulheres


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Infelizmente a história da pintura costuma eleger poucas mulheres para servirem de destaque, e a verdade é que há uma série de talentosíssimas pintoras que acabam passando despercebidas pelo grande público.

Ousadas, polêmicas ou muitas vezes recatadas e discretas, cada pintora traduziu através do seu traço o seu estilo pessoal e o espírito de uma época em telas que hoje, via de regra, raramente ganham espaços nos museus.

Procurando mitigar essa triste realidade, separamos dez obras-primas das artes plásticas elaboradas por mulheres ao longo dos últimos séculos.

1. The Chess Game (O jogo de xadrez), de Sofonisba Anguissola

The Chess Game

A pintora renascentista italiana foi a primeira mulher que se tem notícia a conquistar fama internacional. Muito admirada pelos seus contemporâneos, Sofonisba Anguissola (1532-1625) chegou a ser elogiada por Michelângelo. Ela abriu caminho para outras mulheres do seu tempo que começaram a ser aceitas nas escolas de arte graças ao seu trabalho precursor.

A temática das telas da pintora renascentista costumava girar em torno das tarefas domésticas, dos retratos de família e das situações cotidianas. Encontramos também muitos autorretratos, registros do lar e uma série de representações da Virgem Maria.

The Chess Game foi pintado em 1555, é um óleo sobre tela e atualmente pertence à uma coleção do National Museum in Poznań. Na obra vemos os três irmãos da pintora (Lucia, Europa e Minerva) sendo observados pela governanta enquanto jogavam xadrez.

A irmã mais velha, a esquerda, encara o espectador da tela e parece assumir a postura de quem venceu o jogo. A irmã do meio, à direita do quadro, a olha com um misto de admiração e espanto. A mais nova, ao fundo, provavelmente fora da partida, encara a irmã mais próxima com um olhar ingênuo e divertido.

É de se ressaltar o talento de Sofonisba para reproduzir as estampas - especialmente das roupas e da toalha da mesa - com textura e extremo detalhe.

2. Autorretrato con Mono (Autorretrato com Macaco), de Frida Kahlo

Autorretrato com macaco

Os autorretratos são característicos da obra da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954) e foram pintados ao longo de toda a sua carreira. Suas obras ficaram famosas no mundo inteiro por recuperarem uma arte colorida, rica, extremamente local e ao mesmo tempo universal.

No caso da tela acima, pintada em 1938, vemos a artista encarando o espectador com um pequeno macaco nas suas costas. O macaco aranha era, na verdade, seu animal de estimação e chamava-se Fulang-Chang.

O pano de fundo da tela é uma vegetação rica e detalhada, pintada com especial atenção as ramificações das folhas. O colar de ossos que Frida carrega faz uma importante referência à cultura mexicana e aos trajes tradicionais.

A tela, que tem 49.53 x 39.37 de dimensão, pertence atualmente ao acervo da Galeria de Arte Albright-Knox, situada em Nova Iorque.

3. A Boba, de Anita Malfatti

A boba
Pintada entre 1915 e 1916, a tela A Boba faz parte do acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo. Trata-se de um óleo sobre tela importante para o Modernismo Brasileiro, embora faça referências em termos de estilo ao Cubismo.

Na imagem vemos uma única personagem praticamente desfigurada, sentada em uma cadeira com o olhar voltado para cima. O fundo da tela é desfocado, dando protagonismo a mulher de meia idade, vestida de amarelo, que apenas encara com um ar reflexivo algo que o espectador não é capaz de ver.

O obra, com dimensões 61cm x 50,6cm, é da autoria da brasileira Anita Malfatti (1889-1964), que foi um dos grandes nomes da pintura durante o Modernismo.

4. Self Portrait as Saint Catherine of Alexandria (Autorretrato como Santa Catarina de Alexandria), de Artemisia Gentileschi

Self Portrait as Saint Catherine of Alexandria

O quadro Self Portrait as Saint Catherine of Alexandria foi pintado por volta de 1615 pela artista italiana Artemisia Gentileschi (1593-1653). Considerada uma obra barroca, a peça atualmente pertence ao acervo da National Gallery de Londres.

Um dado curioso sobre a instituição que abriga a tela: das 2.300 obras pertencentes à coleção da National Gallery existem apenas 24 obras que foram feitas por pintoras mulheres. Ao todo, a National Gallery de Londres abriga trabalhos de 21 mulheres.

Uma mulher corajosa e de vanguarda, Artemisia Gentileschi teve uma história de vida triste: aos 17 anos, ela foi estuprada pelo pintor Agostino Tassi, amigo do seu pai.

Apesar de na tela acima adotar uma postura mais comportada, Artemisia ficou famosa por retratar mulheres fortes, muitas vezes sedutoras e nuas. Foram seus mecenas o rei Filipe IV da Espanha, a família Médici e o grão-duque da Toscana.

5. In Albis, de Beatriz Milhazes

In Albis

Um dos grandes nomes da pintura brasileira contemporânea é Beatriz Milhazes (nascida em 1961). A artista carioca procura apostar em desenhos abstratos, super detalhados e com cores fartas.

Depois de conquistar o Brasil, o trabalho de Milhazes ganhou o mundo e a tela In Albis é um exemplo dessa internacionalização. Desde 2001, In Albis, pintada entre 1995 e 1996, faz parte do acervo do museu Guggenheim de Nova Iorque.

O trabalho é um acrílico sobre tela com grandes dimensões (184,20cm por 299,40cm), como é costume em boa parte da produção da pintora. O título, fora do comum (também uma marca das obras da artista), significa "inteiramente alheio a um assunto, sem qualquer noção do que deveria saber".

Conheça também As 13 obras imperdíveis de Beatriz Milhazes.

6. Avestruzes Bailarinas, de Paula Rego

Avestruzes Bailarinas

O quadro Avestruzes Bailarinas faz parte de uma série produzida em 1995 pela pintora portuguesa reconhecida internacionalmente Paula Rego (nascida em 1935).

No caso da tela escolhida acima há uma única protagonista, que carrega um corpo musculoso e forte, apesar da delicadeza que é exigida pela dança.

Enquanto o cenário ao fundo tem quase nenhuma elaboração (um chão cinzento e um fundo azul são pintados sem qualquer detalhe), vale reparar como os músculos da bailarina são enfatizados (os braços, as pernas, as veias do pescoço) em oposição à sutileza que a ideia da dança nos transmite.

7. A Cuca, de Tarsila do Amaral

A cuca

Tarsila do Amaral (1866-1973), a famosa pintora modernista brasileira, teve ao longo da sua carreira na pintura algumas fases bastante distintas.

A tela acima, pintada em 1924 e posteriormente doada pela própria artista ao Museu de Grenoble na França, é marcada pela brasilidade e leva o nome de um personagem importante da mitologia brasileira: a Cuca.

Nesse trabalho específico, Tarsila brinca muito com as cores e com as representações dos animais tipicamente brasileiros com um olhar quase infantil. A Cuca também é importante por ser considerada uma obra precursora do tema da Antropofagia nas pinturas de Tarsila.

8. Mother Feeding Child (Mãe alimentando a criança), de Mary Cassatt

Mother Feeding Child

Mary Cassatt (1844–1926) foi uma pintora norte-americana que, apesar de ter nascido na Pensilvânia, viveu boa parte da sua vida na França. Foi lá que conheceu Edgar Degas e começou a se relacionar com os impressionistas, tendo iniciado a sua carreira.

A tela Mother Feeding Child foi pintada em 1898 seguindo uma tendência iniciada em 1893, quando Mary começou a voltar o seu olhar para a relação entre mães e filhos.

Suas telas, de modo geral, enfatizam a vida das mulheres, especialmente o espaço doméstico e as relações familiares, sublinhando os laços de afeto entre os membros da família. Devido à primazia da sua técnica, Mary Cassatt foi considerada um dos grandes nomes do Impressionismo.

9. Butterfly (Borboleta), de Yayoi Kusama

Butterfly

A japonesa Yayoi Kusama (nascida em 1929) é um dos maiores nomes das artes contemporâneas. Seu trabalho não se limita a pintura e extrapola todos os limites transformando-se em instalação, performance, escultura, colagem, poesia e até romance.

Apesar dos meios diferentes, há nas obras uma marca essencial que cruza todos esses universos: o pontilhado. Yayoi Kusama é obsessiva por criar uma série repleta de pontos e bolas, essa é a sua marca autoral.

Butterfly foi criada em 1988 e tem dimensões relativamente pequenas (67,8cm por 78,7cm) se comparada com outras obras da pintora. No pequeno quadro, no entanto, encontramos a gênese do trabalho de Yayoi: a riqueza de cores e detalhes, a minúcia e a sensação de proliferação infinita.

10. Offering (Oferenda), de Leonora Carrington

Offering

Leonora Carrington (1917-2011) foi uma importante pintora mexicana surrealista que desenvolveu a sua carreira artística na Inglaterra. Seu trabalho se construiu quase sempre debruçado em um universo onírico, abstrato e figurativo.

Em Offering, por exemplo, pintado em 1957, vemos no primeiro plano cinco estranhíssimas criaturas esguias que parecem participar de um ritual. Os três personagens que estão de pé usam redondos óculos escuros enquanto testemunham uma jovem, sentada na cadeira, receber uma espécie de bastão com um animal enrolado. Borboletas verdes sobrevoam a cena. Ao lado direito, ao fundo, uma criança parece espiar o curioso encontro.

A tela surrealista foi pintada em óleo sobre madeira, tem 56,2cm por 50 cm, e atualmente se encontra em West Dean College, West Sussex.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).