A raposa e as uvas


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A clássica fábula da raposa e das uvas vem alimentando gerações servindo não só como fonte de entretenimento como também de aprendizado.

Na breve história, recontada por grandes nomes como Esopo e La Fonteine e sempre protagonizada por uma mal resolvida raposa, os pequenos são introduzidos aos temas da cobiça, da inveja e da frustração.

A fábula da raposa e das uvas (versão de Esopo)

Chegando uma Raposa a uma parreira, viu-a carregada de uvas maduras e formosas e cobiçou-as. Começou a fazer tentativas para subir; porém, como as uvas estavam altas e a subida era íngreme, por muito que tentasse não as conseguiu alcançar. Então disse:

- Estas uvas estão muito azedas, e podem manchar-me os dentes; não quero colhê-las verdes, pois não gosto delas assim.

E, dito isto, foi-se embora.

Moral da história

Homem avisado, coisas que não pode alcançar, deve mostrar que não as deseja; quem encobre as suas faltas e desgostos não dá gosto a quem lhe quer mal nem desgosto a quem lhe quer bem; e que seja isto verdade em todas as coisas, tem mais lugar nos casamentos, que desejá-los sem os haver é pouquidade, e sizo mostrar o homem que não lhe lembram, ainda que muito os cobice.

a raposa e as uvas

Fábula retirada do livro Fábulas de Esopo, tradução e adaptação de Carlos Pinheiro. Publifolha, 2013.

Saiba mais sobre a história da raposa e das uvas

A fábula da raposa e das uvas foi reescrita muitas vezes ao longo dos séculos e em diversos lugares do mundo.

As versões que ficaram mais consagradas foram as redigidas por Esopo (a versão mais antiga), La Fontaine e Fedro.

No Brasil as versões nacionais que entraram para o imaginário coletivo foram as de Millôr Fernandes, Monteiro Lobato, Jô Soares e Ruth Rocha.

Cada autor deu o seu toque pessoal ao compor as respectivas morais, embora praticamente todas elas girem ao redor do mesmo tema do desapontamento diante da impossibilidade de ter aquilo que se quer.

As versões das morais dos vários autores

Numa das versões de Esopo a moral é sucinta:

É fácil desdenhar daquilo que não se alcança.

e sublinha a atitude da raposa que, perante as condições que lhe são colocadas, deprecia o seu objeto de desejo (as uvas).

Na versão de Fedro, por sua vez, o autor usa do exemplo da raposa para generalizar o comportamento dos homens e chamar a atenção para a reação que temos diante de uma decepção:

Aqueles que improperam maldizentes do que fazer não podem, neste espelho deverão remirar-se, conscientes de haverem desprezado o bom conselho.

A versão de La Fontaine, por sua vez, segue a mesma linha de Fedro, e de modo mais expandido aproxima a história de eventos que podem acontecer no nosso dia a dia, sublinhando que muitos de nós nos comportamos como a raposa da história:

E quantos são assim na vida: desprezam, desvalorizam o que não podem conseguir. Mas basta uma pequena esperança, uma mínima possibilidade para que virem, como a raposa, o focinho. Olhem à volta, que vós os encontrareis em grande quantidade.

A raposa e as uvas

As versões brasileiras, de Monteiro Lobato e Millôr Fernandes, são bem mais breves.

O primeiro resume em algumas poucas palavras que fazem parte do nosso imaginário popular:

Quem desdenha quer comprar.

Já Millôr Fernandes optou por uma moral mais filosófica e com uma leitura um pouco mais densa:

A frustração é uma forma de julgamento tão boa como qualquer outra.

O que é uma fábula?

As fábulas, em termos de formato, são geralmente divididas em duas partes: a descrição da história e uma moral.

Elas servem simultaneamente como entretenimento ao mesmo tempo que cumprem um papel didático/pedagógico e estimulam a reflexão.

Essas histórias, sucintas em geral, falam sobre comportamentos condenáveis - pequenas e grandes injustiças -, e questões éticas que tocam em situações do dia a dia.

Quem são os personagens das fábulas?

As fábulas são breves histórias alegóricas, geralmente protagonizadas por animais ou criaturas inanimadas falantes, que carregam uma moral ou um ensinamento.

Os principais personagens dessas breves narrativas são: o leão, a raposa, a cigarra, o burro, o corvo, o rato e a lebre.

Os animais passam nas histórias por uma antropomorfose e agem como os homens através do recurso da personificação. Eles acabam por ser símbolo das virtudes e defeitos humanos.

A origem das fábulas

A palavra fábula vem do verbo latino fabulare, que quer dizer narrar ou conversar.

Não se sabe com precisão a origem das fábulas porque elas foram marcadas inicialmente pela oralidade e, por isso, foram transitadas de um lado para o outro e sofreram uma série de modificações.

As primeiras fábulas que se conhecem foram cantadas por Hesoid, em cerca de 700 a.C. e Archilochos, em 650 a.C.

Quem foi Esopo?

Temos poucos dados sobre a vida de Esopo - há até quem desconfie propriamente da sua existência.

Heródoto foi o primeiro a relatar o fato de que Esopo, que provavelmente viveu em torno de 550 a.C., era, na verdade, um escravo. Especula-se que ele tenha nascido na Ásia Menor e que teria servido na Grécia.

Esopo

Esopo não escreveu nenhuma das suas histórias, elas foram transcritas por autores posteriores, como, por exemplo, o romano Fedro.

Se quiser conhecer mais histórias breves leia a edição de As fábulas de Esopo, disponível em domínio público.

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).