11 contos populares comentados


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

1. O cágado e a festa no céu

Uma vez houve três dias de festa no céu; todos os bichos lá foram; mas nos dois primeiros dias o cágado não pôde ir, por andar muito devagar. Quando os outros vinham de volta, ele ia no meio do caminho. No último dia, mostrando ele grande vontade de ir, a garça se ofereceu para levá-los nas costas. O cágado aceitou, e montou-se; mas a malvada ia sempre perguntando se ele ainda via a terra, e quando o cágado disse que não avistava mais a terra, ela o largou no ar e o pobre veio rolando e dizendo:

“Léu, léu, léu, Se eu desta escapar, Nunca mais bodas ao céu...”

E também: “Arredem-se, pedras, paus, senão vos quebrareis.” As pedras e paus se afastaram, e ele caiu; porém todo arrebentado. Deus teve pena e juntou os pedacinhos e deu-lhe de novo a vida em paga da grande vontade que ele teve de ir ao céu. Por isso é que o cágado tem o casco em forma de remendos.

O conto popular O cágado e a festa no céu é da região de Sergipe e conta com um único personagem principal, o cágado. Nesse caso, a história procura explicar para o leitor uma característica presente no mundo real - o fato do cágado ter o casco em formato de gomos.

Assim como grande parte dos contos populares, não se sabe bem quem é o autor da história uma vez que ela é transmitida de forma oral, sendo contada de geração em geração.

Apesar de terem nascido na tradição oral e permanecido vivos graças aos contadores de histórias, muitos desses contos - inclusive O cágado e a festa no céu - foram sendo também registrado em livros.

No caso da história do cágado, há um rápido despertar de interesse do leitor, que se identifica rapidamente com o conteúdo porque ele mistura realidade e ficção. O casco do cágado, por exemplo, é sabido que tem formato remendado - elemento do mundo real. O conto, por sua vez, ficcionaliza a razão desse formato ao contar a história de uma festa no céu e de uma garça maldosa.

2. O macaco e a cotia

O macaco foi dançar na casa da cotia; a cotia, de sabida, mandou o macaco tocar, dando-lhe uma rabeca. A cotia começou a dançar, e, no virar à roda, deu uma embigada na parede e partiu o rabo. Todos os que tinham rabo ficaram vendo isto, com medo de dançar. Então o preá disse: “Ora, vocês estão com medo de dançar! Mandem tocar, e vão ver obra!”

O macaco ficou logo desconfiado, e trepou-se num banco e pôs-se a tocar para o preá dançar. O preá deu umas voltas e foi dar sua embigada no mestre macaco, que não teve outro jeito senão entrar também na dança das cotias e dos outros animais, e todos lhe pisaram no rabo.

Então ele disse: “Não danço mais, porque compadre preá e compadre sapo não devem dançar pisando no rabo dos outros, porque eles não têm rabo pra nele se pisar.” Pulou para cima da janela e de lá tocava sem ser incomodado.

O macaco e a cotia é um conto popular indígena que traz como personagens principais animais com características humanas - que dançam, cantam, sentem medo, têm momentos de valentia, sentimentos com os quais conseguimos nos relacionar porque experimentamos na nossa rotina.

A história, no final das contas, divide os animais em dois tipos: aqueles que têm rabo e os que não têm. Como a preá e o sapo não têm rabo, não conseguem se identificar com os outros animais que têm e dançam pisando no rabo dos outros. Como não têm rabo, eles não são capazes de respeitar e terem cuidado com os animais que são diferentes.

O conto popular nos ensina que devemos sempre olhar para os outros, para os que estão ao redor de nós, e tentar entender as limitações e as necessidades principalmente se formos muito diferentes.

3. A raposa e o tucano

A raposa entendeu que devia andar debicando o tucano. Uma vez o convidou para jantar na casa dela. O tucano foi. A raposa fez mingau para o jantar e espalhou em cima de uma pedra, e o pobre tucano nada pôde comer, e até machucou muito o seu grande bico. O tucano procurou um meio de vingar-se.

Daí a tempos foi à casa da raposa e lhe disse: “Comadre, você outro dia me obsequiou tanto, dando-me aquele jantar; agora é chegada a minha vez de lhe pagar na mesma moeda: venho convidá-la para ir jantar comigo. Vamo-nos embora, que o petisco está bom.” A raposa aceitou o convite e foram-se ambos.

Ora, o tucano preparou também mingau e botou dentro de um jarro de pescoço estreito. O tucano metia o bico e quando tirava vinha-se regalando. A raposa nada comeu, lambendo apenas algum pingo que caía fora do jarro. Acabado o jantar disse: “Isto, comadre, é para você não querer-se fazer mais sabida do que os outros”.

A raposa e o tucano, conto popular da região de Sergipe, usa como personagens animais muito diferentes - uma ave e um mamífero - para fazer o leitor perceber como devemos prestar atenção aos que estão a nossa volta.

A raposa, ao fazer um jantar na sua casa, preparou a refeição como se fosse para ela própria se alimentar: fez um mingau e espalhou numa pedra. Como mamífero, com a sua língua, facilmente conseguiria comer o jantar. O tucano, por sua vez, com o bico enorme, não conseguia provar a comida.

Pensando na vingança - porque no conto popular os animais têm características humanas - o tucano chama a raposa para jantar na sua casa.

Com vontade de pagar com a mesma moeda e lhe ensinar uma lição, o tucano põe a refeição num jarro comprido que só com o bico era possível alcançar. Dessa forma a raposa sentiu na pele o que o seu convidado passou no passado e também não comeu nada.

O conto traz uma moral implícita de que não devemos ser espertos e precisamos sempre nos colocarmos no lugar do outro se quisermos entender o que aquele que é diferente de nós sofre.

4. A onça e o gato

A onça pediu ao gato para lhe ensinar a pular, e o gato prontamente lhe ensinou. Depois, indo juntos para a fonte beber água, fizeram uma aposta para ver quem pulava mais.

Chegando à fonte encontraram lá o calango, e então disse a onça para o gato: “Compadre, vamos ver quem de um só pulo pula o camarada calango.”

— “Vamos”, disse o gato. “Só você pulando adiante”, disse a onça. O gato pulou em cima do calango, a onça pulou em cima do gato. Então o gato pulou de banda e se escapou.

A onça ficou desapontada e disse: “Assim, compadre gato, é que você me ensinou?! Principiou e não acabou...” O gato respondeu: “Nem tudo os mestres ensinam aos seus aprendizes”.

A onça e o gato é um conto popular africano que fala sobre o processo de aprendizagem e o quão generosos - ou não - os professores são com os alunos.

A história que tem como personagens principais três animais (a onça, o gato e o calango) fala sobre uma situação típica que as pessoas enfrentam em algum momento da vida: o desafio de ensinar e de aprender.

A onça acreditou que o gato generosamente tinha ensinado tudo o que sabia. No final, percebeu que, apesar de o gato ter ensinado muita coisa, não ensinou tudo aquilo que, de fato, conhecia. O mestre, afinal, não transmitiu tudo ao seu aprendiz.

A história serve de aviso para aqueles que acreditam que os professores transmitem o conhecimento de forma total e absoluta aos alunos.

5. A cumbuca de ouro e os marimbondos

Havia dois homens, um rico e outro pobre, que gostavam de pregar peças um ao outro. Foi o compadre pobre à casa do rico pedir um pedaço de terra para fazer uma roça. O rico, para fazer peça ao outro, lhe deu a pior terra que tinha. Logo que o pobre teve o sim, foi para a casa dizer à mulher, e foram ambos ver o terreno.

Chegando lá nas matas, o marido viu uma cumbuca de ouro, e, como era em terras do compadre rico, o pobre não a quis levar para a casa, e foi dizer ao outro que em suas matas havia aquela riqueza. O rico ficou logo todo agitado, e não quis que o compadre trabalhasse mais nas suas terras. Quando o pobre se retirou, o outro largou-se com a sua mulher para as matas a ver a grande riqueza.

Chegando lá, o que achou foi uma grande casa de marimbondos; meteu-a numa mochila e tomou o caminho do mocambo do pobre, e logo que o avistou foi gritando: “Ó compadre, fecha as portas, e deixa somente uma banda da janela aberta!”

O compadre assim fez, e o rico, chegando perto da janela, atirou a casa de marimbondos dentro da casa do amigo, e gritou: “Fecha a janela, compadre!” Mas os marimbondos bateram no chão, transformaram-se em moedas de ouro, e o pobre chamou a mulher e os filhos para as ajuntar.

O ricaço gritava então: “Ó compadre, abra a porta!” Ao que o outro respondia: “Deixe-me, que os marimbondos estão-me matando!” E assim ficou o pobre rico, e o rico ridículo.

Os contos populares também muitas vezes contam histórias acontecidas entre homens, sem que haja protagonismo de animais com atitudes humanas. Esse é o caso de A cumbuca de ouro e os marimbondos, conto popular da região de Pernambuco, onde dois homens protagonizam a história.

Não sabemos os seus nomes, nem nenhuma outra característica, apenas sabemos que um era rico enquanto o outro era pobre.

A maior graça dessa história acontece graças ao desfecho inesperado: o rico achou que ia pegar o pobre, jogando dentro da casa dele uma casa de marimbondos, quando, afinal, magicamente cada marimbondo se transformou em moedas de ouro enriquecendo aquele que não tinha nada.

Muitos contos populares têm a característica de, assim como A cumbuca de ouro e os marimbondos, apresentarem elementos fantasiosos como marimbondos que se transformam em moedas de ouro. Essas histórias frequentemente usam elementos reais - como a relação de implicância entre um rico e um pobre -, com situações inteiramente imaginárias.

6. O jabuti e a onça

Uma vez a onça ouviu o jabuti tocar a sua gaita debicando outra onça e veio ter com o jabuti e perguntou-lhe:
— Como tocas tão bem a tua gaita?
O jabuti respondeu: “Eu toco assim a minha gaita: o osso do veado é a minha gaita, ih! Ih!”
A onça tornou: “A modo que não foi assim que eu te ouvi tocar!”
O jabuti respondeu: “Arreda-te mais para lá um pouco, de longe te há de parecer mais bonito.”
O jabuti procurou um buraco, pôs-se na soleira da porta, e tocou na gaita: “o osso da onça é a minha gaita, ih! Ih!”
Quando a onça ouviu, correu para o pegar. O jabuti meteu-se pelo buraco a dentro.
A onça meteu a mãos pelo buraco, e apenas lhe agarrou a perna.
O jabuti deu uma risada, e disse: “Pensavas que agarravas a minha perna e agarraste a riz de pau!”
A onça disse-lhe: “Deixa-te estar!”
Largou então a perna do jabuti.
O jabuti riu-se uma segunda vez, e disse:
— De fato era a minha própria perna.
A grande tola da onça esperou ali, tanto esperou, até que morreu.

O conto popular de origem indígena chamado O jabuti e a onça fala sobre a esperteza do jabuti, que venceu a onça - que era muito mais forte - graças a sua sabedoria.

Apesar da onça ter mais força física, foi ela que saiu perdendo no final da história porque foi vencida pela malandragem do jabuti.

O animal mais fraco, sabendo que estava em desvantagem, em primeiro lugar foi capaz de fazer um plano e se adiantar ao perigo. Quando sugeriu que a onça fosse para mais longe para ouvir melhor, ele procurou um buraco onde pudesse se esconder rapidamente.

Depois de já escondido, embora tenha sido capturado, foi capaz de pensar rapidamente e encontrar uma solução rápida blefando para a onça: apesar dela ter pegado a sua perna, o jabuti sugeriu que, na verdade, ela tinha alcançado o pau.

O jabuti nos ensina que, mesmo quando estamos numa situação de inferioridade, podemos sempre contornar o problema se usarmos a inteligência.

7. O sapo e o veado

O conto popular da região de Sergipe fala sobre a história de um sapo e um veado que queriam casar com uma mesma moça. Para resolverem o problema decidiram então fazer uma aposta: cada um deles pegava uma estrada e o que chegasse primeiro ganhava. O veado não contava era com a esperteza do sapo:

Ficou tudo combinado e cada qual seguiu por sua estrada. O veado estava muito alegre julgando ser ele quem ganhava a aposta, mas o sapo de sabido reuniu todos os sapos, um atrás do outros, em toda a extensão do caminho e ordenou que aquele que ouvisse o veado cantar e estivesse mais perto dele respondesse; e foi se colocar lá no fim da estrada.

Quando o veado cantava, logo um sapo respondia. No final do caminho já o sapo estava no ponto final e, acabada a corrida, levou para casa a mão da moça.

O veado, inconformado, prometeu para si mesmo que teria vingança. E na noite do casamento finalmente conseguiu o que tanto queria:

E quando foi na noite do casamento encheu um poço que tinha no quintal do sapo de água fervendo. Quando foi de madrugada que o sapo viu que moça estava dormindo, saiu da cama devagarinho e correu para dentro do poço. Quando foi caindo dentro não disse mais nem ai Jesus!... e morreu logo. O veado ficou muito alegre e casou-se com a mesma moça.

No conto popular O sapo e o veado, retirado da região de Sergipe, assistimos o duelo entre dois animais muito espertos. O sapo é o primeiro a demonstrar a sua sabedoria ao bolar um método para ganhar o veado. Com muitos amigos da mesma espécie, ele monta um esquema para trapacear o inimigo.

Se na primeira parte do conto o sapo sai vencedor, no final da história ele segue a sua natureza, o seu instinto animal de ir para dentro do poço, e acaba vencido pelo veado, que soube esperar e encontrar uma oportunidade para se vingar sabendo se aproveitar da natureza do sapo.

8. O caldo de pedra

O conto popular português O caldo de pedra fala sobre um único personagem, um frade, que andava pedindo esmolas de porta em porta. Quando bateu na porta de um lavrador recebeu um valente “não” como resposta. Como estava mesmo com muita fome o frade disse o seguinte:

Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo.

As pessoas riram do frade e começaram a se perguntar como é que era possível comer um caldo de pedra. O frade então respondeu: “Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa”. Os moradores da casa, curiosos, disseram que queriam ver aquela cena.
O frade então lavou a pedra, pediu que lhe emprestassem uma panela de barro e colocou a pedra lá dentro. Depois de encher a panela de água, pediu brasas para esquentar a panela. Então perguntou se tinham banha de porco, para temperar o caldo. Depois de dizerem que sim e oferecerem o que foi pedido, o frade provou o caldo e pediu um pouquinho de sal, couves e linguiça.
A dona da casa entregou tudo o que era pedido e, no final o resultado saiu uma bela sopa.

Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:
– Ó senhor frade, então a pedra?
Respondeu o frade:
– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez. E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

O frade do conto popular português conseguiu, graças a sua esperteza, contornar o “não” que os moradores da casa haviam lhe dado a princípio. Ele primeiro tentou pedir comida da forma tradicional, mas, como não funcionou, teve que usar o seu instinto de sobrevivência para conseguir aquilo que queria de uma forma inesperada.
O conto nos ensina, de forma implícita, que não devemos aceitar o simples “não” como resposta e precisamos encontrar soluções alternativas para resolver os problemas importantes que temos.

9. A mulher dengosa

Era uma vez um homem casado com uma mulher muito dengosa, que fingia não querer comer nada diante do marido. O marido foi reparando naquelas afetações da mulher, e quando foi num dia ele lhe disse que ia fazer uma viagem de muitos dias. Saiu, e em vez de partir para longe, escondeu-se por detrás da cozinha, numa pilastra.

A mulher, quando se viu sozinha, disse para a empregada: “Faz aí uma tapioca bem grossa, que eu quero almoçar.” A empregada fez e a mulher bateu tudo, que nem deixou farelo.

Mais tarde ela disse à empregada: “Me mata aí um capão e me ensopa bem ensopado para eu jantar.” A empregada preparou o capão, e a mulher devorou todo ele e nem deixou farelo.

Mais tarde a mulher mandou fazer uns beijus muito fininhos para merendar. A empregada os aprontou e ela os comeu. Depois, já de noite, ela disse à empregada: “Prepara-me aí umas macaxeiras bem enxutas para eu cear.” A empregada preparou as macaxeiras e a mulher ceou com café.

Nisto caiu um pé d’água muito forte. A empregada estava tirando os pratos da mesa, quando o dono da casa foi entrando pela porta a dentro. A mulher foi vendo o marido e dizendo:

Oh, marido! Com esta chuva tão grossa você veio tão enxuto!?” Ao que ele respondeu: “Se a chuva fosse tão grossa como a tapioca que vós almoçastes, eu viria tão ensopado como o capão que vós jantastes; mas como ela foi fina como os beijus que vós merendastes, eu vim tão enxuto como a macaxeira que vós ceastes.” A mulher teve uma grande vergonha e deixou-se de dengos.

O conto popular A mulher dengosa é da região de Pernambuco e nos fala sobre a interação de um casal onde a esposa sentia que não podia ser transparente com o marido e fingia ser alguém que, na verdade, não era.

Com receio de mostrar a sua verdadeira face, ela mantinha as aparências de que não comia e, o marido, estranhando o comportamento da mulher, resolveu lhe pregar uma peça para descobrir como ela se comportava na sua ausência.

Quando há a revelação final, no último parágrafo do conto popular, a esposa percebe que não vale a pena fingir ser aquilo que não é e nós, leitores, aprendemos a lição de que não faz sentido nos comportarmos de forma diferente quando estamos perto daquelas pessoas que mais amamos.

10. O pescador

Havia um homem que era pescador e tinha uma filha. Um dia, ele foi pescar e achou uma joia no mar, muito bonita. Ele voltou para casa muito alegre e disse à filha: “Minha filha, eu vou dar esta joia de presente ao rei.” A filha disse que ele não desse, e antes guardasse, mas o velho não a ouviu e levou a joia ao rei.

Este recebeu a joia e disse ao velho que (sob pena de morte) queria que ele lhe levasse sua filha ao palácio: nem de noite, nem de dia, nem a pé, nem a cavalo, nem nua, nem vestida. O velho pescador voltou para casa muito triste, o que vendo a filha, perguntou-lhe o que tinha.

Então, o pai respondeu que estava triste porque o rei tinha-lhe ordenado que ele a levasse, nem de dia, nem de noite, nem a pé, nem a cavalo e nem nua, nem vestida. A moça disse ao pai que descansasse, que ficava tudo por conta dela, e pediu que lhe desse uma porção de algodão e saiu montada no carneirinho.

Quando chegaram no palácio, o rei ficou muito contente e satisfeito, porque o velho tinha cumprido o que havia ordenado sob pena de morte. A moça ficou no palácio e o rei disse-lhe que ela podia escolher e levar para casa a coisa de que mais lhe agradasse dali.

Na ocasião do jantar, a moça deitou um bocado de dormideira no copo de vinho do rei e chamou os criados e mandou preparar uma carruagem. Quando o rei tomou o vinho, deu-lhe logo muito sono e foi dormir. A carruagem já estava preparada e a moça mandou os criados botarem o rei dentro e largou-se para casa.

Quando o rei acordou da dormideira, achou-se na casa do velho pescador, deitado em uma cama e com a cabeça no colo da moça. O rei ficou muito espantado e perguntou o que queria dizer aquilo. Ela então respondeu que ele tinha dito que podia trazer do palácio aquilo que mais lhe agradasse e do que mais ela se agradou foi dele. O rei ficou muito contente de ver a sabedoria da rapariga e casou-se com ela, havendo muita festa no reino.

O conto do pescador, retirado da cultura popular da região de Pernambuco, nos fala sobre a sabedoria feminina que foi capaz de fazer com que a moça vencesse o pai e o rei, duas figuras masculinas poderosas.

Já na primeira vez que aparece na história, a filha do pescador transparece a sua malandrice ao sugerir que o pai escondesse a joia que encontrou. O pai, ingênuo, se recusa a acatar a sugestão da filha e entrega a peça ao rei.

O rei, por sua vez, ao invés de agradecer o seu súdito, o pobre pescador, pede que ele faça um sacrifício ainda maior e ofereça a sua própria filha. Sem encontrar outra saída, ele assim o faz. O que o leitor não espera é que a jovem, longe de se conformar, planeja uma forma de dar a volta ao rei e conseguir se livrar da situação.

Quando lhe é oferecido que ela leve qualquer coisa do palácio, muitos de nós pensam que ela iria levar de volta para casa a joia descoberta pelo pai ou algum outro bem de valor. O conto dá margem a múltiplas interpretações. Por um lado, a moça pode ter pensado no longo prazo e no seu futuro como rainha para optar por levar o rei ao invés dos objetos valiosos do palácio. Por outro lado, a história pode ser interpretada de forma a jovem saber que o que realmente tem valor não são os bens materiais e sim o que carregamos no nosso interior, por isso teria escolhido levar o rei.

11. Sempre não

O conto português Sempre não fala de uma dama nobre e formosa que era casada com um cavaleiro que iria para uma longa jornada. Sabendo que passaria muitos dias fora de casa, o cavaleiro orienta a esposa a responder sempre “não” a qualquer pergunta que lhe fizessem.

Um belo dia passou um aventureiro pela região e, ao ver a dama sozinha, logo se apaixonou por ela. Ele então perguntou se poderia dormir naquela casa, ao que a esposa, conforme combinado, respondeu que não.

O rapaz, tentando compreender o que se passava, perguntou então se a dama queria que ele atravessasse a serra e fosse devorado pelos lobos. A mulher, seguindo a risca as indicações do marido, respondeu apenas que “não”. Achando estranha a reação da mulher, que respondia só “não”, o aventureiro começou a fazer outras perguntas como “quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta”. A resposta a todas as perguntas era apenas “não”.

Percebendo que se tratava de uma resposta padrão encomendada, o esperto aventureiro passou a fazer outro tipo de perguntas como “Recusais que pernoite aqui?”, “Consentis que eu fique longe de vós?”, “E que me retire do vosso quarto?”.

O conto então retrata como o aventureiro partilhava essa história com os fidalgos, um deles o marido que havia encomendado o “não” a esposa. Percebendo que a história caía como uma luva, o marido então pergunta “Mas onde foi isso cavaleiro?”. O aventureiro, esperto, conclui a sua história dizendo:

Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.

O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

O longo conto popular português é marcado pelo humor e pela forma como o aventureiro percebe a realidade e consegue contorná-la para tirar dela aquilo que mais queria.

A esposa, ingênua, não é orientada a pensar e a reagir com base em cada situação. Ao contrário, o que o marido faz é apenas encomendar que ela dê uma única resposta - “não” - em todo e qualquer contexto. Como não é estimulada a aprender a se defender, a mulher fica num lugar muito vulnerável e, assim que cruza com um aventureiro esperto, acaba caindo numa cilada.

O que é um conto popular

Os contos populares são histórias curtas tradicionalmente transmitidas de forma oral de geração em geração.

Com poucos personagens, os contos populares são protagonizados por criaturas tanto do reino animal quanto por seres humanos. Com uma linguagem simples, alguns desses contos contêm um elemento do fantástico.

Referências bibliográficas:

BRAGA, Teófilo. Contos tradicionais do povo português. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999.

ROMERO, Sílvio. Contos populares do Brasil. São Paulo: Landy, 2008.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).