Filme Soul explicado


Rebeca Fuks
Escrito por Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Lançado no dia 25 de dezembro de 2020 na plataforma de streaming Disney+, a profunda animação Soul nos convida a refletir sobre qual é o nosso propósito na vida e a que deveríamos realmente dar valor.

O filme, que permite uma série de interpretações, é dos criadores de Divertida Mente e Up e é a primeira produção da Pixar que traz como protagonista um homem negro. A história se passa entre o mundo real e o espiritual e levanta grandes temas existenciais como o que acontece depois que morremos e de que forma adquirimos a personalidade que temos.

(cuidado, esse artigo contém spoilers)

Resumo de Soul

Joe Gardner é um homem de meia idade que vive sozinho em Nova Iorque. O professor de música de uma escola a tempo parcial é um apaixonado por jazz e tem como maior sonho se tornar um músico profissional como foi o falecido pai.

Soul Joe Gardner

Sonhador, o músico do Queens dá aulas a part time de educação musical no ensino médio. Filho de uma costureira e órfão de um pai músico, o seu maior desejo é conseguir se tornar um pianista reconhecido de uma banda de jazz.

Num dia comum, Joe tem a aula interrompida pela diretora da escola que oferece o emprego a tempo integral com todos os benefícios de uma carteira assinada. A mãe, preocupada com a subsistência do filho, fica radiante quando descobre a notícia da contratação. Joe, no entanto, vê o seu sonho de se tornar pianista profissional cada vez mais distante.

A grande reviravolta acontece quando Joe recebe uma ligação inesperada de um ex aluno que se torna músico e o convida para tocar num famoso clube de jazz da cidade com uma saxofonista importante (Dorothea Williams). Empolgado com a notícia, ele vê a sua vida finalmente mudar depois de conseguir o seu lugar no quarteto.

Soul jazz

No mesmo dia, portanto, Joe recebe duas notícias incríveis: ganha um emprego a tempo integral e a possibilidade de se tornar músico profissional.

Eis que, depois de receber as notícias mais importantes da sua vida, ao sair do clube de jazz sofre um acidente - cai num bueiro destampado no meio da rua - e entra em coma.

Joe Gardner quase perde a vida. A sua alma segue o seu caminho natural numa esteira rumo ao fim, mas quando o músico percebe que irá perder sua oportunidade de ouro, faz de tudo para voltar ao planeta Terra e fazer a sua tão esperada apresentação de piano no clube de jazz.

Ao tentar fugir da esteira do destino, Joe cai na Pré-vida (The Great Before), um espaço fantástico que reúne as novas almas antes delas virem para a Terra. É nesse espaço mágico que as recém-criadas almas ganham personalidade e descobrem os principais interesses que irão motivá-las ao longo da vida.

Soul before life

É na pré-vida que Joe conhece 22, uma alminha que nunca conseguiu alcançar o que faltava para seguir rumo à vida na Terra.

Por um erro do sistema, Joe se torna seu tutor, uma espécie de responsável por fazer com que 22 encontre o seu propósito de vida. O desafio é grande uma vez que 22 já havia passado por outros mentores importantes como Madre Teresa de Calcutá, Gandhi e Copérnico, que nada conseguiram fazer por ela.

Rebelde, 22 arruma sempre maneira de continuar onde está, sem encontrar a sua “faísca de vida”, a centelha da paixão que a move para ganhar direito à vida na Terra.

Joe, por outro lado, ao contrário de 22, quer desesperadamente voltar para ao planeta e reencontrar o próprio corpo para avançar com os planos que havia traçado para a sua vida.

Juntos, a dupla improvável de Joe e 22 se une para resolver os problemas que têm: Joe quer a todo custo regressar ao seu corpo na Terra e 22 precisa descobrir a sua vocação para a sua alma seguir o seu percurso natural e finalmente nascer.

Nesse percurso conturbado, Joe e 22 vão aprendendo um com o outro e acabam descobrindo não só os seus propósitos de vida como quais são as coisas que realmente deveriam dar valor.

Análise do filme Soul

O filme da Pixar levanta algumas das perguntas transversais à humanidade: qual é o nosso propósito de vida? Por que motivo estamos aqui? O que acontece antes de nascermos? E depois de morrermos? Em que momento a nossa personalidade é formada?
Esses temas densos e filosóficos - que tocam especialmente os adultos - são explorados com delicadeza por Soul.

Apesar do longa-metragem poder ser assistido pelo público infantil, ele fala mais de perto aos adultos. A Pixar tem uma tradição de criar filmes com múltiplas camadas de interpretação, que tocam tanto os mais velhos quanto os mais novos.
As respostas para esses grandes dilemas filosóficos não são claros e nem são alcançados solitariamente. É somente com a companhia um do outro - com a capacidade de questionar e tirar o outro do lugar - que Joe Gardner e 22 aprendem qual é o sentido da vida e convidam o espectador para pensar sobre aquilo que os move.

Joe e 22 são personagens opostos: ele deseja o novo, ela quer continuar onde está

O que Joe mais deseja é voltar para a vida, acordar do coma e retornar para o próprio corpo para seguir a sua tão sonhada vocação. 22, por outro lado, tem uma pulsão completamente distinta: ela tem receio da vida na Terra e tem medo de não saber o que a motiva.

Soul Joe e 22
Os dois personagens têm, portanto, inicialmente desejos completamente opostos: Joe quer viver, tem o impulso para seguir em frente rumo ao desconhecido (a nossa carreira de pianista), enquanto 22 não quer descer para a Terra e residir em um corpo humano (o seu movimento é para continuar onde está, num lugar onde já conhece e que lhe é confortável).
É ao ser mentor de 22 que Joe acaba tendo que amadurecer e aprender a ouvir o outro e ser menos autocentrado. A cena em que o músico de jazz entra no barbeiro que frequentava há anos para cortar o cabelo é exemplar para ilustrar esse processo de aprendizado.
Apesar de ser um frequentador assíduo do salão, essa foi a primeira vez que Joe escutou a história de vida do barbeiro amigo, descobriu o seu desejo de se tornar veterinário e o destino que o levou à barbearia. É somente graças à 22 que Joe deixa momentaneamente de lado a sua obsessão por jazz e é capaz de se conectar verdadeiramente com o outro.

Soul barbeiro

A grande reviravolta no destino de Joe e 22

Num movimento inesperado, a trajetória dos dois protagonistas muda completamente. Quando Joe finalmente experimenta aquilo que tanto deseja - tocar no concerto - ele se sente vazio e acha que a sua vida perdeu o sentido.
É então que corajosamente decide abdicar do seu destino tão ansiado para dar a vez a 22, que ainda não tinha o passe para se mudar para a Terra porque lhe faltava a faísca.
22, por sua vez, começou o seu percurso desejando com todas as forças não sair de onde estava querendo morar para sempre na sua zona de conforto. Apesar do esforço de todos os tutores, ela conseguiu levar a frente o seu desejo que era mesmo permanecer indefinidamente na Ante-vida.
É depois de uma temporada na Terra, ao lado de Joe, que 22 experimenta a vida humana e deseja, afinal, ficar entre os homens. A alminha descobre alegria no sabor dos alimentos, no cheiro, na música, nas conversas de rua, e se encanta pela vida terrena. A personagem apresenta os pequenos prazeres da vida e as alegrias que muitas vezes passam despercebidas e devemos extrair do nosso cotidiano: comer uma fatia de pizza saborosa, chupar um pirulito ou ouvir um músico no metrô.

Soul metro

A grande reviravolta do filme acontece quando os protagonistas, afinal, abrem mão daquilo que já têm e decidem ir em busca de outro destino diferente daquele que inicialmente imaginavam para a própria vida.

Seria Joe o pai simbólico de 22?

Joe é um homem solitário e comum, que divide o seu tempo entre a escola onde leciona e a casa onde vive sozinho. Ele não tem nenhuma característica muito especial, apenas o fato de ser apaixonado por música. Com um foco muito bem definido - se tornar músico profissional - o seu mundo e os seus valores viram de cabeça para baixo quando o personagem conhece 22. A sua pulsão de vida entra em choque com a estagnação de 22.
A pequena alminha desafiadora, que só quer estar, é justamente quem o contesta e o faz descobrir um mundo que ele ignorava por estar preso no seu próprio universo interior. 22 faz com que Joe Gardner redescubra o mundo ao seu redor e desperta nele o sentimento de generosidade.
Ao estabelecer com ela uma relação de cumplicidade, o músico se sente mal por ter o seu desejo atendido, mas por ter precisado deixar 22 para trás para que isso acontecesse já que o passe para a Terra só poderia ser usado por um deles. Joe então decide abdicar daquilo que conquistou para dar a oportunidade para a alma mais nova.
Numa das cenas mais emblemáticas do filme, quando Joe vai entregar o passe para que 22 siga para a Terra, a personagem diz ter medo de querer saltar. Como uma espécie de pai, o músico oferece proteção e diz que irá acompanhá-la até onde ele puder.
Em nenhum momento do longa-metragem a figura de Joe é referida como pai, mas podemos ler o seu comportamento como simbolicamente o de um progenitor, que ajuda a despertar o melhor dos seus filhos e os empurra para frente, mesmo sabendo que não poderá estar do lado dele até o fim da caminhada, e oferece proteção durante o máximo de tempo que puder estar.
Tal como numa relação de pai e filho, entre Joe e 22 há profundos aprendizados nos dois sentidos: 22 ensina Joe a experimentar o mundo e a olhar com olhos frescos para uma paisagem que já conhece, por outro lado Joe protege 22 e a estimula a crescer e a experimentar coisas novas.

Soul Terra

O duplo significado do título do filme

O título original - Soul - permite uma dupla leitura interessante. Por um lado, a tradução literal de soul quer dizer alma, e faz referência àquilo que nos move e que é o grande tema do longa-metragem.
Por outro lado, soul é também um estilo musical ligado à comunidade afro-americana. A música - mais especificamente o jazz - embala a vida e é grande motivação do professor Joe Gardner.

As múltiplas interpretações possíveis graças ao final aberto

Numa rara escolha da Pixar, os criadores do filme optaram por deixar Soul com um final em aberto. O espectador não fica sabendo se afinal Joe decidiu voltar a dar aulas na escola ou se tomou coragem para seguir a carreira de pianista a tempo integral.
Também não ficamos conhecendo o destino de 22, em que corpo ela voltou para a Terra e qual é, afinal, seu propósito de vida.
Ficamos igualmente curiosos para descobrirmos se, em algum momento, Joe e 22 voltam a se cruzar e se os seus destinos estão traçados para que um continue aprendendo com o outro. Teria 22 se tornado uma aluna de Joe, por exemplo? Ou Joe teria encontrado uma parceira e 22 seria a filha do casal?
O filme, mais voltado para o público adulto, permite que cada espectador delineie o seu próprio final e escolha que destino dar para os protagonistas.
Sobre a escolha de encerrar o filme com muitas dúvidas no ar, o diretor e roteirista Kemp Powers comentou:

Nós sabemos que o público geralmente quer ouvir exatamente o que aconteceu com o personagem. Eles querem saber se o personagem tomou a decisão 'certa'. Mas no caso de Joe, não queríamos colocar uma escolha sobre ele. Queríamos dizer que independentemente do que ele acabou fazendo, se foi voltar a dar aulas, tocar em uma banda ou algum híbrido de ambos, ele simplesmente apreciou a vida melhor.

Joe é o primeiro protagonista negro e Kemp Powers o primeiro diretor negro da Pixar

O filme Soul é historicamente importante em vários sentidos: Joe Gardner é o primeiro protagonista negro da Pixar. Kemp Powers, um dos diretores e roteirista do filme, é também o primeiro negro a dirigir um filme do estúdio.

Quando alguém me disse que eu era o primeiro diretor negro da Pixar, eu disse que isso não pode estar certo. Pete disse - e espero - que este é um indicador de que as mudanças serão muito rápidas. Há mais animadores de cor e mulheres no ramo do que há 15 ou 20 anos atrás. É triste ter demorado tanto, mas estou feliz que finalmente esse dia tenha chegado.

Kemp Powers


Apesar de não ser um filme político ou militante, Soul é de suma importância porque dá visibilidade a uma série de situações. Graças ao personagem vemos, por exemplo, a cultura e a importância do jazz para a comunidade afro-americana. Outras cenas importantes mostram os ambientes que Joe frequenta, como a barbearia do amigo marcada pela cultura negra e a loja de costura da mãe.
Soul veio corrigir uma lacuna já que somente três filmes de animação norte-americanos trazem negros como personagens principais, são eles: Bebe’s Kids (1992), The princess and the frog (2009) e Spider-man: into the spider-verse (2018).

Para mim, Joe representa muitas pessoas que não estão sendo vistas agora. Joe está em todos nós, independentemente da cor. Ser o primeiro protagonista negro em um filme da Pixar parece uma bênção, especialmente durante este tempo em que todos nós poderíamos precisar de um pouco mais de amor e luz.

Jamie Foxx (dublador de Joe Gardner)

Antes de ser finalizado o filme foi apresentado para uma série de intelectuais negros ativistas para que se identificassem - ou não - com o que seria exibido na tela. Além de pedirem consultoria de funcionários negros da Pixar, de várias idades, para comporem de modo verossímil o personagem, a Pixar também recorreu a ajuda externa:

Também conversamos com muitos consultores externos e trabalhamos com organizações negras para garantir que estávamos contando essa história com autenticidade e verdade

Dana Murray (produtora do filme)

Explicação sobre os personagens principais de Soul

Joe Gardner

Soul Joe Gardner

Amante de jazz, Joe Gardner é um professor de música em Nova Iorque que sonha ser um pianista profissional, tal como era o falecido pai.
Toda a sua vida foi orientada para conseguir alcançar essa grande meta: tocar numa importante banda de jazz.

Com muita persistência, afinal Joe alcança o seu maior desejo, mas se sente vazio depois de atingir o resultado final.

O personagem simboliza todos aqueles que levam a sua ambição muito à sério e, por terem um objetivo muito definido, se tornam obsessivos e não veem a beleza no percurso nem se abrem para outras possibilidades.

A voz original do personagem foi feita pelo dublador Jamie Foxx.

22

Soul 22

O maior medo de 22 é nascer, ganhar um corpo humano e se mudar para a Terra. A personagem não sabe qual é o seu propósito de vida e, consequentemente, lhe falta um pedaço para ser plena e poder ganhar o tal corpo.

Apesar de todo o esforço de tutores importantes como Madre Teresa de Calcutá, Abraham Lincoln e Gandhi, 22 não consegue se encontrar. A personagem representa o medo do novo e tem a postura acomodada de quem está numa zona de conforto.

Ao longo do filme percebemos que o fato de se sentir perdida, sem nenhum propósito ou vocação, está muito ligado à uma falta de autoestima, ao fato dos outros personagens diminuírem 22 e não lhe darem confiança para experimentar, com o coração aberto, coisas novas.

A personagem 22 tem a voz original de Tina Fey.

Ficha técnica e trailer de Soul

Diretores: Pete Docter, Kemp Powers
Roteiristas: Pete Docter, Kemp Powers, Mike Jones
Lançamento: 25 de dezembro de 2020
Duração: 1h40min
Gênero: animação, comédia, aventura

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Rebeca Fuks
Escrito por Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).