Edgar Allan Poe: 3 obras analisadas para entender o autor


Revisão por Carolina Marcello
Escrito por Rebeca Fuks

Edgar Allan Poe (1809 - 1849) foi um dos maiores autores da literatura norte-americana e uma das grandes figuras da literatura policial / de suspense.

Tanto os poemas quanto os contos de Edgar Allan Poe costumam vir envoltos em uma atmosfera de mistério, horror e morte, muitas vezes invocando um tom melancólico e soturno.

Ele foi um precursor no estilo detetivesco e conseguiu imprimir nos seus trabalhos um ar gótico até então pouco explorado. Interessado em refletir sobre o processo de degradação do ser humano, narrou em seus textos a deterioração física e mental.

1. O Corvo (1845)

Capa do livro O Corvo.

O Corvo, poema que se tornou um clássico da literatura norte-americana, deu visibilidade e reconhecimento a Poe ao ser publicado na American Review, no dia 29 de janeiro de 1845.

Ao longo dos cento e oito versos encontramos um eu-lírico solitário e devastado após a morte da sua amada, Lenora.

Depois desse trágico evento, um corvo - numa noite de inverno, em dezembro - entra pela sua janela e pousa na estátua do busto de Pallas Atenas (a deusa da sabedoria). A partir desse momento o eu-lírico passa a dialogar com o corvo.

Disse o Corvo, “nunca mais”.
“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta! –
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais

O poema mais consagrado de Poe faz uso de rimas e traz uma estética quase hipnótica que envolve o leitor numa musicalidade lírica. Os versos fizeram tanto sucesso que foram logo traduzidos e cruzaram as fronteiras dos Estados Unidos.

A obra chegou a ser traduzida inclusive por Charles Baudelaire (em 1853), Fernando Pessoa (em 1883) e Machado de Assis (em 1924).

Confira também a análise do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe.

2. O Gato Preto (1843)

Capa do livro O Gato Preto.

Publicado originalmente na revista Saturday Evening Post, em agosto de 1843, este é um dos contos mais famosos de Edgar Allan Poe. O narrador e protagonista da história é um homem que afirma estar prestes a morrer e decide se confessar.

Durante muito tempo, foi bondoso com a família e com seus animais domésticos, principalmente o gato Plutão, batizado em homenagem ao deus romano que guardava o reino dos mortos. O bicho era, até então, seu companheiro de todas as horas.

Quando ele começou a beber demais, foi se tornando uma pessoa amarga e violenta, com comportamentos brutais que afetavam todos em casa. Numa madrugada, quando estava alcoolizado, feriu o gato.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim.

Sentindo-se rejeitado pelo animal, que passou a ter pânico dele, o narrador resolveu matá-lo de modo frio e cruel. Logo em seguida, a sua casa foi totalmente destruída por um incêndio misterioso.

A partir daí, o sujeito começou a acreditar que estava sendo assombrado pelo fantasma do gato Plutão. Podemos, assim, interpretar o conto como uma alegoria sobre o sentimento de culpa e os efeitos que pode causar na psique dos seres humanos.

3. O Poço e o Pêndulo (1842)

Capa do livro O Poço e o Pêndulo

Lançado originalmente em 1842, o conto foi incluído depois na coletânea Histórias Extraordinárias que reúne algumas das narrativas breves do autor. A trama, sufocante e aterradora, se situa no contexto da Inquisição espanhola, referenciando uma das partes mais sombrias do nosso passado coletivo.

O narrador é um soldado que foi julgado e condenado: agora, ele está preso numa pequena cela, onde é submetido a diversas torturas e violências. Enquanto o seu corpo é fustigado, a mente do prisioneiro também começa a ser afetada, sobretudo pelo medo constante.

Súbito, voltam à minha alma o movimento e o som – o movimento tumultuoso do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após, a simples consciência da minha existência, sem pensamento – estado que durou muito tempo.

O chão do seu calabouço tem um grande buraco (um poço) por onde ele teme cair. Logo acima do seu corpo, há um grande pêndulo com uma lâmina, pronto para cortar a sua carne. Assim, a situação pode ser lida como uma metáfora para a opressão e a dominação que o ser humano impõe aos seus semelhantes.

Simultaneamente, O Poço e o Pêndulo também se configura como uma reflexão sobre a nossa fragilidade e os modos como as nossas mentes podem ser deterioradas ou até destruídas por determinadas circunstâncias.

Quem foi Edgar Allan Poe?

Escritor, poeta, crítico e editor: Edgar Allan Poe ocupou todos esses papéis durante a sua breve vida. Precursor do romance policial moderno, a sua produção literária faz parte das grandes obras da literatura ocidental.

Edgar Allan Poe

Nascimento

Nascido no dia 19 de janeiro de 1809 em Boston, Massachusetts, Edgar era filho de uma atriz inglesa (Elizabeth Arnold Poe) com um ator de Baltimore (David Poe Jr.). Ambos pertenciam a uma companhia de teatro itinerante. Edgar tinha dois irmãos: Rosalie e William.

Seus primeiros anos de vida foram trágicos: o pai faleceu - ou abandonou a família (não se sabe ao certo) - quando o rapaz ainda era pequeno e Edgar perdeu a mãe em 1811, vítima de tuberculose, quando tinha apenas três anos.

O menino foi então levado para a casa de John Allan, um bem sucedido empresário/agricultor escocês que se dedicava ao comércio de tabaco, e sua esposa Frances. Foi dos pais adotivos que Edgar recebeu o sobrenome Allan.

Principais acontecimentos

Incentivado pela sua família adotiva, Edgar foi levado para a Escócia e para a Inglaterra onde foi criado entre 1815 e 1820. O escritor foi muito influenciado por John a deixar de lado a sua vocação literária para se dedicar aos negócios.

Em 1826, frequentou a Universidade da Virginia e permaneceu lá durante um ano para agradar o pai adotivo. No campus se envolveu em uma série de conflitos, começou a desenvolver problemas com drogas, álcool e apostas.

Aí, ele endividou e John recusou-se a pagar as dívidas. No ano a seguir o rapaz foi expulso de casa e entrou para o exército americano.

Ao longo de toda a vida teve problemas com o alcoolismo e com o jogo. Sofreu também com uma série de crises de depressão e tentou se suicidar algumas vezes.

Carreira literária

Em 1827, em Boston, Edgar Allan Poe começou a publicar poemas e lançou o seu primeiro livro com recursos próprios (Tamerlane and Other Poems).

O segundo livro (Al Aaraaf, Tamerlane, and Minor Poems), uma publicação de poemas, foi lançado em 1829.

Depois de editar o seu terceiro livro resolveu se dedicar à vida de escritor em tempo integral. Passou a vida vítima de uma saúde frágil e lutando com problemas financeiros.

Poe recebia algum dinheiro publicando poemas e textos periódicos em jornais e revistas e trabalhou também como crítico, redator e editor de jornal.

Edgar Allan Poe

Vida pessoal

Edgar ficou noivo da então vizinha Sarah Elmira Royster, mas o relacionamento acabou e Sarah rapidamente ficou noiva de outra pessoa, o que fez com que Edgar voltasse para Boston.

Entre 1831 e 1835 o escritor viveu com a avó paterna (Elizabeth Poe), a tia Maria Clemm e a prima, Virginia. O autor se apaixonou pela jovem prima e os dois se casaram em 1836, quando Virginia tinha apenas 13 anos de idade.

Quando alcançou os 24 anos, a mulher de Poe faleceu durante o inverno vítima de tuberculose. Convém lembrar que a mesma doença também havia tirado a vida da mãe e do irmão do escritor.

Depois da morte de Virginia, Edgar pediu Sarah Whitman em casamento, depois se encantou por Annie Richmond e posteriormente por Sarah Shelton.

Morte

O escritor faleceu no dia 7 de outubro de 1849 em Baltimore, Maryland. Sua morte está envolta em mistério até os dias de hoje.

No dia 3 de outubro Edgar foi encontrado muito doente e embriagado em Baltimore. Ele chegou a ser internado no Washington College Hospital e em quatro dias faleceu.

Ninguém sabe ao certo a causa da sua morte: há rumores de que foi vítima de epilepsia, intoxicação por monóxido de carbono e problemas com o uso abusivo de álcool.

Obras publicadas

Contos

  • Tales of the Folio Club (1832-1836)
  • The Narrative of Arthur Gordon Pym (1838)
  • Wm. Duane copy of Southern Literary Messenger (1839)
  • Tales of the Grotesque and Arabesque (1840)
  • Phantasy Pieces (1842)
  • The Prose Romances of Edgar A. Poe (1843)
  • Tales by Edgar A. Poe (1845)
  • J. Lorimer Graham copy of Tales
  • S. H. Whitman copy of the Broadway Journal (1850)
  • The Works of the Late Edgar Allan Poe (1850)

Poemas

  • Tamerlane and Other Poems (1827)
  • “Wilmer” manuscript collection (1828)
  • Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems (1829)
  • Poems, by Edgar A. Poe (1831)
  • The Poets and Poetry of America (1842)
  • Philadelphia Saturday Museum (1843)
  • Herring copy of Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems (1845)
  • The Raven and Other Poems (1845)
  • J. Lorimer Graham copy of The Raven and Other Poems (1845)
  • Richmond Examiner proof sheets collection (1849)
  • The Works of the Late Edgar Allan Poe (1850)

Frases

É de se apostar que toda ideia pública, toda convenção aceita seja uma tolice, pois se tornou conveniente à maioria.

Toda religião simplesmente desenvolveu-se com base no medo, ganância, imaginação e poesia.

A vida real do ser humano consiste em ser feliz, principalmente por estar sempre na esperança de sê-lo muito em breve.

Curiosidades

A casa onde o escritor viveu em Baltimore entre 1831 e 1835 com a avó paterna, a tia Maria Clemm e a prima (e sua futura esposa) Virginia foi transformada em museu. O espaço se chama Edgar Allan Poe House and Museum e encontra-se aberto para visitação.

Retrato do Edgar Allan Poe House and Museum.
Retrato do Edgar Allan Poe House and Museum.

Apesar da narrativa arrepiante do conto O Gato Preto, Edgar Allan Poe era totalmente apaixonado por felinos. O autor costumava segurar a sua gata, Catterina, no colo enquanto escrevia. O animal faleceu dias depois da partida do seu dono.

Outro fato interessante sobre o percurso do Poe é que ele "inaugurou" o gênero policial. Antes das obras de Sir Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, que definiram o gênero, o autor publicou o conto Os Assassinatos da Rua Morgue. Na narrativa, o detetive Auguste Dupin investiga uma série de assassinatos que ocorrem em Paris.

Aproveite para ver também:

Atualizado em
Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Rebeca Fuks
Escrito por Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).