Bacurau: análise do filme


Laura Aidar
Laura Aidar
Professora de Artes

Bacurau é um filme de aventura, ação e ficção científica dos cineastas pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

Lançado em 2019, a história conta sobre uma comunidade ameaçada no interior do sertão nordestino e que sofre com falta de água e de políticas públicas.

Curiosamente, um dia essa cidade desaparece do mapa e seus habitantes ficam sem sinal de internet.

Saiba mais sobre esse filme que causou uma uma reação catártica no público no momento de sua estreia!

(Cuidado, a partir daqui o artigo contém spoilers!)

cartaz de bacurau
Cartaz do filme Bacurau

Análise do filme

Os diretores buscaram diversas fontes de inspiração, entre elas produções de faroeste e também cinema europeu.

Entretanto, o filme é bastante fiel à realidade nacional, contando inclusive com a população local em seu elenco, o que foi essencial para retratar um Brasil cheio de desigualdades, mas sobretudo de resistência popular.

A história se passa daqui há algum tempo e não podemos precisar exatamente o ano. O fato é que mesmo sendo no futuro, identifica-se uma relação direta com acontecimentos atuais e do passado.

Dessa forma, podemos dizer que o filme serve como uma alegoria da realidade brasileira.

Caixões na estrada

Logo no começo da narrativa, acompanhamos Teresa viajando em um caminhão-pipa por estradas precárias.

No meio do caminho surgem caixões, que são atropelados pelo caminhão e podem ser interpretados como um prenúncio da atmosfera ameaçadora que nos aguarda na pequena cidade de Bacurau.

Enterro de Dona Carmelita

enterro Dona Carmelita Bacurau
Cena do cortejo de Dona Carmelita em Bacurau

Assim que Teresa chega, nos deparamos com o velório e o enterro de Dona Carmelita, interpretada por Lia de Itamaracá. Dona Carmelita era uma senhora negra, bastante idosa, que foi muito importante na comunidade.

Através dela, fica evidente a importância das mulheres e do matriarcado naquele lugar, pois Carmelita foi responsável por gerar uma enorme família, constituída por pessoas de todos os tipos, quase como um retrato do próprio povo brasileiro.

Nome de Bacurau

Bacurau é o nome desse vilarejo fictício. É também o nome de uma ave com hábitos noturnos, muito encontrada no cerrado brasileiro.

No filme, algumas dessas informações são reveladas por meio de uma moradora quando ela é questionada por um casal de turistas, que trata o povo com desdém.

pássaro bacurau
À esquerda, cartaz especial de Bacurau, criado por Clara Moreira. À direita, fotografia do pássaro que leva o nome de Bacurau

Pode-se traçar uma relação direta entre as características desse pássaro e as do povo de Bacurau, que assim como o animal, está bastante atento ao que acontece à sua volta.

Prefeito oportunista

O prefeito da cidade é retratado na figura de Tony Jr, um homem que não está interessado em promover políticas públicas ou melhorias na comunidade, e sim se aproveitar do povo, aproximando-se dele apenas em ano de eleições.

Tony Jr, além disso, representa o descaso à educação, explícito na cena em que despeja de um caminhão um monte de livros, que caem no chão de qualquer forma, sendo danificados.

Ele também leva à força uma prostituta do local, evidenciando a violência de gênero e sexual que ela sofrerá, realidade infelizmente tão presente no Brasil.

Casal de brasileiros e forasteiros americanos

Udo Kier em Bacurau
O ator alemão Udo Kier interpreta Michel, um americano perverso

Um casal de motoqueiros aparece no povoado, aparentemente como turistas. Eles são oriundos da região Sudeste e Sul do Brasil, e por conta disso, se sentem superiores ao povo nordestino.

Na realidade, eles estão lá para contribuir com planos de extermínio daquela comunidade por parte de forasteiros americanos que se fixaram na região.

Podemos fazer um paralelo dessa situação com o que ocorre em âmbito mais geral, em que elites brasileiras desprezam o povo e aliam-se aos interesses estrangeiros.

Lunga e o cangaço queer

Lunga é o nome de um dos personagens mais emblemáticos do filme. Através dessa figura expõe-se questões de identidade de gênero aliadas a uma força e impulso por sobrevivência.

luga em bacurau
O ator Silvero Pereira interpretando Lunga

O personagem, um foragido e procurado pela polícia, transita entre os gêneros masculino e feminino. É com a chegada dele no vilarejo que a população organiza-se ainda mais e prepara-se para resistir aos ataques que sofrerão.

Lunga simboliza o desejo por transformações radicais na sociedade, e vem travestido em uma figura que tem o poder de unir elementos a princípio tão díspares, como o universo do cangaço com a transsexualidade.

Domingas e a força da mulher nordestina

Domingas é a médica de Bacurau, que auxilia a população em seus problemas de saúde, ao mesmo tempo em que ela mesma sofre com o alcoolismo.

sônia braga em bacurau
A médica Domingas, interpretada pela atriz conceituada Sônia Braga

Sônia Braga, que já havia participado do filme Aquarius, também de Kleber Mendonça Filho, é a responsável pela interpretação desse complexo personagem que representa a energia e garra da mulher nordestina em meio a uma dura realidade.

Museu e escola de Bacurau

O museu da cidade é outro elemento importante na trama de Bacurau.

Em várias cenas, a população cita o local, dizendo para o casal de turistas ir até lá. Depois, descobre-se que o museu abriga um acervo de fotografias e objetos do cangaço que sugerem que o povoado fez parte desse universo no passado, possuindo um histórico de luta e resistência.

museu da bacurau
O museu exibe jornal Diário de Pernambuco com uma reportagem fictícia sobre o cangaço no vilarejo de Bacurau

Esse é também um dos locais escolhidos pela população como esconderijo no momento em que sofrem os ataques dos americanos. A escolha pode ser vista como um símbolo da importância da cultura e da memória na história de um povo.

Outra questão que vale salientar é a relação possível entre o passado de Bacurau com o passado de luta do próprio povo nordestino, através de revoltas populares como Canudos, Conjuração Baiana e Quilombo dos Palmares.

Além do museu, outro local que acolhe os moradores é a escola da cidade. Lá, os habitantes se escondem enquanto os "gringos" fazem seu jogo perverso em busca de vítimas, sem saber que, na verdade, eles é que serão aniquilados.

Curiosidades sobre Bacurau

Vencedor do Prêmio do Júri no 72º Festival de Cannes, o longa metragem é uma co-produção entre Brasil e França e foi filmado em 2018 na região de Seridó, sertão nordestino que abrange o Rio Grande do Norte e a Paraíba.

Anos antes, em 2016 foi exibido no Festival de Cannes o filme Aquarius, também de Kleber Mendonça Filho. Nessa ocasião, o elenco e o diretor levantaram cartazes em apoio a Dilma Rousseff, presidenta que sofria um processo de impeachment no país naquela altura.

Por conta desse episódio, criou-se a expectativa de que com Bacurau ocorresse o mesmo no festival de 2019. Entretanto, o filme foi exibido sem protestos, pois segundo os diretores, a própria história é suficiente como forma de denúncia.

Outra informação curiosa é que o roteiro já estava escrito desde 2009.

Trailer do filme

Filmes de destaque de Kleber Mendonça Filho

Kleber Mendonça Filho é um renomado diretor do cinema nacional e acumula algumas produções importantes em sua carreira. Em algumas delas, o outro diretor de Bacurau, Juliano Dornelles, também tem participação.

kleber mendoonça filho
O cineasta Kleber Mendonça Filho

Confira uma lista com as obras mais significativas de Kleber, em ordem cronológica:

  • Vinil Verde (2005) - curta-metragem
  • Eletrodoméstica (2005) - curta-metragem
  • Noite de Sexta, Manhã de Sábado (2007) - curta-metragem
  • Crítico (2008) - documentário
  • Recife Frio (2009) - curta-metragem
  • O som ao redor (2012)
  • Aquarius (2016)
  • Bacurau (2019)

Para saber sobre assuntos relacionados, leia também:

Laura Aidar
Laura Aidar
Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007. Formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design de São Paulo (2010).