Música Killing in the Name, de Rage Against the Machine


Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Killing in the Name é uma música de rap metal da banda norte-americana Rage Against the Machine, lançada em 1991. O primeiro single do grupo alcançou um grande sucesso internacional e se tornou um hino que marcou as últimas décadas.

Atravessada pela revolta e pelo tom de denúncia, trata-se de uma música de protesto que fala sobre brutalidade policial, abuso de poder e violência racista nos Estados Unidos da América.

Letra original de Killing in the Name

Some of those that work forces, are the same that burn crosses (x4)

Ugh!
Killing in the name of... (x2)

Now you do what they told ya (x4)
And now you do what they told ya (x8)
Well now you do what they told ya!

Those who died are justified
For wearing the badge, they're the chosen whites
You justify those that died
By wearing the badge, they're the chosen whites

Some of those that work forces, are the same that burn crosses (x4)

Ugh!
Killing in the name of... (x2)

Now you do what they told ya (x4)
And now you do what they told ya
(Now you're under control) And now you do what they told ya (x7)

Those who died are justified
For wearing the badge, they're the chosen whites
You justify those that died
By wearing the badge, they're the chosen whites
Come on!

Fuck you, I won't do what you tell me (x16)
Motherfucker!
Ugh!

Análise e tradução da letra

Primeiros versos

Alguns dos que estão no poder
São os mesmos que queimam cruzes

Logo nos primeiros versos da letra é evidente que Rage Against Machine estão falando do comportamento agressivo da polícia. Denunciam que os agentes da autoridade são os mesmos que quebram a ordem social, em vez de cumprirem o seu dever.

Existe aqui uma referência direta à Ku Klux Klan, grupo terrorista de supremacia branca que assombrou os Estados Unidos por décadas. Entre os seus inúmeros crimes, ficaram conhecidos por queimar cruzes durante a noite, como forma de intimidação.

A letra expõe a proximidade que existe, um pouco por todo o mundo, entre alguns membros das forças policiais e militares e os ideais fascistas e autoritários. Comparando a violência policial aos linchamentos da Klan, a composição mostra os atos como estando relacionados, motivados pelo mesmo ódio.

Ku Klux Klan queimando uma cruz no Tennessee, 1948.
Ku Klux Klan queimando uma cruz no Tennessee, 1948.

Ou seja, o que é dito aqui é que alguns indivíduos que deveriam ser responsáveis por manter a paz e a ordem são os mesmos que defendem posturas racistas e violentas.

Nos Estados Unidos, um país cuja história é manchada pelas políticas de segregação racial, sempre existiram indícios do envolvimento de membros da polícia e do exército com a Klan.

O grupo coloca o "dedo na ferida" e aponta a hipocrisia inerente, estendendo a crítica também à classe política, aos governantes e à própria sociedade. Isso fica patente na versão original da letra, com o possível jogo de palavras existente em "work forces", que abre dois sentidos.

Além de "trabalhar nas forças" (policiais, militares), a expressão pode ser lida como uma referência às "forças de trabalho", transmitindo a mensagem de que o próprio povo norte-americano era racista.

Com apenas dois versos, a banda consegue falar de forma exímia sobre a segregação e os preconceitos raciais que ficaram muito marcados na história do país e ainda são transversais aos vários setores da sociedade.

Gancho

Matando em nome de...

O mais interessante nesta passagem é, talvez, que ela fica em aberto, como uma reflexão: matando em nome de quê? A letra deixa claro que um assassinato é sempre um assassinato, não importa em nome de quê se comete esse crime.

Assim, a música está questionando as formas e os motivos pelos quais nos acostumamos a normalizar e a justificar a violência.

Pré-refrão

E agora você faz o que te mandaram
E agora você faz o que te mandaram
Mas agora você faz o que te mandaram
Então agora você faz o que te mandaram

A repetição desta ideia pretende chamar a atenção daquele que escuta, como se tentasse despertá-lo e o obrigá-lo a encarar a realidade.

A atmosfera de medo gerada pela violência policial e o modo como o povo é reprimido quando questiona a autoridade, conduz à submissão, à obediência cega.

Refrão

Aqueles que morreram estão justificados
Por usarem o distintivo, eles são os brancos escolhidos
Você justifica aqueles que morreram
Por usarem o distintivo, eles são os brancos escolhidos

Aqui, o sujeito lírico procura expressar o ponto de vista dos agressores, o modo como eles pensam e falam: acham que estão certos, defendem que os seus assassinatos são justificados.

Acreditam que são superiores, que o distintivo policial e/ou seu estatuto social os torna parte dos "escolhidos". Ou seja, no fundo nem acham que suas ações devam ser questionadas pelo fato de serem cidadãos brancos e terem posições de poder.

Pré-refrão

E agora você faz o que te mandaram
(Você está sob controle)

O sujeito lembra o público que ele está vivendo sob o domínio de figuras de autoridade repressoras e violentas, onde proliferam os preconceitos da sociedade.

O medo que elas geram nos cidadãos acaba por levá-los a uma conduta passiva e pouco crítica, que normaliza a violência e a opressão.

O grupo propõe que quebrem esse ciclo de intimidação e agressão física, através da denúncia e da contestação.

Versos finais

Foda-se, não vou fazer o que você manda

Rage Against the the Machine terminam a música com um derradeiro desafio às autoridades instituídas, que rejeitam e nas quais não confiam.

Sua mensagem é de revolta e rebelião, estão convidando o seu público a questionar as regras impostas e confrontar as forças policiais acerca de seus atos violentos e discriminatórios.

Falando diretamente com esses agentes racistas e agressivos, negam o seu poder, chegando mesmo a insultá-los.

Contexto histórico e significado da música

Killing in the Name foi composta 6 meses após o caso de Rodney King, um taxista afro-americano que foi espancado pela polícia de Los Angeles, em março de 1991.

Imagem do ataque a Rodney King.
Imagem do ataque da polícia a Rodney King.

Acusado de estar dirigindo embriagado, foi preso e atacado por vários agentes, que acabaram sendo absolvidos. A injustiça da decisão provocou a fúria dos locais, dando origem a três dias de conflitos entre os cidadãos e a polícia, em abril de 1992.

Trata-se, então, de um hino de protesto contra a brutalidade policial e os seus meios de intimidação e demonstração de poder. A capa do disco de estreia da banda também possui uma carga simbólica muito poderosa.

Thicj Quang Duc
Thich Quang Duc se auto-imolando em protesto, 11 de Junho de 1963.

Trata-se de uma fotografia de Thích Quang Duc, o monge budista se auto-imolando, depois do presidente Ngô Dình Diêm proibir a prática do budismo no Vietnã.

A capa do disco, assim como seus temas, principalmente Killin in the Name promovem mensagens de resistência a qualquer preço. Acreditam que é preciso desobediência e questionamento constantes, contra o sistema autoritário.

Por ironia do destino, surgiu ao boato de que a música era usada pelo governo norte-americano para torturar os prisioneiros de Guantánamo.

A esse respeito, o vocalista da banda, Zack de la Rocha, declarou em entrevista:

É muito doloroso que uma música que foi escrita sobre a libertação do corpo e do espírito seja usada como um dispositivo de açoite medieval.

Sobre Rage Against the Machine

Retrato da banda Rage Against the Machine
Retrato da banda Rage Against the Machine.

Rage Against the Machine foi uma banda de rock norte-americana, formada em 1991, na Califórnia. O próprio nome parece traduzir o espírito do seu trabalho: "Fúria contra a Máquina", ou seja, o sistema.

Suas músicas se caracterizaram por estarem repletas de críticas e denúncias sociais e políticas, marcando a sua geração. Killing in the Name foi o maior êxito da banda e atravessou décadas, continuado atual na América de Trump.

Conheça também

Carolina Marcello
Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.