Música Hurt de Johnny Cash


Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Hurt é uma música da banda de rock Nine Inch Nails que foi gravada pelo cantor norte-americano Johnny Cash em 2002 e lançada no álbum American IV: The Man Comes Around. O clipe da canção ganhou um Grammy em 2004.

Cash foi um dos nomes mais influentes da música country. A sua versão de Hurt, num ritmo bastante diferente do original, se tornou popular e conquistou uma nova geração de fãs para o artista conhecido como "O Homem de Preto".

Letra de Hurt (versão de Johnny Cash)

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

What have I become
My sweetest friend
Everyone I know goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

Tradução da letra de Hurt

Hoje eu me machuquei
Para ver se eu ainda sinto
Eu foquei na dor
A única coisa que é real
A agulha faz um buraco
A velha e familiar picada
Tenta matar isto para longe
Mas eu me lembro de tudo

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim
E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

Eu uso essa coroa de espinhos
Sentado na minha cadeira de mentiroso
Cheio de pensamentos quebrados
Que eu não posso reparar
Debaixo das manchas do tempo
Os sentimentos desaparecem
Você é uma outra pessoa
E eu continuo exatamente aqui

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim
E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

E se eu pudesse começar de novo
Um milhão de milhas distante
Eu ainda seria eu mesmo
Eu acharia uma forma

Análise e interpretação de Hurt

Primeira estrofe

Tanto a música como o clipe são compostos por tons sombrios. A repetição de algumas notas causa a impressão de monotonia e de um sentimento de tristeza. Esse sentimento é confirmado logo nos primeiros versos, quando o autor nos fala sobre automutilação.

O sujeito lírico abre a canção declarando que machucar-se é a única forma de se sentir vivo.

Hoje eu me machuquei
Para ver se eu ainda sinto
Eu foquei na dor
A única coisa que é real

A dor também pode ser uma âncora para a realidade. Em um quadro depressivo, uma pessoa pode experimentar diversos estados de espírito como a apatia e a total indiferença.

Embora seja um comportamento perigoso e autodestrutivo, ferir o próprio corpo pode ser encarado como uma forma de regressar à realidade e escapar desse mundo criado pela depressão.

Nos versos finais dessa estrofe, surge um outro elemento: o vício e o abuso de drogas. O vício causa um buraco, não só na pele mas também na alma do sujeito, que só pode ser preenchido por ele mesmo.

Aqui, o uso de drogas está relacionado com a vontade ou a necessidade de esquecer o passado, mas mesmo assim ele "se lembra de tudo".

A agulha faz um buraco
A velha e familiar picada
Tenta matar isto para longe
Mas eu me lembro de tudo

Refrão

O refrão da música começa com um questionamento: "em que eu me tornei?". É interessante a pergunta existencial nesse contexto. Ela indica que, apesar da situação atual, o eu lírico ainda está consciente de si mesmo e dos seus problemas.

Na passagem, temos a presença de alguém a quem o autor dirige, confessando a sua solidão. O trecho suscita duas interpretações. Uma é que as pessoas vão embora depois que as drogas acabam. Outra, mais ampla, aponta o isolamento como uma condição inerente à existência.

Em que foi que eu me tornei?
Meu mais doce amigo
Todo mundo que eu conheço vai embora
Quando chega o fim

Podemos interpretar que o destinatário é alguém próximo, que deixou o autor sozinho. Ele argumenta que poderia ter dado tudo para essa pessoa, mas que ao mesmo tempo não tem muito para oferecer. Seu reino é feito de "sujeira" e, no final, ele só teria machucado e decepcionado essa pessoa.

E você poderia ter ficado com tudo
Meu império de sujeira
E eu vou te decepcionar
E eu vou fazer você se machucar

Deste modo, podemos observar a sua falta de fé na capacidade de manter relações humanas próximas. Acredita que não será capaz de ter intimidade com alguém por muito tempo, porque sempre irá fracassar e provocar o sofrimento alheio.

Esta perspectiva parece conduzir o eu lírico a uma solidão ainda mais profunda.

Segunda estrofe

No começo da estrofe, podemos encontrar uma referência bíblica: a coroa de espinhos que Jesus usou. Na letra, a coroa está relacionada a uma "cadeira de mentiroso". Jesus foi coroado como "rei dos judeus" e a coroa de espinhos representa o começo da penitência na via sacra.

Na canção, esta parece ser uma metáfora para a sua dor na consciência. É como se os espinhos fossem as memórias, os pensamentos ruins que pesam sobre a sua cabeça.

Eu uso essa coroa de espinhos
Sentado na minha cadeira de mentiroso
Cheio de pensamentos quebrados
Que eu não posso reparar

A lembrança é algo recorrente na letra e aparece novamente nos versos seguintes. Embora o passar do tempo conduza naturalmente ao esquecimento, para o eu lírico a superação ainda não chegou.

Pelo contrário, ele se sente estagnado, preso no mesmo lugar, enquanto a outra pessoa está se transformando e avançando com a sua vida.

Debaixo das manchas do tempo
Os sentimentos desaparecem
Você é uma outra pessoa
E eu continua exatamente aqui

Assim, podemos perceber que se trata de alguém que está amargurado e não consegue esquecer tudo o que já perdeu.

Terceira estrofe

A última estrofe é uma espécie de redenção do sujeito poético. Ele está plenamente consciente de seus problemas, mas, mesmo se ele tivesse a oportunidade de começar de novo, ele manteria em si o que faz dele ele mesmo.

Podemos assumir que ele acredita que os seus problemas não são inerentes a si, e sim advindos de situações adversas.

E se eu pudesse começar de novo
Um milhão de milhas distante
Eu ainda seria eu mesmo
Eu acharia uma forma

Desse modo ele seria capaz de fazer as coisas diferentes e manter a essência de quem é. Em última instância não existe arrependimento. Por mais que a sua situação atual seja ruim, ela só existe por consequência do que ele foi e ele não abriria mão disso.

Significado da letra

A letra nos conta a história de um homem envolto em depressão que parece não conseguir sentir mais nada, a não ser o vazio.

As drogas são apontadas como uma válvula de escape, mas com elas se cria um círculo vicioso. A paisagem da canção é de muita tristeza, porém o sujeito tem consciência da sua situação.

Tudo isso conduz a uma reflexão existencial. Ele se questiona como chegou naquele ponto e as lembranças aparecem com um tom de arrependimento. A solidão, a desilusão e a obsessão com o passado também estão presentes na canção.

Ainda assim, por mais que o passado seja um lugar de arrependimento, o sujeito nunca o nega. A música termina com uma redenção, de quem acima de tudo é fiel a si mesmo.

O clipe de Hurt

O clipe alterna imagens de Johnny Cash já idoso com diversos outros vídeos dele mais novo. Essa seleção de imagens dá um toque autobiográfico à canção. Os cortes das imagens também se relacionam com a letra da música.

O conjunto de música e vídeo nos mostra um Johnny Cash já mais velho, que relembra o seu passado e, apesar de diversos acontecimentos adversos, encara com dignidade a sua vida.

Hurt se torna a canção de um homem que sofreu em sua vida, mas que também deixa com orgulho o seu legado.

Johnny Cash e American Records

John R. Cash (26 de fevereiro de 1932 — 12 de setembro de 2003) foi um célebre músico norte-americano e um dos maiores nomes da música country. Apesar de não ter composto Hurt, é possível traçar vários paralelos entre a letra e a sua vida.

Cash teve sérios problemas com drogas, principalmente com o abuso de pílulas e álcool. Ele também sofreu de uma depressão severa. Seu relacionamento com June Carter foi muito conturbado, mas no final ela o ajudou a se livrar das drogas e levar uma vida mais regrada.

Retrato a preto e branco de Johnny Cash.
Retrato a preto e branco de Johnny Cash.

Talvez estes acontecimentos tenham contribuído para que a sua interpretação da música seja tão bela e profunda. A versão está integrada em American Records, uma sequência de álbuns produzidos por Rick Rubin para a gravadora que leva o mesmo nome.

O primeiro álbum, de 1994, marcou a retomada da carreira do cantor, que ficou eclipsada nos anos 1980.A série inclui faixas inéditas do compositor e versões de outras músicas. Um dos álbuns mais marcantes da série é o American IV: The Man Comes Around.

Esse foi o último disco lançado em vida por Johnny Cash, que morreu no ano seguinte, em 12 de setembro de 2003. Dois outros álbuns foram lançados após a morte do cantor, o American V: A Hundred Highways e o American Recordings VI: Ain't No Grave.

Versão original: Hurt, de Nine Inch Nails

A versão original da música Hurt foi gravada pelo grupo Nine Inch Nails e lançada no segundo disco da banda, chamado The Downward Spiral, em 1994. A canção foi composta pelo integrante da banda Trent Reznor.

Renzor disse em entrevista que ficou honrado pela escolha de Johnny Cash de gravar a sua música e, quando viu o clipe, ficou emocionado, chegando a dizer "aquela canção não é mais minha".

A única mudança que Johnny Cash fez na letra da canção foi a troca de "crown of shit" (coroa de merda) por "crown of thorns" (coroa de espinhos). Além de retirar o xingamento da música, também faz uma referência a Jesus. O cantor era muito religioso e menciona passagens da Bíblia em várias canções.

Conheça também

Carolina Marcello
Revisão por Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes (2014) e licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos (2011) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.