10 principais obras de Aleijadinho


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Aleijadinho (1738-1814) foi escultor e arquiteto, um dos maiores nomes das artes plásticas brasileira e o grande artista do nosso Barroco.

O criador fazia esculturas principalmente em pedra sabão, mas também trabalhava com madeira. Criador de uma arte mais voltada para o sagrado, foi o idealizador de muitos altares de igrejas, esculturas, chafarizes, portadas, retábulos além de projetos arquitetônicos.

1. Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (em Congonhas)

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (em Congonhas)

É no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, situado no morro do Maranhão, em Congonhas, que estão os doze profetas esculpidos em pedra sabão além dos famosos passos da paixão de Cristo. As criações datam do século XVIII.
Aleijadinho foi um pioneiro porque foi o primeiro artista regional a usar a pedra-sabão como matéria prima das suas esculturas. Até então a pedra-sabão era usada principalmente para substituir a cerâmica, por exemplo, para criar peças simples como vasilhames ou panelas. Tanto que, naquela época, o material era conhecido popularmente como “pedra de panela” ou “pedra-panela”.
Um dos grandes diferenciais de Aleijadinho, se comparado com outros artistas contemporâneos, para além do material que usava, era o seu cuidado em trabalhar a anatomia de uma forma almejando a perfeição.
Por vezes Aleijadinho fazia deformações intencionais para enfatizarem um movimento ou uma expressão do retratado. Esse rigor foi uma das características mais importantes da sua obra.

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos
Via sacra do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

Aleijadinho recebeu a encomenda em 1796 para criar esculturas da via Sacra e profetas para o Santuário. Esses trabalhos, feito pelo artista com o auxílio dos seus assistentes, são tidos até hoje como as suas obras-primas.

os doze profetas
Profeta Isaías, um dos doze esculpidos para o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

As esculturas dos 12 profetas começaram a ser criadas em 1796 e foram concluídas em 1805. Em comum, todos os profetas apresentam cabelos cacheados cobertos por turbantes. Em termos de feições, todos também apresentam olhos puxados, meio orientais.
O conjunto arquitetônico do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos é considerado patrimônio mundial da Unesco.

2. Altar Nossa Senhora do Rosário

Altar Nossa Senhora do Rosário

Foi no distrito de Santa Rita Durão, em Mariana, que Aleijadinho esculpiu o seu primeiro altar, em homenagem à Nossa Senhora do Rosário.

Rico em detalhes, o trabalho foi encomendado para compor a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Como a irmandade tinha poucos recursos, o trabalho de Aleijadinho precisou ser, de certa forma, limitado, o que não fez com que o artista sacrificasse a obra em termos estéticos.

Apesar de ser o seu primeiro altar, o trabalho é de uma riqueza impressionante: o projeto, todo criado em estilo rococó, conta com detalhes dourados que transmitem a riqueza do período histórico vivido na região de Minas Gerais.

Durante muitos anos Aleijadinho, que foi genial nas artes plásticas brasileira, foi esquecido pelos pares e não teve a sua obra devidamente reconhecida. Foi apenas com os modernistas, já no século XX, que o seu trabalho foi relembrado e verdadeiramente homenageado. Mário de Andrade, por exemplo, escreveu um texto em 1928 chamado Aleijadinho celebrando a produção original do artista.

3. Igreja de São Francisco de Assis

Igreja de São Francisco de Assis

A Igreja de São Francisco de Assis, localizada em Ouro Preto, foi uma das maiores criações de Aleijadinho.

O projeto, que começou em 1766, esteve em construção até metade do século XIX. Aleijadinho recebeu a encomenda logo após a morte do seu pai.

Além de assinar o projeto da igreja, o artista também foi o responsável pelo altar-mor, pelo retábulo e pela fonte. Esse é um dos poucos exemplos de construção católica onde um mesmo artista assinou não só o projeto arquitetônico como também a ornamentação interna, ficando responsável tanto pelo interior como pelo exterior da igreja.

O retábulo foi projetado em 1778-1779 e conta com traços do estilo rococó com muitos ornamentos decorativos como anjos, fitas, guirlandas feitos em pedra-sabão. As torres, arredondadas, têm um estilo original.

Na igreja há dois púlpitos esculpidos em pedra sabão datados de 1771 representando quatro evangelistas (São João, São Mateus, São Lucas e São Marcos).

4. Igreja N.Sra. das Mercês e Perdões

Igreja N.Sra. das Mercês e Perdões

A construção da Igreja N.Sra. das Mercês e Perdões foi iniciada em 1742 .

Aleijadinho foi contratado para trabalhar na capela-mor e em esculturas em 1775 tendo recebido pela encomenda, segundo os registros, a importância de seis oitavas de ouro como forma de pagamento.

Além da capela-mor, Aleijadinho criou em pedra-sabão duas esculturas importantes presentes no interior: a de São Pedro Nolasco e a de São Raimundo Donato.

Aleijadinho aplica nessas duas criações muito mais detalhes do que os outros artesãos da época - como querubins, flores e ornamentos em rococó. O artista, que talhava em madeira e pedra, quando era possível acrescentava pormenores a cores e dourados.

5. Chafariz para o Hospício da Terra Santa

O primeiro projeto individual de Aleijadinho, realizado em 1752, foi um chafariz para o pátio do Palácio dos Governadores, situado em Ouro Preto. O Palácio dos Governadores foi erguido no local onde costumava funcionar a Casa de Fundição e Moeda.

O contrato foi assinado pelo pai do artista e, na ocasião, Aleijadinho, que realizou a obra, tinha apenas 14 anos. Já nesse primeiro trabalho é possível encontrar traços da sua arte que o acompanharão pelo resto da sua carreira como por exemplo a atenção ao detalhe.

Apesar de historicamente ter sido um trabalho importante na carreira de Aleijadinho, praticamente não há registro dele.

6. Chafariz do Alto da Cruz de Vila Rica

Chafariz do Alto da Cruz de Vila Rica

O pai de Aleijadinho havia sido contratado para construir um chafariz, em 1757, na região onde atualmente está a cidade de Ouro Preto. A construção foi erguida por iniciativa do Senado da Câmara de Vila Rica, que abriu um processo de concorrência pública. Projetado por Antônio Francisco (assim como o Chafariz do Palácio dos Governadores de Ouro Preto), essa peça tem um grande diferencial.

Aqui Aleijadinho esculpiu no topo do chafariz um busto feminino pagão em 1761 - foi a primeira escultura pagã do período. Habitualmente se utilizavam nos chafarizes uma cruz de destaque na posição onde Aleijadinho colocou o busto.

O busto tinha influências do pensamento iluminista, que vigorava na Europa. Com características humanistas, o busto criado por Aleijadinho antecipa o movimento rococó demonstrando o seu traço de inovador.

Esse foi dos primeiros trabalhos da região onde foi usado como material a pedra-sabão.

Além de serem um espaço para se expor arte pública, os chafarizes públicos naquela ocasião tinham uma função social importante: poucas eram as pessoas que tinham água corrente em casa. Os chafarizes, portanto, serviam para se abastecer a cidade.

7. Chafariz para o Hospício da Terra Santa

Chafariz para o Hospício da Terra Santa

Esculpido em 1758 com pedra sabão, o Chafariz para o Hospício da Terra Santa é tido até hoje como a primeira obra do estilo barroco tardio.
Entre 1750 e 1759 o artista frequentou o internato do Seminário dos Franciscanos Donatos do Hospício da Terra Santa para aprender lições de latim, religião, gramática e matemática.

A partir desse trabalho, Aleijadinho começou a atuar cada vez mais, porém como anônimo devido a sua condição de mulato. Como não podia emitir documentos comprovativos muitas das obras supostamente de sua autoria são questionadas.

8. Chafariz da Samaritana

Chafariz da Samaritana

Situado na cidade de Mariana, não se sabe a data certa de produção da fonte - sabe-se apenas que se trata de uma peça do século XVIII. Devido às suas características formais, o chafariz foi atribuído a Aleijadinho. Situado numa zona nobre da cidade, a peça foi instalada em frente ao novo Palácio Episcopal.

Na peça vemos um baixo-relevo que representa o episódio do Cristo e da Samaritana. Na imagem vemos Jesus sentado e a Samaritana, que traz um cântaro para oferecer água a Cristo. A personagem, com um decote, transmite certa sensualidade. O sensualismo é uma das características importantes do barroco, bastante presente nas obras de Aleijadinho.

Há também na gravura, ao fundo, a ilustração de uma árvore. A moldura que circunda a imagem é em rococó, irregular, com muitos detalhes. Hoje a peça se encontra no Museu Arquidiocesano.

O tema da Samaritana não ficou exclusivamente restrito a essa obra, há pelo menos outros três trabalhos de Aleijadinho onde há uma representação do tema (uma fonte de rua em Ouro Preto, uma estátua de jardim residencial na mesma cidade e uma púlpito na Capela de Nossa Senhora do Carmo de Sabará).

9. Igreja da Nossa Senhora do Carmo

Igreja da Nossa Senhora do Carmo

Na Igreja da Nossa Senhora do Carmo o artista foi responsável por desenhar e esculpir partes importantes da igreja como o frontispício, os púlpitos, o coro, a decoração da portada.

Nessa obra, para sustentar os coros, Aleijadinho criou dois anjos musculosos coloridos. Como simbolicamente os anjos fazem força para carregarem o coro, os querubins apresentam a musculatura destacada.

Esse diálogo entre a escultura e a sua função simbólica no lugar onde se encontravam era uma das características mais importantes das criações do escultor.

10. São Joaquim

São Joaquim

Aleijadinho esculpiu a figura de São Joaquim no princípio do século XIX em madeira. O escultor escolheu retratar um momento bastante específico da vida de São Joaquim.

O santo era casado com Ana, que era estéril, mas graças a intervenção divina ele pode ser pai. É esse momento - quando São Joaquim recebe a notícia e fica extasiado de alegria - que Aleijadinho resolveu retratar.

A peça atualmente se encontra no Museu Arquidiocesano de Arte Sacra de Mariana.

Biografia de Aleijadinho

Aleijadinho, apelido dado a Antônio Francisco Lisboa (1730-1814), nasceu na região onde atualmente se encontra Ouro Preto e foi um importante arquiteto e escultor. Ele era filho de uma escrava (Isabel) com um português (Manoel Francisco Lisboa), que se mudou para o Brasil em 1728 em busca de uma vida melhor.

Aleijadinho

O pai de Aleijadinho, que era arquiteto e mestre de carpintaria, se casou em 1738 com a açoriana Maria Antônia de São Pedro com quem teve quatro filhos. Aleijadinho, que aprendeu todos os ofícios com o pai, socialmente sempre foi visto como um filho bastardo.

Aleijadinho sofreu por ser mestiço: por ser filho bastardo não teve direito à herança do pai e, como viveu numa sociedade preconceituosa, não pode assinar muitas obras nem registros de pagamentos pelos seus trabalhos prestados.

Por ter vivido numa época de ouro da região, recebeu muitas encomendas. O criador abriu a sua oficina em 1770. A sua produção se centrou em temas religiosos tendo produzido uma série de encomendas de arte sacra encomendadas pela igreja. As suas peças foram produzidas para as cidades de Ouro Preto, Tiradentes, Mariana, Congonhas do Campo, Barão de Cocais, Sabará, Felixlândia, Matosinhos, Caeté e São João del Rei. Suas obras foram profundamente influenciadas pelo estilo rococó.

Por que foi dado o nome de Aleijadinho?

A partir de 1777 surgiram sinais da doença que fizeram com que Aleijadinho ganhasse o apelido que ganhou. Ele sofreu com uma doença grave - biógrafos acreditam ter sido sífilis ou lepra, não se sabe bem -, mas a doença fez com que as mãos e os pés ficassem deformados prejudicando a sua vida e a sua rotina na oficina.

Por causa da doença, Aleijadinho teve que aprender novas formas de trabalhar. Entre 1807 e 1809 precisou mesmo fechar a sua oficina devido à saúde deteriorada. A sua mobilidade ficou especialmente comprometida depois de ter perdido os dedos dos pés, aí então passou a trabalhar de joelhos ao chão.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).