O que é uma fábula


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A fábula é um gênero literário que usa uma linguagem simples, tem um formato curto, grande parte das vezes possui animais como personagens e apresenta uma moral.

As fábulas são muito presentes no universo da literatura infantil especialmente devido a função didática que têm.

Os dois autores de fábulas mais importantes são Esopo e La Fontaine. No Brasil, o maior representante do gênero é Monteiro Lobato.

A fábula é um texto rápido, objetivo, leve e muitas vezes divertido que tem como objetivo não só entreter o leitor como também transmitir um ensinamento tendo, portanto, uma função educativa.

Na fábula o leitor é convidado a refletir sobre as atitudes humanas e os comportamentos sociais. Os animais, personagens principais da história, representam características e defeitos típicos do ser humano de modo lúdico e alegórico.

Características das fábulas

  • Os animais são os personagens principais
  • Possuem uma linguagem simples
  • Apresentam sempre uma moral, por vezes implícita e por vezes explícita no final do texto
  • Podem ser escritas tanto em verso como em prosa

Os animais são os personagens principais

A fábula tem como personagens principais animais que simbolizam atitudes e características tipicamente humanas.

Os animais são os grandes aliados dos autores das fábulas porque eles permitem uma economia do texto. Isso é, temos no imaginário coletivo o que os animais representam, eles estão de certa forma ligados à uma simbologia (a cobra, por exemplo, é associada a seres traiçoeiros).

Utilizando os animais como personagens, os escritores podem reduzir muito a quantidade de descrição do texto, resumindo a história. Na fábula O Leão, a Vaca, a Cabra e a Ovelha, por exemplo, o Leão simboliza o poder e o domínio.

Exemplo: O Leão, a Vaca, a Cabra e a Ovelha

Um Leão, uma Vaca, uma Cabra e uma Ovelha combinaram caçar juntos e repartirem o ganho. Acharam então um Veado, e depois de terem andado e trabalhado muito, conseguiram matá-lo.

Chegaram todos cansados e, cobiçosos da presa, dividiram-na em quatro partes igual. O Leão tomou uma, e disse:
- Esta parte é minha conforme o combinado.
A seguir pegou noutra e acrescentou:
- Esta pertence-me por ser o mais valente de todos.
Pegou numa terceira e disse:
- Esta também é para mim pois sou o rei de todos os animais, e quem na quarta mexer, considere-se por mim desafiado.

Assim levou todas as partes, e os companheiros acharam-se enganados e afrontados; mas sujeitaram-se por não terem tanta força como o Leão.

Moral da história: Parceria e amizade quer-se entre iguais, e o casamento também, porque quem trava amizade com maior, torna-se seu escravo e tem de lhe obedecer ou perder pelo menos a amizade, na qual o trabalho é sempre do mais fraco, e a honra e proveito do mais poderoso.

A linguagem das fábulas deve ser simples

Em termos de linguagem, as fábulas usam um texto cotidiano, possuem uma linguagem clara, simples, objetiva e acessível.

As fábulas são construídas de forma curta, breve, e devem ser entendidas pelo leitor de todas as idades de forma rápida.

Exemplo: O cão e a máscara

Procurando comida, um Cão encontrou a máscara de um homem muito bem-feita de papelão com cores vivas. Chegou-se então a ela e começou a cheirá-la para ver se era um homem que dormia. Depois empurrou-a com o focinho e viu que rebolava, e como não quisesse ficar quieta nem tomar assento, disse o Cão:

- É verdade que a cabeça é linda, mas não tem miolo.

Moral da história: A máscara representa o homem ou mulher que só se preocupa com o aspecto exterior e não procura cultivar a alma, que é muito mais preciosa. Notam-se nesta Fábula as pessoas que têm todo o cuidado com enfeites e cores supérfluas, bonitas por fora, mas cuja cabeça falta miolo.

Nas fábulas existe sempre uma moral

Toda fábula possui uma moral, que pode ser implícita ou explícita no texto. No caso de ser explícita, a moral aparece ao final do texto, depois da história já ter sido contada.

Há muitos autores, por outro lado, que preferem que a moral não esteja escrita, deixando para o leitor concluir a lição da história sozinho.

Apesar dos autores possuírem estilos diferentes - alguns deixando a moral mais evidente e outros menos - todos eles partilham o desejo de que o texto sirva como ensinamento.

Exemplo: O Galo e a Pérola

Andava um Galo a esgravatar no chão, para achar migalhas ou bichos para comer, quando encontrou uma pérola. Exclamou:
- Ah, se te achasse um joalheiro! A mim porém de que vales? Antes uma migalha ou alguns grãos de cevada.

Dito isto, foi-se embora em busca de alimento.

Moral da história: Os ignorantes fazem o que fez este Galo; buscam coisas sem valor, cevada e migalhinhas.

As fábulas podem ser escritas tanto em verso como em prosa

Em termos de forma, a fábula pode ter tanto formato de prosa como de poesia (com versos).

As fábulas até o século XVII tinham uma estrutura baseada em versos, só depois dessa data é que começaram a ser feitas também em formato de prosa, com texto corrido.

Hoje em dia é possível encontrar as duas formas: existem fábulas construídas como poemas e outras com texto escrito em parágrafos.

Exemplos:

As duas Cadelas, fábula em prosa

Estava uma cadela com as dores de parto, e não tendo lugar onde pudesse parir, suplicou a outra que lhe cedesse a sua cama, que era num palheiro, dizendo que assim que parisse se iria embora com os filhos.

Tendo pena dela, a outra cadela cedeu-lhe o lugar, mas depois do parto pediu-lhe que se fosse embora. Porém a hóspede mostrou-lhe os dentes e não a quis deixar entrar, dizendo que estava de posse do lugar, e que não a tirariam dali a não ser por guerra ou às dentadas.

Moral da história: A fábula mostra ser verdadeiro o ditado que diz: “Queres inimigo? Dá o teu e pede-o de volta.”. Porque, sem dúvida, há muitos homens como esta cadela parida, que pedem humildemente, mostrando a sua necessidade, e depois de terem o alheio em seu poder, arreganham os dentes a quem lho pede, e se são poderosos ficam com ele.

O corvo e a raposa, fábula em verso

O corvo e a raposa

Mestre corvo, numa árvore pousado,
No bico segurava um belo queijo.
Mestra raposa, atraída pelo cheiro,
Assim lhe diz, em tom entusiasmado:
Olá, bom dia tenha o Senhor Corvo,
Tão lindo é, uma beleza alada!
Fora de brincadeiras, se o seu canto
Tiver das suas penas o encanto
é de certeza o rei da Bicharada!

Ouvindo tais palavras, que feliz
O corvo fica; e a voz quer mostrar:
Abre o bico e lá vai o queijo pelo ar!
A raposa o agarra e diz: _ Senhor,
Aprenda que o vaidoso se rebaixa
Face a quem o resolve bajular.
Esta lição vale um queijo não acha?
O corvo, envergonhado, vendo o queijo fugir,
Jurou, tarde demais, noutra igual não cair.

Como surgiram as fábulas

As fábulas tiveram origem na tradição oral popular, existem desde 2000 a.C. e foram principalmente popularizadas pelos autores Esopo e La Fontaine.

A fábula moderna tem origem em Esopo, um escravo que viveu no século VI a.C. e foi o maior fabulista da Grécia antiga. De tamanha importância para o gênero, Esopo é considerado como sendo o pai da fábula e grande parte dos seus textos permanece em circulação até os dias de hoje, ainda que muitas vezes tendo sido reescrito ou reinterpretado por outros autores.

O francês Jean de La Fontaine (1621-1695) também foi muito responsável pela divulgação das fábulas. Ele começou escrevendo as suas primeiras fábulas para o filho de Luís XIV e, graças a elas, conseguiu uma pensão anual do rei. O seu primeiro volume de fábulas (chamado Fábulas escolhidas postas em versos) foi publicado em 1668. A partir de então La Fontaine passou a divulgar as breves histórias que têm os animais como protagonistas.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).