Conheça 7 obras instigantes do surrealismo


Laura Aidar
Laura Aidar
Professora de Artes

O surrealismo é um dos movimentos artísticos que mais produziu obras instigantes e enigmáticas, cheias de significados a serem descobertos.

Ele fez parte das vanguardas europeias, que foram vertentes ocorridas na Europa no início do século XX e que buscavam reformular a maneira de produzir e apreciar a arte.

Nesse contexto, surge o surrealismo, que valorizava o pensamento livre e espontâneo a fim de criar cenas inusitadas, irreais e fantasiosas. Confira a seguir, algumas dessas obras e entenda o que elas significam.

1. Persistência da memória - Salvador Dalí

persitência da memória

Persistência da memória é uma tela feita em 1931 pelo pintor catalão Salvador Dalí. Conta-se que foi criada depois de o artista se satisfazer comendo queijo camembert e ficar indisposto trabalhando em casa.

Nesse trabalho, o artista expõe uma paisagem típica da Catalunha e uma oliveira seca, árvore muito presente na região. Há também a presença de relógios disformes e derretidos, assim como o corpo prostrado que se encontra no chão.

Os relógios derretido seriam para Dalí uma simbologia da flacidez e impotência sexual, bem como de uma noção imprecisa da passagem do tempo. Um deles tem uma mosca pousada em cima como referência de que "o tempo voa".

O único relógio rígido que aparece na obra está virado para baixo e tem diversas formigas que se amontoam sobre ele numa alusão a um estado de putrefação, onde o objeto, que simboliza o tempo, é devorado como carniça.

Leita também: A persistência da memória: análise da obra de Salvador Dalí

2. Os amantes - René Magritte

os amantes

René Magritte é o autor da obra Os amantes, produzida em 1928.

Na tela, vemos um homem e uma mulher se beijando, entretanto, eles têm suas cabeças envoltas por véus. Essa obra é intrigante pois escancara a contradição entre um ato de intimidade e a impossibilidade de contato.

Podemos interpretar a cena de diversas maneiras, em que o véu pode simbolizar a superficialidade nas relações, a incapacidade de se mostrar por completo ao parceiro(a) e a ausência de conexão sentimental ou sexual entre os casais.

É uma alegoria sobre desejos frustrados e a sensação de isolamento que pode surgir mesmo dentro de uma relação amorosa.

Interessante observar que essas reflexões se estendem à atualidade e até mesmo se aprofundam, em tempos de uma "modernidade líquida", como define o pensador polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017).

Magritte utilizou esse recurso de esconder os rostos dos personagens em várias de suas telas. O pintor valorizava muito uma atmosfera de mistério e propunha questionamentos profundos em seus trabalhos.

Para saber sobre outras obras do pintor, leia: Obras para compreender René Magritte.

3. Um cão andaluz - Salvador Dalí e Luis Buñuel

Quando fala-se em obras surrealistas, normalmente se pensa nas artes plásticas, principalmente na pintura. Entretanto, essa corrente influenciou também a produção de outras linguagens, como o cinema.

Um cão andaluz é uma dessas manifestações cinematográficas e se tornou ícone do surrealismo. Concebida em 1929 por Salvador Dalí e Luis Buñuel, o filme traz uma narrativa totalmente inovadora para a época.

Na história não há continuidade cronológica ou lógica dos acontecimentos e há referência clara a conceitos da psicanálise de Freud e ao universo onírico.

O filme é mudo e mostra um personagem realizando ações inimagináveis, como na célebre passagem em que corta o globo ocular de uma mulher com uma navalha.

Toda a narrativa é recheada de absurdos, que podem ser interpretados como um passeio no interior da mente humana, revelando os impulsos violentos, perturbadores e irracionais contidos no inconsciente.

4. Café-da-manhã em pele - Meret Oppenheim

obra surrealista

Café da manhã em pele, da artista suíça Meret Oppenheim, foi feito em 1936, quando a artista tinha somente 23 anos.

O trabalho consiste em um jogo de chá com pires, colher e xícara revestidos por pele de gazela.

Essa obra é curiosa e causa estranhamento, pois desafia o pensamento e os sentidos, na medida em que sugere uma associação entre um objeto do cotidiano, usado em contato com a boca, e a impossibilidade de uso do mesmo.

Ao observar esse conjunto inusitado de chá, ocorre no expectador um misto de curiosidade e repulsa, nojo e atração, quase como se pudéssemos sentir a textura da pele de animal na língua.

A artista ficou conhecida pela criação de diversos objetos que instigam e provocam surpresa, assombro e contradições, bem ao estilo surrealista.

5. O veado ferido - Frida Kahlo

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A produção da mexicana Frida Kahlo é marcada por cenas misteriosas e cheias de pormenores que carregam significados intensos e autobiográficos.

O veado ferido, de 1946 é um desses trabalhos. Nele, a artista expõe toda a sua vulnerabilidade e tenta expurgar sentimentos de sofrimento frente à condição precária de saúde e aos conflitos no casamento com o também pintor, Diego Rivera.

Aqui, Frida aparece na forma de um veado em meio à floresta. O animal tem nove flechas que perfuram seu corpo, enquanto sua feição permanece plácida e altiva, em claro sinal de resiliência.

Pode-se fazer também um paralelo entre o corpo flechado do animal com a passagem bíblica em que São Sebastião é amarrado em uma árvore e gravemente ferido por flechas.

Apesar da obra de Frida Kahlo ser frequentemente associada ao movimento surrealista e de ter sido exposta uma vez em uma mostra junto com pintores da vertente, ela negava que fosse de fato surrealista.

A verdade é que suas intrigantes telas expressam seu universo mais íntimo.

Leita também esse artigo que preparamos sobre a artista mexicana: As obras mais deslumbrantes de Frida Kahlo.

6. O carnaval de Arlequim - Joan Miró

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Em 1924, Joan Miró produziu a tela O carnaval de Arlequim. A obra é composta por muitos elementos fantásticos que se interligam em uma profusão de cores.

O pintor dispôs seres de variados formados e tamanhos em um cômodo dividido ao meio por uma linha que delimita o chão da parede. Do lado direito, vemos também uma janela, onde é possível observar o sol e uma construção, que seria a Torre Eiffel.

O arlequim se apresenta com um enorme bigode e corpo de viola. Outra figura de destaque é uma espécie de robô que aparece tocando instrumento.

A cena representa o mundo pessoal e imaginativo do pintor, que a produziu baseada em seus delírios provocados pela fome em seus momentos de maior dificuldade financeira.

7. A caçadora de estrelas - Remedios Varo

remedios varo

Remedios Varo foi uma mulher importante na cena surrealista. A pintora nasceu na Catalunha, na Espanha, mas mudou-se para França e lá teve contato com artistas do surrealismo, sendo influenciada por eles. Mais tarde fixou residência no México e por lá ficou.

Sua obra é carregada de símbolos e elementos oníricos que transitam em um universo fantasioso e mágico.

Em A caçadora de estrelas, de 1956, Remedios exibe em sua obra uma figura feminina que carrega em uma das mãos uma gaiola com uma lua dentro. Na outra mão tem uma rede de caçadora.

A roupa que essa personagem ostenta é como um grande manto luminoso feito de cosmos e estrelas. Há ainda uma abertura na altura do peito, sugerindo um buraco negro ou mesmo uma vulva.

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Laura Aidar
Laura Aidar
Licenciada em Educação Artística pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2007. Formada em Fotografia pela Escola Panamericana de Arte e Design de São Paulo (2010).