Os 14 melhores poemas de Vinicius de Moraes


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Vinicius de Moraes (19 de outubro de 1913 - 9 de julho de 1980) foi um dos maiores criadores da cultura brasileira. Escritor, letrista, diplomata, dramaturgo, crítico de cinema, o legado deixado pelo poetinha é de valor inestimável.

É legítimo afirmar que a sua produção poética foi bastante voltada para o tema do amor, embora nas suas obras também seja possível encontrar uma meta-escrita ou até mesmo uma escrita engajada, preocupada com os problemas políticos e sociais do mundo.

Com uma linguagem extremamente acessível, sedutora e cotidiana, Vinicius de Moraes vem encantando leitores ao longo de diversas gerações.

Confira agora os seus catorze maiores poemas comentados e analisados.

1. Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

O poema de amor mais consagrado do poetinha talvez seja o Soneto de fidelidade. Os versos foram organizados a partir de uma forma clássica - o soneto - que se organiza em quatro estrofes (as duas primeiras com quatro versos e as duas últimas com três versos). O tema abordado, o amor, é um assunto que não perde a validade, nesse caso específico, Vinicius de Moraes compôs em homenagem a sua primeira mulher.

Desde 1939, ano da criação do poema, o Soneto de fidelidade vem sendo recitado por casais apaixonados. Escrito em São Paulo, quando o autor tinha apenas 26 anos, os versos transcenderam a sua realidade particular para ganharem a boca de outros enfeitiçados pelo amor.

Ao contrário da maior parte dos poemas de amor - que prometem amor eterno - nos versos acima vemos uma promessa de entrega total e absoluta enquanto o sentimento durar.

Vinicius de Moraes reconhece a perenidade do tempo e do afeto e o destino fracassado da maior parte das relações e assume, diante da amada, que a amará com toda a força enquanto o afeto existir.

Conheça mais sobre o Soneto de fidelidade. Aproveite e escute também o Soneto de fidelidade recitado pelo próprio Vinicius de Moraes:

2. A rosa de Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

Embora tenha ficado mais conhecido pela sua lírica amorosa, Vinicius de Moraes também cantou versos dedicados a outros temas. A rosa de Hiroshima é um exemplo de poema engajado, profundamente preocupado com o futuro do mundo e da sociedade.

Vale lembrar que profissionalmente Vinicius de Moraes atuou como diplomata, por isso estava a par dos severos problemas político e sociais do seu tempo.

O poema, escrito em 1973, tece uma crítica grave a Segunda Guerra Mundial, especialmente as explosões das bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki (no Japão).

A rosa de Hiroshima foi posteriormente musicado por Gerson Conrad e chegou a ser tocado pela banda Secos e Molhados no disco de estreia (assista abaixo).

Conheça mais sobre A rosa de Hiroshima.

3. Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Criado em 1951, o Soneto do amor total é uma das mais belas declaração de amor presentes na poesia brasileira. Em apenas catorze versos o eu-lírico consegue transmitir a amada a complexidade do sentimento que carrega. Trata-se, ao mesmo tempo, de um amor de amigo, mesclado com o de amante, que por vezes o engaja no cuidar e por vezes o faz ter como único instinto o possuir.

As múltiplas faces do amor romântico - muitas vezes contraditórias, inclusive - conseguiram ser traduzidas com precisão pelo poetinha em formato de verso.

Confira essa pérola recitada lindamente por Maria Bethânia:

4. Soneto de contrição

Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma…

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

O Soneto de contrição, escrito em 1938, é um dos poucos que se dirige efetivamente a alguém identificado: uma amada chamada Maria. Além do nome, mais nada saberemos a respeito da jovem por quem o eu-lírico nutre tanto afeto.

No princípio do poema, os versos comparam o amor sentido com a dor provocada por uma doença ou com a sensação de solidão presente numa criança que vagueia sozinha.

No entanto, apesar das comparações iniciais sugerirem sofrimento, logo o eu-lírico dá a volta e mostra que o afeto provocado pela amada é divino e proporciona uma calma e um descanso jamais sentidos.

5. Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Composto no mesmo ano do Soneto de contrição, Ternura também veio ao mundo em 1938 e tem como tema igualmente as consequências provocadas pelo amor romântico.

Aqui a pegada do poetinha traduz um enamoramento profundo pela amada, a quem pede desculpas inicialmente pelo amor repentino e demasiado. É como se o apaixonado não conseguisse controlar a sua entrega e se colocasse inteiramente a disposição do sentimento que o arrebata.

Apesar da intensidade provocada pelo querer, o eu-lírico garante que o amor sentido se traduz numa espécie de sossego invulgar, uma calmaria em meio ao caos.

Confira o poema Ternura recitado:

6. Eu sei que vou te amar

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar,
Mas cada volta tua há de apagar
O que essa ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver a espera
De viver ao lado teu
Por toda a minha vida.

Os versos de Eu sei que vou te amar são categóricos: o eu-lírico afirma que até o final da sua vida estará apaixonado pela amada. Ele descreve a relação como uma constância em meio as instabilidades da vida e garante que, até os seus últimos dias, irá ser fiel e declarará o seu amor.

Nos momentos de tristeza o sujeito também sugere que irá sofrer quando a amada estiver ausente, sublinhando que contará com a presença dela dentro de si ainda que ela não possa estar junto fisicamente. A composição é digna de um apaixonado, que oferece entrega total e absoluta, disponibilidade para a relação a dois e devoção sem fim à amada.

Eu sei que vou te amar virou música através de uma parceria realizada com Tom Jobim:

7. A felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar.

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei, ou de pirata, ou da jardineira
E tudo se acabar na quarta-feira.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor.

A felicidade é um coisa louca
Mas tão delicada, também
Tem flores e amores de todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo isso ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato sempre dela muito bem.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…

Nos versos acima Vinicius de Moraes discorre sobre o ideal máximo do ser humano: alcançar a felicidade. Para ilustrar os seus versos o poetinha tece uma oposição entre a felicidade e a tristeza, depois vai comparando a felicidade a partir de exemplos reais e cotidianos (a felicidade é como a pluma, a felicidade é como a gota de orvalho).

A beleza do poema é justamente essa impossibilidade de nomear o que é a felicidade, mas o manancial de possibilidades que é apresentado ao tentar descrevê-la.

Felicidade é também letra de música, composta em parceria com Tom Jobim e inicialmente cantada por Miúcha:

8. A uma mulher

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
E que era preciso fugir para não perder o único instante
Em que foste realmente a ausência de sofrimento
Em que realmente foste a serenidade.

O poema composto em 1933 conta a trágica história de um casal que se desfaz. O título do poema é uma dedicatória direcionada a alguém que desconhecemos (lê-se apenas A uma mulher). Ao longo dos onze versos ficamos conhecendo o destino de um casal que, no passado, foi apaixonado, mas que agora parece se separar definitivamente.

Quando o eu-lírico se aproxima da amada ela já está fria e distante. Ele ainda tenta transmitir um carinho, um afago, mas logo percebe que qualquer investida será em vão. A finitude já está instaurada no corpo dela e a cena já transborda sofrimento.

Ao avesso dos poemas românticos e apaixonados habitualmente escritos pelo poetinha, em A uma mulher temos uma escrita sem final feliz.

9. Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

O título do poema acima nos faz crer que se trata de uma escrita composta no final do ano. Os versos são característicos desta ocasião porque procuram fazer um balanço do passado e daquilo que realmente importa. É como se o eu-lírico olhasse para as lembranças e se desse conta do que efetivamente tem valor na vida.

O eu-lírico chega a conclusão de como deverá ser o destino daqui para a frente e tenta sublinhar a importância da delicadeza no nosso cotidiano (o falar baixo, o pisar leve).

10. Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

O triste e belo Soneto de separação aborda um dos momentos mais trágicos da vida do ser humano: o final de uma relação amorosa. Não sabemos o motivo da despedida, mas o eu-lírico transcreve nos versos acima a agonia da partida.

Em termos de estrutura, o poema é todo construído a partir de pares opostos (riso/pranto, calma/vento, momento imóvel/drama, próximo/distante).

Nos breves versos podemos sentir a fugacidade dos sentimentos e a perenidade da vida. Parece que, num piscar de olhos, toda a relação está definitivamente perdida. É como se a vida e o afeto cultivados a dois se esvaíssem num segundo.

O Soneto de separação está disponível recitado pelo próprio Vinicius de Moraes, confira:

11. Poema dos olhos da amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

Os versos dedicados ao amor compostos por Vinicius de Moraes começam tecendo uma comparação da amada com o universo náutico. A presença de um léxico ligado à navegação - as docas, o cais, os naufrágios, os navios, os saveiros - vem a serviço do enaltecimento da mulher amada. Nessa homenagem o poetinha exalta especialmente os olhos daquela que é o objeto da sua adoração.

Num segundo momento da poesia, vemos surgir a questão da presença ou não de Deus como o construtor dessa obra prima (os olhos da amada). O eu-lírico coloca a hipótese de, se Deus existir, ter sido o autor dessa mais bela criação. No caso de não existir, o elogio vai por outro caminho e encontra no olhar da amada um somatório de gerações.

Por fim, ficamos sabendo que a amada, que não acredita na existência de Deus, desperta no poeta o amor e a esperança. Se tudo o que vem do olhar dela é grande e belo, o eu-lírico descreve o seu próprio olhar, por oposição, como um olhar mendigo.

O poema, que foi musicado, encontra-se declamado pelo poetinha:

12. Tomara

Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz

E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais

Tomara foi musicada e virou das músicas mais consagradas da MPB. Aqui o eu-lírico é abandonado pela amada, que parte e deixa um rastro de saudade.

Ao invés de adotar uma postura vingativa e raivosa, o sujeito deseja que ela volte logo e que nunca mais repita a decisão de partir. A conclusão que aspira que a amada chegue é que é melhor estar a dois - ainda que com algum sofrimento - do que seguir em frente sozinho.

Os votos do apaixonado são que a saudade aperte forte e que a tristeza faça com que ela se arrependa da decisão tomada.

A canção ficou eternizada na voz de Marilia Medalha numa parceria feita também com Toquinho & Trio Mocotó:

13. Pela luz dos olhos teus

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

Os olhos da amada foram tema de uma série de poemas apaixonados de autoria de Vinicius de Moraes. No caso do poema acima figura, além do olhar da amada, o olhar do eu-lírico, que se encontra em comunhão com a sua parceira.

Da união com aquela que ama nasce a sensação de realização e de plenitude, é o contentamento que transparece no princípio da letra.

Os olhos da amada, ao longo dos versos, transmitem uma série de afetos distintos. Se num primeiro momento há a sensação de paz e tranquilidade, num segundo instante os olhos o seduzem e o enchem de euforia.

Em parceria com o grande amigo Tom Jobim, a canção, que trata acima de tudo de um bem sucedido encontro amoroso, foi interpretada pelo poetinha em encontros com Miúcha.

A música ficou conhecida pelo grande público por ter sido a música da abertura da novela Mulheres Apaixonadas, que passou na Globo durante o ano de 2003:

14. Soneto do Amigo

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

Criado no exílio, em Los Angeles, durante o ano de 1946, o Soneto do Amigo tematiza uma amizade duradoura, capaz de vencer o tempo e a distância.

Ao longo dos versos é possível perceber que a amizade já não é mais cotidiana e não permite encontros tão frequentes como outrora, mas, por outro lado, o afeto, a confiança e o querer bem permanecem idênticos.

A relação de amizade descrita é sempre de uma redescoberta, de um conhecer novamente, apesar de haver uma confiança suscitada por ser uma relação de longa data, onde os indivíduos já se conhecem profundamente.

Biografia

Marcus Vinicius de Mello Moraes, conhecido no meio artístico apenas como Vinicius de Moraes, nasceu no dia 19 de outubro de 1913, no Rio de Janeiro. Foi filho do funcionário público e poeta Clodoaldo Pereira da Silva Moraes e da pianista Lydia Cruz de Moraes. O poetinha tinha, como se pode notar, a arte no sangue.

Vinicius atuou como escritor (redigiu poemas, prosa e teatro) além de ter sido compositor, crítico literário e cinematográfico, cantor e embaixador.

Formado em Direito, o poeta sempre nutriu uma paixão profunda pela música e pela literatura, por isso acabou por conseguir conciliar carreiras tão distintas.

No campo da música, o seu maior legado talvez tenha sido Garota de Ipanema. A música composta em parceria com Antônio Carlos Jobim tornou-se um hino da Bossa Nova. Também são de sua autoria clássicos da MPB como Aquarela, A Casa, Canto de Ossanha e Chega de saudade.

Conheça As 10 músicas mais importantes da Bossa Nova.

No teatro, lançou a peça Orfeu da Conceição (1956), que foi encenada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Escreveu posteriormente outras peças que tiveram menor sucesso (As feras, Cordélia e o peregrino malvado e Procura-se uma Rosa).

Na carreira diplomática, Vinicius de Moraes serviu o país como vice-cônsul em Los Angeles, nos Estados Unidos (para onde embarcou em 1943). Depois imigrou para Paris, Montevidéu, regressou a Paris até voltar definitivamente para o Brasil (em 1964). Quatro anos mais tarde acabou por ser aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Número Cinco.

Assinatura de Vinícius de Moraes.
Assinatura de Vinicius de Moraes.

O poetinha, como era chamado pelos amigos, lançou em 1933 o seu primeiro livro (O caminho para a distância). Curiosamente esse também foi o ano da formatura na faculdade de Direito.

A sua vida particular foi bastante agitada: Vinicius de Moraes foi um eterno apaixonado e, como refém do amor, casou-se nove vezes.

O poetinha faleceu na cidade onde nasceu - no Rio de Janeiro - no dia 9 de julho de 1980, vítima de um isquemia cerebral.

Retrato de Vinícius de Moraes.
Retrato de Vinicius de Moraes.

Obras literárias publicadas

Livros de prosa

  • Para viver um grande amor (1962)
  • Para uma menina com uma flor (1966)

Livros de poesia

  • O caminho para a distância (1933)
  • Forma e exegese (1935)
  • Ariana, a mulher (1936)
  • Novos poemas (1938)
  • 5 elegias (1943)
  • Poemas, sonetos e baladas (1946)
  • Pátria minha (1949)
  • Antologia poética (1954)
  • Livro de sonetos (1957)
  • Novos poemas II (1959)
  • O mergulhador (1968)
  • A arca de Noé (1970)
  • Poemas esparsos (2008)

Conheça também

Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).