Música Aquarela, de Toquinho


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Aquarela, lançada no princípio dos anos oitenta, é uma música que remonta ao universo da infância. Ela recorda o ouvinte da necessidade de se imaginar cenários alternativos, contemplando a beleza que é poder ir além através da nossa capacidade de criação.

Pouca gente sabe, mas a composição foi primeiro lançada na Itália, onde fez enorme sucesso, e só mais tarde veio a ser traduzida e adaptada para o português por Toquinho, que é também compositor da versão original.

No nosso país Aquarela também fez enorme sucesso e ganhou ainda mais visibilidade depois de ter sido escolhida como trilha sonora de um comercial icônico lançado em 1984 pela empresa de lápis alemã Faber-Castell.

Letra

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando a imensa curva norte e sul,
Vou com ela, viajando, Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco, navegando,
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes á piscar
Basta imaginar que ele está partindo, sereno, lindo,
E se a gente quiser, ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma américa a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá

(que descolorirá)
(que descolorirá)
(que descolorirá)

Análise da Letra

A letra de Aquarela é extensa e não possui refrão, o que poderiam ser um ponto contra a canção, mas que não a impediu de fazer um enorme sucesso.

É como se o eu-lírico aqui contasse uma longa história que toca diretamente a memória do ouvinte:

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Ao longo dos muitos versos somos convocados a remontar para uma imaginação infantil, capaz de erguer imagens e cenários onde a princípio não havia nada.

No trecho inicial, apontado acima, vemos como, com apenas alguns traços, a criança cria uma série de universos possíveis tendo em mãos apenas ferramentas básicas como as linhas e o coloridos do lápis.

Tudo parece leve, sem urgência, e o narrador opta por brincar - assim como um construtor - de erguer cenários possíveis ou até mesmo ilustrar simples objetos.

Brincadeira é uma palavra-chave para se compreender a canção de Toquinho, que se baseia no universo lúdico e apela para o nosso instinto criador.

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Os versos acima dão conta até dos imprevistos que acontecem no mundo das crianças fazendo com que haja uma identificação ainda maior por parte do pequeno ouvinte - ou do ouvinte adulto que relembra a própria infância.

Quantas vezes ao desenhar não deixamos acidentalmente o papel ser manchado? Mas o fato do desenho não ter saído como previsto faz com que a imaginação seja obrigada a trabalhar e rapidamente se encontra uma solução para o problema.

Logo a seguir a letra apresenta a amplitude do mundo, fazendo com que o ouvinte explore a imaginação em toda a sua potencialidade cruzando fronteiras e descobrindo os quatro cantos do planeta:

Vai voando, contornando a imensa curva norte e sul,
Vou com ela, viajando, Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco, navegando,
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená

Para conseguir fazer essa viagem, o eu-lírico cria seus próprios meios de transporte: primeiro um barco a vela e depois um avião.

É importante também sublinhar a importância das cores na composição de Toquinho que, a todo momento, procura dar vida as paisagens que pinta.

Repare como os substantivos são seguidos de cores: o barco a vela é branco, o beijo é azul e o avião é rosa e grená.

Tudo em volta colorindo, com suas luzes á piscar
Basta imaginar que ele está partindo, sereno, lindo,
E se a gente quiser, ele vai pousar

Destacamos também o fato dessa viagem ser solitária e implicar somente a presença da criança e da sua imaginação.

É ela que rege todo o universo ao redor, a maestra da canção e, em última instância, da brincadeira: o avião pode partir ou pousar, ele só depende das ordens dadas pelo criador.

No trecho a seguir, Toquinho introduz alguns aprendizados importantes para o futuro adulto:

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Os versos ensinam que a vida é repleta de chegadas e partidas e que tudo é transitório e provisório.

A imaginação é capaz de levar a todos de um lugar a outro em pouquíssimo tempo e, graças a essa capacidade inventiva do ser humano, podemos erguer uma série de cenários possíveis.

No trecho o eu-lírico também enfatiza que o que vale mesmo é estar em comunhão com quem te faz bem. Aqui o encontro entre amigos é apresentado de modo lúdico e descontraído, como fonte de descanso e prazer diante de um cotidiano adulto atribulado.

Na passagem a seguir a letra aponta para o que virá:

Um menino caminha e caminhando chega no muro
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida, depois convida a rir ou chorar

Pela primeira vez há uma menção ao futuro, que está associado à ideia do descontrole e da incapacidade de ser domado.

Já aqui o menino aprende que muito do que o acontecerá fugirá das suas mãos e que o seu destino não é só consequência daquilo que ele deseja.

Se outrora, a desenhar, a criança tinha todo o controle dos universos paralelos, ao se desenvolver ela perceberá que muito pouco estará nas suas mãos:

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá

O fim - em última instância a morte - é tratado com extrema delicadeza, sendo compreendido como parte essencial da vida.

No decorrer dos versos finais vemos o desbotar do desenho, a pequenez do homem diante do destino desconhecido, mas ao mesmo tempo somos apresentados a uma linda imagem de uma passarela de aquarela, cheia de cor e vida.

A canção atemporal Aquarela provoca de imediato uma identificação com o leitor que retoma seus primeiros anos de vida e lembra-se com nostalgia daqueles momentos que não voltam mais.

Além de ser um belo passeio pela infância, a música é também uma reflexão sobre a vida e sobre a transitoriedade do tempo.

História da música

Aquarela é resultado de uma parceria entre um brasileiro - Toquinho - e um italiano - Maurizio Fabrizio.

Tudo começou quando Maurizio Fabrizio veio para o Brasil trabalhar com Toquinho e, durante um dos encontros, mostrou um pedaço de uma música que havia criado.

O compositor brasileiro ficou surpreendido ao perceber como a criação era parecida com um trabalho que ele havia criado algum tempo antes com o parceiro Vinicius de Moraes.

Diante da coincidência, Toquinho e Maurizio decidiram juntar então as duas composições, uma criada por cada músico em seu país de origem.

A letra foi desenvolvida na ocasião, em italiano, e a criação passou a ser chamada de Acquarello. Ela foi primeiro lançada na Itália, onde logo estourou no mercado.

Confira o áudio de Toquinho cantando a versão italiana da música:

Tempos mais tarde, depois de Acquarello já ser muito conhecida na Itália, Toquinho fez uma tradução e adaptação e divulgou-a no mercado brasileiro.

Toquinho teve dúvidas inicialmente se deveria lançar a canção no Brasil porque achava difícil a música pegar com a sua letra longa e sem refrão. Mas, fato é que, quando foi lançada no nosso país, Aquarela também fez um enorme sucesso.

Além de ter contagiado naturalmente o público, a canção foi impulsionada por dois fatores exteriores: Aquarela foi tema de uma novela da Globo onde atuava a Dina Sfat (vale sublinhar que nessa ocasião a canção tinha outra letra) e foi tema do comercial da Faber-Castell, que também ajudou a divulgar ainda mais a música.

O comercial da Faber-Castell

A canção de Toquinho foi usada em um comercial da empresa de lápis Faber-Castell que ficou famoso no ano de 1984.

Ao longo do comercial vemos os cenários imaginados na canção ganharem cor e vida no papel. O traço do desenho acompanha os versos da música:

Em 2018 a marca alemã convidou novamente Toquinho para trabalhar na divulgação da marca e adaptar a canção.

O compositor alterou a letra e na ocasião foi lançado um novo comercial, dessa vez promovendo a diversidade racial do Brasil.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).