Renascimento: um guia sobre o movimento artístico


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O Renascimento vigorou entre o século XIV e o século XVII tendo despontado na Itália num período de transição que compreendeu o final da Idade Média e o princípio da Idade Moderna. Posteriormente o movimento artístico e cultural se espalhou para outros pontos da Europa.

Grandes artistas dessa geração se destacaram como Rafael, Michelangelo, Leonardo da Vinci e Giotto nas artes plásticas. Na literatura tivemos gênios como Camões, Dante, Cervantes e Shakespeare.

O movimento cultural e artístico vigorou durante o período de adaptação entre o feudalismo e o capitalismo e rompeu com uma série de estruturas medievais. Foi uma fase da história marcada por intensas transformações sociais, políticas, financeiras e culturais.

A origem do Renascimento

O Renascimento aconteceu entre o século XIV e meados do século XVII (aproximadamente entre 1300 e 1600).

É importante sublinhar que não existe propriamente nenhuma data pontual que tenha marcado o início ou o final do Renascimento.

O Renascimento começou na Itália (nos grandes centros urbanos de Florença, Toscana e Siena), mas depois irradiou por outras partes da Europa (especialmente pela Espanha, Inglaterra, Portugal, Alemanha e Holanda).

O Renascimento teve início na Itália porque o país já era um importante centro de referência comercial, com cidades muito desenvolvidas. Havia em território italiano uma burguesia abastada consolidada e uma classe artística que vivia e se desenvolvia graças ao mecenato.

A importância do mecenato

Graças ao mecenato, os artistas puderam produzir obras de intensa qualidade. Uma elite abastada passou a patrocinar o trabalho desses criadores, garantindo assim o sustento da classe artística para que pudessem se dedicar à produção única e exclusivamente.

A prática do mecenato durante o renascimento foi essencial para incentivar a produção artística que passou a beber muito na estética grega e romana valorizando os ideais classicistas e humanistas.

Se você se interessa pelo assunto recomendamos a leitura do artigo Renascimento: tudo sobre a arte renascentista.

As três fases do Renascimento

O Renascimento costuma ser dividido pelos estudiosos em três grandes fases, são elas: Trecento, Quattrocento e o Cinquecento.

Trecento (século XIV)

O Trecento foi o início do Renascimento, um período especialmente importante para a literatura que contou com o trabalho de grandes nomes como Dante, Petrarca e Boccaccio.

Quattrocento (século XV)

O Quattrocento, por sua vez, foi a fase intermediária do ciclo - um período fundamental para as artes plásticas pela produção de Botticellli e Da Vinci.

Cinquecento (século XVI)

Já o Cinquecento teve contornos bastante particulares especialmente por ter tido uma maior influência religiosa. Roma se tornou um importante centro emanador de tendências para o resto da Europa. Na pintura vimos os trabalhos de grandes nomes como Rafael e Michelangelo e na literatura despontou Nicolau Maquiavel.

Características principais do Renascimento

Algumas das características norteadoras desse período foram:

  • O antropocentrismo (em oposição ao teocentrismo de outrora). O homem passou a se ver como o centro do universo, o protagonista da sua própria história. Pela primeira vez em muito tempo a vontade do homem passou a ter um peso fundamental. A sociedade começou a viver a era do humanismo (valorização do ser humano).

  • Se o homem ganhou assim um papel tão central, é natural que tenha florescido uma cultura do hedonismo. O prazer do homem na vida terrena se tornou uma prioridade máxima (em oposição a ideia de pecado que existia durante a época das trevas). O homem renascentista começou a crer que deveria aproveitar a vida. Esse período foi, portanto, marcado por um forte individualismo.

  • Em termos científicos, o Renascimento também foi berço do racionalismo. Durante essa fase da humanidade a razão humana passou a ser o centro norteador da sociedade. O desenvolvimento do conhecimento se deu em várias áreas como a astronomia, a matemática, a botânica, a zoologia e a medicina entre outras áreas do conhecimento. Especialmente o desenvolvimento dos conhecimentos de astronomia e matemática durante o Renascimento possibilitaram a nova empreitada da conquista do mar.

  • Durante o Renascimento a ciência ganhou protagonismo (gesto que ficou conhecido como cientificismo) em oposição ao período medieval onde a verdade era alcançada por meio da religião. Essa geração passou a dar muito valor a experimentação. Na ciência enormes avanços foram feitos por pesquisadores como Nicolau Copérnico, Giordano Bruno, Isaac Newton, Johanes Kepler e Galileu Galilei.

  • Um desenvolvimento comercial impressionante. Um dos elementos centrais que deu força ao Renascimento foi o fato do comércio ter se intensificado com a descoberta de terras distantes (especialmente o comércio com as Índias). Cristóvão Colombo desembarcou na América em 1492, Vasco da Gama contornou a África a caminho das Índias em 1498 e Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil em 1500.
  • A divulgação das obras passou a ser mais democrático graças ao advento da imprensa, em 1445, que ajudou a divulgação de livros e de informações das antigas civilizações (especialmente gregas e romanas).
  • Em termos políticos o Renascimento foi também um divisor de águas. Enquanto durante o período medieval havia uma política descentralizada, essa nova fase da história ficou marcada por uma centralização absoluta (o absolutismo monárquico). Grandes filósofos escreveram clássicos da política como é o caso do O príncipe (1513), de Maquiavel.
  • A estética do Renascimento foi bem distinta daquela que se estavamos habituados a ver durante a Idade Média. Em termos artísticos, esse período histórico foi profundamente marcado pela valorização da cultura da antiguidade clássica, de valores greco-romanos.

5 grandes obras para conhecer melhor o Renascimento

Muitas criações poderiam ser elencadas como grandes obras do Renascimento. Artistas desse período entraram para o cânone ocidental com trabalhos importantíssimos como:

Homem vitruviano, de Leonardo da Vinci

Homem Vitruviano
Desenho Homem vitruviano (1490), de Leonardo da Vinci

O desenho Homem vitruviano foi um estudo de anatomia realizado por Leonardo da Vinci (1452-1519) no seu diário para compreender as proporções do corpo humano. O seu projeto estava em sintonia com o espírito humanista da época renascentista, que colocou o homem pela primeira vez no centro do universo.

Através da obra de Da Vinci, que nos apresenta dois homens sobrepostos em posturas distintas, percebemos também o desejo de conhecer mais sobre a natureza humana, explorar a razão por trás das nossas formas físicas. Num período marcado pela experimentação, Homem vitruviano ilustra bem o impulso da época pela pesquisa e pelo conhecimento.

O desenho também reproduz a beleza de acordo com o modelo clássico, que era profundamente apreciado pelos renascentistas.

A ambição de Da Vinci era conhecer mais as proporções do corpo humano numa tentativa de entender melhor o funcionamento da arquitetura (segundo o criador, uma edificação perfeita deveria seguir a proporção e a simetria do corpo humano).

Para o artista, como o homem era a maior criação de Deus, ele deveria ser também o modelo do mundo. Na época em que fez o desenho, Da Vinci estava trabalhando numa série de construções de edifícios no seu país de origem.

Quer saber mais sobre uma das obras clássicas de Leonardo da Vinci? Então conheça o artigo Homem vitruviano.

Escultura Davi, de Michelangelo

Davi de Michelangelo
Escultura Davi (1502-1504), de Michelangelo

Não por acaso Michelangelo (1475-1664) escolheu para protagonizar a sua bela escultura um corpo humano perfeito. O personagem eleito, Davi, faz referência à história bíblica de Davi e Golias.

Durante o Renascimento vimos a ascensão do antropocentrismo, que se tornou um valor central da cultura colocando o homem no centro do universo. O homem, de fato, passa a receber enorme protagonismo, repare por exemplo como a estátua tem dimensões impressionantes. Davi é uma peça feita em mármore maciço com mais de 5 metros de altura.

Há na escultura um culto ao físico numa tentativa de registrar o corpo humano em cada detalhe, louvando a beleza da espécie. A obra pode ser lida também como uma representação do hedonismo, outra característica da época, que dizia respeito ao prazer terreno e ligado ao corpo.

Davi, um dos ícores do Renascimento, é uma estátua feita com fortes referências à cultura clássica, uma constante em criadores renascentistas que procuravam beber em fontes romanas e gregas para comporem as suas obras. Observe como a estátua apresenta um corpo musculoso e nu, tipicamente clássico, para louvar a obra-prima criada por Deus.

A obra se encontra na Galleria dell'Accademia, em Florença, um dos centros de referência do Renascimento. Leia mais sobre a criação no artigo Davi.

Quadro O nascimento de Vênus, do italiano Sandro Botticelli

O nascimento de Venus
Quadro O nascimento da Vênus (1482-1485), do italiano Sandro Botticelli

A tela O nascimento da Vênus, um ícone do Renascimento, é um exemplo importante da retomada dos valores da cultura clássica greco-romana.

O pintor italiano Sandro Botticelli (1445-1510) pintava habitualmente cenas bíblicas e, depois de uma visita à Roma, começou a utilizar nos seus quadros passagens da mitologia grega. Nessa tela específica vemos, por exemplo, um personagem importante da Grécia: Zephyrus, o deus do vento.

A imagem também nos mostra elementos da cultura pagã, outra tendência renascentista que provocou uma verdadeira revolução artística.

A peça foi encomendada por Lorenzo, um banqueiro e político que foi mecenas de Botticelli. Durante o Renascimento a pratica do mecenato era bastante frequente, o que proporcionou um verdadeiro desenvolvimento no mundo das artes.

Outros elementos que saltam aos olhos é a valorização da natureza e o emprego da perspectiva/profundidade, também características recorrentes do período em que a tela foi pintada.

Conheça o artigo completo do quadro O nascimento de Vênus.

Cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, de Brunelleschi

cúpula Catedral de Santa Maria del Fiore
Cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, projetada por Filippo Brunelleschi

Na arquitetura um dos maiores nomes do Renascimento foi o do italiano Filippo Brunelleschi (1377-1446), um ourives que se tornou responsável pelo projeto da cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença.

A Igreja é o primeiro símbolo da arquitetura renascentista e mostra a magnitude da Itália, que vivia um período de plenitude econômica especialmente devido ao comércio de lã e seda.

A construção de Brunelleschi é um exemplo do poderio italiano durante o Renascimento e nos mostra a capacidade técnica que havia sido desenvolvida graças aos avanços matemáticos.

O Renascimento foi uma fase marcada pelo cientificismo, pelo racionalismo e a obra de Brunelleschi é icônica nesse sentido. O artista fez cálculos precisos de modo que a obra, enorme, não precisasse de andaimes - a sua ideia inovadora foi construir uma cúpula dentro da outra, ambas conectadas por uma escada.

Convém sublinhar que a obra da cúpula da Catedral de Santa Maria del Fiore, que começou em 1420 e terminou em 1436, era muito importante pois se tratava da principal igreja de um dos maiores centros urbanos da Itália.

Se desejar saber mais sobre essa construção impressionante, recomendamos a leitura do artigo Igreja de Santa Maria del Fiore.

Quadro Casamento da Virgem, de Rafael

Quadro Casamento da Virgem (1504), de Rafael
Quadro Casamento da Virgem (1504), de Rafael

Rafael Sanzio (1483-1520) foi um dos maiores nomes do Renascimento e pintou a tela Casamento da Virgem, em 1504, por encomenda da importante família Albizzini. A obra é um exemplo da prática do mecenato e serviu para ilustrar a igreja de São Francisco em Cittá di Castello.

O arquiteto e pintor foi mestre na escola de Florença, uma das mais importantes do período renascentista. Ao lado de Leonardo da Vinci e Michelangelo, Rafael formou a famosa tríade de mestres renascentistas.

Casamento da Virgem foi a sua primeira obra famosa. Rafael pintava sobretudo cenas religiosas, tradicionais, a partir dos ideais clássicos de beleza, com muita harmonia, e usando técnicas renascentistas como o chiaroscuro e o sfumato.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).