O Pensador, de Rodin


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A célebre estátua O Pensador (Le Penseur), de Rodin, é das mais famosas esculturas do mundo.

A obra possui diversas versões e tem uma longa e interessante história por trás da sua concepção.

Que tal conhecer um pouco dos bastidores da criação dessa obra-prima?

O Pensador
Escultura O Pensador (Le Penseur) no Museu Rodin, em Paris.

Porque Rodin criou O Pensador?

Auguste Rodin, fascinado com a história contada no livro A divina comédia, já havia criado um Pensador representando Dante Alighieri, autor do livro, no ano de 1880. A escultura, naquela ocasião chamada de o Poeta, estava inserida em um postal e ilustrava um homem muito menor do que o tamanho natural, com apenas cerca de 70 cm de altura.

O artista havia recebido a tal encomenda para esculpir o portal no dia 16 de agosto de 1880. Ele ficaria exposto no Cour de Comptes, no Museu de Arte Decorativa (Paris), que havia sofrido um incêndio.

Quem sugeriu como tema do portal o romance de Dante foi o próprio Rodin. A ideia original era que a peça, enorme, tivesse os personagens centrais do livro e o escritor.

A porta do inferno (no original La Porte de l’Enfer) foi concluída após longos anos de trabalho (1880-1917) com o Pensador localizado na parte de cima da criação observando os círculos do Inferno, meditando sobre a sua própria obra. A cobertura de bronze o portal que atualmente possui não chegou a ser vista pelo próprio Rodin.

porta do inferno
A porta do inferno criada entre 1880 e 1917.

O Pensador (originalmente intitulado de o Poeta), fora, portanto, apenas parte de uma obra maior.

O Poeta foi rebatizado de o Pensador após os trabalhadores da fundição perceberem que a escultura possuía traços de esculturas de Michelângelo.

Michelângelo (1475-1564), autor de Lorenzo de Medici (1526-1531) e Crouching Boy (1530-1534), foi, de fato, uma das inspirações de Rodin.

Lorenzo
Lorenzo de Medici, feito por Michelângelo entre 1526 e 1531.
Crouching boy
Crouching Boy, feito por Michelângelo entre 1530 e 1534.

Somente em 1888, a peça O Pensador foi exibida como obra autônoma, independente do conjunto.

Em 1904, a escultura ampliada foi divulgada ao público. Rodin fez ao longo da vida várias versões do Pensador, provavelmente a mais famosa seja a feita em bronze.

Análise: o que O Pensador nos diz sobre a atividade reflexiva?

Há quem diga que O Pensador não procurava representar propriamente Dante Alighieri. Existem diversas teorias em torno da criação: a peça poderia representar o próprio Rodin refletindo sobre o seu trabalho ou até mesmo Adão duvidoso em relação as decisões que tomaria no paraíso.

O fato do Pensador estar posicionado na parte superior do portal faz com que se suscite a dúvida se seria ele uma espécie de juiz espiando o que se passava no inferno ou se seria também um condenado, assim como os outros, as trevas.

Chama a atenção a riqueza de detalhes da obra. Convém reparar, por exemplo, no formato das sobrancelhas e na contração dos pés. O próprio Rodin alertou na ocasião da criação para os detalhes da escultura:

“O que faz meu Pensador pensar é que ele pensa não só com o cérebro, mas também com suas sobrancelhas tensas, suas narinas distendidas e seus lábios comprimidos. Ele pensa com cada músculo de seus braços e pernas, com seus punhos fechados e com seus artelhos curvados”

É interessante observar também o fato do Pensador estar nu. Uma das explicações possíveis para a nudez da escultura é o fato do artista admirar profundamente o estilo de Michângelo e dos renascentistas que compunham nus heroicos.

O Pensador pertence a qual movimento artístico?

O Pensador é uma obra de arte Moderna. Rodin é considerado pioneiro, um dos pais da escultura moderna.

As suas peças fundaram a modernidade apesar de nunca terem se rebelado contra os grandes mestres clássicos. Nesse sentido, Rodin contraria a definição de Magit Rowell:

"Falar da escultura moderna significa portanto evocar uma escultura que rompeu com as tradições anteriores para se ligar resolutamente a um 'presente' que escolhemos situar entre 1900 e 1970."

Rodin assumiu ter bebido em fontes do passado para construir as suas obras. Já em relação ao método de trabalho, o artista demonstrou ter uma atitude profundamente moderna ao deixar transparecer o processo de como realizou as suas peças, permitindo que o público tivesse acesso, por exemplo, aos vestígios do processo de moldagem.

A sua arte testemunhou o mundo moderno e procurou o reproduzir, dando notícia do que foi viver em um período tão importante da história francesa.

Críticos e historiadores da arte também afirmam que o escultor teve uma postura um tanto naturalista para a sua época, no sentido em que a natureza foi a sua maior fonte de inspiração e as suas obras procuravam reproduzi-la com o maior grau de rigor possível.

Rodin era fascinado pelo movimento do corpo humano e por isso pedia que os seus modelos agissem com vitalidade e se movimentassem. Ele procurava transpor esses gestos para dentro das esculturas e achava que as emoções podiam ser lidas pela expressão dos corpos.

Onde é possível conhecer pessoalmente O Pensador?

Rodin fez diversas versões de O Pensador. Uma delas se encontra no Museu Rodin, em Paris. Também em Paris existe uma réplica enorme disposta em frente ao Pantheon.

Há igualmente uma versão em Meudon, no jardim da casa de Rodin, e uma sobre o túmulo do escultor.

No Brasil temos uma versão disposta no Institulo Ricardo Brennand, em Pernambuco. A peça foi feita utilizando o molde original e atualmente está posicionada na galeria, com acesso restrito.

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O Pensador no Institulo Ricardo Brennand, em Recife.

Existe também uma versão nos jardins do curso de Filosofia da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

A versão americana foi adquirida em 1930 pelo presidente Nicholas Murray Butler diretamente do Museu Rodin.

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The Thinker na Universidade de Columbia.

Quem foi Auguste Rodin?

Nascido em 12 de novembro 1840, em Paris, Auguste Rodin foi dos mais importantes escultores franceses. Aos 13 anos, demonstrando já um interesse profundo pelas artes, entrou na escola de desenho.

O escultou tinha interesse em cursar o ensino formal e por isso se candidatou a Escola de Belas Artes, em Paris. Foi recusado por três vezes e acabou desistindo da empreitada acadêmica. Tornou-se um autodidata trabalhando por conta própria e ganhou a vida nos primeiros anos fazendo peças decorativas.

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Rodin flagrado no momento de uma criação.

Rodin começou a carreira profissional ao lado do escultor Albert Carrier-Belleuse. Sua primeira tentativa de participar de uma exposição oficial aconteceu em 1864, quando teve rejeitada a sua peça intitulada O homem com o nariz partido.

Sete anos mais tarde, ao lado de Albert, Rodin começou a trabalhar na decoração de monumentos públicos em Bruxelas.

Rodin viveu durante um período de forte ebulição artística, o artista teve como contemporâneos Monet e Edgar Degas.

Em termos de materiais, o escultor foi um entusiasta da diversidade: trabalhou com bronze, argila, mármore e gesso.

Morreu em 17 de novembro de 1917, em Meudon, aos setenta e sete anos.

Retrato de Rodin.
Retrato de Rodin.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).