10 músicas inesquecíveis de Michael Jackson


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

O Rei do Pop, Michael Jackson (1958-2009), marcou gerações com os seus hits inesquecíveis. O menino que começou a carreira com os irmãos formando o The Jackson Five acabou por seguir carreira solo e emplacou uma série de clássicos do pop.

Envolto em uma sequência de polêmicas sobre os possíveis casos de pedofilia, a reputação de Michael foi abalada, mas as suas canções continuaram fazendo sucesso mundo afora. Selecionamos aqui as dez músicas inesquecíveis do astro e descrevemos o significado de cada uma delas.

1. Billie Jean

Billie Jean is not my lover (Billie Jean não é minha amante)
She's just a girl who claims that I am the one (Ela só é uma garota que afirma que eu sou o tal)
But the kid is not my son (Mas a criança não é meu filho)
She says I am the one, but the kid is not my son (Ela diz que eu sou o tal, mas o garoto não é meu filho)

Um dos maiores sucessos comerciais da carreira de Michael, Billie Jean foi lançada em 1982 e está incluída no disco Thriller, seu sexto álbum solo.

A letra conta a história de um relacionamento fugaz vivido pelo eu-lírico. A parceira é caracterizada como uma bela jovem, com feitio de atriz de cinema, e ele se descreve como sendo "o cara".

Apesar dos avisos que o eu-lírico ouviu de todos ao redor, o casal fica junto brevemente, num encontro que parece ser meramente frugal. Tempos depois a moça reaparece e afirma que ele é o pai do seu filho. O eu-lírico, por sua vez, rebate e argumenta que o filho não é dele.

A letra fala sobre interesse, cobiça, individualismo e critica aqueles que desejam tirar algum proveito se envolvendo com pessoas famosas.

Sobre a criação da música, na sua autobiografia (Moonwalk), Michael confessou que, ao contrário do que muitos acreditavam, a inspiração para escrever a canção não foi retirada da sua vida real:

"Nunca houve uma verdadeira Billie Jean. A garota da música é uma mistura de pessoas com as quais os meus irmãos foram atormentados ao longo dos anos. Eu nunca conseguia entender como essas garotas poderiam dizer que estavam carregando o filho de alguém quando não era verdade."

Billie Jean foi motivo de discussão entre o astro do pop e o seu produtor na ocasião (Quincy Jones). O produtor não queria incluir a faixa no disco porque não gostava especialmente da introdução, que achava muito longa, e repudiava o título (ele temia que a personagem da canção fosse confundida com a tenista Billie Jean King). Quincy Jones sugeriu que a canção se chamasse Not My Lover.

Michael bateu o pé e afinal venceu a luta: a canção entraria em Thriller, o nome da personagem e o título da música não foram alterados.

Em 1983, no 26º Grammy a música Billie Jean arrecadou dois prêmios: Melhor Canção de Rhythm&Blues e Melhor Performance Vocal de R&B Masculino.

2. They Don't Care About Us

Tell me what has become of my rights (Diga-me o que aconteceu com meus direitos)
Am I invisible 'cause you ignore me (Eu sou invisível? Porque você me ignora).

A música, com batidas fortes, pertence ao álbum HIStory (1995). A canção é uma tentativa de Michael Jackson de promover uma conscientização do seu público para as causas relacionadas com os direitos humanos.

Como negro, Michael também pretendia sensibilizar os seus ouvintes e dar visibilidade para a questão do racismo e do preconceito.

A canção é, ao mesmo tempo, uma crítica para que os poderosos não ignorem os anônimos. Vemos na letra uma clara oposição entre nós (as pessoas de carne e osso, humildes e vulneráveis) e eles (os que estão no comando):

All I wanna say is that (Tudo que quero falar)
They don't really care about us (É que eles não ligam pra gente)
All I wanna say is that (Tudo que quero falar)
They don't really care about us (É que eles não ligam pra gente)

A letra cita alguns nomes importantes de pessoas que lutaram pela igualdade dos direitos civis como Roosevelt e Martin Luther (relembre o famoso Discurso I Have a Dream, de Martin Luther King).

They Don't Care About Us foi uma das canções mais polêmicas do cantor, que esteve acusado de antissemitismo e acabou por fazer pequenas alterações na letra.

Para os brasileiros They Don't Care About Us ficou especialmente marcada no imaginário coletivo porque um dos clipes foi gravado no nosso país (mais precisamente em Salvador, no Pelourinho, e no Rio de Janeiro, na favela de Dona Marta):

3. Thriller

'Cause this is thriller (Porque isso é terror)
Thriller night (Noite de terror)
There ain't no second chance (Não há segunda chance)
Against the thing with the forty eyes, girl (Contra essa coisa de quarenta olhos, garota)
(Thriller) (Terror)
(Thriller night) (Noite de terror)
You're fighting for your life (Você está lutando por sua vida)
Inside a killer (Numa noite assassina)
Thriller tonight (de terror)

Quem não se recorda das batidas de Thriller? A música de terror que dá nome ao álbum lançado em 1982 foi um dos ápices da carreira de Michael Jackson. O disco Thriller aliás, foi dos álbuns mais bem sucedido em termos comerciais de todos os tempos, alcançando 33 discos de platina.

A canção pop invoca um ambiente soturno, mal assombrado, escuro, que provoca arrepios no ouvinte. Já é madrugada quando o eu-lírico percebe um movimento estranho, que não consegue identificar, e o pânico toma conta do seu corpo.

A letra reproduz imagens dignas de um pesadelo ou retiradas de um filme de terror. Vemos o eu-lírico tentar gritar, sentir o coração parar de bater e o corpo congelar com medo das bizarras criaturas.

A noite de terror assombra o ouvinte, que sente, assim como o eu-lírico, o corpo paralisado e as mãos frias. Ele deseja com todas as forças que o cenário seja fruto apenas da sua imaginação. Aliens, demônios e fantasmas fazem parte dos seres assustadores que comparecem na letra.

O clipe, dirigido por John Landis (diretor de Um lobisomem americano em Londres, 1981) e lançado em 2 de dezembro de 1983, fez enorme sucesso. A produção, filmada em Los Angeles, foi a mais cara que já havia sido feita até então tendo custado meio milhão de dólares. O trabalho reune uma forte caracterização, um cenário elaborado e figurinos apropriados para o tema (quem não se recorda da célebre jaqueta vermelha usada pelo Rei do Pop?).

O clipe recebeu alguns prêmios, entre eles o Grammy de Melhor Vídeo Musical Longo e três prêmios MTV Video Music Awards:

4. Beat It

Just beat it, beat it, beat it, beat it (Apenas caia fora, caia fora, caia fora)
No one wants to be defeated (Ninguém quer ser derrotado)
Showin' how funky and strong is your fight (Mostrando quão covarde e forte é sua luta)
It doesn't matter who's wrong or right (Não importa quem está errado ou certo)

Beat It, lançada em 1983, foi a última canção composta para o álbum Thriller. Na ocasião o produtor Quincy Jones havia pedido para Michael criar uma música de rock, foi dessa "encomenda" que surgiu Beat It.

A canção que ficou consagrada como um dos maiores sucessos do Rei do Pop conta com o solo de guitarra de Eddie Van Halen, que se sentiu tão honrado por ser convidado para participar da gravação que se recusou a receber qualquer tipo de pagamento.

A letra de Beat It pretende deixar claro para o ouvinte que se deve abominar toda e qualquer forma de violência, por mais que se esteja vivendo uma tremenda injustiça.

O eu-lírico é bastante direto quando orienta que devemos nos afastar de tudo o que promova a violência. Mesmo que tenhamos razão na questão, mais vale sair de cena do que partir para a agressão física.

A letra, criada no princípio dos anos oitenta, é uma resposta às brigas de rua que aconteciam entre gangues rivais nos Estados Unidos. As palavras são frontais: é melhor fugir de uma situação de perigo do que enfrenta-la e correr o risco de ser agredido: "Don't wanna see no blood, don't be a macho man" (Não queira ver nenhum sangue, não seja um machão).

Michael Jackson disse em entrevista a respeito da composição da música: "Para mim, a verdadeira bravura está na resolução das diferenças sem uma luta e tendo a sabedoria para fazer esta solução possível."

5. Smooth Criminal

Annie are you ok? (Annie você está bem?)
Will you tell us that you're ok? (Você dirá para nós se você está bem?)
There's a sign in the window (Há um sinal na janela)
That he struck you - a crescendo Annie (Que ele golpeou você - um estrondo Annie)
He came into your apartment (Ele veio para dentro do seu apartamento)
He left the bloodstains on the carpet (Ele deixou a mancha de sangue no carpete)

Smooth Criminal é um hit presente no álbum Bad, lançado em 1987. A letra conta a história de um crime, com direito a invasão de propriedade pela janela, mancha de sangue no tapete e perseguição.

O nome Annie é chamado diversas vezes ao longo da canção, ela é supostamente a vítima do delito.

O eu-lírico da canção é, assim como nós, um espectador da cena do crime. Ele não afugenta ou confronta o bandido, mas vai socorrer Annie, a vítima, e pergunta repetidas vezes se ela está bem.

Uma curiosidade: a pulsação que ouvimos na gravação é na verdade o batimento do próprio Michael Jackson que foi processado digitalmente.

O clipe de Smooth Criminal ficou marcado no imaginário coletivo porque, na coreografia realizada pelo grupo, os bailarinos se inclinavam fazendo um ângulo de 45 graus. Mais tarde viemos a saber que o movimento, na verdade, se tratava de um gesto de ilusionismo realizado com um sapato especial que se fixava ao chão.

6. We Are The World

We are the world, we are the children (Nós somos o mundo, nós somos as crianças)
We are the ones who make a brighter day (Nós somos aqueles que deixam o dia mais brilhante)
So let's start giving (Então, vamos começar a doar)

A iniciativa para a criação de We Are The World foi liderada pelo empresário Harry Belafonte, que decidiu usar a sua preciosa rede de contatos para contribuir para a minimização da fome e de algumas doenças no continente africano.

A canção We Are The World acabou por ser cantada pela nata de artistas norte-americanos, entre os famosos estavam Stevie Wonder, Diana Ross, Bob Dylan e Tina Turner.

Os autores da canção foram o Rei do Pop e Lionel Richie. Ambos abraçaram a causa imediatamente e mobilizaram todos os esforços para levar a frente a campanha de caridade que visava melhorar as condições de vida na África.

A letra procura sensibilizar o público fazendo-o compreender que vivemos em rede, somos responsáveis também por quem está ao nosso redor (seja mais perto ou mais distante). A canção empodera o ouvinte e o mobiliza a efetivamente agir.

A gravação, realizada em janeiro de 1985, contou com a presença de 46 cantores super populares. No dia 7 de março a gravação foi transmitida pela primeira vez no rádio. Os lucros obtidos foram distribuídos para uma série de países como a Etiópia e o Sudão. A iniciativa foi um sucesso absoluto tendo arrecadado mais de cinquenta e cinco milhões de euros segundo a Forbes.

We Are The World recebeu quatro prêmios Grammy em 1985, foram eles: Melhor Gravação do Ano, Canção do Ano, Melhor Clipe e Melhor Performance Pop de Dupla ou Conjunto.

Após o terremoto de 2010, no Haiti, a canção foi regravada com o intuito de ajudar as vítimas da terrível catástrofe natural.

7. Heal The World

Heal the world (Cure o mundo)
Make it a better place (Faça dele um lugar melhor)
For you and for me (Para você e para mim)
And the entire human race (E toda a raça humana)

Inserido no álbum Dangerous, lançado em 1991, Heal The World foi bastante julgada por uma parcela de críticos norte-americanos que achavam a canção muito parecida com We Are The World.

Ambas as canções partilham um objetivo comum: apelam para que o ouvinte transforme o mundo em um lugar melhor. As duas letras convocam quem está do outro lado a efetivamente atuar e promover a mudança que deseja assistir na sociedade.

Longe de serem canções conformadas, o que elas pretendem é instaurar no ouvinte a atitude de mobilização e reação: "If we try we shall see" (Se nós tentarmos, nós veremos).

A letra entusiasma o ouvinte a abandonar a sua zona de conforto e, de fato, agir. A ideia é que, se atuarmos já - aqui e agora -, poderemos transformar o mundo em um lugar melhor. Michael nos estimula não só a pensar em um futuro melhor para os nossos filhos e netos como também para toda a raça humana.

Em 1992 o cantor criou a Fundação Heal The World, um espaço para ajudar crianças ao redor do mundo dando acesso à educação, tratamentos de saúde e prevenções contra o uso de drogas. O nome da organização foi dado justamente em homenagem à canção.

8. Bad

Because I'm bad, I'm bad (Porque eu sou mau, eu sou mau
Shamone (come on) (Vambora (vamos lá)
(Bad bad-really, really bad) (mau, mau - realmente, realmente mau)
You know I'm bad, I'm bad (Você sabe que eu sou mau, eu sou mau)
You know it (Você sabe disso)

A canção que dá nome ao álbum lançado em 1987 era para ter sido inicialmente cantada pelo dueto Michael Jackson e Prince. Prince, no entanto, acabou não aceitando o convite e a música ficou mesmo só a cargo de Michael.

Jackson conta na sua autobiografia (Moonwalk) que, para compor Bad, se inspirou na história de um jovem pobre que foi enviado para estudar numa escola privada, em um local distante. Ao regressar ao antigo bairro é provocado pelos antigos amigos, que acham que o jovem se transformou.

O clipe Bad, de Michael, foi dirigido pelo premiado cineasta Martin Scorcese e tem mais de dezoito minutos de duração. O roteiro foi escrito por Richard Price e a história é baseada numa situação real vivida por Edmund Perry, um garoto negro de dezessete anos que havia ganhado uma bolsa para estudar em Stanford. Edmund foi assassinado em 1985 por engano por Lee Van Houten, um policial à paisana:

9. Love Never Felt So Good

Baby, every time I love you (Querida, toda vez que eu te amo)
In and out of my life, in out baby (Entrando e saindo da minha vida, entrando e saindo, querida)
Tell me, if you really love me (Me diga, se você realmente me ama)
It's in and out of my life, in out baby (Entrando e saindo da minha vida, entrando e saindo, querida)
So baby, love never felt so good (Então, querida, o amor nunca foi tão bom)

A canção Love Never Felt So Good foi gravada no álbum póstumo Xscape, lançado em maio de 2014. A música, criada por Michael Jackson em parceria com Paul Anka, teria sido gravada originalmente em 1983.

No ano a seguir, Paul enviou a canção para Johnny Mathis, que gravou a música no seu disco A Special Part of Me (1984).

Em 2006 a canção gravada por Jackson no princípio dos anos oitenta vazou. Love Never Felt So Good é uma canção que fala sobre a sensação de arrebatamento sentida por um rapaz apaixonado.

Nota-se no decorrer da letra que o eu-lírico está completamente envolvido, encantado, de corpo e alma na relação. Já a amada, indecisa, parece por vezes estar com os dois pés no relacionamento e por vezes dá sinais de querer desistir. O ritmo pop é resultado das combinações das batidas fortes com uma letra leve com a qual o público se identifica.

A gravação inédita divulgada em 2 de maio de 2014 contou com a participação de Justin Timberlake. Alguns dias mais tarde foi divulgado um clipe que combinava as imagens dos dois cantores.

10. You Are Not Alone

You are not alone (Você não está sozinho)
I am here with you (Eu estou aqui com você)
Though we're far apart (Mesmo nós estando separados)
You're always in my heart (Você está sempre no meu coração)
You are not alone (Você não está sozinho)

Lançada no disco HIStory (1995), a música You Are Not Alone foi composta por R. Kelly. A criação surgiu depois de um pedido de Michael, que ficou encantado após ouvir o disco Bump And Grind.

A letra fala da solidão e do abandono e faz com que o ouvinte sinta uma identificação imediata com o eu-lírico. Quando alguém parte, quem fica sente o peso do vazio e da saudade. Apesar de haver uma espécie de cena de despedida, o eu-lírico afirma que o interlocutor não está sozinho.

O clipe, dirigido por Wayne Isham, foi considerado bastante polêmico quando lançado porque exibia o cantor e a sua então esposa, Lisa Marie Presley, nus e aparentemente vulneráveis. As gravações foram feitas na propriedade Neverland e no teatro Hollywood Palace.

Cultura Genial no Spotify

Se é fã das canções de Michael Jackson descubra agora a lista no Spotify que preparamos especialmente para servir de trilha sonora para esse artigo:

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).