Os 13 maiores poemas de amor de todos os tempos


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Quem é que, no auge da paixão, nunca quis enviar uma poesia de amor? Ou, quem sabe, escrever uma?

Reunimos aqui alguns dos maiores poemas de amor - de várias décadas e países diferentes - na esperança de inspirar os amantes mundo afora.

Amar!, de Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

O soneto de Florbela Espanca - uma das maiores poetisas portuguesas - fala de amor a partir de uma perspectiva pouco usual. Aqui o eu-lírico não se declara ao amado nem promete amor incondicional, o que ele aspira é liberdade.

Longe de se comprometer a amar uma só pessoa, o que o sujeito poético deseja é experienciar o amor na sua plenitude, sem estar preso a alguém.

O poema nos fala também sobre a consciência da finitude humana e o desejo de, durante o pouco tempo que estamos na terra, ser capaz de experimentar todo o tipo de afetos com a máxima intensidade.

Morrer de amor, de Maria Teresa Horta

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

O sucinto poema Morrer de amor, publicado pela escritora portuguesa Maria Teresa Horta na obra Destino, resume em alguns breves versos a sensação de arrebatamento experienciada pelos amantes.

Usando um número muito reduzido de palavras, a criação fala da relação corporal entre os apaixonados, a sensação de urgência de satisfazer o outro e a capacidade de colocar o amor em primeiro lugar, deixando todo o resto em segundo plano.

Confissão, de Charles Bukowski

Esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

O poeta norte-americano Charles Bukowski ficou conhecido por ter uma vida errante: boêmio, o seu dia a dia (e também os seus poemas) ficou marcado pelo álcool e pela gandaia. Raros são os poemas do autor dedicados ao amor - Confissão faz parte dessa escassa lista.

O próprio título do poema denuncia o seu tom: numa confissão temos um registro íntimo, que externaliza segredos e medos que não ousamos partilhar geralmente.

Aqui o sujeito poético prevê a aproximação com a morte e desabafa que o seu maior medo é a solidão da mulher, que ficará no mundo sem a sua companhia. Em algumas poucas linhas, o eu-lírico se desmonta - já sem amarras no final da vida - e finalmente assume o afeto geralmente silencioso que carrega pela amada.

Aproveite para ler o artigo 15 poemas de Charles Bukowski.

Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (Excerto VIII), de Pablo Neruda

Sim não foi porque teus olhos tem cor de lua,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e prisioneira tens a agilidade do ar,
sim não foi porque és uma semana de âmbar,
sim não foi porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és algum pão que a lua fragrante
elabora passando sua farina pelo céu,
oh, bem amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo a árvore da chuva,
E tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso vê-lo todo:
veio em tua vida todo o vivente.

O poeta chileno Pablo Neruda, que chegou a ser laureado com um Nobel, escreveu centenas de poemas de amor que se tornaram clássicos da literatura latino-americana.

O trecho acima faz parte do belíssimo (e longo) Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Nessa composição encontramos uma declaração de amor nos moldes tradicionais. São versos que exaltam a beleza da mulher amada e prometem uma entrega e devoção absoluta.

Para elogiar aquela que ama, o eu-lírico recorre a uma série de metáforas feitas a partir de elementos da natureza (o céu, a lua, o fogo, o ar).

Conheça o artigo 5 poemas de amor encantadores de Pablo Neruda.

Às Vezes com Alguém que Amo, de Walt Whitman

Às vezes com alguém que amo, me encho de fúria, pelo medo de extravasar amor sem retorno;
Mas agora penso não haver amor sem retorno – o pagamento é certo, de um jeito ou de outro;
(Eu amei certa pessoa ardentemente, e meu amor não teve retorno;
No entanto, disso escrevi estas canções.)

O poeta norte-americano Walt Whitman, tido como o pai do verso-livro, criou raras composições dedicadas ao amor romântico, uma delas foi Às Vezes com Alguém que Amo.

Em apenas quatro versos livres e longos, encontramos um sujeito poético com medo de amar em excesso e não ser retribuído. Muitos de nós já experimentamos a sensação de ter demasiado amor para entregar e temer não sermos correspondidos.

Mas a conclusão do poema, original, é que sempre há um retorno: ainda que não sejamos amados de volta, usamos esse sentimento para criar belas composições poéticas.

Soneto 116, de William Shakespeare

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

Talvez o autor que, de imediato, mais associamos ao tema do amor romântico seja William Shakespeare. O inglês, autor de obras clássicas como Romeu e Julieta, criou versos marcantes dedicados aos apaixonados.

O Soneto 116 fala do amor como um sentimento altamente idealizado. O amor aqui, visto pelo olhar de Shakespeare, é capaz de superar todas as barreiras, encarar qualquer desafio, vencer os limites do tempo e todas as dificuldades que se apresentam aos amantes.

Quando eu não te tinha, de Alberto Caeiro

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

Só me arrependo de outrora te não ter amado.

O heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, usualmente compôs versos dedicados à vida tranquila no campo e à comunhão com a natureza.

Quando eu não te tinha é dos poucos versos dedicados ao amor romântico, onde vemos um eu-lírico arrebatado e, ao mesmo tempo, arrependido de não ter escolhido viver o sentimento antes na sua plenitude.

Aqui o sujeito poético ainda elogia a natureza, mas mostra como o sentimento da paixão o fez olhar a paisagem de modo diferente. Ele atribui a amada essa revolução do olhar e externaliza como o sentimento vivido a dois permite que se experiente a vida de maneira única.

Se gosta da lírica do mestre português então não perca o artigo Fernando Pessoa: 10 poemas fundamentais.

Ama-me, de Hilda Hilst

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.

Versos apaixonados, de entrega, muitas vezes com um tom mais lânguido - a brasileira Hilda Hilst compôs uma série de poemas de amor, das mais variadas facetas, todos de alta qualidade poética.

Ama-me é um exemplar dessa lírica poderosa. Aqui, uma parte do sujeito poético deseja se entregar à paixão e à intensidade do desejo - por outro lado, quer se proteger e guardar o corpo e a alma do sentimento tão voraz.

Por fim, nos últimos versos, parece que o lado que deseja se aventurar vence os temores.

Teus olhos, de Octavio Paz

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.

O mexicano Octavio Paz ganhou o prêmio Nobel de Literatura e passeou pelos mais diversos gêneros literários, entre eles a poesia, e, nesse caso, de cunho romântico.

Composto a partir de versos livres, no poema acima - Teus olhos - o eu-lírico elogia a mulher amada a partir de uma série de belas comparações com elementos da natureza (o relâmpago, as ondas, as árvores e os pássaros).

Soneto da doce queixa, de Federico Garcia Lorca

Assusta-me perder a maravilha
de teus olhos de estátua e o acento
que pela noite a face me polvilha
a erma rosa que há no teu alento.

Tenho pena de ser sobre esta orilha
tronco sem ramos, e a dor que sustento
é não ter eu a flor, polpa ou argila
pró verme de meu próprio sofrimento

se és meu tesouro oculto, que sitio,
se és minha cruz e meu sofrer molhado
e eu o cão preso de teu senhorio,

não me deixes perder o que me é dado:
vem decorar as águas do teu rio
com folhas de meu outono perturbado

O espanhol Federico Garcia Lorca deu à luz a esse belíssimo poema apaixonado, que transborda afeto e entrega.

Fazendo uso de uma forma tradicional - o soneto - Lorca apresenta um ponto de vista original: ao mesmo tempo que o eu-lírico elogia os contornos da amada, ele teme a perder.

O registro aqui se reveza em duas pespectivas: por um lado fala do privilégio que é ter uma amada tão bela e do pesadelo que é imaginar como seria a vida sem ela.

Soneto à maneira de Camões, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

A poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen compôs uma série de versos apaixonados e o Soneto à maneira de Camões é um exemplar dessas criações amorosas.

O poema, declaradamente inspirado no mestre da literatura portuguesa, tem forma fixa (é um soneto) e fala das dualidades do amor: ao mesmo tempo que desperta esperança, também causa desespero.

Entre o querer e o não querer, a lucidez e o tormento, a duração breve e eterna, o amante se vê simultaneamente perdido e encantado.

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, de José Luís Peixoto

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

O poema acima, do escritor português contemporâneo José Luís Peixoto, está incluído no seu livro A Criança em Ruínas.

Composto em verso livre, com versos longos, o eu-lírico fala de um futuro idealizado, onde será possível estar ao lado da amada absorvendo ao máximo as alegrias simples da vida.

O poema fala de uma reconciliação, de deixar o passado e as memórias tristes para trás. Os versos, baseados numa superação a dois, cantam dias melhores, envoltos numa felicidade plena.

Em todas as ruas te encontro, de Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

O poeta português Mário Cesariny é autor dessa pérola extraída do livro Pena Capital. Ao longo dos versos, somos convidados a espreitar a partir da perspectiva do amante, que é também o eu-lírico, e revela a sua adoração absoluta por aquela que lhe roubou o coração e o pensamento.

Lemos aqui um processo de idealização da mulher amada, que passa a viver dentro do sujeito poético, sendo ele capaz de vê-la mesmo sem que ela esteja diante dos seus olhos.

Apesar do signo mais forte no poema ser o da ausência daquela que é louvada, o que encontramos na escrita é o registro da presença.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).