10 poemas imperdíveis da literatura portuguesa


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

A literatura de língua portuguesa nos oferece um manancial de talentos preciosos! Mas quantos desses gênios você, de fato, conhece?

Apesar de partilharmos a mesma língua e por isso termos um acesso facilitado ao conteúdo literário criado além mar, a verdade é que pouco sabemos sobre o que se produz do outro lado do oceano.

Se quiser descobrir esse universo encantador da lusofonia, aproveite agora para espreitar dez poemas imperdíveis da literatura portuguesa.

1. Transforma-se o amador na cousa amada, Camões

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.

O poema acima é um clássico de Camões (1524/25-1580), considerado um dos maiores escritores da língua portuguesa.

Transforma-se o amador na cousa amada é composto na forma clássica do soneto. Aqui não há rimas e o poeta trata de um tema muito frequente na lírica: o amor idealizado.

Ao longo dos versos percebemos o amor como um sentimento revolucionário, que é capaz de fundir o sujeito que ama com a pessoa amada. Vale sublinhar que em Camões o eu-lírico almeja o amor na plenitude, isto é, ele deseja não só a fusão dos corpos como também a das almas.

2. Aniversário, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Aniversário é um dos poemas clássicos do heterônimo Álvaro de Campos (de Fernando Pessoa, 1888-1935). Os versos tratam da transitoriedade do tempo e o eu-lírico vê no aniversário uma oportunidade para perceber tudo aquilo que mudou na vida. É como se o aniversário fosse um dia de pausa para se fazer um balanço da vida.

Com um olhar pessimista sobre a passagem do tempo, o sujeito poético encara o passado como um lugar de plenitude, de certa forma idealizado, e em contrapartida lê o presente como fonte de ausência e sofrimento.

Diante desses dois tempos e das mudanças ocorridas, o eu-lírico sente-se perdido e desapontado, sem saber o que fazer com o próprio futuro.

Aproveite também para conhecer 10 poemas fundamentais de Fernando Pessoa.

3. Amar, de Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

O soneto de Florbela Espanca (1894-1930) promove uma exaltação do amor lendo o sentimento como algo arrebatador e incontornável.

Apesar de ser um soneto dedicado ao amor, não há aqui uma idealização Ocidental do sentimento (como, por exemplo, a crença de que é possível amar a mesma pessoa durante toda a vida).

O sujeito poético usa os versos para desconstruir a imagem romantizada do amor por outra pessoa e estimula um olhar voltado para o amor próprio.

Observamos ao longo do poema uma interpretação do amor como possibilidade de proporcionar um futuro solar, com um manancial de possibilidades e encontros.

4. Morrer de amor, de Maria Teresa Horta

Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso

Maria Teresa Horta (1937) é uma celebrada poeta contemporânea portuguesa. Em Morrer de amor encontramos versos apaixonados, que prometem uma entrega absoluta e irrestrita.

Apesar de ser um tanto assustador esse gesto, o sujeito poético demonstra profunda alegria por se ver perdidamente fora do controle.

Ao colocar o amado em um pedestal e torná-lo o único responsável pela sua felicidade, o eu-lírico se põe no papel de fazer todo o possível para chegar até ele.

5. Em todos os jardins, Sophia de Mello Breyner

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.

Os elementos da natureza, especialmente o mar, são temas constantes na lírica portuguesa. Sophia de Mello Breyner (1919-2004) é um exemplo de poeta que usa muito do ambiente na sua produção literária.

Em Em todos os jardins, lançado em 1944, encontramos um eu-lírico que almeja se fundir à natureza, encontrando uma comunhão com o meio após a sua morte.

É importante sublinhar nos versos o protagonismo que o sujeito poético dá aos elementos naturais (o fogo, a água, o ar e a terra).

6. O recreio, de Mário de Sá-Carneiro

Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar ---
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...

- E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar...

Se a corda se parte um dia
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada...

- Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada...

Se o indez morre, deixá-lo...
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca... Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive...

- Mudar a corda era fácil...
Tal ideia nunca tive...

O poema de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) remete ao universo da infância, o próprio título indica esse movimento em busca das memórias felizes dos primeiros anos de vida.

Ao longo dos versos percebemos como persiste no adulto características e comportamentos da criança que ele algum dia foi. Observamos também como é instável a condição do menino, que brinca num balanço com uma corda já gasta a beira de um poço.

Profundamente imagético, os versos fazem com que cada leitor imagine a sua cena que mistura tensão e ludicidade.

7. O livro, de Gonçalo M.Tavares

De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do
jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia.

O livro é o título do poema de Gonçalo M.Tavares (1970). Os versos livres e profundamente imagéticos são empregados aqui para contarem uma pequena historinha, o leitor encontra no poema uma cena completa e bem pintada. Temos o personagem principal, o eu-lírico, que passa em frente a um cão bravo com o seu livro de poesia em baixo do braço.

No regresso à casa, o cão, antes cheio de vida, aparece agora morto, com moscas sobrevoando o seu corpo. Se por um lado ele se compadece pelo falecimento do cão, por outro lado se sente vitorioso por ter sido aquele que permaneceu vivo.

A conclusão do poema, que parece que irá apresentar ao leitor alguma conclusão existencial mais profunda, acaba por se refugiar na constatação inesperada e banal de que o livro de poesia foi afinal perdido.

8. Contrariedades, de Cesário Verde

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

Quem nunca ouviu falar no grande Fernando Pessoa? Mas pouca gente, no entanto, conhece o trabalho de Cesário Verde (1855-1886), o grande poeta da modernidade que o inspirou e foi um precursor do modernismo na literatura portuguesa.

Nas linhas acima encontramos o trecho inicial do poema Contrariedades, que apresenta um eu-lírico moderno, ansioso, angustiado com a velocidade do tempo e com a rápida mudança das paisagens urbanas.

Perdido, sem saber o que fazer ou como estar, ele assiste a desgraça ao seu redor. Além de ser um fenomenal poeta, Cesário Verde é um grande retratista do seu tempo.

9. Sobre um poema, Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

O versos acima são típicos de um metapoema, isto é, são versos criados para dar conta do processo de criação do poeta.

Aqui observamos como o eu-lírico criado por Herberto Helder (1930-2015) estabelece com o leitor uma relação de cumplicidade e partilha. Em termos de estrutura estamos diante de versos livres, uma composição sem maior rigor estético.

Em termos de estrutura, o sujeito poético disserta sobre a constituição do poema e pretende fazer um retrato do nascimento do poema, da sua natureza fisiológica.

Através dessas poucas linhas percebemos, por exemplo, o não domínio do poeta sobre o poema. O processo criativo ganha contornos inesperados, que surpreendem o seu próprio criador.

10. na hora de pôr a mesa, éramos cinco, de José Luís Peixoto

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

O poeta José Luís Peixoto (1974) é um dos maiores nomes da poesia portuguesa contemporânea. Os versos intimistas, que retratam o ambiente familiar e da casa, se debruçam sobre a passagem do tempo.

Com o decorrer dos ciclos da vida a estrutura familiar ganha novos contornos e os versos registram essa transição: alguns se mudam, outros se casam, o pai falece, e o poema testemunha toda essa mudança.

No entanto, a conclusão do sujeito poético é que, apesar de tudo ter mudado, a base emocional do eu-lírico permanece a mesma.

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Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2010), mestre em Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013) e doutora em Estudos de Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pela Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2018).