Vida e morte severina de João Cabral de Melo Neto


Vida e Morte severina é um poema do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto. A obra foi escrita entre 1944 e 1945, quando foi publicada, e conta a história de Severino, um retirante entre tantos outros.

Análise e interpretação

Contexto

A geração de 45

João Cabral de Melo Neto fez parte da geração de 45, a terceira fase modernista. Nessa geração, principalmente na poesia, é difícil encaixar os autores dentro de correntes literárias. Em um amplo espectro, é possível dizer que a poesia deixou de ser tão intimista passando para um maior formalismo.

A poesia de João Cabral é exemplar nesse aspecto. Engenheiro de formação, o poeta encaixa palavras como um construtor assenta tijolos. A sintaxe seca e os versos curtos são emblemáticos nos poemas de João Cabral.

Se na poesia os temas são variados, na prosa parecem coexistir duas vertentes: uma intimista voltada para o fluxo de consciência, tendo Clarice Lispector como maior representante; e outra que aprofunda as questões da prosa regionalista dos anos 30, tendo Guimarães Rosa como seu maior expoente. 

O fim da ditadura de Getúlio Vargas promoveu uma abertura social. A geração de 45 é também engajada nos temas sociais e com grande envolvimento na política.

Análise

Apresentação e forma

Vida e morte severina é um poema trágico que nos apresenta um auto de natal pernambucano. O herói Severino é um retirante que foge da seca e da fome, porém, só encontra a morte em sua fuga. Até que ele presencia o nascimento de um filho de retirantes, severinos iguais a ele. O nascimento é apresentado em forma de presépio, com a chegada das pessoas para presentear o recém-nascido. 

Um auto é subgênero da literatura dramática, que surgiu na Espanha medieval e, em língua portuguesa, teve seu maior expoente em Gil Vicente. Em Vida e morte severina observamos os mesmos recursos usados nos autos medievais.

A obra está dividida em 18 partes. Antes de cada parte existe uma pequena apresentação do que acontecerá. O mesmo podemos encontrar nos autos medievais. O poema começa com a apresentação de Severino.

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;

(...)

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra

Severino se apresenta como um em muitos ("iguais em tudo na vida"). A sua individualidade é anulada e o seu nome se torna um adjetivo já no título da obra. À moda dos autos medievais, o personagem se torna uma alegoria, uma representação de algo que é muto maior que ele. 

Os versos do poema são curtos e muito sonoros. A maioria conta com sete sílabas poéticas, também conhecido como redondilha menor, outra características dos autos. A constante repetição de versos é uma ferramenta muito usada por João Cabral. Além de servir como reforço semântico para o tema, promove a homofonia e a repetição de sons, que dão uma maior musicalidade aos versos.

— A quem estais carregando,
irmãos das almas,
embrulhado nessa rede?
dizei que eu saiba.

— A um defunto de nada,
irmão das almas,

A sonoridade do poema é um elemento muito importante nesta obra. A sua leitura se torna quase cantada, uma ferramenta comum quando a escrita não era difundida. A sonoridade servia como um modo de facilitar a memorização da poesia. Esse formato também lembra as poesias de cordel. Sabe-se que João Cabral de Melo Neto costumava ler em voz alta para os funcionários da fazenda alguns cordéis. 

Espaço e temática

O espaço e o tema estão intimamente ligados nesse poema. A obra aborda a viagem de um retirante do interior do Pernambuco até o Recife, onde ele se depara constantemente com a morte. O fio condutor do percurso é o rio Capiberibe, que deve ser o percurso certo do interior ao litoral.

Pensei que seguindo o rio
eu jamais me perderia:
ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.

Ao longo da jornada Severino encontra diversas vezes com a morte. Morte por fome, por emboscada, ou por velhice antes do trinta. O sertão é o espaço e a morte é o tema, os dois andam juntos ao longo do rio. Até o próprio rio também morre.

Mas como segui-lo agora
que interrompeu a descida?
Vejo que o Capibaribe,
como os rios lá de cima,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina

O percurso do rio pode ser comparado ao percurso da vida no sertão, que de tão frágil muitas vezes se interrompe. Severino se depara com a morte muitas vezes. Da primeira vez o defunto é carregado numa rede por outros homens. O falecido morreu de morte matada, em uma emboscada por alguém que queria ficar com suas terras. 

Depois, Severino se depara com um defunto sendo velado em uma pequena residência. Seguindo viagem, ao tentar conseguir trabalho em uma pequena vila, a morte aparece novamente, mas como única fonte de renda para quem quer viver lá. 

Mais perto do litoral, Severino se espanta com a terra mais macia e cheia de cana, e acha que lá é um bom lugar para trabalhar. Porém, assiste ao funeral de um lavrador.

— Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva;
só a morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,

Interpretação

Nesta obra, João Cabral de Melo Neto apresenta o percurso de morte e vida do retirante Severino. Severino é um entre muitos outros, que tem o mesmo nome, a mesma cabeça grande e o mesmo destino trágico do sertão: morrer de emboscada antes dos vinte anos, de velhice antes dos trinta, e de fome um pouco a cada dia. 

A alegoria Severino percorre o sertão em busca de uma expetativa de vida maior no litoral. O poema pode ser divido em duas partes. A primeira com o seu caminho até o Recife, e a segunda é sua chegada e estadia na capital pernambucana.

Percurso 

A primeira parte é marcada pela presença constante da morte, no meio da paisagem agreste e do chão duro de pedra. A morte também é dura, e sempre tem relação com a pobreza e com o trabalho. Ou é morte matada em emboscada, por conta da dura terra trabalhada, ou é morte miserável, na qual não sobra nenhum pertence.

_ Dize que leva somente
coisas de não:
fome, sede, privação

Num lugar em que o trabalho leva à morte, a morte é o trabalho mais certo. No meio da miséria do sertão, Severino encontra uma senhora em uma casa mais arrumada e resolve perguntar por trabalho, mas não há trabalho para quem mexe com as coisas da terra.

_ Como aqui a morte é tanta,
só é possível trabalhar
nessas profissões que fazem
da morte ofício ou bazar.

Conforme Severino se aproxima do litoral, a terra começa a ficar mais mole, mas a morte não abranda. O solo se torna mais fértil e o canavial é grande, mas, mesmo em meio à abundância, a paisagem é vazia de pessoas. O retirante acredita que o motivo para o lugar estar tão vazio é que a terra é tão rica que não é preciso trabalhar todo dia. Ele crê ter chegado em um lugar onde a morte abranda e a vida não é severina.

Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina;
e aquele cemitério ali,
branco na verde colina
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha

O que se segue é a narração do funeral de um trabalhador. Severino estava enganado pois o pequeno cemitério recebe muitos mortos. Ele só é pequeno porque as covas são rasa e estreitas. Severino escuta o que os trabalhadores dizem ao morto.

_ Essa cova em que estás,
com palmo medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.

(...)

_ Não é cova grande,
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

O caráter social e político no trecho do poema é marcante. O funeral de um lavrador é um enterro de quem trabalhou a vida toda em terra alheia. Vivendo na miséria e sendo explorado. O trabalhador, que só queria um pedaço de terra seu para trabalhar, acaba morto. A única terra que ele tem é a pouca terra da sua cova.

Recife 

 A chegada à capital do Pernambuco continua sendo marcada pela morte e pela miséria, mas o cenário é totalmente novo. Ao invés das terras secas de pedra, o lugar da pobreza e, consequentemente, da morte, é o mangue. As terras alagadas que são habitadas pelos retirantes. 

Fugindo da seca, da morte e da terra de pedra, os diversos Severinos chegam à Recife onde continuam marginalizados. Destinados a viver na miséria, ainda cercados pela morte, mas em solos diferentes, cheios de água. 

Os retirantes continuam a viver da terra, mas, em vez de ficarem cobertos de poeira de arar a terra seca, ficam cobertos de lama de caçar caranguejos no mangue. Diante do cenário sórdido, o suicídio parece uma boa opção, interromper a vida que também é morte severina.

A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida

Neste momento o percurso e a narrativa parecem ter chegado ao fim. Severino percorreu o sertão onde só encontrou morte. Ao chegar no final do rosário, de sua penitência, esperava encontrar redenção, porém voltou a encontrar a morte. 

No momento em que Severino está num cais pensando em tirar a própria vida, ele encontra José, um morador do mangue. O que se passa é um diálogo sobre a vida miserável que se vive no sertão e nos mangues de Recife, sobre a morte que, por mais que seja anunciada, parece ser adiada para se viver mais dias de sofrimento.

A conversa é interrompida pelo anúncio do nascimento do filho de José, que é um momento de epifania no poema. O subtítulo do poema Auto de Natal e o nome do pai José são uma clara referência ao nascimento de Jesus. 

Primeiro chegam os vizinhos e duas ciganas. As pessoas trazem presentes para o menino, assim como os três reis mágicos, porém os presentes são simples, são presentes de pessoas pobres. São dezesseis presentes, quase todos precedidos pela frase: Minha pobreza é tal.

Após a entrega dos presentes, as duas ciganas adivinham o futuro do menino. A primeira cigana traz uma previsão do trabalho do mangue, o mesmo trabalho duro em meio à lama. A segunda faz uma outra previsão, a do trabalhador industrial, coberto de graxa preta e não de lama. 

As duas previsões são prenúncios de um simples trabalhador, seja na miséria do mangue, seja numa fábrica menos miserável, mas do mesmo modo um trabalhador. Em seguida, os vizinhos descrevem o recém-nascido, uma criança pequena, ainda fraca, mas saudável, filho de homem e do ventre de uma mulher.

Severino e José retomam o diálogo, e a epifania é anunciada pela boca do novo pai.

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena

Auto de Natal fica completo com o nascimento do menino. O percurso de Severino, mesmo sendo cercado pela morte, termina com a vida que insiste em florescer em meio à tanta miséria e morte.